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Memória e vida eterna em A morte lhe cai bem


A morte lhe cai bem
(Death becomes her) é um filme de 1992, dirigido pelo prestigiado Robert Zemeckis (De volta para o futuro e Forrest Gump) e estrelado por Meryl Streep, Goldie Hawn e Bruce Willis em uma performance surpreendente e diferente para quem atuava apenas em filmes de ação à época. A trilha sonora ficou a cargo de Alan Silvestri, que opera um trabalho impecável, especialmente na música de abertura e nas cenas de tensão, colaborando para criar o clima macabro e cômico do filme.

O filme conta a história de Madeline Ashton (Meryl Streep) e Helen Sharp (Goldie Hawn) que, apesar de se conhecerem e manterem certo contato desde a infância, são declaradamente ini-amigas ("ini-amigas" é um termo utilizado na internet para nomear pessoas que são oficialmente amigas, mas na realidade são inimigas). Em diversas cenas em que as personagens se encontram, ao se cumprimentarem elas dizem os nomes uma das outras como Mad e Hel que é a abreviação de seus nomes, mas soam como "louca" (mad, em inglês) e "inferno" (hell, em inglês).


O filme começa com Madeline atuando num musical, em um teatro que se esvazia a cada minuto devido às suas canções desinteressantes e sua atuação fraca. O único deslumbrado com a performance é o cirurgião plástico Ernest Menville (Bruce Willis), noivo de Helen, esta que analisa seu pretendente com desconfiança diante de tanta empolgação. Após o final da peça, Helen e Ernest visitam o camarim de Madeline que, para recebê-los, incorporou seu eu mais sedutor e extravagante. Helen, que por sua vez é tímida, reservada e sonha em ser escritora, se constrange com a atitude da amiga, sobretudo porque nota o flerte entre ela e Ernest. O resultado é que Madeline rouba, pela terceira vez, o namorado de Helen e se casa com Ernest, um homem que a venera e alimenta sua soberba.

Sete anos avançam no tempo e descobrimos que a vida de Helen foi destroçada pela decepção de perder seu noivo para Madeline. O filme a retrata como tendo engordado muitos quilos, morando em um apartamento pequeno, totalmente sujo e cheio de gatos, até que, por não pagar mais o aluguel, é expulsa do local onde vive e encaminhada a uma instituição psiquiátrica. É importante dizer que engordar não é um sinônimo de desatino emocional, como retratado no filme, mas, além de estarmos falando de uma obra antiga, também devemos considerar o fato de que a história, nesse ponto, trata sobre padrões de beleza e que o corpo magro, não o gordo, é considerado como o ideal sob essa ótica.

Mais sete anos transcorrem e somos apresentados ao matrimônio de Madelaine e Ernest. Mad é amarga e maldosa, e atua em uma rotina monótona com a ajuda de sua empregada doméstica de anos que lhe serve café da manhã na cama, além de proferir linhas decoradas de elogios à patroa. Na ocasião, recebe um convite para a sessão de autógrafos do lançamento do livro Sempre Jovem, de Helen Sharp. É impossível não traçar um paralelo entre Mad e Norma Desmond, de Crepúsculo dos Deuses: ambas vivem em suas mansões sob a sombra de passados gloriosos no showbizz, com um mordomo fiel que embarca em suas encenações e, como cachorros esfomeados, não conseguem largar o osso da vaidade e do ego. Ernest, por sua vez, descontente e infeliz no casamento, encontrou no álcool seu consolo e, como resultado, adquiriu uma tremedeira nas mãos que o impediu de continuar atuando como cirurgião plástico, levando-o a trabalhar como tanatopraxista. É interessante notar a presença do mármore na mansão de Madelaine, que representa não apenas suntuosidade, mas também remete à morte de certa maneira, já que é um material largamente utilizado para construção de lápides. Em outros ambientes do filme, o mármore também é apresentado, e até mesmo o pôster da obra parece fazer referência ao material.

Para comparecer na festa de Helen, Mad vai até uma clínica de estética onde sempre faz procedimentos e implora para a esteticista aplicar uma técnica específica em sua pele que a faz aparentar ser mais jovem. A profissional se recusa, pois ainda não havia passado o prazo mínimo desde que Mad havia se submetido ao procedimento pela última vez e não era seguro realizá-lo novamente. Irritada, Mad briga com a funcionária e, no meio de seu drama, é surpreendida por um homem misterioso e estranho com um cacoete nos olho, aparentemente dono da clínica, que lhe entrega um cartão de visitas com endereço de Lisle von Rhuman (Isabella Rossellini, filha da imortal Ingrid Bergman), a pessoa que pode dar o que Mad procura.


Ernest e Mad comparecem à sessão de autógrafos de Helen e mal conseguem disfarçar a surpresa quando notam que Hel está esbelta, jovem e completamente sedutora em um vestido vermelho com uma fenda na perna, autografando livros e dando dicas sobre juventude. Entre as formalidades fingidas de sempre, os três se cumprimentam, Helen flerta com Ernest e lhe conta do amante da esposa enquanto se finge de amiga de Mad. Após voltarem para casa, Mad, aborrecida e com inveja da beleza e vitalidade de sua ini-amiga, sai para encontrar seu amante de vinte e poucos anos e, ao perceber que ele estava com uma garota tão jovem quanto ele, se aborrece sobretudo quando ele diz que ela deveria procurar alguém de idade compatível.

Assim como álcool, lágrimas e direção também não combinam, e, após quase provocar um acidente de carro em meio a uma crise de choro em uma noite chuvosa, Mad decide procurar a tal Lisle. No endereço indicado no cartão de visitas, Mad encontra uma mansão extravagante e é recepcionada por homens jovens, com o abdômen à mostra, que a levam até Lisle, uma jovem mulher misteriosa e levemente esquisita, enrolada em uma canga da cintura para baixo e com os seios cobertos por um colar gigante. Lisle informa que está na cidade por um curto período de tempo, já que muda de local em local periodicamente seguindo a primavera. Após um discurso enigmático sobre a crueldade do tempo e da existência que nos oferece uma amostra da juventude e da vitalidade, e depois nos faz testemunhas de nossa próprias decadência (Life “offers us a taste of youth and vitality, and then it makes us witness our own decay”), Lisle retira de dentro de uma caixa, semelhante a um sarcófago, adornado de pedras, cores vibrantes e a Cruz de Egípcia, ou Ankh, uma espécie de ovo que se divide em dois, e guarda uma ampola com um líquido rosa. Após uma breve demonstração de como o produto, quando absorvido pelo corpo, o rejuvenesce instantaneamente, Mad não pensa duas vezes e compra, por um valor exorbitante, a poção mágica, bebendo todo o conteúdo da ampola ali mesmo. Lisle comunica que Mad deve permanecer apenas mais dez anos no showbizz e depois deve desaparecer, para que não notem que ela não envelhece, bem como deve cuidar de seu corpo, pois permanecerá com ele por muito tempo, e lhe entrega um broche, aparentemente de ouro, em formato de golfinho com uma margarida na ponta do nariz. 

Antes mesmo de abandonar a mansão, Mad nota que seus seios e glúteos estão firmes novamente, como quando era jovem, sua pele não possui mais manchas ou rugas e seu cabelo está brilhante como nunca. Nessa cena, vemos várias referências ligadas à ideia de beleza e vida eterna. O golfinho é ligado a Vênus, portanto à beleza e à juventude, assim como a margarida, que somados ao fato de Lisle seguir a primavera, também pode ser lida com um símbolo de regeneração. A Cruz Egípcia, por sua vez, é a chave da vida, a eterna vivência e o elo entre o mundo dos vivos e dos mortos entalhada em um sarcófago que contém um ovo, símbolo da vida e renascimento, ou seja, é preciso morrer para nascer novamente. A notável quantia em dinheiro paga por Mad pela poção mágica é um sintoma da modernidade pois, ainda que na história da humanidade as pessoas sempre tenham demonstrado preocupação com o corpo físico, é apenas agora que passamos a investir capital em clínicas de estética, academias e cirurgias plásticas, por exemplo.

Durante a escapada noturna de Mad, Helen vai até sua mansão e encontra Ernest sozinho, aproveita a oportunidade para tentar seduzi-lo e o convence a executar um plano para matar sua esposa a fim de ficarem com sua fortuna e, claro, juntos. A princípio, Ernest recusa, mas acaba sendo convencido. Ao retornar para sua casa, Mad encontra Ernest bêbado e nem desconfia do que acontecera, visto que Hel já tinha ido embora. No topo da enorme escadaria da mansão, Ernest e Mad brigam, o que resulta nela rolando escada abaixo e quebrando o pescoço. Poucos minutos após o incidente, Mad se levanta com o pescoço totalmente virado para suas costas, algo impossível para um ser humano vivo fazer, e anda normalmente pela casa. Por essa e outras cenas, o filme levou o Oscar e o BAFTA, ambos de Melhores Efeitos Visuais, em 1993.


Hel retorna à mansão do casal, já que Ernest a tinha telefonado para contar que Mad estava morta, mas se surpreende ao descobrir que sua rival não apenas está viva, como também lhe acerta um tiro de espingarda. Porém mesmo após ser atingida e ter um enorme buraco aberto em sua barriga, Hel se levanta e anda normalmente. Ao juntar as peças do quebra-cabeça, Mad conclui que Helen também tomou a poção, o que confirma ao encontrar o broche em suas roupas. Em uma sutil referência a De volta para o futuro, Helen diz que tomou o elixir da vida eterna em 26 de outubro de 1985, data da primeira viagem da dupla McFly e Dr. Brown.

Quando descobrimos que as duas estão mortas, faz sentido o fato de não envelhecerem, afinal de contas, morre-se com uma idade certa que não se altera, é como um congelamento temporal. O corpo se decompõe após a morte e embora a velhice, de certa forma, seja um processo de deterioração, é evidente que as reações são diferentes: na velhice, o indivíduo continua sendo quem é, apenas um pouco mais debilitado fisicamente; na morte, o sujeito passa por um total processo de transformação até não restar nada do que foi um dia. A morte ainda tem uma vantagem em relação à velhice porque os corpos podem ser conservados por muito mais tempo, vide os inúmeros exemplos de múmias egípcias. Certamente a Cruz de Ankh e a profissão de Ernest não são mera coincidência no roteiro.

Após uma briga ferrenha e de acertar as feridas do passado, Hel e Mad decidem que não há razão para continuar alimentando a rixa e seria mais lógico se unirem. Seus corpos, embora imortais, podem se deteriorar e sofrer acidentes se não forem cuidados devidamente, e ninguém melhor do que Ernest para realizar essa manutenção. Ele concorda em ajudá-las uma última vez e depois declara que vai abandonar as três: a ex, a atual e a bebida. Com medo de não encontrar alguém tão talentoso quanto ele para cuidar de seus corpos, elas o levam até uma festa que Lisle está promovendo para o fazer tomar a poção. Na festa, vemos personagens icônicos da cultura pop, como Marilyn Monroe, Andy Warhol, Elvis Presley, James Dean e Jim Morrison, sugerindo que eles também tomaram o líquido rosa e, apesar de oficialmente mortos, continuam vivos. Ernest se recusa a tomar a poção, e após uma perseguição emocionante, consegue fugir.

Do ponto de vista médico, nem todo tipo de morte implica necessariamente na ausência de vida. A todo momento, diversas células morrem e se regeneram, assim como é possível sobreviver sem a presença de alguns órgãos. Um infarto do miocárdio é algo que pode ser revertido, se detectado a tempo, já que há uma evolução do quadro até a fatalidade. Assim, a morte pode ser lida como um processo que só opera a partir de um ponto de não-retorno em que o sujeito perde sua capacidade de existir e sua identidade como um todo. De certa forma, é o que acontece com as personagens, pois não há possibilidade de reversão de suas condições imortais, bem como precisam abrir mão, de certa forma, de possíveis outros interesses a fim de cuidar de seus corpos.

No sentido filosófico, cabe uma singela análise sobre a mitologia grega. Dentro do reinado de Hades, o deus do submundo, as almas precisam atravessar o rio Lete, o esquecimento, cujas águas correm nas cavernas de Hýpnos, o sono, que, por sua vez, é irmão de Thanatos, a morte encarnada. Durante a travessia, as almas devem beber as águas do rio Lete para se esquecerem do mundo dos vivos, vislumbrando assim sua nova morada. Em frente a Lete, correm as águas do rio Mnemosyne, a memória, da qual as almas também devem beber para que sejam capazes de recordar da sua existência na vida após a morte, completando finalmente a transição do mundo dos vivos para o mundo dos mortos. Assim, vemos associados a um mesmo evento, Thanatos, a morte, Lete, o esquecimento, e Mnemosyne, a memória, demonstrando que a morte física não significa o fim da vida, pois, se o sujeito permanece na memória dos vivos, por consequência ele continua a viver. O aniquilamento da existência é compensado pela memória, morrer é ser esquecido pelos vivos. Os famosos presentes na festa ajudam a dar esse sentido já que, embora tecnicamente estejam mortos, seus feitos e desfeitos continuam a ser comentados e seus perfis apresentados às novas gerações - não é à toa que usamos o bordão "Elvis não morreu" até hoje.

A cena final do filme acontece trinta e sete anos depois do baile de Lisle, durante o enterro de Ernest, que casou-se, teve filhos e se tornou um homem ativo e reconhecido na comunidade. O padre que dirige a cerimônia afirma que o falecido descobriu o segredo da vida eterna, pois sempre estará vivo no coração de amigos e família. Essa é a grande ironia do filme: Ernest, apesar de recusar o elixir da vida eterna, se tornou imortal, enquanto que suas duas ex, ainda que tomando a poção, encontraram a morte e o esquecimento.

Mad e Helen, totalmente deformadas, já que não cuidaram de seus corpos devidamente, comparecem ao enterro e, durante uma briga na frente da igreja, caem de um lance de escadas, se espatifando, literalmente, no chão, embora continuem vivas. Esse ato final permite pensar em uma espécie de ressignificação da morte na modernidade. É evidente que todas as sociedades possuíam conhecimentos a respeito de remédios para curar doenças mortais, mas a institucionalização da medicina e a medicalização permitiu adiar a morte física em escala nunca antes vista. De certa forma, Mad e Hel ingerem um remédio, uma fórmula mágica para alcançar a eternidade que, como em uma piada obscura, as permite morrer e continuar vivas. A obra é um delicioso exagero estético macabro que evoca a misticidade da noite, o clima medonho de tempestades, trovões, necrotérios, igrejas, piadas tragicômicas e prova que a morte, às vezes, cai bem.


Referências

  • A morte lhe cai bem - reconsiderando o significado do mobiliário funerário na construção do prestígio Social (Camila Diogo De Souza)
  • Morte: considerações para a prática médica (Antonio Pazin Filho)
  • Juventude e morte: representações na contemporaneidade (Andrea Silvana Rossi)




Arte em destaque: Caroline Cecin 

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