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Clarice Lispector e a hora perigosa

Sendo um dos mais famosos ditados e um tanto certeiro, dizemos que mente vazia é oficina do diabo, mas nas palavras de Clarice Lispector conhecemos o tal momento como "hora perigosa" – quando encontramos em seu conto Amor, inserido no livro Laços de Família –, o intimismo que nos aprofunda ao vazio, apresentando o cansaço de uma vida cotidiana que já não possui tanta vivacidade. Parte de sua escrita tem uma profunda narrativa de situações corriqueiras, nas quais são visíveis o interior de muitas de suas personagens e a forma como elas refletem a existência e todo o caos que as acompanham. 

Clarice expressa a tal hora perigosa como o momento em que os devaneios psicológicos se fazem presentes, desenvolvendo uma tomada de consciência, sendo visto até mesmo de forma filosófica. Suas obras expõem uma imagem intimista e psicológica, muitas vezes protagonizando personagens femininas que enfrentam a solidão, o esvaziamento das relações familiares, o amor, a angústia e a velhice de forma solitária, estando acompanhadas pela hora perigosa. A comodidade nos aprisiona, nos tornando fantoches moldados a uma visão solitária em que a melancolia dos pesares é constante, mas a mesma pode significar apenas uma insatisfação.

"Sua preocupação reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções."

Diante disso, observamos que as características presentes em suas obras abordam a representação dos questionamentos da existência, com suas temáticas postas de forma livre e desordenadas seguindo sua própria estrutura. Clarice não se assumia como escritora de forma profissional, pois sua escrita só desabrochava quando ela bem entendia e queria, se considerando uma amadora sem a obrigação de apresentar seus escritos, para que assim pudesse continuar mantendo sua liberdade, sem o objetivo de ter um público, mas apenas com o seu anseio de escrever. 

“Eu não sou uma profissional, eu só escrevo quando eu quero. Eu sou uma amadora e faço questão de continuar sendo amadora.”

A epifania de Clarice é acompanhada por sua essência hermética, sendo incompreendida por muitos, mas a "escritora" absorve cada um desses detalhes que compõem sua escrita e os deposita em suas personagens. Uma delas é Ana – protagonista do conto Amor –, que se acomoda a uma rotina e esquece de si, sem perceber que sua existência também é algo. Porém, o que se observa é uma tempestade de pensamentos no momento em que se vê sozinha, apesar do seu papel como mãe, esposa e dona de casa, estando rodeada de outros seres, mas a inquietude marcava presença no finalzinho da tarde, sendo a hora em que todos estão em seus postos e Ana sendo conduzida pela reflexão de sua vida até o momento em que se percebe distante e ausente de si mesma, ainda que presente para outros, sendo ela uma refém que caiu no "destino de ser mulher". 

Sua grande perturbação foi encontrar um homem cego que mascava chiclete enquanto voltava para casa, ainda com suas reflexões; se sentia intrigada por aquele homem que se encontrava em paz, mesmo diante de sua situação, então, se sentia julgada. A simples existência dele e da tranquilidade que o acompanhava e transbordava em sua face fazia com que ela não compreendesse ou até mesmo pensasse aquilo como uma injustiça, já que ela se sentia presa e cansada de toda aquela realidade crua e da falta de sentido que eram os seus dias, mas a situação de ambos são entrelaçadas pelo fato dela também estar cega, vivenciando seus dias com os olhos fechados e aprisionada dentro dos quatros cantos de sua casa. E mesmo explorando o desconhecido e de alguma forma se enxergando, ainda assim, o amor é o que faz com que ela retorne para casa e para sua família, esquecendo sua epifania e os devaneios que em outro momento possuíram boa parte dela. Assim, ela continuou, por amor. 


Arte em destaque: Mia Sodré  

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