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Vale Tudo e neoliberalismo

No mesmo ano em que nosso congresso aprovou uma nova constituição mais humanizada, o país parou para acompanhar o "Quem matou?" mais famoso de toda a nossa teledramaturgia. Exibida pela Rede Globo de maio de 1988 até janeiro de 1989, a telenovela Vale Tudo, de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, é considerada por muitos especialistas o melhor exemplar do gênero já produzido em nosso país.

Com ambientação de narrativa entre os anos de 1985 e 1988, a novela representa um período conturbado da política e economia no Brasil. A abertura política e econômica após 15 anos de Ditadura Militar, as multinacionais e o voto direto são mencionados pelos personagens constantemente, assim como a grande crise e desvalorização econômica no país. 

Raquel Accioli (Regina Duarte), uma guia de turismo de Foz do Iguaçu, tem a casa vendida pela filha Maria de Fátima (Glória Pires), que recebeu o imóvel de herança do avô. Maria de Fátima usa o dinheiro para ir para o Rio de Janeiro e iniciar uma carreira como modelo, mas a verdade é que a moça quer enriquecer sem se importar com os meios. Ainda em Foz do Iguaçu, ela conhece o modelo César (Carlos Alberto Riccelli), quem ela procura quando chega ao Rio, e logo descobre a verdade sobre o rapaz: decadente na profissão, ele trabalha como michê. Ele a apresenta a Solange Duprat (Lídia Brondi), produtora de moda da revista Tomorrow. Os dois se aproximam dela para dar um golpe em seu namorado, Afonso Roitman (Cássio Gabus Mendes), herdeiro da multinacional Grupo Almeida Roitman. 

Desamparada, Raquel vai até o Rio de Janeiro em busca da filha, que a rejeita. No bairro do ex-marido Rubinho (Daniel Filho), um pianista de bar, faz amizades e começa um pequeno negócio cozinhando para fora. Com o tempo, isso se transforma em uma rede de restaurantes. Ela se envolve com Ivan Meireles, (Antônio Fagundes), um ambicioso administrador de empresas que, ao ser empregado em um cargo abaixo de suas qualificações, arma um esquema para conseguir a atenção da diretora e dona da empresa de aviação TCA (pertencente ao Grupo Almeida Roitman), Odete Roitman (Beatriz Segall). Logo Ivan é promovido, caindo nas graças de Odete. A empresária, então, se junta a Maria de Fátima para separar Ivan de Raquel e casá-lo com sua filha Heleninha (Renata Sorrah). Assim todos conseguem o que querem: Fátima se casa com Afonso, indo morar em Paris. Já Heleninha não cai mais em crises de alcoolismo ao estar casada com Ivan. Odete pode respirar em paz. Tudo funciona por um tempo, até Maria de Fátima e Afonso voltarem ao Brasil, e Heleninha e Ivan começarem a brigar. Tanto Ivan como Maria de Fátima não medem esforços para alcançar seus objetivos: sobreviver em um momento de crise financeira e conseguir poder monetário. É esse o grande triunfo do indivíduo no neoliberalismo.

O neoliberalismo é um sistema econômico baseado na mínima intervenção do Estado/governo na economia e ganhou força a partir da década de 80. Na época em que Vale Tudo é ambientada, o mundo passava por uma onda neoliberal que se reflete na narrativa da obra. Margaret Thatcher, como primeira ministra britânica na Inglaterra de 1979 a 1990, e Ronald Reagan, como presidente dos Estados Unidos entre 1981 e 1989, são os grandes líderes da década. Eles defendiam assiduamente políticas neoliberais e de livre mercado. 

O neoliberalismo não estava tão perto do governo brasileiro na época em que se passa e é exibida a telenovela. O presidente José Sarney, que tomou posse em 1985 no lugar do então presidente eleito mas recém-falecido Tancredo Neves, teve um governo marcado por incentivos governamentais. Já Fernando Collor, o primeiro presidente eleito sob o regime democrático de voto direto, toma posse em 1990 e adota diversas medidas neoliberais. Isso não quer dizer que as ideias de livre mercado não tenham chegado ao país antes disso. Vale Tudo ilustra bem esse momento: a empresa fictícia TCA é pertencente ao também fictício Grupo Almeida Roitman, uma multinacional. O mundo das multinacionais parecia estar se abrindo para o Brasil no final da década de 1980, consolidando-se na década seguinte com os governos de Collor (1990 a 1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995 a 2002).

Vale Tudo exemplifica em seus personagens principais as relações entre indivíduos neoliberais. No neoliberalismo, a competitividade é intrínseca à forma como o indivíduo conduz a si próprio e suas relações interpessoais. O neoliberalismo demanda que as classes média e baixa, a maior parte da população assalariada, compitam entre si. Consequentemente, essa prática se infiltra nas relações sociais e interpessoais, que se espelham no modelo de mercado, promovendo cada vez mais a disparidade econômica. É uma prática que transforma o próprio indivíduo em uma empresa, já que o individualismo presente no neoliberalismo leva-o a se monetizar para ser hábil na competição. O neoliberalismo prefere a subjetividade como modelo de empreendimento e generaliza a competição como norma de conduta. No neoliberalismo, o indivíduo não é produtivo, mas ele mesmo é o produto, em oposição às teorias anteriores capitalistas de que o indivíduo deve produzir algo para ter valor. Vale Tudo mostra essa competição global em seus três personagens principais: Raquel, Maria de Fátima e Ivan Meireles. 

Todo o conflito da trama surge do choque de gerações entre Raquel Accioli e a filha Maria de Fátima. Raquel é parte da geração do pós-guerra que está ligada diretamente aos valores do período do pré-guerra. Preza imensamente pelo coletivo, relações sociais, as grandes morais. Ligada ao pai, ela acredita na mesmas normas do pré-guerra que ele: moral, família e nação. Eles se opõem diretamente ao apagamento da moral, individualismo e globalização das gerações posteriores. A mãe é completamente contra a venda da casa e a subjetividade da filha, mas perdoa Fátima constantemente por acreditar nas relações coletivas e familiares acima de tudo. Raquel acredita que o trabalho duro e árduo “enriquece o espírito humano”, ou seja, se você trabalhar muito terá sucesso no mundo econômico. Porém, não se dá conta de que o mundo em que vive é o neoliberal. É nesse ponto, antes do neoliberalismo, que Raquel se encaixa. Mesmo com todos esses sentimentos de empatia e coletivismo, ela consegue triunfar num mundo que ainda transita entre a antiga ordem e a neoliberal.

O neoliberalismo cria uma situação em que a norma geral da eficiência, aplicada ao empreendimento como um todo, é ligada aos indivíduos. Portanto, coloca a subjetividade deles para melhorar suas performances. Raquel tem que ceder à subjetividade do neoliberalismo e “emprestar” alguns mil dólares encontrados numa mala que tinha sido trocada. Consegue, assim, começar o próprio restaurante. O bem-estar pessoal e a satisfação profissional são consequências dessas performances "melhoradas". Raquel, com sua personalidade e suas crenças, consegue se adaptar ao mundo neoliberal e triunfar nele.

Já Maria de Fátima não apenas nasceu nessa sociedade como é fruto dela. Ela está completamente inserida no neoliberalismo. A personalidade, as atitudes e os pensamentos dela são atravessados pela sociedade neoliberal. Fátima manipula moral e psicologicamente a mãe em diversas ocasiões da obra. Mente que é rica para Solange, se apresenta com uma personalidade diferente para Afonso, muda conforme a necessidade se apresenta. O elemento do empreendimento está intrínseco em Maria de Fátima. Este elemento está presente no comportamento dos participantes do mercado: manipular situações para ganhar algo muito relevante em troca. Maria de Fátima e César notam o desejo de Odete em juntar Ivan e Heleninha. Assim, eles armam um plano com a empresária para separá-lo de Raquel. Dessa forma, conseguem a aprovação que Fátima se case com Afonso. Como empreendedora de si mesma, Maria de Fátima não é capitalista no antigo sentido da palavra, não produz nada nem é uma inovadora que constantemente altera as condições de produção. Ela representa uma entidade com espírito comercial em busca de qualquer oportunidade de ganho que se apresenta a ela. Tais oportunidades são conseguidas devido às informações que surgem para a moça, sem que outros não tenham acesso a elas. Maria de Fátima é definida pelas intervenções específicas nas circulações de bens (informações) que a favorecem e a ajudam a triunfar.


Fátima estuda Solange e a manipula usando um tipo de personalidade em que a produtora de moda confia. Ao competir com Solange por Afonso, Maria de Fátima aprende seus pontos fracos, armando para que ela ajude César. Afonso flagra Solange e César juntos em uma situação forjada e tem um ataque de ciúmes, o que acarreta o término do namoro com a produtora de moda. Para separar Raquel e Ivan, Fátima também se aproxima do casal para descobrir os pontos fracos do relacionamento entre os dois. Descobrir oportunidades de comprar e vender é descobrir os empreendimentos rivais que podem atrapalhar os indivíduos. Se o mercado é definido pela competitividade, cada participante busca ultrapassar outros na luta constante para se tornar líder e continuar nessa posição. É exatamente o que acontece na trama quando Solange descobre a verdade sobre Maria de Fátima: mesmo ainda casado com Fátima, Solange engravida de Afonso numa noite em que ele está bêbado.

Apesar de ser da mesma geração de Raquel, Ivan se comporta exatamente como um indivíduo da geração neoliberal. Para estar à frente de seus competidores, ele intercepta mensagens de telex, manda falsos memorandos e se passa por outra pessoa. Ivan tem todas as características de Maria de Fátima, mas não se liga à aparência do neoliberalismo. No capítulo 41 da obra, Odete Roitman e Celina (Nathalia Timberg), sua irmã, conversam sobre Ivan. Celina afirma que, apesar de trabalhador, Ivan se mostrou um pouco sem ética. Odete responde:

Mas vem falar de ética... Quem mais dá importância pra ética? Ah, ética! Nós estamos no final do século XX, Celina... Você é muito engraçada. Num país como o Brasil... Bom, eu devo dizer que é no mundo inteiro, não é? Nós, hoje, vivemos numa época de vale tudo geral! Ah, ética... O Ivan tem fibra, tem coragem, é ousado. E quem é que precisa de ética tendo uma sólida ambição profissional?
Fica clara a fácil adaptação de Ivan à sociedade neoliberal e sua inclinação ao uso da subjetividade. Ivan, segundo o princípio de que, no neoliberalismo, o sujeito é levado a fazer escolhas que são vantajosas para si mesmo, não hesita em usar o dinheiro achado por Raquel, pressionando-a a fazer o mesmo. Não há remorso ou culpa expressa por ele como existem nos monólogos da cozinheira. Assim como Maria de Fátima, Ivan tenta manipular Raquel para fazer o que ele quer, o que dá certo por um tempo. A ética que Ivan segue é a de “ajudar a si mesmo”. Se o indivíduo se torna um produto pelo qual o valor de mercado pode ser medido com precisão, o contrato salarial pode ser substituído por uma relação contratual entre “empresas pessoais”. Ivan acaba por se casar com Heleninha, fazendo com que ele exerça um papel muito maior no Grupo Almeida Roitman. O casamento entre os dois é para ele uma vantagem monetária que o faz triunfar no mundo neoliberal. Ivan aceita isso de braços abertos. Ao se separar de Heleninha, volta a ter um relacionamento com Raquel, quando essa já havia se tornado uma grande empresária. Ivan triunfa duas vezes durante a trama ao monetizar a si próprio através do casamento.


Assim como na sociedade em que é baseada, em Vale Tudo, todos os indivíduos devem se encaixar e usufruir das normas neoliberais. Os que não o fazem acabam por perecer (como o pai de Raquel e Rubinho, ambos falecendo no início da trama). Em um primeiro olhar, Raquel também pode parecer ser discordar desse pensamento, mas se adapta tanto ao modo de vida neoliberal que acaba por triunfar nele. Apesar de não usar de todos os métodos neoliberais, ela se utiliza do principal e se empreende como indivíduo, já que é seu “talento” como cozinheira que a ajuda a enriquecer. Para um pontapé inicial em seus negócios, Raquel utiliza o dinheiro encontrado, caindo na subjetividade neoliberal, embora, ao contrário do indivíduo neoliberal, ela sinta culpa e remorso ao fazê-lo.

Maria de Fátima e Ivan já estão completamente inseridos no modo de vida neoliberal que Raquel tenta evitar. Fátima, manipuladora, subjetiva, e empreendedora de si mesma é o exemplo perfeito do indivíduo neoliberal e da competitividade com que age nesse sistema de sociedade. Ivan também é competitivo, embora menos subjetivo que a nora. Porém, ainda assim, se utiliza dessa subjetividade quando lhe convém. Não é manipulador, o que faz com que não pareça tão inserido assim nessa sociedade, porém, empreende a si próprio como todos os outros personagens da trama.

Raquel, Maria de Fátima e Ivan são indivíduos neoliberais ou adaptados a viver e triunfar na sociedade neoliberal, mesmo quando não o querem ser. Mas eles são apenas um microcosmo da sociedade de Vale Tudo, em que todos os personagens são igualmente, com maior ou menor grau, subjetivos, manipuladores e empreendedores de si mesmos.



Texto: Maria Raquel
Imagem de destaque: Sofia Lungui 
Jessica
Tradutora e apaixonada por pesquisar sobre temas obscuros, sejam telenovelas ou peças de teatro perdidas por aí. Gosta de passar o tempo revirando o Arquivo Nacional em busca de novas descobertas ou lendo sobre a Old Hollywood. Parece séria, mas adora ouvir Gretchen sozinha na sala.

Comentários

  1. Nossa, adorei! Nunca assisti à novela, mas é como se o tivesse feito. Nesse mundo de hoje onde temos influencers digitais, mimos, parcerias com empresas e venda da própria imagem, parece que seu texto não é sobre a novela, mas sobre aplicativos audiovisuais. Além disso, estamos acabando com os direitos trabalhistas e trocando o termo "empregado" por "colaborador", maquiando a real relação entre essas multinacionais e o trabalhador MEI. Essa linha tênue entre individualismo e individualidade é perigosa. Eu mesma sou fruto de minha época e ler esse texto me fez querer dar um passo para trás e enxergar a paisagem de uma forma mais macrocósmica. Amei!

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