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A dor de um passado que não pode ser refeito em O Grande Gatsby

Publicado em 1925, O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, é um dos grandes representantes da Era do Jazz e do dilacerante Sonho Americano. Narrado por Nick Carraway, a obra acompanhará a vida misteriosa de Gatsby, além de personagens secundários como Daisy e Tom Buchanan, estes que tanto desejam a posição na alta sociedade. Diferentemente de Gatsby, o casal Buchanan é o que se considerava como “old rich”, ou seja, ricos por herança, sem tampouco terem feito qualquer esforço para se manterem na bolha dos milionários. O protagonista, por outro lado, como descobrimos no decorrer da trama, era um sujeito de família pobre que, após ter se apaixonado pela jovem Daisy enquanto servia na Primeira Guerra Mundial, lutou bravamente contra a correnteza para conquistar um amontoado de dinheiro e, assim, seduzir a dama, que possuía voz de dinheiro. 

É dessa forma, por esse combate em busca de riqueza, que Gatsby se torna um dos maiores representantes do Sonho Americano, pois é como alguns diziam: caso se esforce, poderá aproveitar dos grandes benefícios e luxos da sociedade americana. E Gatsby se esforçou. Todavia, o romance, de maneira bastante pessimista, mostra-nos o que se consegue com o mérito de enriquecer e de se auto inserir entre os poderosos homens - mas isso certamente ficará para o leitor descobrir. 

A interrupção da vida pela guerra em O Grande Gatsby 

Para além de uma questão de se tornar rico, uma das belas e perturbadoras pautas de O Grande Gatsby é também o descontentamento com o passado e a impossibilidade de repeti-lo. Para compreender essa questão, é importante lembrarmos que Gatsby, bem como muitos outros homens, tiveram de abandonar suas vidas para lutar na Primeira Guerra Mundial. A vida desses corajosos soldados se estagnou no momento em que pegaram suas armas e colocaram seus capacetes - mas, para os que não foram ao front, os anos se passaram; novas conquistas e novas decepções tomaram conta de suas rotinas. Os homens na guerra estavam em desvantagem: o mundo para além da matança seguia em frente, mas o combate não permitiu que fizessem o mesmo. O sonho de retornarem para suas casas e suas famílias, de retornarem ao momento em que pararam quando foram arrebatados pelo governo, o sonho de não perder tanto de sua humanidade mesmo depois de tantos horrores presenciados - todos esses sonhos, como muitos outros, foram aniquilados pela guerra, e eles só se dariam conta de como ficaram para trás em relação aos demais quanto voltassem à realidade dolorosa do pós-guerra

F. Scott Fitzgerald

É exatamente o que acontece com Gatsby, já que ele tem de interromper o seu romance com Daisy por conta da guerra e, ao retornar, depara-se com a jovem casada com outro homem, Tom Buchanan - que, além de estar com a doce mulher a quem o protagonista amava, também era um legítimo homem daquela sociedade capitalista que almejava. Assim se percebe nessa armadilha do tempo que se passou, pois é isso o que a guerra faz com os homens: aniquila sonhos e os estagna no tempo; cria homens traumatizados e os iludem com o seu fim, fazendo-os terem uma grande fixação com o passado anterior a todas aquelas desgraças. E esse destino caótico é minuciosamente seguido por Gatsby ao decorrer da narrativa. 

Tendo enriquecido depois desses anos furiosos, Gatsby compra uma imensa mansão que ficava, não por mera coincidência, do lado oposto de onde Daisy morava com o marido, sendo apenas separados por um grande rio. Durante diversas noites, Gatsby, na tentativa de retomar a atenção da amada, foi anfitrião de fabulosas e ornamentadas festas - mas, quanto ao reencontro dos dois, isso também fica para a descoberta do leitor. O ponto é que o protagonista move mundos, vai contra a tal da correnteza citada na frase final da obra, com o único intuito de restabelecer o que tinha em mãos antes de ter se rendido à batalha. Todo o seu esforço de se fincar entre os ricos também fazia parte de seu plano de retomar o passado a partir do momento em que abandonou sua vida rotineira. Servira na guerra pelo seu país, pela sociedade, e é justamente ela que fechará os olhos para ele mais tarde. Não há espaço para homens como Gatsby, que procuram resistir à lei natural do tempo e da vida. 

“Gatsby falava muito do passado, e compreendi que ele desejava recuperar alguma coisa, alguma ideia de si mesmo, talvez, que participara do seu amor por Daisy. Ele tivera uma vida confusa e desordenada desde então, mas se conseguisse retornar uma só vez a um certo ponto de partida, e repetir todo o caminho lentamente, poderia descobrir qual era a tal coisa…”

Hybris - tomando o destino em suas mãos 

O final do romance não poderia ser diferente. Trata-se de uma questão natural da vida, típico de um sistema que joga a favor de seletas pessoas e que tende à desordem. Há quem diga que quem cuida do tempo é Deus e unicamente ele. O que Gatsby tenta fazer, ao procurar recriar esse passado, é tomar esse papel - e Deus jamais permitiria isso. Na literatura grega, quando um mortal se coloca na mesma posição que um deus, chama-se esse ato, que beira um crime, de hybris. Em outros termos, a hybris pode ser entendida como o orgulho excessivo, a desmedida de certos feitos, a presunção e a arrogância. Posicionar-se de maneira a acreditar que é possível alterar o tempo é, portanto, para aqueles acima de nós, uma atitude que altera a natureza cósmica de uma hierarquia. Os deuses, procurando manter a sua posição superior, hão de agir contra esses mortais que a todo custo tentam alterar a ordem da vida. 

Para tanto, é válido lembrar de um dos principais símbolos do romance, que são os olhos do Doutor T. J. Eckleburg. Logo nas primeiras páginas da obra, quando Nick e Tom passam pelo Vale das Cinzas, o narrador comenta sobre aqueles olhos pairando sobre os homens: tratava-se de um outdoor de um oculista que ficou abandonado ali, desgastado pelo tempo e acompanhando o sofrimento dos homens que sofriam no meio das cinzas. Pensando apenas nesse trecho, parece que pouco importam aqueles olhos, mas o símbolo passa a fazer sentido quando Wilson, perto do desfecho da trama, olha diretamente para o olhar de T. J. Eckleburg e diz: “Deus vê tudo”. É como se, por estar acima dos demais, aqueles olhos azulados pertencessem a uma entidade que cuida dos homens, de certa maneira. Sendo esses os olhos de Deus, seguindo a interpretação de Wilson, faria muitíssimo sentido que Gatsby estivesse passando por uma dolorosa punição pelo seu pecado de se colocar como uma espécie de divindade: Deus estava de olho em sua trajetória o tempo inteiro.  

Referências

  • ‘Boats against the current’: mortality and the myth of the renewal in The Great Gatsby (Jeffrey Steinbrink)
  • O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald, com tradução de Marcio Hack) 


Arte em destaque: Mia Sodré

Angélica Cigoli
Estudante de Letras, é apaixonada por literatura grega, inglesa e norte americana, com um amor incondicional por F. Scott Fitzgerald. Nos tempos vagos, estuda latim e grego com o sonho de ler os clássicos no original.

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