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A origem da estética Old Money e o retorno do preppy para além da Academia


No dicionário Cambridge o termo Old Money, ou dinheiro velho, é resumido como ''pessoas ricas cujas famílias são ricas há muito tempo''. Esse é o conceito do estilo de vida de famílias afortunadas há gerações. Algumas são tão tradicionais que acumularam riqueza desde a Revolução Industrial. Elegância, classe, tradicionalismo e dinheiro, muito dinheiro. Essas poucas palavras definem a alma da estética. Na internet, o conteúdo relacionado ao Old Money é quase que completamente sobre moda e, apesar do estilo ser uma parte fundamental, é o fator social e comportamental que difere verdadeiramente esse grupo seleto de famílias de renome, da sociedade comum. Mas afinal, de onde veio o Old Money?

Origem do Old Money


O que chamamos hoje de Old Money nas tendências surgiu a partir de um estilo chamado preppy, (escolas privadas e preparatórias para a faculdade), caracterizado por uniformes de colégios particulares e internatos dos Estados Unidos e Inglaterra dos anos 1970. O preppy chegou ao seu ápice mesmo nos anos 1980, após a publicação do livro de humor The Official Preppy Handbook, de Lisa Birnbach. As faculdades dos Estados Unidos, em especial as sete irmãs (Seven Sisters), Barnard, Bryn Mawr, Mount Holyoke, Radcliffe, Smith, Vassar e Wellesley, tiveram um papel fundamental em levar a moda universitária para além da Academia.

Nas universidades do início do século XX, as mulheres lutavam contra a imposição das vestimentas da época. Na década de 1870, a atriz Sarah Bernhardt foi duramente criticada ao usar um terninho personalizado para um retrato. As anáguas, saias e crinolinas (armações usadas para dar volume às saias) eram as peças adequadas para uma moça... Essas roupas claramente atrapalhavam as atividades diárias das alunas, então quando o guia The American Girl at College deu, em 1893, o pontapé inicial, incentivando as mulheres a lutarem por sua liberdade e independência na moda, foi uma questão de tempo para que o novo estilo se espalhasse. Ainda que as regras de vestimenta estivessem em vigor, as escolas foram inundadas por meninas em seus trajes mais masculinos para a época, usando blazers, casacos e suéteres esportivos e calças de flanela.

Ilustração de vestido com crinolina do século XIX

O blazer começou a ser usado pelas mulheres por volta de 1910, com o surgimento do movimento sufragista, mas foi aceito somente quando a estilista francesa Gabrielle Coco Chanel revolucionou a moda na década de 1920, confeccionando roupas confortáveis para as mulheres. Para ela, a moda deveria ser funcional, e não apenas estética. O famoso e atemporal blazer feminino foi criado por Chanel por volta de 1930, que transformou a peça masculina em um tailleur (blazer e saia). Já as calças femininas, por exemplo, foram oficialmente aceitas na Segunda Guerra Mundial, quando as mulheres precisaram ocupar cargos que antes eram de exclusividade masculina, como o trabalho nas fábricas.

Ainda que houvesse uma batalha, o estilo sobreviveu por anos após a ajuda de lojas famosas e tradicionais como J. Press e Brooks Brothers, que na época começaram a confeccionar peças especialmente para mulheres. Dessa forma, o estilo preppy passou a ser um indicador das classes mais altas. O estilo esportivo das escolas afirmava um privilégio econômico e social, isso até as décadas de 1920 e 1930, quando o estilo começou a se espalhar por meio de filmes, revistas e publicidade, tornando o preppy mais acessível para as outras classes. Um exemplo claro aconteceu em 1937, após a revista Life publicar uma matéria sobre a vida estudantil na Vassar College, a mais rica escola dos Estados Unidos, com uma foto das vestimentas das meninas, compostas por saias de tweed, suéteres Brooks Brothers, casacos polo, sapatos de sela e jeans. Na época, a Vassar se tornou o que a Ivy League era para a moda masculina: referência. Devido ao grande sucesso de vendas entre o público feminino, em 1949, a Brooks Brothers fez sua primeira peça destinada à mulheres: se tratava de uma camisa de botão rosa de tecido Oxford.

Alunas de Vassar (1947). Foto: Archives/ Collection of Vassar College and Sous Les Etoiles Gallery.

No cinema, o filme Love Story, lançado em 1970, acompanha a história de amor dos jovens Oliver Barrett IV, um estudante de Direito de Harvard, e uma estudante pobre de música, Jenny Cavilleri. Em uma cena, a garota usa o termo preppy para se referir a um dos jogadores de hóquei de Harvard, popularizando assim o nome.

A moda preppy


Moda é status e status é poder. A moda distingue as classes. No estilo, a estética Old Money marca sua presença com peças de alfaiataria, pérolas, coletes, gola alta, mocassins, meias brancas, suéteres, saias xadrez, camisas de linho brancas e estampas losango. Nos homens, as camisetas polo são a marca registrada, e nas mulheres, pouca maquiagem e peças discretas sem logos de marca aparentes, como as grifes Chanel, Ralph Lauren, Lacoste e Hermes.

Enquanto nos Estados Unidos o Old Money vem do sobrenome, no Reino Unido, ele tem relação com a aristocracia e a pequena nobreza. Não é à toa que a rainha da Grã-Bretanha, Elizabeth II, e Diana Spencer, ou apenas Lady Di, ilustravam bem a estética. Quando mais nova, Elizabeth apostava muito no estilo preppy com as saias de alfaiataria, suéteres, gola peter pan e saias plissadas. Após se tornar rainha, seus looks se tornaram mais sofisticados nos padrões da realeza. Para ela seu modo de se vestir era sempre uma mensagem, da mesma forma que era para Diana, como em 1991, quando ela tirou as luvas para cumprimentar um paciente com AIDS em um hospital no Rio de Janeiro, época em que ainda não se sabia muito sobre a doença.

Lady Di (foto por Russ Quinlan, 1983)

Outro exemplo de ícone da moda e símbolo da sofisticação nos anos 1950 e 1960, foi a atriz belga Audrey Hepburn. Cabelo curtinho, franjinha, sobrancelhas grossas, óculos oversize, lenço na cabeça, calças capri, luvas brancas e vestidos Givenchy. Sempre impecável, mas com um estilo básico, casual e elegante, a atriz conquistou o cinema e o mundo vestindo clássicos atemporais. Mas é claro que ser Old Money não se trata apenas das roupas; adotar o estilo preppy não torna ninguém parte da comunidade rica.

Audrey Hepburn (foto por Hans Gerber, 1954)


As escolas preparatórias e a segregação de alunos


A estética Old Money também tem seus pontos problemáticos, como o protagonismo majoritariamente branco, a desigualdade, o acúmulo de capital e o colonialismo. Isso se deve às raízes WASP (White Anglo-Saxon Protestant Families) das preppy schools. (Em português: famílias protestantes anglo-saxãs brancas.) Esse é o estereótipo da garota Vassar: rica, branca, inteligente e bonita, que após terminar seus estudos no colégio, passava a frequentar alguma universidade da Ivy League, grupo formado pelas oito universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos: Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Universidade da Pensilvânia, Princeton e Yale. Uma segunda opção, é claro, seria se dirigir à Inglaterra para realizar o ensino superior em Oxford ou Cambridge.

Os filhos de famílias privilegiadas e ricas compõem uma grande parte do corpo discente dessas escolas de elite. Segundo uma matéria de 2019, feita pelo The Guardian, a taxa de aceitação ​​em Harvard para alunos ​com familiares que também passaram pela mesma universidade (legados) é de 33%, em comparação com a taxa geral de aceitação menor do que 6%. Esses números apontam como o ambiente das universidades se mantém elitizado ao longo dos anos. Como em 1935, quando o ex-presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, foi aceito em Harvard, assim como seu pai, embora seu histórico acadêmico fosse fraco. Nos formulários de inscrições é comum que as universidades perguntem o local de formação dos pais de cada candidato.

Old Money x New Money


O estilo preppy surgiu por causa dessas famílias WASP, após a Revolução Industrial tornar muitos homens ricos, muitos deles recém-imigrados e sem privilégios de berço. Com isso, a sociedade rica da época se viu em uma posição delicada, e buscou uma forma de mostrar o poder da supremacia branca e se distinguir dos novos ricos. Dessa forma, surgiu a cultura dessa comunidade, que pode ser percebida também, é claro, pelas suas roupas. Cultura essa que inclui mansões antigas, casas de campo, valorização da arte e atividades esportivas como velejar, fazer hipismo, jogar polo, golfe e tênis. Esse grupo é reservado e preza pela tradição. Sua maior preocupação é fazer o dinheiro durar pelos investimentos a longo prazo.

''Money talks, wealth whispers" (O dinheiro fala, a fortuna sussurra). Essa frase define a diferença entre o dinheiro velho e o dinheiro novo. Se no Old Money marcas como Chanel e Ralph Lauren fazem parte do guarda-roupa diário, no New Money, Balenciaga e Dolce & Gabbana são as marcas preferidas. O New Money é composto por uma classe que se tornou rica ao longo da vida, principalmente por meio da internet. É marcado por luxo, ostentação e modernidade, composto por bilionários da tecnologia, atrizes de Hollywood, influencers e atletas etc., sempre interessados em investir no agora e principalmente nas redes sociais. 

Old Money no cinema, na TV e na indústria musical


O estilo preppy também foi popularizado na arte moderna. São diversas as suas representações em mídias com um público imenso, fazendo com que se tornasse amplamente conhecido. Abaixo, citamos algumas. 

As patricinhas de Beverly Hills


A releitura moderna do romance Emma, de Jane Austen, acompanha a jovem Cher, filha de um advogado rico de Beverly Hills, que ama passar seu tempo livre fazendo compras e indo a festas. A trama acompanha as tentativas da garota de ajudar a vida amorosa de sua amiga Tai, enquanto tenta lidar com seus próprios problemas amorosos e a escola. 


O filme de 1995, estrelado por Alicia Silverstone, se tornou umas das maiores referências de filmes dos anos 1990. A produção é muito marcada por seu figurino preppy; o look mais famoso do filme se trata do conjuntinho icônico amarelo xadrez usado pela protagonista. O xadrez estava muito em alta nos anos 1990, e compôs grande parte do figurino, sendo usado em 53 combinações do elenco.

Gossip Girl


Impossível falar de Old Money sem citar Gossip Girl. O seriado, lançado em 2007 pela The CW, é baseado em uma série de livros do mesmo nome, e teve sua última temporada exibida em 2012. A história se passa no Upper East Side, em Manhattan e acompanha a vida de jovens ex-estudantes de uma escola preparatória. 

Na trama, Serena van der Woodsen gera especulações ao retornar à cidade após um tempo em outro colégio. Com a sua chegada, a Garota do Blog, blogueira anônima que expõe os escândalos de suas vidas, ganha ainda mais força. Com looks luxuosos, a série atingiu seu ápice na segunda temporada que, segundo o diretor, fez com que todos os estilistas mais famosos na época quisessem assinar o figurino da série. Em 2021, Gossip Girl ganhou um reboot com um novo elenco pela HBO Max, o que contribuiu para o retorno do preppy.

O grande Gatsby


Em O grande Gatsby, o dinheiro está sempre em pauta. Na história publicada em 1925, pelo estadunidense F. Scott Fitzgerald, Nick Carraway chega a Nova York e tem sua curiosidade despertada por seu misterioso vizinho milionário, Jay Gatsby. 

Na história, Gatsby representa o New Money, o homem que cresceu na vida com seu próprio trabalho, provavelmente de forma ilegal, e não aquele que nasceu em berço de ouro. “Seus pais eram agricultores indolentes e mal-sucedidos – sua imaginação nunca os aceitou como pais”, é dessa forma que Fitzgerald descreve a família da personagem. Por outro lado, Tom, um dos homens mais importantes da cidade, e Daisy, sua esposa, simbolizam todo o prestígio e poder de suas raízes afortunadas.

Algumas outras produções que apresentam o estilo Old Money ou preppy em algum momento:
  • Love Story (1970)
  • Gilmore Girls (2000)
  • Downton Abbey (2010)
  • The crown (2016)
  • Dinastia (2017)
  • Entre facas e segredos (2019)
  • Rebecca (2020)

Lana Del Rey


''Hortênsia azul, dinheiro frio divino / Casimira, colônia e o brilho quente do Sol / Carros de corrida vermelhos, cruzamento da Sunset e Vine". Na música Old Money, de Lana Del Rey, todos os elementos vintage e sofisticados estão presentes. Em Chemtrails over the Country Club, lançada em 2021, a cantora canta: ''Sob os rastros de químicos no clube de campo / Usando nossas joias na piscina''. E em outro momento: ''Correndo no meu pequeno carro esporte vermelho''. A maioria da identidade visual dos álbuns da cantora apresenta carros de luxo, mansões e acessórios como luvas de renda e pérolas, assim como na canção Young and Beautiful, de 2013: ''Diamantes, brilhantes, em Bel Air agora / Noites quentes de verão, meio de julho''.

Taylor Swift


E eles disseram: ''Lá se vai a última grande dinastia americana... lá se vai a mulher mais louca que esta cidade já viu". Na música The Last Great American Dynasty, Taylor retrata toda a estética Old Money cantando sobre a vida da socialite Rebekah Harkness. Os dias da mulher nascida em 1915, em Missouri, foram marcados por luxo e festas extravagantes. Rebekah estava divorciada em 1947, quando conheceu William Hale Harkness, o herdeiro da maior empresa de petróleo da época, a companhia Standard Oil. O casal comprou uma mansão em Rhode Island, lugar no qual nasceu o boato de que Rebekah havia enchido sua piscina com o champagne caro Dom Pérignon. Após sete anos de amor e festas, ​​William faleceu por um ataque cardíaco, e a música da Taylor mostra toda a tristeza da viúva até o momento em que ela decide deixar o local. No final da canção, a artista se coloca no lugar da personagem, afinal, a casa de férias do ex-casal apaixonado pertence a ela desde 2013. Agora Taylor é conhecida na região por manter viva a tradição das festas barulhentas e cheias de celebridades da socialite. “Lá vai a mulher mais barulhenta que esta cidade já viu / Eu me diverti muito arruinando tudo.”

Referências

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