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Mulheres Extraordinárias: as criadoras, a criatura e a luta pela liberdade


Ler uma biografia é sempre fazer uma viagem. Você viaja no tempo, embora o espaço físico permaneça o mesmo - sua cama, sua cadeira, seu cantinho ao sol. Mas, em sua mente, você está em outro lugar. É a magia dos livros - e biografias são livros especiais. Mulheres Extraordinárias: as Criadoras e a Criatura, de Charlotte Gordon, com tradução de Giovanna Louise Libralon, me transportou para a Inglaterra do final do século XVIII até meados do século XIX. Lá, pude encontrar duas figuras importantíssimas para o feminismo e a literatura: Mary Wollstonecraft e Mary Shelley

Mãe e filha, suas vidas foram entrelaçadas desde o berço, mas os laços que as unem vão além daqueles da maternidade. Ambas escritoras, ambas feministas numa época em que o feminismo ainda não existia, elas viveram vidas consideradas escandalosas, tudo em nome de um ideal político, filosófico e artístico. Olhar para as vidas de Wollstonecraft e Shelley é deparar-se com a grandiosidade de duas mulheres comuns que abriram espaço em uma sociedade misógina e conservadora. 

A biografia é sobre mãe e filha e cada capítulo alterna um período semelhante em idade ao da vida da outra. Temos primeiro Mary Wollstonecraft e sua infância com um pai abusivo e uma família que não lhe dava a mínima atenção. Depois, Mary Godwin, que passou a infância na lápide da mãe, ouvindo falarem sobre a grande mulher que Wollstonecraft havia sido, e sonhando um dia estar à sua altura. Acompanhamos, em capítulos intercalados, as jornadas de duas mulheres que não chegaram a se conhecer, embora fossem tão próximas, mas cujas trajetórias dividem pontos em comum e são fonte de grande inspiração e respeito. 

Mary Wollstonecraft: a filósofa 

Nascida em 27 de abril de 1759, Mary Wollstonecraft teve uma vida difícil. Embora tenha conseguido sucesso em sua escrita, ela pagou um preço por ser uma mulher que ousou questionar as estruturas sociais da época. 

Ainda criança, convivia com os abusos do pai, que estuprava a mãe e batia nas crianças, especialmente nela. Felizmente, encontrou um escape nos livros e nos estudos. Foi na escola que ela começou a ter contato com o que mudaria seu destino: o acesso à leitura, especialmente de filosofia, história e política. Desde cedo, Mary compreendeu que o único caminho para que as injustiças e violências que presenciara ainda dentro de casa era através da libertação das mulheres. Sua mãe, suas irmãs e, posteriormente, ela, não teriam que passar por nenhuma situação de abuso caso fossem independentes. Era a igualdade entre homens e mulheres que poderia libertar a todos. 

Essa percepção a fez trabalhar fora de casa ao invés de aceitar alguma proposta de casamento, como era o esperado da época. Mary foi governanta, algo relativamente comum para jovens pobres e sem perspectiva de casarem-se, porém suficientemente instruídas para ensinar. Mas sua experiência na posição não foi boa, e logo ela saiu para empreender algo que acreditava ser o melhor para ela e para suas alunas: uma escola. 

Por algum tempo, ela e as irmãs lecionaram numa escola só delas. É interessante observar que esse é um empreendimento que foi feito também pelas irmãs Brontë quase um século depois. Charlotte e Emily Brontë também procuraram abrir sua escola - contudo, sem o apoio que Mary recebera, elas não tiveram sorte e foram obrigadas a fechar o local. Uma sombra fantasiosa disso pode ser vista em Agnes Grey, livro de Anne Brontë, irmã de Charlotte e Emily. Todavia, elas arriscaram-se a tal numa época em que, embora a moral rígida, a ideia era mais aceita do que no momento em que Mary o fez. Contudo, é preciso deixar claro que a escola de Mary não fracassou: foi ela que percebeu que seu caminho era na filosofia e na política. Após uma amiga querida falecer em decorrência de um parto, ela questionou suas atitudes e mudou sua vida - novamente. 

A partir daí, Mary Wollstonecraft torna-se escritora, ensaísta, jornalista e ativista dos direitos das mulheres. Seu nome vira sinônimo de escândalo, mas seu trabalho era mais importante do que os rumores que circulavam a seu respeito. Quando publicou Reivindicação dos Direitos da Mulher, suas ideias passaram a ser conhecidas por todo o círculo intelectual da Inglaterra e para além dele. Até mesmo pessoas comuns, que não participavam da vida política ou literária, conheciam Wollstonecraft. 

Mary Shelley: a escritora 

Mary Shelley nasceu Mary Godwin em 30 de agosto de 1797, filha de Wollstonecraft e William Godwin, também um filósofo político. Sua mãe morreu alguns dias após o nascimento da filha de febre puerperal, infelizmente algo comum na época. Mary cresceu sem a presença física da mãe; todavia, intelectualmente, Wollstonecraft estava sempre presente. 

Criada pelo pai filósofo, Mary cresceu ao lado da irmã, Fanny Imlay, numa casa que recebia visitas dos maiores intelectuais revolucionários da época. Ainda criança, começou a ouvir questões políticas e sociais, sempre mescladas com o fazer artístico. Não é de se espantar que a menina tenha crescido para tornar-se uma das maiores escritoras que o mundo já viu. 

Todavia, o pai casou-se com Mary Jane Clairmont, que já tinha uma filha mais ou menos da idade de Mary, Jane. A madrasta era difícil com Mary, não gostando das atenções e regalias dispensadas à menina. Isso criou um clima de conflito em casa, especialmente entre as irmãs. Eram três meninas, Fanny, Mary e Jane, e um menino logo nasceu da união, William Godwin, o Jovem, o que não contribuiu para que Mary sentisse-se em casa novamente. 

Sua irmã postiça, Jane Clairmont, é um ponto importante na história de Mary. Alguns anos mais tarde, quando elas já eram adolescentes, Godwin recebeu a visita de um poeta proeminente, Percy Bysshe Shelley. Não tardou muito para que ele e Mary iniciassem um relacionamento secreto. Ela era tudo que ele desejava: uma jovem inteligente, filha de dois filósofos a quem ele admirava, e cuja beleza o conquistou. Mas Percy era casado. Embora acreditasse no amor livre, ele tinha uma esposa e filhos - a quem não via, é verdade, pois o divórcio ainda não era algo comum ou aceitável. Godwin, ele mesmo um partidário do amor livre em seus anos de juventude, não queria aquilo para a filha. Ele sabia, pela própria experiência da mãe de Mary, das consequências de tal desprendimento para mulheres naquela época. A solução, portanto, era óbvia: fugir. 

Mary Godwin fugiu com Percy Shelley aos 16 anos. Para não alarmar ninguém na casa durante a fuga noturna, teve de levar a irmã postiça junto. Os três partiram para seus destinos. Logo, Mary estava grávida e Jane mudou o nome para Claire Clairmont, dizendo ser ela, não Mary, a verdadeira herdeira de Wollstonecraft - coisa que afirmou até o final de sua vida, décadas depois. 

A criação de Frankenstein: O Ano Sem Verão 

O episódio da criação de Frankenstein, seu primeiro livro, aconteceu quando o trio foi passar o verão na Suíça com Lorde Byron, também poeta - já famoso naqueles tempos. O ano de 1816 ficou conhecido como O Ano Sem Verão por questões climáticas. Depois da erupção do monte Tombora, na Indonésia, parte da Europa e dos EUA viveu um inverno vulcânico, no qual a luz solar não chegava direito à atmosfera em decorrência das cinzas que espalhavam-se pelo ar. O que deveria ser um verão agradável perto de um laço suíço logo virou uma estadia estranha com um inconstante Byron e atividades limitadas. Felizmente, a ideia de escrever histórias de fantasma como competição foi dada e dela nasceu a primeira ficção científica, Frankenstein, assim como O Vampiro, de John Polidori, o jovem médico pessoal de Byron que também estava junto do grupo. 

Era do que Mary precisava para lançar-se na carreira de escritora. A partir daí, ela escreveu diversos romances - infelizmente muitos sem tradução para o português. Também é difícil encontrar acessíveis em nossa língua seus contos e outros trabalhos. Mary Shelley foi uma escritora e editora prolífica, mas infelizmente parece que o único interesse do mercado editorial concentra-se em sua primeira obra. Embora Frankenstein seja, de fato, um livro único e interessantíssimo, deveríamos ter acesso facilitado a outros escritos de Mary. Alguns de seus livros são O Último Homem, Mathilda, Lodore, The Fortunes of Perkin Warbeck, Falkner e Valperga

Uma jovem viúva 

Mary sofreu muitas perdas, a começar por seus filhos, ainda bebês. Sua irmã Fanny suicidou-se. O suicídio da esposa de Percy, Harriet Westbrook Shelley, também a abalou profundamente, especialmente porque, de certa maneira, ela contribuiu para a situação ao fugir com ele. Eles casaram, para proteger Mary e seus filhos de maneira legal, e agora ela tornara-se Mary Shelley como a conhecemos. 

Porém, Percy e Mary viveram apenas seis anos juntos. Morando na Itália por boa parte desse tempo, Percy deu vazão a sua natureza aventureira. Ele amava o mar e velejar era uma de suas paixões. Foi o mesmo mar que ele amava que o levou. Mary Shelley era viúva aos vinte e poucos anos, com um filho pequeno, todos os outros mortos, sozinha num país distante de sua terra natal. 

Em geral, as histórias sobre Mary Shelley vão até esse ponto. Cinebiografias, livros, artigos, quase ninguém parece desejar concentrar-se no resto da vida de Mary. Mas sua genialidade não morreu com o marido. Ela ainda teve uma vida muito ativa, produzindo a maior parte de sua obra literária após a morte de Percy, trabalhando como editora, revisora, ensaísta, pesquisadora. E tudo isso enquanto era obrigada a sujeitar-se aos arroubos coléricos de Sir Timothy, pai de Percy, que lhe impusera restrições quanto a sua escrita em troca da pensão - que legalmente era dela, mas os direitos de mulheres eram inexistentes ou desrespeitados na época - para que ela pudesse sustentar o único filho sobrevivente, Percy Florence Shelley

Pontos fracos da obra 

Ainda que Mulheres Extraordinárias: as Criadoras e a Criatura seja um livro riquíssimo e inspirador, existem alguns problemas na obra. A começar, a gordofobia. Em diversas passagens, a autora descreve, de forma pejorativa e em tom de desprezo, pessoas conhecidas de Mary que eram gordas. Bem, as pessoas magras não foram descritas dessa maneira, mas sim como "elegantes", "bonitas", jamais com um "gorduchas" acompanhado de um reforço do quanto a aparência daquela pessoa em questão era repugnante. Isso não acontece uma ou duas vezes, mas várias. Me pergunto qual é a necessidade disso. 

Charlotte Gordon também faz algo semelhante ao que critica em William Godwin: centra a narrativa nos relacionamentos das Marys, especialmente de Mary Shelley. Quase trinta anos da escritora são simplesmente resumidos a dois capítulos com pouco mais de vinte páginas. Após a morte de Percy, parece que Gordon não viu mais motivos para dedicar pesquisa e escrita acerca da vida de Mary Shelley. E, quando retoma a narrativa, já tendo passado dez anos da morte do marido, Mary está interessada em um outro homem, um par romântico com quem teve um envolvimento dos trinta e poucos aos quarenta anos. Claro, é interessante sabermos que Mary não permaneceu para sempre como a viúva de Percy apenas. Porém, ela foi escritora, editora, pesquisadora, mãe solo e tantas outras coisas durante sua vida. O foco precisa realmente ser esse? É ainda mais incoerente quando pensamos que ela criticou justamente isso nos capítulos dedicados a Mary Wollstonecraft, já que seu marido, Godwin, escreveu uma biografia apressada acerca da esposa logo após a sua morte, fazendo com que os eventos marcantes de sua vida fossem seus relacionamentos, sua vida romântica, ao invés do estudo, da política e da escrita. É lamentável ver isso na biografia de mãe e filha, embora acredite que tenha sido um erro inconsciente da autora. 

Além disso, Charlotte Gordon não apenas relata as histórias de Wollstonecraft e Shelley de acordo com os fatos: ela, muitas vezes, os interpreta. Existem trechos inteiros nos quais a autora diz o que pessoa x deve ter sentido ou por que ela acha que fez tal coisa, isso sem qualquer amparo histórico. Ainda que toda biografia seja o editar da vida de uma pessoa, o biógrafo deve tentar ser o mais imparcial possível. Os achismos de Gordon não cabem ali - e, honestamente, nem sempre parecem fazer sentido de acordo com os registros históricos. 

Mulheres Extraordinárias 

De qualquer forma, a pesquisa que a autora faz é realmente muito boa. Há cerca de cem páginas de referência, o que é um incentivo a qualquer historiador ou apaixonado por Wollstonecraft ou Shelley. Embora haja problemas, como os já citados acima, é importante ressaltar que é possível ignorá-los, já que a narrativa é ótima e as vidas das Marys, fascinantes. 

Muitas foram as mulheres extraordinárias que caminharam pela Terra e, se há uma coisa que o livro mostra, certamente Mary Wollstonecraft e Mary Shelley são duas delas. 

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Texto e arte em destaque: Mia Sodré 
Mia
Jornalista e pessoa da internet há uma década. Editora e analista literária, quando não está lendo escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Pesquisa o gótico no século XIX. Vive em Porto Alegre, onde está há vinte e poucos anos ajudando na entropia do universo.

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