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O gótico sulista e a mística da decadência


Você conhece o gótico sulista? Talvez o nome imponente faça você ler duas vezes, procurando na memória algum livro do subgênero, mas ainda que você não tenha lido nenhum, certamente o conhece intuitivamente. A imagética e os símbolos do gótico sulista fazem parte do nosso imaginário; sua estética está presente em filmes, séries e livros. Eu poderia mencionar William Faulkner, a voz mais proeminente do gótico sulista e um dos maiores escritores estadunidenses do século XX, ou citar o icônico filme dos anos 1970, O massacre da serra elétrica. Eu poderia falar sobre Flannery O’Connor, com suas narrativas curtas e ácidas, que se passam em típicos ambientes sulistas; ou poderia citar a série de estrondoso sucesso True detective, de 2014, que entrega toda a mística sulista carregada no sotaque e no talento de Matthew McConaughey.

Se você fizesse uma busca por “gótico sulista” em algum aplicativo de imagens provavelmente você encontraria o seguinte: fazendas de monocultura a perder de vista com seu monótono tom verde, ícones religiosos e igrejas com chão de tábua de madeira, uma casa com ar de abandono e estrutura decadente. Quadros de devastação arrematados com pintura descascada, roupas balançando em algum varal e pés sujos e descalços completando o quadro melancólico.

Em resumo livre: decadência, pobreza e o que eu chamo de “mística do sublime”.

Para entender o gótico sulista, precisamos visitar o seu primo rico: o gótico, que nasceu na Inglaterra durante o século XVIII, fundando uma estética e filosofia próprias que influenciaram profundamente sua vertente sulista e perduram até os dias de hoje.

Retrocedamos então ao nascimento desse jovem rebelde e ligeiramente emo. Estamos em algum ano por volta de 1760, e Horace Walpole passa uma noite no castelo medieval Strawberry Hill House, em Twickenham, sudoeste de Londres. Naquela ocasião ele seria despertado de madrugada por uma presença assustadora num misto de pesadelo e realidade. Na manhã seguinte, ele não sabia dizer se havia visto um fantasma ou se tudo não passara de um pesadelo. Esse singelo episódio mudaria a literatura, pois, em 1764, Horace Walpole publicaria uma novela de terror inspirada naquela noite assombrada.

Era O castelo de Otranto, que mesclando medievalismo e terror, foi a pedra angular de um novo movimento literário: o Gótico. Ao retornar ao medieval e ao incognoscível, Horace se rebelava contra a cultura iluminista vigente. O Iluminismo escolhia assuntos sociais e concretos como temas de livros. O terror é fantasioso, e, para o Iluminismo, o que é fantasioso é inferior. Na época em que as “luzes da razão” brilhavam como nunca, Horace projetou sombras na parede e reivindicou para si o estilo gótico. Horace não imaginava o rebuliço que causaria: todos os desajustados que não se encaixavam no ideal racional se reconheceriam na literatura que ousava ser irracional e metafísica. Se a literatura iluminista era realista e se orgulhava de colocar a razão acima de tudo, com sua representação fiel da natureza, o Gótico preferia a atmosfera fantástica da loucura como a representação subjetiva e confusa da mente de um narrador igualmente confuso.

Se o Iluminismo balançava o estandarte do progresso, o Gótico se interessava mais pela decadência. Reconhece-se no Gótico um gênero subversivo, que se constituiria em contracultura à época. Nesse sentido, citamos Júlio França em "O gótico e a presença fantasmagórica do passado":

“Enquanto o clássico era bem ordenado, o Gótico era caótico; enquanto aquele era simples e puro, este era ornamentado e intrincado; enquanto os clássicos ofereciam um conjunto de modelos culturais a serem seguidos, o Gótico representava o excesso e o exagero, o produto da barbárie e do incivilizado."

Horace e os escritores góticos seriam o contraponto ao estado de coisas vigente, uma reação histórica à racionalidade inflada que aqui particularmente chamo de ditadura do "penso, logo existo".

A sociedade ocidental tem seguido obstinadamente o ideal de racionalização cartesiano, mas aqui e acolá movimentos culturais reivindicam o deus Dioniso em oposição ao deus Apolo. Esses movimentos rebeldes costumam resgatar a emotividade, a sensorialidade e o respeito ao desconhecido.

O estilo gótico fascina como um desses momentos históricos de rebeldia, em que vozes dissonantes lembravam aquilo que se achava superado pelos clássicos Apolíneos: o homem é pó, ao pó voltará. A desimportância humana consubstanciada na famosa frase de Hamlet: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia pode supor". A mente inflada do ocidente não é capaz de explicar tudo.

Quando o Gótico se aproxima do sobrenatural, aproxima-se da tragédia grega, que é marcada pelo respeito às forças externas que ora influenciam, ora dirigem o comportamento humano. Viviane Mosé explica o papel das forças incognoscíveis na mitologia em A espécie que sabe:

"A luta humana contra o destino é, na mitologia grega, uma luta contra as determinações do jogo de forças da exterioridade, especialmente da natureza (...). A dor se origina da ferida trágica que marca a vida dos humanos: eles são mortais, como folhas ao vento, são porções finitas e provisórias, enquanto os deuses, o sol, a música, o amor, o ódio e a loucura são eternos, imortais."

Assim sendo, o Gótico reduz o tamanho do homem e focaliza as forças que lhe são exteriores e não-controláveis, ou seja, faz movimento oposto ao da literatura neoclássica anterior. 

A tradição gótica seria incorporada à América do Norte por um homem chamado Edgar Allan Poe. Com ele, os elementos góticos começaram a adquirir a face americana, com os seus próprios pesadelos e contradições.

Posteriormente a literatura gótica estabeleceria raízes no Deep South ("Sul Profundo", em tradução literal), uma região cultural e geográfica dos Estados Unidos composta por estados do sudeste do país. Dentre as várias definições, há aquela que reúne os sete estados que formaram os Estados Confederados da América antes da eclosão da Guerra Civil Americana: Carolina do Sul, Mississippi, Flórida, Alabama, Geórgia, Louisiana e Texas. Uma região marcada pela derrota na Guerra Civil Americana, pela escravidão e por uma profunda desigualdade social e regional decorrentes de tudo isso.

A região Sul é até hoje a mais pobre dos EUA. Os efeitos de seu regime produtivo baseado em monoculturas marcaram negativamente a região. Ali a herança escravocrata acentuaria preconceitos raciais, adicionando mais uma centelha ao barril de pólvora. Nessa região foram jogadas as sementes do gótico sulista, subgênero do Gótico, que teria entre seus expoentes mais famosos William Faulkner, Carson McCullers, Tennessee Williams e Flannery O‘Connor.

O espaço territorial sempre foi central para esse gênero, situando-se predominantemente no ambiente rural. Pântanos, plantações de monocultura a perder de vista, residências no meio do nada e fazendas decrépitas são o terreno onde cresce toda decadência humana. O Sul é o local onde a natureza parece se apropriar de casas velhas, numa simbiose (entre natural e artificial) que expõe a derrocada de uma América que nunca cumpriu suas promessas de progresso e bem-estar social, pelo menos não naquela região. Heróis ou anti-heróis, vilões ou vítimas, todos são condicionados pela geografia do lugar que habitam. O Sul é o território sinistro, sombrio e degradado que perpetua pobreza, preconceito e marginalização. A literatura Gótica Sulista usa o Sul estadunidense como o espaço onde é colocado tudo aquilo de que a nação deseja se ver livre. Dentre seus principais temas estão os personagens perturbadores ou excêntricos, os cenários decadentes e abandonados, as situações grotescas e outros eventos sinistros relacionados à pobreza, à alienação, ao crime e à violência.

É importante notar que o gótico sulista estava sendo escrito por habitantes desse território e a dimensão decadente era uma crítica social que vinha de quem estava inserido naquele contexto. O grotesco como crítica e o "Deep South" como metáfora da América.

O gótico sulista problematiza o “American dream” que fazia sentido apenas para uns poucos do Norte urbanizado e moderno. Mesmo para estes, posteriormente, o sonho americano mostraria-se equivocado. A desigualdade na América seguiria se aprofundando, criando um vão entre pobres e ricos. O gótico sulista expõe as contradições dos EUA: a nação com o maior PIB e a maior população carcerária do globo.

Sujeira também é palavra-chave para o gênero. Se o ideal americano se gaba do progresso e da ordem, o gótico sulista mostra o que foi varrido para debaixo do tapete. O progresso não é linear e limpo (como já suspeitava o primo Gótico na Inglaterra). O progresso é permeado por caos e sujeira que costuma ser varrida para debaixo de algum tapete. A riqueza dos Estados Unidos foi construída sobre a escravidão e a violência e, afinal, o que seria mais assustador que a violência? Por isso, quando lemos nas entrelinhas dos romances gótico-sulistas enxergamos o medo próprio daquela geração e daquele território. Medo que se origina de mazelas sociais, de empobrecimento material ou da tirania política que faz o homem se sentir preso ou assombrado a certo estado de coisas. Nesse sentido, as assombrações e o sobrenatural são metáforas para problemas sociais.

Essa foi a fonte da qual tantos outros beberam, como Tobe Hooper em O massacre da serra elétrica e Lana Del Rey com sua música repleta de referências à literatura gótica sulista. O estilo cativa pois aguça nossa atenção através do estranhamento e do desconforto.

Desde O castelo de Otranto somos fascinados pelo medo, há sempre algo que nos impulsiona em direção a ele, pois há algo de sublime no incognoscível. O desconhecido não seria, afinal, a maior fonte do medo? Aquilo que não se deixa conhecer, o sentimento que impulsiona cientistas a desenvolverem técnicas para enxergar aquilo que os olhos humanos não conseguem ou a emoção que faz crianças (e adultos) quererem entrar numa casa abandonada que surge na beira de uma estrada. Talvez nesse ponto resida o charme do Gótico, pois sua poética não se esgotou em suas realizações como estilo de época. Júlio França nos diz que:

“O Gótico é um modo ficcional de concepção e expressão dos medos e ansiedades da experiência moderna cujas contínuas reelaborações estendem-se, de maneira pujante, até nossos dias."

No final das contas, "penso, logo existo" não atinge a profundidade do que é o ser humano. A essa máxima precisaríamos adicionar camadas e camadas de emoções contraditórias, como os góticos tão bem sabem fazer.

“Quem deve enfrentar monstros deve permanecer atento para não se tornar também um monstro. Se olhar demais dentro de um abismo, o abismo vai olhar dentro de você.”

(Friedrich Nietzsche)

“A mais antiga e forte emoção da humanidade é o medo, e o mais velho e forte tipo de medo é o medo do desconhecido."

(H. P. Lovecraft)

Referências 

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