Janete Clair: o rosto da telenovela


Quando pensamos em televisão e em sua consolidação como maior meio de comunicação do país, não podemos deixar de mencionar as telenovelas. Amada por uns, odiada por outros, a verdade é que ela ajudou a unificar, de certa forma, a nação brasileira. Mesmo após o advento das plataformas de streaming, ela segue se reinventando, adaptando-se a novos formatos.

A princípio, a história da televisão brasileira é masculina e elitizada. Tudo começou com Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, o homem que teve a ideia de trazer esse meio de comunicação para o país. Não foi difícil, já que ele era uma pessoa muito influente. Depois de conseguir as concessões necessárias, Chatô inaugurou a TV Tupi, Canal 3 de São Paulo, e o resto é história.

Porém, quando pesquisamos mais a fundo, percebemos que muitas mulheres ajudaram a criar a televisão, mas foram sumariamente apagadas ou esquecidas. A história sempre menciona os donos das emissoras, os diretores e seus feitos, mas onde exatamente estavam as mulheres? Bem, uma delas estava escrevendo novelas durante sete anos seguidos, sem revezar com outros autores, sendo tachada de alienada e revolucionando a telenovela como a conhecíamos. O nome dela era Janete Clair.

Janete, ou Jenete, devido a um erro na certidão de nascimento, nasceu em Conquista, Minas Gerais. O sobrenome dela, Clair, é fictício e foi escolhido por causa de Clair de Lune, uma das músicas preferidas da escritora. Muito antes de criar personagens inesquecíveis para a televisão, como o taxista Carlão (Francisco Cuoco), de Pecado Capital, ela começou como datilógrafa.

A datilografia foi o que a levou a conhecer Dias Gomes, autor de novelas e dramaturgo, com quem viveria um casamento de mais de 40 anos. Ele já era um autor profissional e, de acordo com uma entrevista, ele a ajudou a lapidar sua escrita para o rádio e a televisão. Depois de abandonar a datilografia, Janete foi locutora e radioatriz na Rádio Tupi-Difusora.


Desde sempre, a trajetória de Janete na escrita foi marcada pela questão de gênero. Para começar, ela era casada com o homem que seria um dos ases da teledramaturgia nacional, o que suscitava comparações entre os estilos de escrita deles. Além disso, Janete era uma romântica assumida. Ninguém amava um dramalhão tanto quanto ela, e, por isso mesmo ela era tachada de alienada, ainda que abordasse temas sociais em suas novelas, como em Irmãos Coragem. Era como se ela tivesse que se provar capaz, embora seus inúmeros sucessos na televisão falassem por si só. Afinal, quem escreve sete novelas seguidas, sem dividir o horário nobre com ninguém?

Quando Dias Gomes foi demitido da Rádio Nacional por seu envolvimento com o comunismo, o casal se mudou para o Rio de Janeiro. Lá, Janete passou a escrever radionovelas para ajudar no sustento da casa. Um traço muito bacana sobre os dois é a união e cumplicidade que tinham. Dias opinava sobre o trabalho da esposa e vice-versa. A primeira radionovela dela foi Rumos Opostos, na Rádio América. Ela também escreveu outras, como Perdão, Meu Filho e Um Estranho na Terra de Ninguém.

Em 1964, o destino começaria a delinear um caminho de sucesso que ela teria durante quase 30 anos na televisão. Foi nesse ano que ela estreou sua primeira novela, O Acusador, na TV Tupi. Isso depois de enfrentar preconceito e ter diversas sinopses recusadas sem sequer uma leitura. No entanto, ainda havia muita coisa para acontecer.

O encontro de Janete Clair com a escritora cubana Glória Magadan, em 1967, mudaria os rumos da televisão para sempre. Naquela época, Glória dirigia o núcleo de telenovelas da Rede Globo. Diferentemente de hoje em dia, as telenovelas eram tudo menos realismo. Tramas exóticas, ambientadas fora do Brasil, e roupas bufantes eram a tendência. Elas não tinham relação com o cotidiano dos brasileiros.

Glória Magadan chamou Janete Clair para consertar os rumos da telenovela Anastácia, a Mulher Sem Destino. Ela era escrita por Emiliano Queiroz, um ator que, de acordo com a Biografia da Televisão Brasileira, não gostava de ver os colegas desempregados. A novela ia mal de audiência. Para contornar o problema, ao assumir a novela, Janete criou um terremoto que matou metade dos personagens. Assim começava a carreira dela na emissora do plim plim.

Entre 1967 e 1969, Janete escreveu três novelas na Rede Globo, mas elas eram estereotipadas e seguiam a linha de Magadan. Véu de Noiva, de 1969, foi a primeira novela de Clair onde “tudo acontecia como na vida real”. Tratava-se de uma atualização de uma radionovela de Janete, Vende-se um Véu de Noiva, e a partir desse momento temos a criação da ideia de “novela como verdade”.

Além de Janete, Dias Gomes também foi contratado pela Rede Globo. A ideia era criar enredos que tivessem mais a ver com o Brasil, o que servia aos interesses da ditadura militar de unificar o país. Bráulio Cardoso e Lauro César Muniz também foram outros autores que ajudaram a mudar a linguagem das novelas, aproximando-as do público.

A modernização das telenovelas não significou o apagamento do modelo folhetinesco dramático, mas sim uma nova roupagem desse tipo de produto, contextualizando-a dentro da realidade brasileira. Claro, é válido lembrar que se tratava da realidade pretendida pelos militares. Nesse sentido, as telenovelas foram um campo de disputa entre autores e militares, pois a censura caneteava sem dó nem piedade. A Rede Globo contava com comunistas em seu quadro de escritores, como Dias Gomes e Lauro César Muniz, e fazia o meio de campo com os militares para conseguir colocar suas novelas no ar. Era uma relação difícil.

Em relação a sua escrita, Janete Clair foi uma revolucionária por aplicar técnicas já muito conhecidas do cinema em seus roteiros. A pesquisadora Lygia Barbiére Amaral escreveu um artigo bastante interessante sobre a estrutura dramática das novelas de Janete. Uma das inovações em termos de história introduzida por ela é as subtramas, que servem para o desenvolvimento da narrativa. A partir delas, Janete consegue desenvolver a história sem desgastar o mocinho e a mocinha. Além disso, sua fórmula contava com a seguinte lógica: armar todos os problemas da novela, solucionar até o capítulo 32 e depois dar um plot twist para criar outros conflitos.

Além de sua fórmula, replicada por diversos autores de novela, Janete também inseriu muita crítica social em suas obras. Ao contrário do que muitos críticos afirmavam, ela não tinha nada de alienada. Em Irmãos Coragem, novela de 1971, ela usou a trama sobre o garimpo na cidade de Coroado para falar sobre o progresso desenfreado e criticar a ditadura militar. Já em Pecado Capital, de 1975, Janete subverteu o folhetim para rasgar a associação de que dinheiro trazia felicidade por meio das personagens Carlão e Salviano (Lima Duarte).


Como dissemos anteriormente, a trajetória de Janete Clair sempre foi atravessada pela questão de gênero. Em uma entrevista, seu filho Alfredo comenta que a mãe cuidava dos filhos, era dona de casa e autora ao mesmo tempo. Nem Janete escapou da sobrecarga de tarefas que recai nos braços das mulheres. Dessa forma, parece surpreendente imaginar que ela passava oito horas escrevendo e se dividindo entre as tarefas da casa. 

Sinto que Janete foi um pouco eclipsada por Dias Gomes por conta da questão de gênero e da alienação. Tachá-la de escritora água com açúcar é menosprezar seu trabalho, como se o drama fosse um gênero menor. E vou além: um gênero menor e destinado às mulheres. Sim, Janete Clair gostava muito de romance, mas ela também tinha uma sensibilidade muito aguçada para falar sobre a alma humana. Por que tudo que é romântico é etiquetado como ruim? A resposta: porque é considerado feminino.

Janete Clair contou apenas com dois colaboradores durante toda a vida. É difícil imaginar o que é escrever uma novela de 200 capítulos sem colaboração. No entanto, ela fez isso durante muitos anos. Os colaboradores com quem trabalhou, os futuros autores de novela Glória Perez e Gilberto Braga, apenas surgiram em seu caminho porque ela estava no fim da vida e muito doente para terminar suas últimas novelas sozinha.

Os 70 anos da televisão jamais seriam os mesmos sem Janete Clair. Figura de tremenda importância para a história do nosso maior e melhor produto, ela continua influenciando a linguagem das telenovelas e mostra que lugar de mulher também é escrevendo, não apenas assistindo às telenovelas.

Obrigada por tudo, Janete.

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