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A cultura yuppie em Roda De Fogo


Roda de Fogo, uma trama nascida na Casa de Criação Janete Clair, trouxe não apenas uma premissa simples, mas absolutamente atemporal: a do homem poderoso impotente frente ao próprio fim. Esse talvez seja o cerne, a grande moral da história trazida por Lauro César Muniz e Marcílio Moraes. Ao redor desse cerne, contudo, podem-se encontrar diversas camadas de sentido e tramas que, a um só passo, representam de forma cristalina aquele tempo-espaço da década de 1980, com sua trama empresarial, engravatada, voltada aos interesses dos homens de negócios tão cultuados no período, e o crônico modus operandi das negociatas e pequenas, médias e grandes corrupções que surgem da promiscuidade entre os interesses capitalistas e as ambições de poder viabilizadas no jogo político.

Lauro César Muniz, embora divida a autoria de Roda de Fogo com Marcílio Moraes, confere a essa obra uma de suas assinaturas como autor, isto é, a mordaz crítica às convenções sociais e como essas tolhem e restringem os indivíduos de realizar os seus verdadeiros desejos e seus próprios potenciais. Isso fica evidente em diversos momentos da trama, não só com o protagonista Renato Villar (Tarcísio Meira) que, após a descoberta de um angioma irreversível em seu cérebro, decide passar a sua vida toda a limpo, mas com sua própria esposa, Carolina D’Ávila (Renata Sorrah), uma mulher ambiciosa e com aguçada visão política que, tendo sido criada em uma tradicional família conservadora e colocado o casamento acima de tudo (e sua posição de esposa fiel e submissa em primeiro lugar), de certa forma, tenta a qualquer custo viabilizar através do marido as suas próprias aspirações. Seu maior objetivo é torná-lo presidente da República, e isso faz com que ela se submeta a manter as aparências de um casamento que possui apenas função social, mas que não existe no âmbito privado. De certa forma, Carolina fez da sua família o seu grande negócio.

Renato Villar (Tarcísio Meira), Maura Garcez (Eva Wilma) e Renato (Felipe Camargo)
Roda de Fogo também aborda o conflito entre a Nova República, recém-instaurada mas já maculada pela corrupção endêmica, e as feridas abertas da ainda recente ditadura militar, representada na figura de Maura Garcez (Eva Wilma), ex-guerrilheira com quem Renato tem um filho, o inconsequente Pedro (Felipe Camargo), e precisou viver dez anos na Itália para tratar as sequelas psicológicas dos traumas da tortura sofrida nos porões da ditadura.

Outro aspecto que torna essa trama um precioso registro da época em que se passa é a representação do auge do culto ao mundo corporativo, na chamada era dos yuppies, tendo como ilustração dessa o luxo dos cenários e dos figurinos, assinados pela sempre perspicaz Helena Gastal, figurinista de grandes clássicos da teledramaturgia como Vale Tudo e Tieta, entre tantos outros.

Quem são os yuppies 

O termo yuppie é um acrônimo que significa Young Urban Professional, ou seja, “jovem profissional urbano”. A semelhança com a terminação da palavra hippie não é mera coincidência: a ideia era justamente contrastar essas duas gerações tão antagônicas em seus ideais e propósitos de vida. Os hippies da década de 1960 e 1970 buscavam (ao menos em teoria) alternativas humanistas e pacifistas para o modo de vida preconizado pelos EUA e Europa Ocidental no pós-Segunda Guerra Mundial. Eles se opunham veementemente à Guerra do Vietnã e a outros conflitos armados com interesses imperialistas. 

Os yuppies da década de 1980
Além disso, buscavam também propor novas formas de relacionamento afetivo e sexual, mais livres, de cunho imediatista, sem a obrigatoriedade do casamento. O uso de drogas alucinógenas, como a maconha, o LSD e a mescalina eram disseminadas sob o pretexto de se acessar novos estados de consciência e a busca por experiências transcendentais também do ponto de vista espiritual. Havia, portanto, anseios individuais permeados por uma noção de coletividade. 

Os yuppies, por sua vez, são “filhos” da geração paz e amor, mas em tudo negam os valores dos seus antecessores. Com a chegada da década de 1980, o mercado de ações, a especulação financeira e as políticas neoliberais para manejo da economia por parte dos governos naquele período, encabeçadas por Margaret Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos EUA, se tornaram o pano de fundo do cenário político e econômico. O sonho a ser perseguido era a realização material, apropriar-se de símbolos de status social, ser bem-sucedido, de preferência no mundo corporativo. A chamada Geração X, ou seja, aqueles nascidos a partir de 1965, são apontados como os jovens que buscavam esse estilo de vida, mas seus mentores eram boomers, nascidos durante ou a partir da Segunda Guerra Mundial, não raramente ex-hippies que, desiludidos com os ideais pacifistas fracassados, se converteram à ideologia ultracapitalista em voga desde os anos finais da década de 1970.

Assim como os parâmetros ideológicos, as referências estéticas das duas gerações são opostas. Se os antecessores incorporaram o despojamento extremo, com cabelos longos para homens e mulheres, roupas coloridas, jeans, uso e abuso de acessórios feitos artesanalmente, os yuppies cultuavam o luxo e dispositivos de status. As tendências de moda eram observadas e seguidas à risca: ternos muito bem alinhados para homens, vestidos e tailleurs (com grandes ombreiras) para mulheres, preferencialmente de grifes consagradas. O mesmo com os acessórios: relógios, óculos e sapatos deveriam ser de alta linha. Tudo o que cercasse essa nova geração deveria expressar o sucesso obtido nos negócios, como carros de estilo arrojado, preferencialmente esportivos. Também as drogas representam bem essa mudança de mentalidade. Durante a era flower power, as drogas alucinógenas, como a maconha, o LSD e o chás de cogumelo, sugeriam explorar outros estados de consciência e percepção da realidade e eram as mais populares. Já no final dos anos 70 e toda a década de 80, a cocaína era a droga de escolha, simbolizando a conexão ao aqui e o agora, à alta produtividade (por isso, tão popular entre os executivos), à frivolidade e ao imediatismo na busca do bem-estar.

O estilo dos yuppies
As representações dessa geração abundam na cultura pop. Em 1984, a revista estadunidense Newsweek nomeou aquele ano como “O Ano do Yuppie”, descrevendo e apresentando o que esse fenômeno representava, isto é, jovens trabalhadores urbanos que moravam em grandes cidades e ganhavam, à época, por volta de US$ 40.000 ao ano, ligados em grande parte ao mundo corporativo (ou “colarinho branco”) ou a trabalhos administrativos. No ano seguinte, Brett Easton Ellis, um dos autores que mais cristalinamente capturou o momento, publica Abaixo de Zero, uma das obras fundamentais para se compreender a mentalidade da juventude daquele período, em particular nos EUA. O romance viria a ganhar uma adaptação cinematográfica em 1987, com alguns dos atores mais consagrados dessa era, como Robert Downey Jr. , Andrew McCarthy e James Spader. Na televisão, embora tenha estreado em 1982, a série Caras e Caretas, ou Family Ties no título original, apresenta justamente o conflito de gerações entre um casal de ex-hippies e seus filhos, pertencentes à Geração X, entre eles um que alimenta o sonho de se tornar um jovem executivo e enriquecer, papel esse que abriu as portas do estrelato a Michael J. Fox, que viria a estrelar a futura franquia De Volta Para o Futuro. É interessante observar que, embora os protagonistas da história sejam os pais, o público acabou torcendo cada vez mais para o personagem de Fox, que foi progressivamente ganhando destaque na trama. Posteriores a Roda de Fogo, temos os filmes Wall Street - Poder e Cobiça, de Oliver Stone, com Michael Douglas e Charlie Sheen nos papéis principais e Uma Secretária de Futuro, de Mike Nichols, com Melanie Griffith e Sigourney Weaver (um excelente retrato da conquista do espaço feminino no mercado corporativo). Com a quebra da bolsa de valores de Nova York em outubro de 1987, num dia que entrou para a história como Black Monday, uma nova crise econômica de grandes proporções se abateu sobre o mercado financeiro, abreviando assim o sonho dourado do jovem trabalhador urbano da década de 1980.

E no Brasil? Como essa cultura urbana se estabeleceu e quais seriam as suas peculiaridades? Bem, por aqui, apesar de a década de 1980 ter recebido a infame alcunha de “década perdida”, devido à estagnação econômica, à inflação galopante e à dívida externa acachapante, a seu modo também pode-se observar os yuppies nos moldes estadunidenses e europeus, oriundos principalmente do mercado financeiro, como executivos de alta classe. Porém, uma versão mais ligada à classe média alta também existiu, e talvez tenha sido mais comum, que seriam jovens bancários (uma área muito em voga no Brasil dos anos 80 com a ampliação das linhas de crédito), administradores e, talvez a mais brasileira das variações, os funcionários públicos. O que encaixaria esses trabalhadores na descrição de yuppies seria os salários e, com eles, a possibilidade de ter um padrão mais elevado de vida, apropriando-se também do estilo que era próprio desse grupo.

Como Roda de Fogo representou a era yuppie em moldes brasileiros 

Logo nos primeiros minutos de Roda de Fogo, podemos observar indivíduos de alta classe em um carro luxuoso, passando pelo Palácio do Planalto, em Brasília. São eles: Carolina D’Ávila, esposa do grande empresário Renato Villar, oriunda de família tradicional, com laços estreitos com o regime militar; Paulo Costa (Hugo Carvana), acionista do Grupo Renato Villar que possui pretensões políticas e busca o apoio de Renato; e Hélio D’Ávila (Percy Aires), tio de Carolina, um ex-general extremamente conservador que não se conforma de estar perdendo seu poder de influência em meio a um novo regime. Eles discutem as perspectivas e possíveis ganhos de uma inflexão de Renato à política. A trilha sonora de fundo é cool e ajuda a estabelecer o clima de intriga e conspiração (poder e cobiça, tal qual o subtítulo brasileiro do clássico filme de Oliver Stone sobre Wall Street). A trama como um todo é fortemente permeada pela intriga, seja empresarial ou familiar. No eixo empresarial, temos Renato, o manda-chuva implacável; o já citado Paulo Costa; Werner Benson (Carlos Kroeber), o banqueiro associado ao grupo Renato Villar; Mário Liberato (Cecil Thiré), o procurador e fiel conselheiro de Renato (e, em off, também de Carolina) e o jovem Felipe (Paulo Castelli), neto de Hélio D’Ávila - o próprio Hélio e Antonio Villar (Mario Lago), pai de Renato, aparecem com frequência nas reuniões e decisões de pautas importantes.

Esse grupo de homens travam discussões e orquestram negociatas com completo escárnio pela economia brasileira, incolumemente, até que Celso Rezende (Paulo José), diretor financeiro do grupo de Benson, denuncia as negociatas em uma série de documentos que comprovam a ilegalidade das transações, fato que cai como uma bomba atômica sobre a cabeça de todos os envolvidos. Esses documentos caem nas mãos do juiz Marcos Labanca (Paulo Goulart), que posteriormente decide passar o caso para as mãos da sua assistente, a jovem juíza Lúcia Brandão (Bruna Lombardi), o que dá início ao grande dilema moral da trama.

Renato Villar (Tarcísio Meira) e Lúcia Brandão (Bruna Lombardi)
No eixo familiar de Renato, temos Carolina e Helena (Mayara Magri), a filha rebelde e contestadora, sempre em atrito com a mãe. Essa é a família que Renato assumiu socialmente e que figura nas colunas sociais. Paralelo a isso, existe também o vínculo com a família de Maura Garcez, a ex-guerrilheira: Dona Joana, mãe de Maura, e Pedro, o filho renegado por Renato. O fato de sua mãe ter estado longe desde pequeno e de não ter sido reconhecido por seu pai dá a Pedro muita raiva e insatisfação, fazendo com que reaja às situações com extrema agressividade.

As tensões ideológicas da trama se intensificam quando Renato, após descobrir o angioma que pode lhe tirar a vida em pouco tempo, decide trazer Maura de volta ao Brasil. Aliás, é interessante observar o que Carolina e Maura representam: do lado de Carolina, o velho aparelho de estado, a elite brasileira tradicional perenemente de mãos dadas com as forças militares; do lado de Maura, a tradição de esquerda, já que Maura, segundo conta a própria Dona Joana em determinado momento, descende de anarquistas que lutaram contra o regime franquista na Espanha. Numa suposta neutralidade entre os dois pólos, estaria a juíza Lúcia, cuja grande razão de viver é aplicar a justiça, contudo, passa a viver um grande dilema moral quando se envolve com Renato, o maior envolvido no esquema denunciado nos documentos que caíram em suas mãos.

O figurino e direção de arte de Roda de Fogo são primorosos: cada personagem tem sua personalidade muito bem construída visualmente, numa representação tão precisa que mais parece arquetípica. O rebelde Pedro anda sempre com um taco de golfe e frequentemente usa um macacão branco, visual que remete muito a Alex DeLarge de Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. Carolina usa uma longa trança (que fez muito sucesso) e roupas sóbrias, o que confirma o seu tradicionalismo, assim como Lúcia Brandão, com seu cabelo de corte chanel e seus tailleurs em cortes e cores sóbrios, transmitindo sua austeridade. Quanto aos jovens do meio empresarial, no caso Felipe e Celso Rezende Jr. (Cássio Gabus Mendes), que entra na trama com o propósito de investigar a morte do pai - os ternos muito bem cortados, mas com cores mais chamativas, frequentemente com paletó e calça de cores diferentes, bem ao gosto da época. Felipe usa e abusa dos suéteres, bem ao estilo “almofadinha”, enquanto Júnior se mantém sempre com traje social, mesmo em casa. O advogado Mário Liberato, um tanto dândi, também ousa nos ternos, mas sobretudo nos roupões de seda com estilo quimono nas horas de descanso.

O estilo da juíza Lúcia Brandão (Bruna Lombardi)
Roda de Fogo é um excelente exemplo de obra de teledramaturgia que é capaz de aliar o retrato fiel de seu tempo a críticas políticas e sociais absolutamente atemporais. Com um texto sofisticado, atuações inspiradas e trama com ritmo balanceado, ela não soa datada em momento algum, o que é um grande feito, considerando-se que foi produzida em uma década com marcadores tão fortes como a de 1980. Além do mais, sua história oferece tópicos que, ironicamente, muito se aproximam da realidade dos tempos atuais, como a polarização ideológica e a sombra da proximidade da influência dos militares e conservadores no cenário político. 



Texto: Theodoro Castro
Arte em destaque: Sofia Lungui

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