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The Inner Light: como o Oriente influenciou o legado de paz e amor dos Beatles

Minha relação com os Beatles começou na pré-adolescência com um DVD que minha mãe tinha em casa, um daqueles compilados de vários videoclipes de músicas antigas que as pessoas chamam de flashback. Help! era um dos videoclipes do DVD, e eu me lembro de colocar ele em repeat várias e várias vezes até a música grudar na minha cabeça. Eu devia ter uns catorze anos na época e não fazia ideia de quem eram os Beatles, nem do tamanho da dimensão deles, eu só sei que Help! se tornou uma das minhas músicas favoritas nessa época e também representa o momento em que a música dos quatro garotos de Liverpool me encantou pela primeira vez. 

Durante a minha adolescência, tive contato com outras músicas da banda, mas foi na minha juventude (começo dos meus vinte e poucos) que os Beatles passaram a ser mais do que apenas uma banda clássica de rock and roll. Foi quando eu caí na toca do coelho e lá encontrei quatro seres fantásticos que mudaram as pessoas e o mundo para sempre. Até hoje acho surreal que pessoas como eles realmente existiram e existem. Passei a querer me aprofundar mais e mais sobre o mito de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, sobre a filosofia de vida deles e sua arte, e quanto mais eu descubro, mais tenho a plena certeza de que nunca existiu ninguém como eles. 

E não quero soar como uma beatlemaníaca (mesmo sendo só um pouquinho), mas me sinto extremamente envolvida pela aura mística que envolve a história dessa banda, é tudo simplesmente maravilhoso, suas músicas tocaram em uma parte de mim que nenhuma outra banda foi capaz de tocar, e eu não espero que todo mundo entenda isso, porque até para mim é bastante complicado explicar o motivo do meu amor por esses quatro caras que eu nunca vou conhecer na vida. E eu digo amor, porque é isso mesmo, eu sinto amor por eles, eu sinto o amor que eles sempre defenderam e tentaram transmitir através de suas músicas, o legado dos Beatles é acima de tudo um legado de amor. 

A banda dos corações partidos do Sargento Pimenta 

Esse legado começou a ser construído no momento mais particular da carreira deles, quando tiveram contato com a religião e elementos da cultura indiana e passaram a incorporar esses elementos em suas vidas e consequentemente em suas músicas. Sem dúvidas, o contato com o Oriente foi algo extremamente enriquecedor para a banda e para a música popular, consequentemente. É notável a mudança nos álbuns da banda e neles próprios quando eles se conectam com o pensamento e a cultura oriental. 

Podemos ter como ponto inicial desse contato dos Beatles com o Oriente, as gravações do filme Help! em 1965, onde George Harrison conheceu alguns músicos indianos que participavam de uma cena, e foi onde ele descobriu a cítara; o instrumento indiano despertou um enorme encantamento em George, que logo se propôs a aprender a tocá-lo, através dos ensinamentos do músico indiano Ravi Shankar, que seria seu mentor na cítara e grande amigo por toda a vida. Depois de aprender a tocar o instrumento, George passou a incorporá-lo nas músicas dos Beatles, além de outros instrumentos indianos como a tabla. Podemos ouvi-los em Norwegian Wood e Tomorrow Never Knows, que pertencem aos álbuns Rubber Soul (1965) e Revolver (1966), respectivamente. 

Os Beatles em 1967. Foto: David Magnus

Começava então, uma fusão entre o Oriente e o Ocidente e uma verdadeira revolução musical jamais vista. Foi nessa época que os Beatles decidiram parar de se apresentar ao vivo, eles já vinham com essa ideia na cabeça há um bom tempo e finalmente tiveram a coragem de tomar a decisão, pois naquela época parar de fazer tours e shows ao vivo significava um suicídio comercial. Mas eles estavam extremamente exaustos da beatlemania, se apresentar ao vivo já não representava uma alegria para eles, porque perceberam que seus fãs histéricos pouco se importavam com suas músicas, e eles queriam que, acima de qualquer coisa, sua música fosse ouvida. A partir daí, a banda apenas trabalharia em estúdio produzindo seus álbuns, e seu último show ao vivo seria o histórico show no telhado de sua empresa, a Apple Corps, em janeiro de 1969, pouco antes de se separarem.  

Com o fim da beatlemania e se dedicando apenas à produção no estúdio, os Beatles encontraram uma certa liberdade artística que culminaria no experimental e icônico Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado em maio de 1967, e que exprime bem o sentimento da banda de estarem cansados de si mesmos ao criarem alter egos, uma outra banda. A ideia de uma banda fictícia veio de Paul McCartney, depois de uma viagem de férias na África em novembro de 1966: 

“E de repente, no avião, eu tive esta ideia: “Vamos deixar de ser nós mesmos. Vamos desenvolver outros alter egos para não ter que projetar as personas que conhecemos. Seria uma coisa mais livre. O realmente interessante seria assumir a imagem dessa outra banda”.

Com este álbum, os Beatles revolucionaram mais uma vez (e não seria a última) a história da música e da cultura pop. Sgt Pepper's é um marco da década de 1960, muitas vezes eleito o melhor álbum de todos os tempos, é conhecido como o primeiro disco conceitual recheado de experimentações musicais inovadoras e de uma hibridização cultural entre o oriente e o ocidente, além de mostrar a fantástica evolução artística da banda. Podemos ver a genialidade deles em cada uma das treze canções do álbum permeadas por temas como amizade, solidão, fantasia, otimismo, drogas, tolerância, nostalgia, romantismo, ficção e realidade. 

Também foi o primeiro disco a trazer as letras impressas na contracapa, a ter capa dupla, a ser vendido com brindes, a ter uma capa cuidadosamente produzida, onde podemos encontrar um mosaico com algumas figuras históricas que eram as inspirações do grupo: figuras da cultura de massa (Fred Astaire, Marilyn Monroe, Marlon Brando etc.) misturadas com imagens da alta cultura  (Edgar Allan Poe, Oscar Wilde, H.G. Wells, Aldous Huxley, Lewis Carroll etc); a cultura ocidental (a grande maioria das imagens) ao lado da cultura oriental (religiosos e líderes indianos); música pop (Bob Dylan, os Rolling Stones e os Beatles, sim, eles mesmo como bonecos de cera com o antigo visual de terninho e cabelinho de tigela) e a música erudita de vanguarda (Karlheinz Stockhausen); a geração Beat (William Burroughs) e a revolução social que os anos 60 mantinham no horizonte (Karl Marx), compondo a contracultura da época; a racionalidade ocidental (Albert Einstein) ao lado da espiritualidade oriental (uma série de “gurus” da Índia), o ocultismo (Aleister Crowley) e a psicanálise (Carl G. Jung), todo mundo ali junto e misturado. 

A capa icônica de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band.

Enquanto a cítara chora gentilmente 

Foi com Sgt Peppers que os bafafás sobre o envolvimento da banda com as drogas começou a ficar mais forte, pois os conservadores acreditavam que o álbum promovia uma mensagem de apologia às drogas, o que levou à censura da música A day in the life na BBC de Londres e a uma tentativa de censura de With a little help from my friends nos EUA pelo então vice-presidente norte-americano Spiro Agnew. Segundo Geoffrey Stokes, jornalista americano que pesquisa sobre os Beatles, os conservadores da época de lançamento do Sgt Peppers acreditavam que o álbum e os Beatles seriam “[...] os flautistas mágicos a criar promiscuidade, uma epidemia de drogas, consciência de classe para os jovens e uma atmosfera propícia à revolução social”. E de fato, os Beatles nunca esconderam que usavam e eram influenciados pelas drogas, chegando a falar abertamente sobre o LSD. Eles viviam no auge da descoberta do LSD como uma droga que seria capaz de expandir as fronteiras da mente, e eles como bons jovens hippies dos anos 60, não se excluíram dessas experimentações. 

Apesar da experiência com o LSD ter aberto as mentes da banda para novas experimentações artísticas, a droga ainda não era capaz de responder muitas questões espirituais que vieram com seu uso. Então, eles partem para a Índia em busca destas respostas espirituais. George foi o primeiro a viajar para a Índia, em setembro de 1966, para se aperfeiçoar na cítara, instrumento que já vinha tocando magistralmente em várias canções da banda, e a partir do contato com a cítara e Ravi Shankar, George passa a se interessar cada vez mais pela cultura e pela religiosidade indiana. O Quiet Beatle, como foi apelidado pelos fãs por causa de seu caráter reservado, foi o grande responsável por influenciar seus companheiros de banda a viajarem para a Índia, a fim de se encontrarem espiritualmente. George sempre foi considerado como o mais espiritualizado da banda, o que mais se interessava por religião, o “místico do grupo”, na Índia ele se encontra espiritualmente, através dos mestres e suas obras, baseadas nas escrituras sagradas milenares da Índia, país que visitou várias vezes durante sua vida. 

Os Beatles na Índia

No documentário dirigido por Martin Scorsese sobre a vida de George Harrison, Living in the material world (2011), podemos ver como era a relação dele com sua espiritualidade e de como ela o guiou por toda a sua vida, ajudando-o a ser uma pessoa melhor para o mundo e para as pessoas. Em um momento do documentário, George comenta sobre a sua relação com a Índia e de como os ensinamentos que aprendeu durante duas viagens, o ajudaram a nutrir seu espiritual: 

“Ravi e a cítara era como uma espécie de desculpa para tentar encontrar essa conexão espiritual. Eu li coisas de vários homens santos e Swamis e místicos e eu viajei e os procurei. Ravi e seu irmão me deram livros de alguns sábios. Um dos livros de Swami Vivekanda, dizia: ‘Se há um Deus você deve vê-lo, e se há uma alma, devemos percebê-la. Caso contrário é melhor não acreditar. É melhor ser um ateu sincero do que um hipócrita’. E por toda a minha vida tenho sido educado… Bem, eles tentaram me tornar um católico. Eles diziam para você apenas acreditar no que eles diziam e não para ter uma experiência direta. Para mim, ir para a Índia e ouvir alguém dizer: ‘você não pode acreditar em alguma coisa até que tenha uma percepção clara dela’. E eu pensei: Uau, fantástico! Finalmente encontrei alguém que faz sentido. Então eu queria me aprofundar cada vez mais.”
 

Neste documentário, George também fala sobre sua experiência com psicodélicos e de como uma situação que vivenciou em Haight-Ashbury o influenciou a parar de tomar LSD: 

“Quando fui para Haight-Ashbury, esperando que fosse um lugar genial, achava que encontraria um pessoal meio cigano, com pequenas lojas, criando arte, pinturas e esculturas. Mas em vez disso, vi que eram apenas um bando de vagabundos. E muitos deles eram muito jovens vindos de toda a América, caindo no ácido e ido a esta Meca do LSD. Andávamos pela rua e me tratavam como o messias ou algo assim. Fiquei assustado, porque pude ver jovens cheios de espinhas ainda sob a influência da Beatlemania, mas com uma visão deformada. E as pessoas me entregavam coisas, como um grande cachimbo, um grande cachimbo indígena, com penas. E livros, incenso e todo tipo de coisas, e tentando me dar drogas e eu dizia: 'Não, obrigado, eu não quero.' Fomos andando cada vez mais rápido pelo parque e no fim dissemos: 'Vamos cair fora daqui.' Voltamos para o aeroporto, pegamos o jato e assim que ele decolou, entrei na cabine, e o painel todo iluminado, dizendo ‘inseguro’, bem em frente. Isso certamente me mostrou o que estava realmente acontecendo no culto às drogas. Não era o que eu pensava, com pessoas legais, ficando... Despertando espiritualmente e sendo artísticos. Era como qualquer outro vício. Nesse momento, parei de tomar LSD. Foi quando parti para a meditação.”

Assim, George vai em busca da meditação transcendental na Índia e leva consigo na mala John, Paul e Ringo em uma viagem que mudaria para sempre os rumos da banda e da música popular. No início de 1968, eles partem para a Índia, acompanhados de suas esposas, companheiras e amigos, com o objetivo de estudar meditação transcendental por dois meses em um curso oferecido pelo guru indiano Maharishi Mahesh Yogi. Eles trocaram a vida de rockstars europeus pelo pacifico e humilde retiro espiritual às margens do rio Ganges. O retiro trouxe paz para os quatro, novas percepções sobre si mesmos e sobre o mundo, além de inspirar mais de trinta novas canções, que seriam lançadas nos álbuns posteriores. A meditação aprendida na Índia os acompanharia por toda a vida, pois eles nutriam uma relação de extrema reverência para com a cultura indiana, como afirma Marcelo Henrique Violin, em seu artigo sobre George Harrison e o movimento Hare Krishna

“Investigando suas viagens a esse país e o modo como se relacionavam com sua cultura e religiosidade concluí que eles se aproximaram da cultura indiana com respeito, tolerância, compreensão e alteridade.”
  

Amor: tudo de que precisamos 

Quando voltaram da Índia, os Beatles logo trataram de compartilhar os conhecimentos adquiridos com o resto do mundo, através de sua arte e de seus posicionamentos. Eles sabiam da enorme influência que possuíam como a maior banda de rock do mundo, e tão logo começaram a emitir mensagens a favor da paz, do amor e da tolerância, a juventude logo entendeu a mensagem, e a partir daí, os Beatles seriam um dos ícones do movimento hippie com seu flower power, liderando uma juventude que ansiava por mudanças e que estava cansada das injustiças sociais, seu slogan era "Faça amor, não faça guerra”. Esse slogan pode soar meio brega hoje em dia, mas nos anos 60 fazia muito sentido, principalmente para os quatro garotos de Liverpool, que literalmente brincavam nos escombros que restaram de quando seu bairro foi bombardeado na Segunda Guerra Mundial. 

Ringo chegou a relatar em algumas entrevistas que se escondia no porão com sua família enquanto os bombardeios aconteciam. Pode-se imaginar a angústia que sentiam ao saber que as guerras continuavam a acontecer tantos anos depois, e tudo o que eles podiam fazer era pedir que as pessoas dessem uma chance à paz, eles acreditavam muito na humanidade e na sua capacidade de transformação pelo amor e  pela paz, por isso assumiram esse posicionamento por toda a vida, como ainda podemos notar no Instagram de Ringo Starr, por exemplo, onde ele sempre acrescenta #peaceandlove em todos os seus posts, e recentemente, chegou a pedir que seus fãs publicassem posts a favor da paz e do amor no dia de seu aniversário, um fofo. 


O fato é que os Beatles participaram de uma missão que consistia em espalhar a paz e o amor pelo mundo através de suas músicas, uma situação que representa essa missão foi quando eles foram escolhidos para representar a Inglaterra na primeira transmissão mundial via satélite. Poderiam ter cantado qualquer um de seus clássicos, mas optaram por uma composição nova feita para aquela ocasião, uma música sobre amor, que todos precisamos em nossas vidas. John compôs All you need is love, canção que representava o espírito daquela época que respirava por transformações e renascimentos. E eles realmente pregaram uma religião que tinha o amor como Deus, sendo essa a maior temática de suas músicas, como certa vez, confirmou Paul: 

“Fico muito contente porque a maioria das canções falava de amor, paz, compreensão. Dificilmente há alguma que diga: 'Vamos lá, garotada. Digam a todos para caírem fora. Abandonem seus pais'. É sempre 'tudo o que você precisa é amor' ou 'dê uma chance à paz', de John. Havia um espírito bom por trás de tudo, do qual me orgulho muito. Seja como for… os Beatles eram uma coisa grandiosa.”

Eles tinham uma enorme esperança na raça humana, e deixaram de ser os quatro garotos de Liverpool para se tornarem cidadãos do mundo, sempre se mostrando dispostos a contribuir com qualquer mudança que resultasse na possibilidade de um mundo melhor para a humanidade, com John participando dos protestos contra a guerra no vietnã nos anos 70, momento que lhe inspirou a composição de Give peace a chance, um hino que é cantado até hoje em manifestações pacifistas. George também foi o criador do festival de música beneficente com o Concerto para Bangladesh, realizado em 1971, onde reuniu estrelas do rock como Eric Clapton, Ringo e Bob Dylan para arrecadar fundos para ajudar as pessoas que estavam sendo assoladas pela fome e pela miséria em Blangadesh. George também foi convidado, 24 anos depois, para ser consultor do Live Aid, festival que buscou amenizar a fome na Etiópia. 

Depois de todo esse tempo, eles ainda não me deixam esquecer que todos vivemos em um submarino amarelo e que, portanto, devemos ter atitudes que nos beneficiem e ao próximo. Eles me ensinaram a ver a beleza do mundo de um jeito fantástico e a ficar frustrada com as pessoas que não conseguem ver o mundo dessa forma, que ignoram a beleza, que esquecem de viver no aqui e agora e que vivem apenas no automático, que vivem de um jeito individualista e intolerante. Eu mesma me esqueço às vezes de viver no aqui e no agora, e quando isso acontece, eu coloco a música deles de novo e me recordo de tudo, fico em paz com eles me dizendo que lá vem o sol novamente; ou quando eu deixo que eles me peguem pela mão e me levem para os eternos campos de morango cheios de amor, paz e tolerância.


Texto: Milena Machado
Arte em destaque: Sofia Lungui
Milena
1997. Maranhense de nascença e piauiense de coração. Estudante de letras, mãe de planta e filha perdida da Mary Shelley. Também é o tipo de pessoa que não sai de casa sem levar um livro na bolsa.

Comentários

  1. Ahh eu adorei esse texto! Confesso que já fui mais fã de Beatles, mas sinto um carinho enorme pela banda!

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