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A arrogância espiritual em Padre Sérgio, de Tolstói


É interessante como temas trabalhados ainda no século XIX ressoam tão perfeitamente no hoje. A humanidade, embora viva conectada e tenha tido sua forma de comunicação modificada pelos adventos tecnológicos, permanece a mesma em essência. Sempre nos achamos modernos, os mais atualizados, espertos e de pensamento mais afiado do que os antepassados, aquele monte de ossos e assinaturas em documentos velhos. Mas um olhar cuidadoso para o passado nos revela que somos os mesmos. Nossas preocupações, amores, tristezas e motivações permanecem temas irremovíveis, com pouca variação em intensidade, na biografia da humanidade.

Assim é Padre Sérgio, novela escrita por Liév Tolstói no final do século XIX. Nela, encontramos as ideias de um Tolstói já velho - como ele próprio afirma no posfácio que acompanha a edição da Companhia das Letras -, um homem já perto da morte. E um homem que refletiu muito acerca da vida. Tolstói, alguém sempre religioso, havia percebido dentro da Igreja Ortodoxa Russa certas práticas com as quais não poderia concordar. Bom escritor que era, esse olhar crítico tomou forma de diversas maneiras - de ensaios religiosos a escritos ficcionais. Tolstói tinha algo a dizer, e assim o fez. Ainda bem. 

Em Padre Sérgio, conhecemos Stiepán Kassátski, um jovem príncipe menor da Rússia czarista. De origens financeiras humildes - já que títulos não significavam tanto assim em termos monetários na Rússia de outrora -, por um desejo em leito de morte de seu pai, Stiépan é levado a ser criado longe da família, a mãe e a irmã, para tornar-se soldado, membro orgulhoso da guarda do czar. 

O príncipe Stiépan sempre quis ser o melhor. Mas assim que o objetivo em questão era atingido, ele logo partia rumo à próxima linha de chegada, contemplando eternamente um troféu que seria largado no instante em que o recebesse. A insatisfação interior mascarada numa corrida de obstáculos fez dele, de fato, exemplar em tudo a que se aplicou. E quando chegou a idade de casar, ele escolheu a moça mais bonita da sociedade - uma jovem condessa que habitava um mundo ao qual ele almejava. Não esperava amá-la: se gostasse dela e a achasse agradável, já estava de bom tamanho; o importante eram os círculos que ela frequentava. Ser aceito neles era vital para Stiépan, que não havia vindo do dinheiro, embora fosse tolerado por ter um título e estar em boas graças com o czar, a quem adorava. 

Todavia após apaixonar-se de fato pela moça e descobrir que ela estava longe de casta, tendo sido amante do czar há algum tempo, Stiépan rompe o noivado a um mês do casamento e toma uma decisão impulsiva, mas firme: tornar-se monge. De uma só vez, perde a noiva, o status social, a posição junto à guarda do czar, a família e seus poucos bens materiais. A justificativa que dá a si mesmo é a de um chamado divino para servir a Deus no monastério. Todos à sua volta, perplexos, são deixados de lado, e Stiépan segue em seu ideal. 

Liév Tolstói

Os anos se passam e Stiépan, agora Padre Sérgio, enfrenta seus demônios. Contudo o interessante é a maneira como Tolstói nos insere na linha de visão da personagem título, nos fazendo contemplar aquilo que o então padre percebe como verdade. O que é a verdade, afinal de contas? Existem os fatos, mas aquilo que chamamos de verdade é senão uma interpretação do passado. Isto aconteceu, aquilo sucedeu-se - mas o que habita o espaço entre o isto e o aquilo? É a verdade ou é a veste atraente da confirmação de nossas convicções? 

Enquanto os anos se passam para Stiépan, acompanhamos a jornada de um homem que se diz diariamente estar no caminho certo. É o chamado de Deus, afinal de contas. É uma vida de piedade. Será mesmo? O questionamento, presente em cada página, nos faz tão aflitos quanto o próprio Stiépan. Estaria ele verdadeiramente comprometido ou aquilo fora um erro causado pelo ego? E o ego certamente está ali, dando uma piscadela de esguelha na busca infindável pelo título de homem mais piedoso dentro da igreja. 

É um título inventado, claro - mas todos não o são? O valor das coisas, afinal de contas, é medido de acordo com o quanto queremos algo e o quanto estamos dispostos a dar em troca. Stiépan deu tudo - mas não para Deus. A figura divina era a mentira bonita cuja paisagem escondia o verdadeiro esboço - como um quadro antigo finalmente examinado através do raio-x; ali pode-se ver as intenções do artista por trás das pinceladas, aquilo que foi ocultado, aquilo que era muito feio para estar numa primeira camada. E a camada de fundo - a mais verdadeira - de Stiépan não passava de arrogância. 

No livro bíblico de Romanos, capítulo 7, versículos 19 e 20, o apóstolo Paulo diz o seguinte:

"Porque não faço o bem que eu quero, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim."

De muitas maneiras, isso, se aplica a Stiépan. Queria Stiépan enganar a todos e a si mesmo? É pouco provável. Contudo a aparência de santidade é uma alternativa perfeita para aqueles que querem fugir de si mesmos. Stiépan sente, a princípio, um grande alívio por não ter de tomar mais nenhuma decisão, por estar em posição de completa obediência. Mas seu ego ali permanece - e ele se engrandece a cada vez que alguém da sociedade que outrora frequentava aparece para lhe dar um oi. Stiépan sente-se satisfeito ao saber que os outros pensam que ele está acima de todos, que ele atingiu um patamar de santidade e abnegação tamanhas que qualquer comentário a seu respeito servirá apenas para enaltecê-lo. Deus é uma bonita bengala na qual se apoia e exibe nos corredores sacerdotais. 

Embora seu desejo não fosse de fazer o mal, isto ele praticava, pois em sua ânsia de ser sempre o melhor, deixou com que a vaidade da aparência de santidade lhe cobrisse como um manto sagrado e que pessoas o adorassem, acreditando ser ele um santo milagroso. Sua castidade, guardada há anos, é deixada de lado ao ser chamado a curar uma adolescente. Ainda que o mal já habitasse nele e o bem ele não praticasse de fato há anos, foi preciso isso para que percebesse o quão errado estava. 

Como uma obra de cunho religioso - e de Tolstói, é preciso ressaltar -, a mulher é vista como uma figura dotada de sensualidade demoníaca. As mulheres de Tolstói, no geral, são uma tentação pecaminosa. Isso não é diferente em Padre Sérgio, que possui diversas passagens acerca de mulheres atraídas especificamente por monges, padres e sacerdotes, que empenham-se em fazê-los pecar através de atividades sexuais apenas pelo orgulho de terem sido o motivo de um homem santo ter abandonado seu caminho. 

Mas o que é mais santo: seguir seus desejos e viver em paz ou atormentar-se, negando a tudo e a tudo condenando, e sentir-se melhor que todos por causa disso? Onde está Deus nesse pensamento? Se existe um altar, nele está o ego, não o divino. 

Por questionar essas e outras coisas em seus escritos, Tolstói foi excomungado da igreja. Muitas pessoas da fé ortodoxa russa lhe atacaram, chegando a ser violentas e a proferir ameaças ao escritor, o que apenas lhe confirmou o quão embasada no ódio e na arrogância estava aquela religião. Se Deus um dia ali existiu, para Tolstói ele não mais habitava o espaço de culto daquelas pessoas. 

Nesse sentido, Padre Sérgio é uma parábola importante que se encaixa perfeitamente nos tempos atuais, quando pessoas religiosas vestem uma capa de santidade para atacar - violentamente - a todos aqueles que pensam diferentemente delas. A arrogância espiritual é algo que existe desde o início das religiões, afinal de contas. Mas talvez o caminho, como aponta Tolstói, seja mais simples: acreditar em algo, viver sua vida em paz e fazer o possível para ajudar as pessoas, sem querer nada em troca, apenas por acreditar que cada um constrói um mundo melhor quando toma uma atitude generosa. 


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Mia Sodré
Mestranda em Estudos Literários pela UFRGS, pesquisando O Morro dos Ventos Uivantes e a recepção dos clássicos da Antiguidade. Escritora, jornalista, editora e analista literária, quando não está lendo escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Vive em Porto Alegre e faz amizade com todo animal que encontra.

Comentários

  1. ótima análise! não conhecia a obra, fiquei com vontade de ler.

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  2. Análise impecável!! Já tinha ouvido falar dessa obra, um dia lerei 🥰

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