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O grunge e o Romantismo em Nirvana e Alice in Chains


Definir o que foi o movimento grunge pode ser difícil se tentarmos estabelecê-lo em uma estrutura homogênea. Afinal, as bandas mais representativas desse subgênero musical do rock alternativo são totalmente diferenciadas entre si nos quesitos de estilo, performance e sonoridade. Mais que um ato musical, o grunge foi um evento artístico e cultural.

O grunge 

Conhecido também como Seattle sound ("som de Seattle"), o grunge surgiu por volta do final da década de 1980, principalmente (mas não exclusivamente) na região de Seattle, nos Estados Unidos. Sendo fortemente influenciadas pelo hardcore punk dos anos 1970 e também pelo heavy metal da mesma época, as bandas surgidas nessa nova cena musical pregavam alguns dos principais ideais dos rebeldes e transgressores de outrora: a ruptura com o passado, musical e moralmente, se fazia extremamente indispensável, uma vez que a cena do rock até então estava dominada pelo hair metal (ou glam metal, a exemplo de grupos como Mötley Crüe, Guns N' Roses, Bon Jovi...). De repente, os padrões foram rompidos, e o estilo de cabelo grande e aperfeiçoamento da condução dos instrumentos característico dessas bandas hoje clássicas já não satisfazia mais. Era necessário mudar. 

Foi assim que surgiram as características do grunge que hoje conhecemos e identificamos prontamente. Cantar e tocar “bem” já não era mais um pré-requisito. Pelo contrário, quanto mais espontâneo, quanto mais distorcidas a voz e a guitarra, quanto mais “sujo” e rápido o som, melhor. Além disso, as bandas buscavam pela simplicidade nas apresentações, dando preferência a atuações energéticas no palco do que pelo gasto de altos orçamentos em complexos arranjos. Para mais, a forma de se vestir também se fez extremamente icônica: a predileção por roupas usadas e camisas de flanela ajudavam a manter a estética de desordem e “aspecto de descuido” com a própria imagem – além de manter um distanciamento da moda extravagante em voga nos anos 1980. 

“Largamos os estudos, ganhávamos pouco, ouvíamos vinil, imitávamos nossos ídolos, Ian MacKaye, Little Richard, usávamos drogas, dormíamos em vans, nunca esperando que o mundo nos notasse.”

(Dave Grohl)

No entanto, foi logo no começo da década de 1990 que o sucesso veio. Foi com o álbum Nevermind, lançado em 1991 (dois anos após seu disco de estreia, o Bleach), que Nirvana abriu de vez as portas do grunge para o mundo. Com a fama absoluta de Smells Like Teen Spirit (música e videoclipe), a banda se consagrou como hit entre os jovens que buscavam por algo novo e levou o estilo consigo. Assim, outras bandas que já estavam relativamente posicionadas na indústria foram alavancadas junto com o grupo de Kurt Cobain, Dave Grohl e Krist Novoselic (e, mais tarde, Pat Smear), e acabaram por se tornar os principais representantes oficiais do movimento: Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains, todas oriundas de Seattle. Contudo, outras bandas, algumas para além da cidade de Washington, também se fizeram notórias dentro do movimento, como Stone Temple Pilots, The Melvins, Mudhoney, L7, Hole, The Smashing Pumpkins, Pixies e Sonic Youth – as duas últimas podendo ser consideradas quase que como “proto-grunge”.

O Romantismo 

O movimento do Romantismo nasceu na Alemanha, no final do século XVIII, e se firmou durante o século seguinte como um marco artístico-cultural. Veio com a força e o rigor de inovação de um estilo que se sobrepunha à estética vigente até então: o Classicismo. Com o objetivo de dissociação dos valores humanistas e racionalistas do século das luzes, e questionando os ideais iluministas, sua ruptura com o passado e transgressão fez-se através da busca pelo total oposto do que se tinha até o momento. 

Assim, enquanto o Classicismo pregava o racionalismo, os Românticos trouxeram consigo o sentimentalismo; se um enaltecia a Grécia antiga e o Renascimento, o outro fez o resgate do Gótico medieval; um tratava da ordem da objetividade, o outro, do caos da subjetividade; a luz e a clareza, a escuridão e a morbidez; carpe diem e memento mori.

Foi representado principalmente através da poesia, que trazia quase sempre o extremo dos sentimentos humanos, em especial suas paixões. Porém valorizou de modo geral a arte, único refúgio capaz de explorar o lado inconsciente e irracional, misterioso e sombrio do ser. Com isso, há cada vez mais espaço para o crescimento do culto à morte e ao diabólico, do grotesco, do pessimismo, do escapismo, da depressão de uma felicidade sempre inalcançável – tudo nos moldes do exagero Romântico. A loucura, o delírio, a fragilidade, a angústia, o sofrimento, o amor como amargura, a dor, a solidão: todos são contíguos ao movimento. 

Lord Byron

Uma das maiores vozes representantes de todos esses ideias foi Lord Byron. Considerado por isto um dos fundadores do Romantismo Gótico, suas obras mostram-se repletas de elementos do sombrio e do macabro. Aliás, foi justamente na presença de Byron que Frankenstein, obra fundamental da era obscura romântica, ganhou vida, na famosa reunião entre Mary Shelley, seu esposo, Percy Shelley, e John Polidori, autor de O vampiro, outra obra demasiado conhecida nos dias de hoje. 

Ao lado de Byron, Charles Baudelaire, o “poeta maldito”, e Edgar Allan Poe, o “poeta louco”, como chama Belchior, também se fazem referênciais dentro do gênero com suas obras mais famosas, As flores do mal e O corvo. Se faz necessário ressaltar que o uso abusivo de álcool, ópio e haxixe (substância alucinógena) se mostrou marcado nas produções literárias de tais autores extremistas e boêmios errantes. 

A união entre Romantismo e grunge 

Os paralelos entre o grunge e o Romantismo podem começar a ser traçados, portanto, a partir do ponto de vista de que, em seu surgimento, ambos nasceram com o viés de transgressão para com a forma artística que vinha acontecendo. 

Seattle e seu obscurantismo ao ser reconhecida por muitos naquela época como capital do suicídio fez com que fosse fácil transferir o sentimento autodestrutivo e lúgubre para o alto consumo de drogas (principalmente heroína e cocaína) e, delas, transferir os pensamentos para as composições dos artistas atormentados. O mesmo se passava entre os artistas atormentados do Romantismo que, além de consumidores de opiáceos, também tinham uma aura suicida – cabe lembrar a onda de suicídios gerada na Alemanha após a publicação de Os sofrimentos do jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe, em 1774. 

Os sofrimentos do jovem Werther

Não é mera coincidência que tudo isso acabe lembrando das figuras de Kurt Cobain, Layne Staley, vocalista de Alice in Chains, e Chris Cornell, vocalista de Soundgarden. Kurt e Layne eram viciados em heroína, e enquanto um cometeu suicídio, o outro morreu de overdose. Chris Cornell não escapou de um destino mórbido, e também tirou sua própria vida. 

Foi assim que dentro do grunge tudo isso acabou se traduzindo em letras melancólicas, desesperançosas, existencialistas sobre o uso de drogas enquanto única fonte de alegria e válvula de escape das dores do mundo, relações humanas, depressão profunda, solidão, dentre outros temas diversos. Analisaremos a seguir a estética artístico-musical das bandas Nirvana e Alice in Chains, desenvolvendo os paralelos das composições líricas dos letristas e da produção visual da estética promovida para com o Romantismo.

Nirvana

“No budismo, nirvana é o lugar alcançado quando a pessoa transcende o ciclo interminável de renascimento e sofrimento humano.”

A estreia do Nirvana foi em 1989, com o álbum Bleach. Em seu primeiro trabalho já podemos reconhecer a alma da banda e das canções que seriam a marca sonora tanto do projeto do grupo como do movimento grunge. Apesar de não ter sido um sucesso arrebatador como seu sucessor, Bleach nos apresentou a canções grandiosas e muito queridas pelos fãs, como Blew, School, e, é claro, About a Girl

Nirvana

Em 1991, o mundo mudou. Foi esse o ano que Nevermind foi lançado, e seu absoluto reconhecimento fez com que a banda de jovens delinquentes de Seattle alcançasse a fama mundialmente. Já mesmo em sua música mais famosa, Smells Like Teen Spirit, conseguimos destacar frases cantadas por Kurt que são carregadas de sentimento pessimista em relação à vida: “Sou o pior no que faço de melhor / E me sinto abençoado por esse dom”. Ainda no final do hit, “uma negação” (“a denial”) é gritado repetidas vezes. 

Lithium é uma descrição perfeita da depressão severa e da bipolaridade sofridas por Kurt Cobain, e cada linha da canção é feliz e triste, para cima e para baixo, tornando-se uma das mais difíceis e pesadas do álbum. O próprio “lítio” do título é utilizado no tratamento da depressão, quando os antidepressivos não fazem mais efeito. 

“Eu estou tão feliz porque hoje encontrei meus amigos / Eles estão na minha cabeça / Eu sou tão feio, mas tudo bem, porque você também é / Quebramos nossos espelhos”

O que o trecho acima nos mostra é que todos os amigos ds personagem da canção são imaginários, e há insatisfação com a própria imagem. Krist Novoselic, baixista da banda, comentou em entrevista: 

“Ele [Kurt Cobain] falava sobre o quão feio ele se achava o tempo todo. Lembro-me de um dia em que ele se olhou no espelho e quase derramou algumas lágrimas porque estava desconfortável em sua própria pele. Ele era muito inseguro. Esta foto foi uma das únicas que ele gostou de si mesmo. Ele me disse que gostou porque achou que estava bem. Kurt raramente olhava para uma foto sua e se sentia atraente. Ele manteve essa foto em sua carteira por um tempo, eu acho. Ele estava orgulhoso disso.”

“Eu estou tão sozinho, tudo bem, eu raspei minha cabeça / E não estou triste / E talvez eu seja culpado por todos que magoei / Mas não tenho certeza / Estou tão animado, mal posso esperar para te encontrar lá / Mas eu não me importo”

Ao mesmo tempo em que o narrador pondera sobre ele ser a razão de coisas ruins acontecerem, os “amigos imaginários” o fazem ter dúvidas. Uma estrutura interessante de se observar é que há a predominância dos componentes negativos. Ao invés de “eu estou feliz”, Cobain escreve “eu não estou triste”, o que ajuda a colocar o ouvinte dentro de uma atmosfera na qual só se enxerga a tristeza. Quando uma ideia positiva surge, ela logo é afastada pela ideia de insignificância. 

“Debaixo da ponte, há mais um vazamento / E os animais que eu prendi viraram todos de estimação / E eu estou vivendo só de grama, e das goteiras do telhado / Está tudo bem em comer peixes, pois eles não têm sentimentos / Algo no caminho”

Nevermind

Something in the Way é a música mais sombria e devastadora de Nirvana. Diferencia-se das demais por ser acompanhada de uma melodia mais calma e também por sua letra, citada acima. “Algo no caminho”, repetido diversas vezes, faz alusão ao próprio Kurt, e ao sentimento de ser algo no caminho das pessoas. Também fala sobre estar vivendo, literalmente, debaixo da ponte, remetendo ao caso de quando, aos dezessete anos, Kurt saiu definitivamente de casa por não se relacionar bem com sua mãe e seu pretendente a noivo, e ficou morando nas ruas. Sobre o caso, na biografia do cantor, Mais pesado que o céu, de Charles R. Cross, o autor diz:

“A canção sugere que o cantor está morando debaixo de uma ponte. Quando lhe pediam para esclarecer, Kurt sempre contava uma história de ter sido chutado para fora de casa, abandonado a escola e morado debaixo da ponte da rua Young. Essa acabaria se tornando [...] parte da história de Kurt fadada a figurar em qualquer descrição em sua vida [...]: Esse garoto era tão indesejado que morava debaixo da ponte. Era uma imagem forte e carregada.”

Cross vai apontar, no entanto, relatos do próprio Krist Novoselic afirmando que era impossível viver naquela localidade, e concluir que não passava de um “embelezamento” da história feita pelo cantor. Romantização do ocorrido ou não, a música fala sobre se sentir indesejado e da inércia dos sentimentos, tema também discorrido entre os poetas do século XIX. 

Entre o lançamento do Nevermind e o In Utero, último álbum da banda, houve, em 1992, o lançamento do Incesticide, que não se qualifica bem como um álbum de estreia, visto que se compõe de músicas b-side, demos, outtakes, covers e performances ao vivo de todo o trabalho produzido até então. A título de curiosidade, sua capa é fruto do trabalho artístico do próprio Kurt Cobain.

Assim, o In Utero foi lançado em 1993, um ano antes da morte de Kurt. Nele, é observável uma mudança de perspectiva de temas, uma vez que Cobain, envolvido pela gravidez de Courtney Love, sua esposa, e nas diversas polêmicas em torno da bebê Frances Bean e do próprio casal, aborda muitos mais temas relacionados ao nascimento – o que pode ser percebido no próprio nome e capa do álbum. No entanto, assim como nos trabalhos anteriores, os sentimentos de exaustão e infelicidade estão presentes em suas composições. Na letra de Heart-Shaped Box, Cobain faz referências a ambos os temas:

“Orquídeas carnívoras não perdoam ninguém /Corto a mim mesmo com cabelo de anjo e hálito de bebê”

No mesmo álbum, em Milk It, Cobain canta:

“Sou meu próprio parasita / Não preciso de um hospedeiro para viver / Nós nos alimentamos um do outro / Podemos dividir nossas endorfinas [...] Filé de boneca, gosto de carne / Veja o lado bom do suicídio”

Mais uma vez, obtemos referências ao culto à morbidez e ao sombrio, da temática da angústia de estar preso a este mundo, dessa vez em um tom quase que profético, com seu autor anunciando antecipadamente o que estaria por vir.

Questões muito próximas, com tonalidade bastante existencialistas e introspectivas, são feitas na música Radio Friendly Unit Shifter, quando Kurt se pergunta “O que há de errado comigo? O que é que eu preciso? O que eu acho que penso? O que eu acho de mim?”.

A canção Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle faz referência à atriz estadunidense Frances Farmer, famosa entre as décadas de 1930 e 1940 por suas aparições em produções cinematográficas como O Último Romântico (Rhythm On The Range, 1936). No entanto, foi sua conduta nos sets de filmagens que fez sua reputação: conhecida por ser extremamente difícil de lidar, foi presa por dirigir bêbada e fugiu para o México. Quando ela voltou, foi internada para receber tratamentos de choque e ser lobotomizada. Mais que isso, podemos notar que Cobain se compara à atriz. 

A luta de Frances contra a indústria hollywoodiana para receber papéis e contratos melhores é equiparada pelo músico com sua própria luta contra a indústria musical, uma vez que Kurt sentia que sua gravadora, a Geffen Records, estaria privando o lançamento de materiais da sua própria forma, fazendo com que as músicas do Nirvana soassem mais “pop” do que eles gostariam devido às mixagens mais polidas, sufocando assim sua arte. 

“É tão aliviante saber que você está saindo assim que for pago / [...] É tão tranquilizante saber que você vai me processar / Está começando a soar o mesmo / Eu sinto falta do conforto de estar triste”

Cobain declara sua insatisfação pelos tratamentos recebidos no mercado musical. Quando ele afirma sentir falta do conforto de estar triste, podemos assumir que ele está se referindo ao sentimento de que a tristeza lhe era reconfortante por ser de onde vinha boa parte de sua inspiração artística, que agora estava sendo controlada por outros. Para além disso, o “conforto da tristeza” marca a aura pessimista e melancólica do artista do século XX, assim como marcou os do século XIX. 

Kurt Cobain

Pennyroyal Tea é uma música abertamente declarada por Cobain como sendo sobre uma pessoa que está sofrendo um estado de severa depressão. 

“Sente-se e beba chá de poejo / Destile a vida que há dentro de mim / [...] Estou tomando leite quente e laxantes / Antiácidos com sabor de cereja”

O chá de poejo (pennyroyal em inglês) é conhecido por seus efeitos abortivos. Assim, há um claro sentido de desejo por uma vida nova no que é cantado. Beber chá de poejo para acabar com a vida que há dentro de si – não necessariamente uma nova vida que está sendo gerada. Cobain canta sobre abortar as partes indesejadas de sua alma. Além disso, a menção a laxantes e antiácidos se dá pelo fato de o vocalista ter sofrido dores crônicas de estômago durante sua vida inteira, que pareciam nunca aliviar, nem sob o efeito de medicamentos. Kurt afirmava que a única substancia que neutralizava suas dores era a heroína. 

A própria montagem do MTV Unplugged in New York, acústico gravado em 1993, mas lançado apenas em 1994, após a morte de Kurt Cobain, passa um clima mórbido, com suas flores e velas espalhadas pelo palco e luzes roxas ambientando a sala. A alegoria à morte ali feita através do cenário dá a sensação fúnebre que os fãs estavam enfrentando quando tiveram em mãos o CD e DVD deste que se tornaria, para a banda, um lançamento tão icônico quanto fora o Nevermind, e a despedida do ídolo de uma geração.

“Ele poderia ter sido um grande pintor. Ele poderia ter sido um grande escultor. Ele era um artista tão talentoso. Ele poderia ter feito o que quisesse. Ele não precisava fazer o que fez.”

(Krist Novoselic em entrevista para SPIN)

Alice in Chains 

Enquanto Nirvana fez sucesso extremo com um público mais amplo, sendo a banda que “uniu todas as tribos”, Alice in Chains fez sua fama dentre um grupo relativamente mais seleto de fãs do grunge. Afinal, suas melodias mais graves e letras muito mais pesadas e obscuras não seriam fáceis de agradar a todos. Ainda assim, tornou-se extremamente reconhecida e tão querida quanto a banda de Cobain.

O grupo de Layne Staley, Jerry Cantrell, Sean Kinney e Mike Starr estreou seu primeiro álbum em 1990. Abrindo o Facelift temos a canção We Die Young, lançada anteriormente como single e se mostrando consideravelmente bem-sucedida. O título soa quase que premonitório, já que Layne, vocalista, morreu em 2002, aos 34 anos. Layne se internou diversas vezes em clínicas de reabilitação com a esperança de se livrar do vício em heroína que, infelizmente, veio a ser a causa de sua overdose. 

O vício em drogas é um dos principais temas das letras do Alice in Chains, sendo principalmente abordado na “tetralogia das drogas”: Sickman, Junkhead, God Smack e Would?, todas do álbum Dirt, de 1992, o mais popular da banda. Sobre o Dirt, Jerry Cantrell comentou:

“Bem, obscuro é o que ele é. É provavelmente o mais focado que já estivemos, o álbum mais completo que fizemos, brutal com uma força real, no bom sentido. [...] É um disco incrível, provavelmente nossa maior conquista.”

Em Sickman, Layne e Jerry harmonizam, cantando:

“Que diabos eu sou? / Milhares de olhos, uma mosca / Sortudo então eu seria / Falecido um dia / Homem doente”
William Blake

Cantada pela perspectiva de um junkie depressivo, esse trecho faz uma comparação da vida de um “homem doente” com uma mosca. William Blake (1757-1827), poeta romântico inglês, já mesmo em seu tempo utilizava-se da metáfora poética da brevidade da vida das moscas em seu trabalho. Em The fly (1794), o autor escreveu:

“Não sou eu / Uma mosca como tu? / Ou não és tu / Um homem como eu?”

No entanto, ainda na mesma canção, os músicos continuam:

“Posso sentir o volante, mas não consigo dirigir/ Quando meus pensamentos se tornam meu maior medo / Ah, qual é a diferença, eu morrerei / Neste meu mundo doente”

Ou seja, entorpecido pelas substâncias, o eu lírico da canção se depara com a gravidade da desesperança acometida pela severa depressão e se mostra entregue ao uso das drogas, sem mais vontade de lutar pela sua vida. “Qual é a diferença?” Jerry Cantrell declarou que a composição nasceu após o pedido que Layne lhe fez para que lhe escrevesse “a música mais doente, a coisa mais doente, sombria, fodida e pesada que pudesse”.

Dando sequência, Junkhead fala sobre a vida de um drogado, e foi escrita com a perspectiva de que para entender um junkie você precisa ser um. A intenção não é glorificar as drogas, mas contar, dentro da narrativa estética construída em todo o álbum, como um indivíduo pode passar a adorar tais substâncias enquanto elas lhe proporcionam o escape do mundo real, ao mesmo tempo em que põem à frente a queda no vício:

“Nada melhor que um traficante que é drogado / Ser um drogado nos convence a comprar / Que droga será a escolhida? / Bem, o que você tem? / Eu não vou falir / E eu uso demais / [...] Você não pode entender a mente de um usuário / Mas tente, com seus livros e diplomas / Se você se deixasse sentir e abrisse sua mente / Aposto que você estaria fazendo como eu”

Da mesma forma, God Smack (termo em inglês para “overdose de heroína”) constrói um diálogo entre um junkie e uma pessoa que observa sua vida “de fora”, ou seja, enquanto não sendo usuária. Além disso, há um paralelo claro entre a relação divina e um culto ao ocultismo pecaminoso advindo do vício:

“Você não sabe que ninguém é cego para a mentira? / E você acha que eu não encontro / O que você esconde? / O que você fez em nome de Deus? / Pique seu braço para uma boa diversão / [...] E eu acho que você não está cego / Para aqueles que você deixou para trás / Eu estarei aqui”

 

Andrew Wood

Por fim, Would? aborda a luta na qual o eu lírico se encontra para viver a reabilitação, assim como o próprio Layne viveu diversas vezes. A letra foi composta para Andrew Wood, vocalista da banda Mother Love Bone, falecido em 1990, em decorrência de uma overdose.

“No fluxo novamente / A mesma viagem de antes / Então eu cometi um erro enorme / Tente ver do meu jeito ao menos uma vez”

No entanto, notamos que a tentativa de se manter longe das drogas não foi bem-sucedida. Would? finaliza o álbum deixando a sensação de que, apesar de todo o esforço feito, não há saída. Assim, os compositores criam um enredo em que é facilmente observável os níveis mais e mais profundos de envolvimento com entorpecentes. Essa intoxicação é a principal fonte de prazer em uma realidade que não apresenta nenhuma felicidade; ela ameniza as dores de viver, enquanto proporciona um contato com um lado da sensibilidade humana. Tal artifício, utilizado tanto por Kurt Cobain quanto por Layne e Jerry, assemelha-se ao que Baudelaire chamou de “paraísos artificiais”: o conforto proporcionado por tais alucinógenos ao não sentir a dor do mundo real no mundo criado por estes agentes. 

Além dessas, podemos analisar como outras canções do Dirt trazem consigo elementos do Romantismo: o pessimismo, a depressão, o gótico, a dor e a raiva. Observamos tais características em Dirt e Down In a Hole, por exemplo.

Dirt retrata a melancolia da depressão, a frustração e a busca pela autodestruição, descrevendo pensamentos de um ser que anseia pela sua morte, passeando pelo grotesco imaginário da mente do homem. A introspecção do sentimentalismo tornou-se uma das marcas do Romantismo no século XIX, com seus personagens atormentados e sofredores que muitas vezes eram lançados à loucura, como o próprio Werther. Assim, Staley e Cantrell cantam:

“Eu nunca tinha sentido tal frustração / Ou falta de autocontrole / Eu quero que você me mate e me enterre / Eu não quero mais viver / Alguém que não se preocupa / É alguém que não devia existir / Tentei me esconder / Do que é errado pra mim / Eu quero provar o gosto sujo, apertando a pistola / Em minha boca, em minha língua / Quero que você me raspe das paredes / E que fique louco como você me fez ficar”

Down In a Hole, apesar de ser uma música romântica escrita por Jerry Cantrell para sua amada Courtney Clarke, faz alegorias à figura feminina – assim como em Nirvana – e à necessidade de ser salvo. Além disso, não deixa de lado a melancolia do culto ao mortuário:

“Enterre-me suavemente neste útero / Eu dou essa parte de mim a você / [...] Dentro de um buraco e eu não sei se posso ser salvo / Veja meu coração, eu o decorei como um túmulo / Você não entende quem eles achavam que eu deveria ser / Olhe para mim agora, um homem que não se permite ser / [...] Dentro de um buraco / Me sentindo tão pequeno / Dentro de um buraco / Perdendo minha alma / Eu gostaria de voar / Mas minhas asas têm sido tão negadas”

Depois do sucesso de Dirt, Alice in Chains, em sua formação inicial, ainda lançou mais três álbuns: o Jar of Flies, de 1994, que surpreendeu o público por se tratar de um disco melodicamente mais suave, quase que acústico; o homônimo Alice in Chains, de 1995, que mescla um pouco do acústico com o heavy metal; e o famoso Unplugged

Gravado em 1996, o Unplugged de Alice in Chains foi tão poderoso quanto o de Nirvana em termos de vendas, sonoridade e estética. As músicas mais graves e pesadas receberam um arranjo completamente novo e se encaixaram muito bem no modelo acústico. A ambientação do Majestic Theatre da Brooklyn Academy of Music faz relações com o mortuário, assim como a decoração que o Sony Music Studios fez para Nirvana: várias velas espalhadas pelo palco e uma iluminação mórbida.

Também foi muito significativo para os fãs, uma vez que foi o primeiro show da banda depois de um hiato de três anos. Além disso, tornou-se a última gravação do grupo com o Layne Staley que, após problemas de saúde, resolveu dar um tempo dos projetos musicais. Alice in Chains ainda contava com a possiblidade de uma reunião com todos os integrantes quando, em 2002, Layne foi encontrado morto em seu apartamento. 

“Layne tinha um talento incrível. Ele tinha uma voz única e poderosa, mas com um toque de sensibilidade ao mesmo tempo. A maneira como eu escrevi e a maneira como ele escreveu se misturaram tão bem que parecia natural.”

(Jerry Cantrell)

Nirvana e Alice in Chains seguiram caminhos distintos após a perda de seus ícones. Krist Novoselic e Dave Grohl não viam mais sentindo em continuar o grupo sem o Kurt. Assim, Grohl aposentou sua bateria e passou a ser vocalista e guitarrista em sua própria banda, Foo Fighters, que estreou em 1995, enquanto Novoselic se afastou dos holofotes, tornando-se mais recluso e trabalhando em projetos menores. Já Alice in Chains apostou em dar continuidade com um novo membro, William DuVall, que desde 2009 divide os vocais com Jerry Cantrell, assim como Layne fazia, porém de uma forma totalmente renovada (e respeitosa para com a imagem de Staley). 

Uma coincidência curiosa é que a data de morte de Layne Staley se deu exatos oito anos depois do suicídio de Kurt Cobain. Assim, o dia 5 de abril ficou conhecido entre os fãs como “o dia do grunge”, reservado à lembrança desses dois grandes músicos, poetas e artistas que, oriundos de uma mesma região dos Estados Unidos, tiveram força e coragem para transformar todas as suas angústias e sofrimentos em canções que estarão eternamente na memória dos fãs da música – assim como os tormentos dos Românticos estarão para sempre na história da literatura.

Referências

Ana Júlia Neves
Pernambucana nascida em 2003, amante dos clássicos da literatura, de todas as vertentes do rock e do cinema como um todo – pura cultura pop. Estudante de História pela Federal da Paraíba, vivendo sua fase "Rory Gilmore em Yale". Obcecada por um artista diferente a cada semana.

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