Os Sofrimentos do Jovem Werther: como o foco do entretenimento pode ser o de prevenir o suicídio?


Os Sofrimentos do Jovem Werther, lançado em 1774, foi o primeiro livro do alemão Goethe, também muito reconhecido pela sua obra Fausto. Nesse romance epistolar, Werther, um jovem em busca da sua própria função no mundo, faz relatos pessoais que englobam seu cotidiano e seus pensamentos acerca do que observa acontecer em sua volta, a fim de enviá-los como carta para seu amigo, Wilhelm. Vivendo em um local diferente do seu costumeiro, Werther conhece Charlotte, uma moça que desperta nele uma avassaladora paixão, que tanto o felicita quanto entristece, já que a mesma se encontra em um noivado com outro homem, Albert. Tal evento é, para o protagonista, o ponto derradeiro que culmina em seu suicídio. 

Se atualmente abordar o tema em quaisquer meios exige cuidado, há mais de duzentos anos Os Sofrimentos do Jovem Werther e seu personagem, com dores psíquica e emocional extremas, precisou até mesmo de proibições em sua circulação  jovens da época gostavam de se reunir para realizar a leitura dramática do livro, com alguns optando por, até mesmo, vestir-se de maneira semelhante a do personagem. Mas, para outros, a identificação foi tamanha a ponto de levá-los a ver no ato fatal de Werther a solução para suas próprias dores, e ondas de suicídio, conhecidas atualmente como o "Efeito Werther" (Phillips, 1974), quando um suicídio ocorre por se basear em outro a que a pessoa teve acesso, preocuparam a sociedade da época, tornando-se o que hoje sabemos ser um problema de saúde pública. 
"O bispo, Lorde Bristol, chegou a acusar Werther de ser uma obra imoral, que levava os jovens a se suicidarem."

Prefácio da edição comentada de Os Sofrimentos do Jovem Werther, pela L&PM Pocket 

De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), o suicídio é a segunda principal causa de morte na faixa etária dos 15 aos 29 anos. Dados da mesma organização revelam que o Brasil é o oitavo país com maior número de casos (o artigo mais recente data de 2012), e, infelizmente, de acordo com a observação tomada por eles ao longo dos anos, tais números são crescentes. Apesar do uso do termo Efeito Werther desde 1974, a ciência ainda não possui dados concretos sobre como a influência externa é capaz de agir naqueles que já apresentavam propensão ao ato, e, é claro, é necessário considerar diversas variáveis que distinguem um caso do outro, não sendo possível simplesmente resumi-los a identificação com um acontecimento ou obra que retrata o suicídio. No entanto, o Efeito Werther revela a importância, muitas vezes ainda negligenciada, de se falar sobre o tema com responsabilidade, cuidando para que não haja meios de demonstrar como o ato ocorre ou torná-lo, por mais que o narrador da obra esteja em sofrimento, a única forma possível de desfecho para quem o lê ou vê, pontos em que o clássico de Goethe peca, e que muito provavelmente tiveram sua culpa nas ondas que sucederam a sua publicação. 

Apesar desses cuidados necessários, é essencial que falemos cada mais sobre o suicídio, a fim de torná-lo menos um assunto vedado e mais uma questão de saúde, parte da nossa rotina, e que precisa de conscientização e tratamento. No livro, Werther continuamente demonstra suas inclinações em conversas com outros e em seus escritos para seu amigo, falando sobre como o suicida não é um individuo covarde como muitos encaram. Tal declaração, se tivesse chamado mais atenção das pessoas próximas ao personagem, poderia ter evitado seu desfecho. É pensando nisso que as questões de saúde mental devem ser mais inclusas nas obras que as citam, focando-as não em desumanizar alguém ou em torná-lo mais fraco, mas justamente, pelos mesmos motivos, em colocá-lo como um ser humano complexo, cujas emoções refletem um conjunto de condições físicas e biológicas, parte de algo muito maior e passível de melhora quando aliado a métodos e profissionais capacitados. 

No Brasil, a campanha do Setembro Amarelo, iniciada em 2015, tem como foco a prevenção do suicídio, conscientizando e educando a população a respeito do tema. O dia 10 do mesmo mês é mundialmente marcado como o dia da prevenção. A campanha se iniciou nos Estados Unidos da América, em homenagem a Mike Emme, um jovem fã do Ford Mustang que, antes mesmo de ter idade para tirar sua habilitação, comprou e adaptou o automóvel para uma versão amarela, onde posteriormente, em 1994, aos 17 anos, foi encontrado morto após ter se suicidado. A reflexão dos seus pais e pessoas próximas sobre a dor que Mike enfrentava e sobre a qual não conseguia conversar a respeito levou-os a, no dia do velório, fazer uma cesta repleta de cartões decorados com fitas amarelas, cada um deles com a mensagem: "Se você precisar, peça ajuda". A iniciativa se transformou no importante movimento que conhecemos hoje quando os cartões foram entregues a pessoas em situação parecida. 

Se você precisa de ajuda ou conhece alguém próximo que não aparenta estar bem, o CVV (Centro de Valorização da Vida) possui dois canais de apoio anônimo, um pelo telefone 188, com atendimento disponível 24 horas, e outro pelo chat (ou e-mail), disponível no site www.cvv.org.br. A campanha do Setembro Amarelo também possui um site oficial, da mesma Organização, que disponibiliza materiais gratuitos de educação e conscientização sobre o tema: www.setembroamarelo.org.br. Caso prefira, procure pelo Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS), ou pela Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próximos da sua residência; uma equipe qualificada de profissionais da saúde estarão prontos para te auxiliar. 







Texto: Tati Ferrari 
Imagem de destaque: Mia Sodré

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