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A brutalidade retratada em "A Confissão de Leontina"

Lygia Fagundes Telles, conhecida como a Dama da Literatura Brasileira, foi uma das mais célebres escritoras que o país já teve. Mesmo após sua morte o grande legado de obras da autora permanece relevante e incrementa debates que, mais de trinta anos depois da publicação de seu último livro, continuam a ser discutidos. Temas como adultério, homossexualidade, feminicídio, depressão e violência de gênero sempre estiveram presentes em seus romances e contos, fosse de forma explícita ou não.

No caso de A Confissão de Leontina, seu conto mais extenso, publicado originalmente em 1949, os diversos tipos de violência narrados pela protagonista enquanto ela revisita suas memórias não são apenas explícitos, mas parecem gritar ao leitor, que passa a conhecer a brutalidade da vida de uma moça jovem que está presa há meses e sem perspectivas de retomar sua liberdade. 

Leontina (ou Leo) tinha apenas doze anos quando sua mãe morreu. Antes disso, sua família era constituída por ela mesma, sua mãe, a irmã mais nova e o primo Pedro, poucos anos mais velho que ela. Em um contexto familiar de pobreza extrema, Leontina e sua mãe cuidavam da casa e dos outros dois, dispostas a sacrificar o que fosse necessário para que Pedro pudesse estudar e se formar médico, com a promessa de que assim a família inteira poderia melhorar de vida. Enquanto Pedro recebia as mais diversas regalias pela tia, Luzia e Leontina não frequentavam a escola. Leo porque tinha muito a fazer em casa, e Luzia pois, depois de bater a cabeça quando bebê, nunca conseguiu se desenvolver. Ainda assim, as mulheres se unem no propósito de ajudar Pedro a conquistar seus sonhos, pois acreditavam que depois disso todas elas poderiam se dar ao luxo de sonhar também.

"Aconteceu tudo ao contrário. Minha mãe caiu na estrada segurando a cabeça e Luzia se afogou quando procurava minhoca e eu estou aqui jogada na cadeia. Fico pensando que ele era mesmo diferente porque só com ele deu tudo certo e agora entendo por que merecia um pedaço de carne maior do que o meu."

Além da fome, da pobreza e da falta de oportunidades, Leo precisa lidar também com o desprezo do primo que finge não conhecê-la quando está com os colegas de escola e até mesmo se recusa a ser chamado de irmão dela. Ele também tem atitudes fisicamente violentas, como obrigá-la a entrar em um rio gelado durante o inverno e agredi-la quando Leontina ri dele. Apesar disso, ela o ama muito e acredita piamente que quando ele melhorar de vida irá apoiá-la e reconhecer todos os seus esforços. Após a morte da mãe ela assume o lugar da mulher mais velha: cuida de todos os afazeres domésticos e também trabalha como lavadeira e passadeira para garantir o sustento de Luzia e de Pedro. A rotina exaustiva imposta a uma criança de apenas doze anos logo torna sua vida ainda mais difícil.

"Assim que ela morreu tive que trabalhar feito louca porque Pedro ia tirar o diploma na escola e precisava de um montão de coisas. Continuei lavando pra fora e tinha ainda que cozinhar e cuidar da minha irmãzinha e catar lenha no mato e colher pinhão quando era tempo de pinhão. Me deitava tão cansada que nem tinha força de lavar a lama do pé. Você está virando um bicho, Pedro me disse muitas vezes, mas o que eu queria é que ele estivesse limpinho e com a comida na hora certa. Era isso que eu queria. Depois eu me lavo eu respondia. Depois quando? ele perguntava. E eu olhava em redor e via as pilhas de camisa pra passar e engomar e a panela queimando no fogo e minha irmãzinha tendo que ser trocada porque ela fazia tudo na roupa. Quando você tirar diploma não vou mais lavar pra fora. Então vou poder andar em ordem e até estudar. Era isso que eu respondia. Foi isso que eu combinei. Mas o combinado não vigorou porque assim que ele tirou o diploma arrumou a trouxa e foi embora."

Lygia, que ao longo de sua carreira retratou diferentes faces da sociedade brasileira (dos mais ricos aos mais pobres, dos mais comuns aos mais absurdos), parece usar a história de Leo para retratar algo comum em quase todas elas: a existência de mulheres que passam a vida cuidando, mas sem serem cuidadas. A desvalorização de Leo por todos ao seu redor e a ingratidão de seu primo é tão comum que ela sequer percebe. Ao longo de toda sua narração em momento algum contesta o caráter ou os motivos de Pedro para agir da maneira que age, apenas se sente triste pela situação em que se encontra. A criação que recebeu da mãe foi essa; sua mãe também provavelmente recebeu a mesma da avó e assim por diante, e as mulheres da sua família parecem se encontrar presas em um ciclo de servidão que não tem necessariamente a ver com a pobreza da família, mas sim com os hábitos estabelecidos nas relações domésticas.

Pouco tempo após a morte da tia, Pedro se forma na escola e Luzia morre afogada. Com o abandono do primo (que não apenas a abandona, mas leva consigo todo o dinheiro que obtém com a venda da casa onde ela morava) e a perda da irmã mais nova, Leo se vê completamente sozinha no mundo e sem ter a quem recorrer. Apenas uma adolescente, ela vai trabalhar como doméstica na casa de uma família que a maltrata e a humilha. O marido de sua patroa, compadecido da situação da menina, diz para ela fugir da família o quanto antes, pois a vida por lá não iria melhorar. Assim, aos catorze anos, ela foge para a cidade e decide procurar pelo primo. Quando reencontra Pedro, muitos anos depois, Leontina descobre que o primo de fato conquistou todos os seus sonhos: virou médico, trabalha em um hospital e tem uma vida completamente diferente e muito mais abastada. Infelizmente para ela, ele ainda se mostra envergonhado por conhecê-la e, além de ignorá-la no hospital, pede que ela não o procure lá.

Tendo vivido até aquele momento sem amigos, escola, brincadeiras ou ter com quem conversar, Leo cresceu com certa ingenuidade e inexperiência de mundo, o que a torna uma presa fácil. Entre romances que nunca terminam de maneira satisfatória (alguns ativamente violentos, outros não), a falta de emprego e de educação formal, em uma cidade onde não tem quem a proteja ou ofereça ajuda, ela acaba se tornando prostituta. Morando com a amiga Rubi em um quartinho alugado e fazendo apenas uma refeição por dia, Leontina sonha em conseguir um casamento para poder melhorar de vida. Uma vã esperança infantil, visto que os homens não a respeitam o suficiente para buscarem um relacionamento sério com uma "mulher da vida". 

Infelizmente para ela, mesmo ao romper o ciclo doméstico de servidão, Leontina não se encontra em uma posição favorável. Ainda que não esteja mais sofrendo abusos verbais e físicos de seus parentes ou empregadores, ela agora se vê à mercê de clientes, sendo obrigada a se relacionar com homens que desgosta para poder sobreviver. Até esse ponto do conto, Lygia já retratou como experiências de Leo o trabalho infantil, os abusos de Pedro e de sua empregadora, a vida dela enquanto jovem migrante e então como prostituta. Os problemas dela não diminuem, apenas mudam. Esse retrato real dos problemas e sentimentos humanos é característico da autora e faz o leitor ter compaixão por Leontina mesmo quando ela age de maneira errada. 

É impossível ignorar que a história de Leo é um paralelo com a de muitas outras mulheres migrantes que se veem sozinhas e sem opções ou perspectivas em um lugar novo. E enquanto seu primo recebeu educação e opções de emprego ao se mudar para a cidade, Leo mal sabe ler e recorre à prostituição para ter como se alimentar. A falta de educação (formal ou informal) e o seu status enquanto mulher acabam sendo um empecilho a mais para a jovem, que a empurra para à margem da sociedade de tal forma que o leitor sabe que ela provavelmente nunca conseguirá sair. Leo é uma adolescente que se prostitui para sobreviver, mesmo tendo um parente próximo com condições de ajudá-la que se recusa a fazê-lo por ter vergonha de suas próprias origens. Sem Leo e sem sua tia, Pedro jamais teria alcançado seus sonhos. Mas o trabalho que as duas tiveram para ajudá-lo é completamente invisível para ele da mesma forma que o trabalho de cuidado feminino ainda é invisível mais de meio século após a publicação do conto: se ele conseguiu se tornar médico, foi por esforço próprio; se ela recorre à prostituição, deve ser porque não se esforçou o suficiente para "ser alguém" na vida.

Após um programa que dá errado, Leontina acaba sendo agredida por um cliente. A situação escala a tal ponto que ela pensa que vai morrer e, numa tentativa de se defender, acaba matando seu agressor. É levada presa e já está na cadeia há três meses quando se inicia o seu conto, sem previsão de quando poderá sair. O advogado a informa que sua pena deve ser de dez anos e ela se mostra sem esperança apesar das visitas de seus amigos, que se compadecem do destino da jovem. Após acompanhar a vida e os sofrimentos de Leo através de sua confissão, o leitor é deixado para imaginar o que será dela dali por diante. 

Leontina, apesar de jovem, viveu uma vida brutal: desde sua infância sendo preterida pela mãe, a adolescência em um regime de servidão e o início da vida adulta solitária e difícil, além das privações que a acompanharam ao longo de todo o caminho. A brutalidade que a acompanha não é apenas pela pobreza da qual ela não consegue sair, mas também causada pelo seu gênero, que parece ser um motivo a mais para que a sociedade a empurre para trás. O leitor pode apenas torcer (sem muitas esperanças) para que, passada a sua pena, Leontina possa finalmente encontrar alguma felicidade. 




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