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A psicodelia catártica de Morangos Mofados


Muitas vezes a literatura pode ser categorizada como utopia, distopia ou perspectiva. Em Morangos Mofados, uma coletânea de contos escrita em 1982 por Caio Fernando Abreu, o autor, em sua mixórdia verborrágica, é capaz de unir essas três categorias numa sequência gradual ao repartir a obra em O Mofo, Os Morangos e Morangos Mofados. O Mofo é a distopia da ditadura militar, do asfixiamento da liberdade e também das dores cotidianas; Os Morangos é a utopia do florescer queer e das epifanias transcendentais, o verde da esperança e o vermelho do amor; Morangos Mofados, última parte assim como último conto, que dá nome ao livro, é a perspectiva de tudo o que foi escrito ao longo dos contos anteriores: sonhar em meio ao pesadelo. Em contrapartida, John Lennon declara: o sonho acabou.

O livro toma inspiração na música dos Beatles, Strawberries Fields Forever, e seu quê psicodélico. Não somente uma despedida do hippie para o yuppie (do inglês, "jovem profissional urbano"), mas também do desbunde lisérgico dos anos 1970 com a crise da contracultura. Assim, Caio Fernando Abreu desfragmenta a utopia do arcadismo e seu carpe diem numa distopia de jovens adultos com conflitos existenciais, marginalizados e embaçados ante o crescente capitalismo industrializado. Ou, como o eu lírico do conto “Os Sobreviventes” relata, os jovens adultos que estão

“[...] pichando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Teresa de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha-de-centro em junco indiano que apóia nossos fatigados pés descalços ao fim de mais outra semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados.”

Em outro trecho do mesmo conto, diz: “Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê?”. Assim, num contexto (que é, no fim das contas, atemporal) de exaustão intelectual, homoerotismo e a nostalgia que ficou do legado dos anos 60 e 70, o eu lírico desprende-se de si mesmo numa lucidez bêbada.

Eis uma perspectiva da época em que as utopias e a geração modernista não frutificaram, e o campo de morangos virou asfalto. E ainda há quem plante sementes no concreto: o uso de tóxicos, a fuga da cisheteronormatividade e as filosofias descolonizadas são as formas dos personagens de Morangos Mofados ameaçarem o sistema. Contudo jaz aí uma dívida com a realidade.

Caio Fernando Abreu

O desbunde foi uma ramificação da contracultura que ganhou força com o Tropicalismo e acrescentou brasilidade à Allen Ginsberg e à libertária e hedonística Geração Beat estadunidense com temas como os povos indígenas, negros (e religiões afrobrasileiras), jovem guarda e bossa nova. Entretanto além de ser alvo de forte repressão policial, rejeitado pelo governo e sociedade, considerado individualista, “vazio cultural” e “moda burguesa” pela própria esquerda, o desbunde esgotou-se. No fim das contas, para onde foi toda a vontade revolucionária e ilusões das décadas de 60 e 70? Reminiscência-se o discurso de Caetano Veloso no Festival Internacional da Canção após apresentar É Proibido Proibir:

“Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada. Hoje não tem Fernando Pessoa. [...] Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém. Vocês são iguais sabem a quem? São iguais sabem a quem? Tem som no microfone? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada. [...] Se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos!”

Atualmente, vê-se o resultado dessa falência da rebeldia do século passado quando, por exemplo, o cidadão comum acorda de manhã e imediatamente lê alguma notícia atroz sem sequer pestanejar por estar acostumado demais, dessensibilizado quanto à decadência humana. Em Morangos Mofados, há o broto podre desse atual padrão. Porém o próprio livro arrisca-se a ser otimista, tratando os anos 80 não somente como época de desilusão, como também de “transmutações e não perdas irreparáveis”. Um recomeço. Como grandes canções do MPB declaram, um amanhã que virá. Uma miscelânea de angústias que se finaliza com a palavra “sim”.

Caetano Veloso

Portanto, Caio Fernando Abreu escreve uma narrativa poética de subversão e transgressão, de raiva e hamartia. Ode à loucura e à crueza nojenta, com personagens perturbados, desequilibrados e assassinados. Afinal, quando beira o grotesco e repulsivo, quando reafirma o marginal e asqueroso, encontra-se o realismo.

Nas suas personagens mulheres e travestis, por exemplo, encontra-se o “profano feminino” e personalidades similares à protagonista da série televisiva Fleabag. Nesta, tão cheia de experimentalismo quanto Morangos Mofados, temas como sexo e perda se entrelaçam numa comédia agridoce, e é apresentada uma anti-heroína solitária, caótica e inteiramente humana em seus pecados e conflitos internos. Em ambas as obras, muitas vezes mostra-se um feminismo liberal privilegiado e falho em decadência e, em contrapartida, um feminismo interseccional com todas as nuances brutas do ser mulher. O melhor exemplo disso é a personagem Isadora em “Sargento Garcia”:

“Isadora, queridinho. Nunca ouviu falar? Isadora Duncan, a bailarina. Uma mulher finíssima, má-ravilhosa, a minha ídola, eu adoro tanto que adotei o nome. Já pensou se eu usasse o Valdemir que minha mãezinha me deu? Coitadinha, tão bem-intencionada. Mas o nome, ai, o nome. Coisa mais cafona. Aí mudei. Se Deus quiser, um dia ainda vou morrer estrangulada pela minha própria echarpe. Tem coisa mais chique?”

No conto “Fotografias”, dividido em duas partes (18 x 24: Gladys/3x4: Liége), o escritor gaúcho apresenta duas protagonistas mulheres interligadas por suas condições femininas; as dimensões das fotografias representam a amplitude da feminilidade de cada uma. Gladys é expansiva e liberta, enquanto Liége é presa em sua pequenez. Gladys é a América Latina colonial e “selvagem”, já Liége tem um teor britânico e se explica como uma das irmãs Brontë, até mesmo referenciando O Morro dos Ventos Uivantes. Enquanto Gladys é uma das personagens da Marilyn Monroe, Liége é uma musa inspiradora de poemas do período romântico. O apelo de Gladys como “uma loira trintona e gostosa” gradualmente desmorona durante seu relato, expondo as vulnerabilidades e fragilidades da mulher moderna em sua fome de afeto. Ademais, Liége, em meio a sua fugacidade e seus devaneios melancólicos, lida com seus fantasmas, o desejo reprimido, a culpa cristã e a desumanizadora perda da virgindade pelo estupro. Ela delicadamente lembra ao público do romance Mrs. Dalloway (cujo título já sugere uma esposa anônima que perdeu sua identidade), de Virginia Woolf, e sua protagonista homônima. Logo também destaca-se a semelhança entre Sally Seton, da obra woolfiana, e Gladys, como portadoras de rebeldia e ousadia, boêmias, espirituosas. Assim como Clarissa Dalloway e Sally Seton, Gladys e Liége do início ao fim são reféns do patriarcado. Então, o leitor acompanha a vertigem de duas mulheres, marcantes na presença proposital de estereótipos e caricaturas, à espera de uma figura masculina como salvação, mas que são atraídas uma para a outra pelo destino traçado.

Em "18x24/3x4", é possível vislumbrar um tanto da influência de importantes mulheres escritoras e amigas na vida de Caio Fernando Abreu, como Hilda Hilst, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Além disso, as décadas finais do século XX foram de fortalecimento das nuances feministas na literatura. Um grande exemplo é As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides, que se passa na década de 70. A obra retrata a tragédia das irmãs Lisbon num contexto familiar de austeridade religiosa e perda, tais meninas sendo reprimidas em meio ao ápice da revolução sexual. O livro é narrado pelas figuras masculinas que observavam a vida das irmãs Lisbon, sendo um forte exemplo de male gaze (do inglês, "olhar masculino"), logo, são narradores não confiáveis que dão à história sentidos dúbios e camadas de sexualização. No trecho “soubemos, afinal, que as garotas são na realidade mulheres disfarçadas que compreendem o amor e até mesmo a morte, e que nossa tarefa era apenas gerar o barulho que parecia fasciná-las”, os narradores chegam à conclusões sobre o mistério da feminilidade que cabem na narrativa de “Fotografias”. Gladys conhece o amor, Liége conhece a morte. Espectadoras da vida e sobreviventes às suas próprias condições de inércia, ambas esperam por um alguém idealizado; quem virá, contudo, é vago.

Lygia Fagundes Telles e Caio Fernando Abreu

Outrossim, pode-se interpretar em "18x24/3x4" um subtexto sáfico, com a junção da profecia ambígua feita pela cigana e o final pouco definitivo, de uma espera que não chega ao fim junto com a história, semeando no leitor o anseio para que essas duas figuras tão distintas se encontrem. Afinal, durante todo o conto estavam tão inconscientemente conectadas. É nesse tipo de homoerotismo implícito (outroras explícito) que, de Oscar Wilde a Angela Ro Ro, Caio Fernando Abreu, que morreu aos 47 anos de idade vítima da Aids, está entre os grandes nomes dos clássicos LGBTQIA+, produzindo contos como “Terça-Feira Gorda” e “Aqueles Dois”; com seu café e cigarros, suas palavras viscerais sobre sexo e solidão, a brutalidade do sufocamento da contracultura, Caio Fernando Abreu é sinônimo de catarse — e aqui faz-se uma dedicatória especial à catarse feminina.

Quando a personagem de “Pêra, uva ou maçã?” diz

“tem uma coisa dentro de mim que continua dormindo quando eu acordo, lá longe de mim”

as demandas do tecer estético e a experiência da coisa viva convergem juntas num movimento vertiginoso e de entrega total, pura e fatídica. É quando o leitor percebe a si mesmo e reconhece a própria humanidade na arte. A última flor do lácio, exótica, inculta e bela, desvenda e chafurda na complexidade da mente.

“Sei lá, acho que também não sei o que é dever ou poder, mas agora estou sabendo de um jeito muito claro o que é precisar, certo? E quando a gente precisa, não importa que seja proibido. Querer? [...] Querer a gente inventa.”

Morangos Mofados é a prova de que, como o próprio Caio Fernando Abreu relata, para escrever é preciso “enfiar um dedo na garganta”:

“Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a ‘função social’, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de autoexorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te.”

Com toda a esperança posta num fim que “se meteu no texto”, encontra-se a tríade da literatura de forma embaraçada e sensorial. Utopia, distopia e perspectiva.


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Referências

  • Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu)
  • Discurso "É proibido Proibir" (Caetano Veloso)
  • As Virgens Suicidas (Jeffrey Eugenides)


Arte em destaque: Mia Sodré

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