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O limbo feminino: crise de identidade em A Redoma de Vidro e Betty Friedan


Nos anos 60, duas mulheres com idades distintas publicavam obras que seriam referências no discurso feminino. Sylvia Plath, uma poeta sensível, lança seu único romance – A Redoma de Vidro - e nele trabalha a angústia de não entender qual caminho seguir. Já Betty Friedan, uma figura importante para a segunda onda feminista, publica seu livro A Mística Feminina, no qual disserta, dentre tantos outros conceitos, a respeito da crise de identidade da mulher. Não há registro de que as autoras tenham tido algum contato, mas suas obras conversam e continuam relevantes até hoje. 

Para contextualizar sua teoria, Betty Friedan relembra como a guerra e o pós-guerra afetaram os papeis de gênero. Até os anos 1940, o ambiente de trabalho era local tido como masculino, e aos homens eram destinados os papéis intelectuais e de provedores de suas famílias. Já às mulheres, apenas papéis referentes ao lar eram atribuídos, e suas participações nos âmbitos acadêmicos e profissionais eram negadas. Porém o início da Segunda Guerra Mundial exigiu a presença de homens no serviço militar, os ausentando da vida na cidade. Com a falta da presença masculina, muitas mulheres passaram a desempenhar papéis profissionais e a substituir seus maridos em serviços, para que assim não houvesse defasagem econômica e produtiva. Esta inserção feminina no mercado de trabalho foi estimulada pela mídia, pois neste momento a força produtiva das que antes eram submetidas ao papel doméstico é vital para o capital. Deste modo, a função central econômica é colocada nas mãos das mulheres, trazendo uma espécie de emancipação e, mesmo que de maneira submetida ao sistema de exploração capitalista, as mulheres passam a ter ambições que antes não tinham, desenvolvendo personalidades além das de mãe e de esposa. 

Porém com o fim da guerra, os homens voltam aos seus lares fantasiando padrões de gêneros sexistas e desejando retomar seus títulos de provedores superiores. Inicia-se assim um processo antagônico ao anterior: os homens retomam seus papeis na mídia e, com a fantasia do ideal de gênero, passam a escrever sobre o que seriam as donas de casa exemplares. Assim, inicia-se uma grande manipulação midiática e psicológica para que as mulheres, que haviam conquistado o ambiente de trabalho e sua própria individualidade, voltem ao lar para servirem aos maridos e procriarem. 

Dessa maneira, a partir do contexto pós-Segunda Guerra, Betty Friedan, em seu livro A Mística Feminina, coloca luz em questões que rodeiam mulheres. Nos fazendo enxergar como se desenvolve uma das facetas da lógica patriarcal, Friedan desenvolve como a volta ao lar dos homens que estavam em combate enfraqueceu o pensamento sufragista que havia ganhado força durante a Segunda Guerra Mundial. 

Betty Friedan em passeata pelos direitos feministas nos anos 70

A teórica feminista explica que, a partir do estudo, as mulheres da época ousaram sonhar com destinos que antes eram atribuídos apenas aos homens. Começaram a entender sobre química, falar sobre literatura e ansiar um aprofundamento a respeito de filosofia. Seus conhecimentos invadiam o espaço da política, física e economia. Logo, meninas que antes tinham como exemplo apenas suas mães donas de casa, perceberam que o futuro que as aguardava poderia ser completamente diferente. Mas não apenas isso, as mães também começavam a desejar que o destino de suas filhas fosse diferente. 

“Na minha geração, muitas de nós sabíamos que não queríamos ser como nossas mães, mesmo que as amassemos. Era impossível não perceber a decepção delas. Será que entendíamos ou apenas nos ressentíamos da tristeza, do vazio, que as fazia se apegar demais a nós, tentar viver nossa vida, comandar a vida do nosso pai, passar os dias fazendo compras ou desejando coisas que nunca pareciam satisfaze-las, não importa o quanto custassem? Estranhamente, muitas mães que amavam as filhas – e a minha era uma delas - também não queriam que as filhas crescessem e se tornassem como elas. Elas sabiam que precisávamos de algo a mais.”

(Betty Friedan, A Mística Feminina)

Buscando o sucesso e o afastamento da figura materna que tinham em suas casas, as jovens se empenhavam em se aproximar das garotas populares. Estas meninas se mostravam descoladas de suas famílias, assim como focadas em moldar a personalidade a fim de conquistar os rapazes. Esta busca por validação as faziam se distanciar de suas individualidades. Além disso, por mais que houvesse a vontade de saída do ciclo de papel de gênero em que se encontravam, as garotas careciam de exemplos em suas vidas privadas que afirmassem o sucesso de mulheres mais velhas que buscaram outro caminho na juventude. Não havia grandes exemplos de figuras femininas que conquistaram uma carreira bem-sucedida e amor ao mesmo tempo. A perda da individualidade ao tentarem a introdução no grupo de meninas populares em junção à falta de exemplos no âmbito privado, levava as jovens a uma grande crise de identidade. Os ajustadores da época traziam, então, um discurso que salientava o papel de gênero, dizendo que a culpa da crise identitária feminina eram os estudos e a falta de educação das jovens para se adequarem ao “papel de mulher”. 

Em 1963, mesmo ano de publicação do livro de Betty Friedan, Sylvia Plath lança seu único romance, A Redoma de Vidro. A obra conta a trajetória de Esther, que conquista um estágio em uma revista de moda de Nova York e passa a viver o que para muitos seria a vida ideal. A protagonista, após o período do programa de estágio, volta para sua cidade natal e entra em colapso. Sem conseguir foco o suficiente para ler ou escrever, afunda em uma crise de identidade que a leva a um quadro profundo de depressão. 

Sylvia Plath

As figuras femininas que rondam a vida de Esther podem ser facilmente relacionadas com a teoria de Friedan. Garotas populares que conquistaram o estágio, mas que tem como foco encontrar um bom marido; sua mãe, que após o falecimento do marido teve que sustentar a casa através de um trabalho que a fazia infeliz; Jota Cê, uma editora bem-sucedida, mas que é apontada pelas estagiárias como feia; e a Senhora Willard, que afirma com veemência o lugar da mulher como dona de casa e que é mãe de um garoto apaixonado por Esther. Devido aos exemplos femininos que rondaram sua vida, a protagonista sempre enxergou o destino feminino pintado pelos papéis de gênero como algo vazio. A perspectiva patriarcal de que o casamento e o trabalho se anulam tinham feito casa na mente de Esther, que enxerga todo este jogo social com acidez. 

“Também lembrei de Buddy Willard dizendo com uma voz sinistra e sabichona que depois que tivéssemos filhos eu me sentiria diferente e não teria mais vontade de escrever poemas. E me ocorreu que talvez fosse verdade aquela história de que casar e ter filhos era como passar por uma lavagem cerebral, e que depois você ficava inerte feito um escravo num pequeno estado totalitário”

(Sylvia Plath, A Redoma de Vidro)

À medida que o romance avança, Esther passa a olhar para a realidade com maior afastamento e apatia. Deste modo, sendo corroída aos poucos pela lógica sexista, ela inicia o processo de questionamento de sua própria personalidade. Dentre tantas reflexões, é apresentada ao leitor uma admirada alegoria que faz referência à crise de identidade. 

“Eu vi minha vida ramificando-se diante de mim como a figueira verde da história. Na ponta de cada galho, como um figo gordo e roxo, um futuro maravilhoso acenava e piscava. Um figo era um marido, um lar feliz e filhos, outro era uma poetisa famosa e consagrada, outro era uma professora brilhante, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro era Constantino e Sócrates e Átila e outros vários amantes com nomes exóticos e profissões excêntricas, outro ainda era uma campeã olímpica. E, acima de tais figos, havia muitos outros. Eu não conseguia prosseguir. Encontrei-me sentada na forquilha da figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia optar entre um dos figos. Eu gostaria de devorar a todos, mas escolher um significava perder todos os outros. Talvez querer tudo signifique não querer nada. Então, enquanto eu permanecia sentada, incapaz de optar, os figos começaram a murchar e escurecer e, um por um, despencar aos meus pés.”

(Sylvia Plath, A Redoma de Vidro)

Por entender que a escolha de um destino anula a vivência de outros, Esther se sente incapaz de escolher para onde prosseguir. É possível entender com maior profundidade o sentimento de incompletude que a ronda se relacionarmos a obra aos estudos de Betty Friedan. Pode-se observar um cenário onde as mulheres estão conquistando finalmente a liberdade e o espaço acadêmico - Esther se vê deslumbrada com a possibilidade de ser uma grande escritora, professora, viajante e até mesmo esportista. Porém a lógica patriarcal afirma a ideia de que não é possível, pelas mulheres, a escolha de mais do que apenas um objetivo. Logo, não é passível às mulheres o sucesso em vários âmbitos da vida ao mesmo tempo. 

A impossibilidade se torna ainda maior se houver a tentativa de conciliação entre trabalho e família. Como dito anteriormente, há uma manipulação psicológica e midiática para que as mulheres sintam que seu principal dever se dá como donas do lar e que qualquer atividade para além desta incumbência se tornará um obstáculo, desestabilizando a admiração que alcançam do marido e dos filhos. Ou se traça o caminho rumo à vida profissional, ou inicia-se a jornada familiar. A partir disso, o desejo feminino de qualquer conquista que excede as paredes do lar traz uma tremenda culpa às mulheres e induz a busca pelo exorcismo de sua própria identidade, de modo que possam manter o amor que recebem no lar. A aniquilação dos desejos femininos é, segundo Friedan, um dos objetivos da dominação patriarcal, e quando completa, a mulher passa a padecer de o que a autora chama de “o problema sem nome”. 

“Pois o problema sem nome, do qual tantas mulheres sofrem hoje nos Estados Unidos, é causado pelo ajuste a uma imagem que não lhes permite tornar-se o que podem ser. É o crescente desespero das mulheres que renunciaram à própria existência, embora assim agindo tenham fugido também àquele sentimento de solidão e medo que sempre acompanha a liberdade.”

(Betty Friedan, A Mística Feminina)

A insatisfação, apatia e depressão que afetaram (e afetam) certas mulheres são os sintomas do “problema sem nome” que se dá através da tentativa feminina de entrar nos moldes conservadores de gênero. De acordo com o pensamento de Friedan, o problema se dá majoritariamente em mulheres casadas que passam a maior parte de seus dias inundadas em obrigações relacionadas ao lar. Mulheres que muitas vezes conquistaram o diploma acadêmico, mas que o jogaram em um canto escondido do armário e estão muito ocupadas com o doméstico para utilizarem seus conhecimentos. Por mais que a personagem Esther seja ainda muito jovem e não tenha até então se tornado mãe e/ou esposa, o “problema sem nome” já a afeta. A depressão é o resultado do vislumbre de um destino conformado com a imagem de mulher prevista pela sociedade, esta que exorciza a individualidade feminina e as múltiplas possibilidades fantásticas. 

Ted Hughes e Sylvia Plath

A história de Esther muitas vezes se confunde com a história de vida da própria autora, fazendo da obra, em certo nível, autobiográfica. Sylvia Plath cresceu no subúrbio estadunidense e foi uma das mulheres que padeceram do problema sem nome. Assim como a protagonista de seu livro, Plath entrou em depressão profunda, chegando até mesmo a recorrer a tratamentos de choque em clinicas psiquiátricas. A autora casou, teve filhos e, infelizmente, ao contrário do destino de recuperação que escreveu para sua personagem, atentou contra a sua própria vida. Seu falecimento se deu através da inalação de gás, mas com certeza a depressão induzida e/ou intensificada pelo problema sem nome teve seu papel no suicídio da escritora. 

Betty Friedan menciona a educação como principal fonte de combate à mística feminina. Mas atrelado ao ensino, deve haver a extinção dos parâmetros e clichês dos papéis de gênero. A erradicação de ideias machistas se dá como necessária para que mulheres brilhantes não percam seu potencial para a depressão e apatia. A vida não pode mais ser vista como uma figueira, e há possibilidades de crescimento para todos os lados. Uma escolha não anula a outra. 

Referências 

Comentários

  1. Muito bom!! "A redoma de vidro" tem passagens bem marcantes, e fez toda a diferença relembrar agora, contextualizando a partir da Betty Friedan

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  2. tô apaixonada nesse texto! venho me organizando pra escrever minha monografia sobre a redoma de vidro (faço psicologia) e estava na semana passada procurando no blog por textos sobre a sylvia plath! amei mais ainda por fazer essa relação com a obra da betty friedan 🤍

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  3. Kamilla Schreiber1 de julho de 2022 17:32

    Texto incrível! Adorei entender a relação entre as autoras!

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