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A melancolia do amor em Lygia Fagundes Telles


Neste mês dedicado ao romantismo, deixamos muitas vezes de considerar o amor em suas outras facetas. Podemos falar, por exemplo, do amor entre pais e filhos, entre irmãos, primos, do amor não biológico desenvolvido entre amigos, colegas. Por que não falar também daquele amor  se é que seria este seu nome ainda  que muitas vezes se mostra violento, sombrio e solitário? O amor pode ser, como sabemos, um sentimento bastante complexo, e talvez ninguém tenha retratado melhor este turbilhão de emoções do que Lygia Fagundes Telles.

Lygia é uma de nossas autoras clássicas mais antigas ainda viva. Com 98 anos completados em abril, sua literatura já foi amplamente adaptada ao cinema, novelas, e continua encantando e desafiando seus leitores até os dias de hoje. Como uma das primeiras mulheres a frequentar a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP), Lygia percorreu uma trajetória de vida revolucionária e corajosa. Talvez por isso, apesar de nos propor temas aparentemente banais e rotineiros, com palavras claramente escolhidas de forma minuciosa, suas reflexões acabam sendo, além de profundas, perturbadoras.

Todos conhecemos, seja por termos lido, seja por termos assistido ou apenas ouvido falar, seu primeiro romance, Ciranda de Pedra, que contou com duas adaptações para a televisão e nos apresenta, por meio da voz da caçula Virgínia, os dramas de uma família que passará por um divórcio. Considerada ainda hoje sua melhor obra, Ciranda de Pedra permanece, mesmo após cinquenta anos, surpreendendo por seu formato narrativo inusitado.

Não mais inusitado, com certeza, que As Meninas, mais um romance que causa estranheza em seus leitores pela escrita incomum. Alternando pontos de vista, sendo narrado ora em primeira, ora em terceira pessoa de forma totalmente imprevisível, é certamente a obra mais intensa de Lygia. Premiado com o Jabuti de 1974, é impossível não questionar como As Meninas teve sua publicação autorizada em pleno regime militar, época em que vigorava uma dura censura sobre os autores.

Nesse sentido, o polêmico Verão no Aquário nos choca com uma conflituosa relação de mãe e filha, permeada por sentimentos de vingança e rivalidade, apresentada novamente por meio de um formato não convencional. A partir do paradigma da filha Raíza, realidade e fantasia se entrelaçam e narram a falência daquele que era o modelo tradicional de família em pleno anos 1960.


Deu para perceber que Lygia nunca nos convida a uma leitura fácil e, por isso mesmo, a autora é também muito famosa por seus contos. Tendo organizado pessoalmente diversas antologias, as narrativas curtas e certeiras de seus contos não deixam nada a desejar no quesito deslumbramento se comparado aos seus romances, e são, talvez, uma porta de entrada menos árdua para os iniciantes no universo de Lygia.

Eu mesma debutei há pouco tempo em sua escrita por meio de uma destas famosas coletâneas, senão a mais famosa, Antes do Baile Verde, e nunca mais fui a mesma! É possível sentir que nenhuma palavra está ali por acaso, e acabei me surpreendendo com um clima bastante sombrio e finais totalmente inesperados. Logo de cara, em Verde Lagarto Amarelo, nos é narrada uma relação bastante hostil entre irmãos, pelo menos por parte de um deles, que sempre se sentiu preterido em relação ao amor da mãe. Muito solitário, este irmão descobrirá ao final que não lhe resta mais nada unicamente seu. 

Ainda abordando relações familiares e suas complexidades, o conto denominado, assim como a coletânea Antes do Baile Verde, descreve os últimos momentos dos preparativos de uma jovem para o carnaval, durante os quais conversa com a empregada, que a auxilia pregando lantejoulas na roupa. No quarto ao lado, seu pai repousa, moribundo. A todo momento a jovem procura justificar sua ida à festa, duvidando  ou não  de que seu pai falecerá exatamente durante sua ausência. Ainda tenta pedir à funcionária que permaneça com ele, porém esta também já tem planos para a noite, de forma que a decisão precisa ser rapidamente tomada ao final da narrativa.

Quem é fã dos contos de Edgar Alan Poe certamente o reconheceu ao ler Venha Ver o Pôr-do-Sol, que muito se assemelha ao anglófono O Barril de Amontillado. Só por esta premissa, mesmo quem nunca leu o escritor estadunidense já pode esperar algo não muito romântico. Um encontro no mínimo assustador marcado por um ex-namorado com Raquel, que deseja lhe mostrar o jazigo de sua família, acabando em um suspense não tão incerto assim. 

Também com um final duvidoso (mas nem tanto), Jardim Selvagem narra o relacionamento de Tio Ed com Daniela, sua misteriosa esposa, que sempre usa uma luva na mão direita. Após dar cabo ao cachorro da família com um tiro, um destino parecido aguarda Ed ao ficar doente.

Não tão tétrico, mas igualmente violento, o casal de A Ceia se despede em um restaurante após o homem anunciar que deseja terminar a relação dos dois. Desesperada, Alice implora pela manutenção do namoro, mas logo reconhece estar diante de uma causa perdida, afinal ele já tem uma noiva. Sarcasticamente então diz:

"Quem diria, hein? Nossa última ceia. Não falta nem o pão nem o vinho. Depois, você me beijará na face esquerda."

Já deu para perceber a ousadia de Lygia ao tratar de assuntos tão controversos e caros à família tradicional brasileira do meio do século XX, que sempre manteve suas adversidades escondidas sob uma máscara de impecável polidez.  Passando longe do núcleo familiar elegante presente no imaginário da época, suas narrativas são recheadas de personagens femininas subversivas, nem que o sejam apenas em pensamento.

Em O Menino uma destas insurgências nos é narrada por meio de ações mesmo, ações essas que perturbarão um filho profundamente. Após presenciar o encontro amoroso entre sua mãe e um estranho no cinema, o personagem precisa voltar para à normalidade da casa da família, onde todos vivem, aparentemente, felizes.

Em A Chave, um dos meus contos favoritos da autora, um casal se arruma para jantar entre amigos, enquanto o homem, pensando em sua ex-esposa, percebe como seu casamento está saturado e como não consegue acompanhar sua atual e muito mais jovem esposa. O homem deseja apenas ficar dormindo, se perguntando como seria se Francisquinha o aceitasse de volta.

Seguindo no tema, em As Pérolas conhecemos um marido, que prevendo o que acontecerá em um encontro entre sua esposa e Roberto, decide esconder seu colar de pérolas, buscando assim evitar que a cena, tal como a imagina, se concretize perfeitamente.

"Tudo ia acontecer como ele previra, tudo ia desenrolar com a naturalidade inevitável, mas alguma coisa ele conseguira modificar, alguma coisa ele subtraíra da cena e agora estava ali na sua mão."

Não pretendo aqui sintetizar cada um dos contos reunidos em Antes do Baile Verdemas é interessante perceber, ao longo da leitura da coletânea, que as narrativas parecem se comunicar, inclusive nos dando a impressão de que estamos reencontrando personagens. A maestria de Lygia está em nos escancarar uma verdade indigesta, apesar de familiar, aquela de que todos nós fugimos, mas com a qual irremediavelmente nos deparamos diariamente.

O amor e as relações de afeto, sempre permeados por temas correlatos como a morte, a velhice e a traição, acabam por resultar em textos bastante lúgubres e nem um pouco açucarados. Por outro lado, é esse equilíbrio de suas histórias, munida de doses controladas de tragédia, que encanta desde o entusiasta sentimentalista até o mais cético dos leitores.

Com genialidade e beleza únicas, Lygia narra relações e amores infelizmente reais, mas também curiosamente rotineiros, com os quais convivemos todos os dias, às vezes em casa, às vezes no noticiário, fazendo questão de nos reiterar a natureza multifacetada desse sentimento humano, que vai muito além do mero romance. 

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Texto: Mirella Pistilli
Mirela Pistili
Advogada de formação, porém leitora de coração. Moradora do centro de São Paulo, há quase 30 anos vive o paradoxo de garimpar todo este caldeirão cultural ofertado pela capital, ao mesmo tempo em que só quer fugir pro sossego do litoral mesmo.

Comentários

  1. Ótimo texto! Os contos são realmente muito interessantes e geram um desconforto calculado no leitor. Belos retratos do cotidiano brasileiro.

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