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Lord Ruthven, o primeiro vampiro da literatura

Histórias de vampiros são um fenômeno que cativa pessoas de todas as idades ao redor do mundo há mais de 200 anos. Essas criaturas estão presentes nas artes em todas as suas formas, desde pinturas até as telas do cinema. É claro que em seu início se tratavam apenas de lendas muito centralizadas na Europa e na América do Norte e não ganhavam tanto espaço como vemos agora. Esses seres, antes vistos como folclóricos, ganharam seu espaço no cinema com filmes como Nosferatu (1922), na literatura com Drácula e com as crônicas vampirescas de Anne Rice. Apesar de já ser um gênero conhecido e de sucesso quando se trata de ficção fantástica, os vampiros concretizaram de vez seu sucesso entre os jovens na contemporaneidade com o lançamento de Crepúsculo e os irmãos Salvatore de The Vampire Diaries

No Brasil, essas histórias ficaram ainda mais conhecidas entre a população durante os anos 1990 e 2000 com as novelas Vamp (1991) e O Beijo do Vampiro (2002), ambas com um sucesso inigualável. 

Mas é claro que, mesmo com tantas histórias, sempre pensamos diretamente no Conde Drácula quando se trata do ponto de partida para o sucesso dessas figuras entre o público, o que não pode ser considerado errado de se pensar se considerarmos o sucesso desse clássico entre as pessoas. Mas teria sido ele o primeiro da literatura? Não, já que 78 anos antes da publicação de Bram Stoker estourar pelo mundo, um aristocrata inglês e misterioso, que causava destruição por onde passava, surgia através das linhas de uma prosa curta, escrita por um médico na mesma noite em que Mary Shelley dava a vida ao seu célebre trabalho, Frankenstein.

O Vampiro, de Polidori 

O Vampiro (The Vampyre no original) foi escrito por John William Polidori em 1819, e conta a história de Lord Ruthven, um aristocrata britânico que se infiltra na alta sociedade atrás de suas vítimas, numa incessante busca por sangue. O Lord era chamado para inúmeras festas e sua beleza encantadora fazia com que todos quisessem se aproximar dele, mesmo com uma sensação estranha sua figura causava ao se aproximarem.

“Não havia ninguém que não desejasse vê-lo. […] O seu rosto era regularmente talhado, apesar do tom sepulcral dos traços jamais animados por aquele amável rubor que é fruto da modéstia ou de fortes emoções provocadas pelas paixões.”

Quando Lord Ruthven conhece o jovem Aubrey, se aproxima do rapaz nos diversos eventos que o encontra, e ambos começam a viajar juntos pela Europa após se tornarem mais próximos, passando um bom tempo principalmente em Roma. Quando a agitação do início de amizade passa, Aubrey se vê questionando quem Ruthven realmente é e não obtém nenhum sucesso nas suas investidas atrás da verdade sobre ele, mesmo que sua agonia perante as origens de seu amigo comece a coincidir com a dificuldade de Ruthven em negar sua verdadeira essência. Assim, não demora muito para começar uma sequência de eventos de puro sofrimento e destruição à volta de Aubrey e de todos que cruzam seu caminho.

John William Polidori

Mesmo não sendo uma história longa, Polidori nos concede um ponto inicial fundamental para o nascimento das características vampirescas que conhecemos hoje: seres misteriosos e de origem raramente revelada, portadores de uma beleza estonteante e um magnetismo fatal. Como o livro é narrado em terceira pessoa, conseguimos analisar as diferentes impressões que a figura de Ruthven causa em todos que o conhecem e também ter uma visão da figura do vampiro através das histórias folclóricas de Ianthe, interesse amoroso de Aubrey.

“Como quando, por exemplo, lhe descrevia o vampiro vivo que vivera durante anos entre amigos, desfrutando das mais ternas amizades, e prolongando a sua existência, ano após ano, merce de um poder infernal, pelo sacrifício de qualquer jovem e inocente beleza. […] Ianthe invocava o nome dos velhos que haviam descoberto o vampiro, depois de várias filhas suas terem sucumbido vítimas do horrível apetite do monstro.”

Durante a leitura, não temos como negar o uso de elementos do folclore grego na construção dessa história, Algumas das características que Ianthe dá sobre os vampiros se assemelham às histórias dos gregos sobre os vrykolakas, uma espécie de vampiros que há anos fazem parte do folclore do país, conhecidos por espalhar terror por onde passam e, inclusive, realizar tanto danos tanto físicos quanto mentais às suas vítimas, como o que ocorreu com Aubrey.

Apesar de Lord Ruthven ser o primeiro na literatura, as lendas de vampiros são muito mais antigas. O Leste Europeu ficou extremamente famoso com as histórias envolvendo essas criaturas, principalmente a Romênia, mas há registros datados em 1656 na Croácia contando a primeira lenda que descreve uma pessoa como vampiro, a famosa lenda de Jure. A história relata que um homem, mesmo após sua morte, era visto pela sua aldeia todas as noites, causando grande terror, principalmente à sua viúva. 

Escândalos na publicação de O Vampiro e amizade com Byron

John Polidori nasceu no dia 07 de setembro de 1795, em Londres. Se formou em medicina aos 19 anos pela faculdade de Edimburgo e logo se tornou muito próximo do Lord Byron, já que o acompanhava em suas diversas viagens como médico particular, participando de muitas das aventuras do poeta. Foi em uma dessas viagens, durante o verão de 1819, que nasceu o vampiro de Polidori, o mesmo verão que ficou conhecido por ter sido o início de Mary Shelley a escrever Frankenstein.

Primeira edição de O Vampiro

A primeira publicação de O Vampiro foi cercada de escândalos. Primeiro, foi a confirmação de que John utilizou-se de um fragmento de uma obra abandonada de Byron e que graças a esse fragmento iniciou a sua própria história sobre vampiros. Por esse motivo, o conto foi inteiramente creditado a Lord Byron ao ser lançado. O segundo escândalo vem da suspeita que cresceu nos leitores sobre a semelhança entre Ruthven e Byron. 

Após toda a confusão, os direitos foram acertados, e O Vampiro teve uma segunda publicação com o nome de Polidori como único autor da obra.

John Polidori morreu dois anos depois do lançamento de seu conto e, infelizmente, não pôde presenciar todo o sucesso que obteve com ele. Apesar de hoje ser uma história pouco conhecida, influenciou gerações de autores que se aprofundaram a escrever contos e romances ainda mais detalhados sobre esses seres, como os irlandeses Sheridan Le Fanu, autor de Carmilla, a primeira história com uma vampira mulher, e Bram Stoker, com Drácula, transformando uma figura antes vista apenas como mito em histórias que conquistaram gerações.

Referências 


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Arte em destaque: Mia Sodré 

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