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Wuthering Heights e Allerdale Hall: casas que respiram


A Colina Escarlate é um filme estadunidense lançado em 2015 e dirigido por Guillermo del Toro, também um livro de mesmo nome da autora Nancy Holder, publicado no Brasil no mesmo ano. A história segue a jovem Edith Cushing (Mia Wasikowska), que vive na cidade de Nova York com o pai no início do século XX e sonha em ser escritora. Tudo muda quando Edith conhece o baronete inglês Sir Thomas Sharpe (Tom Hiddleston) e sua irmã Lady Lucille Sharpe (Jessica Chastain). Edith se apaixona pelo sedutor e misterioso Thomas, e após a morte misteriosa de seu pai, se casa com Thomas e se muda para sua propriedade na Inglaterra, a enigmática e isolada Allerdale Hall. A grandiosa casa encontra-se em cima das minas de argila vermelha da família Sharpe, fazendo com que o solo muitas vezes fique tingido de vermelho, o que lhe confere o nome de Colina Escarlate - até mesmo os fantasmas que habitam na casa possuem tons de vermelho.

"Colina Escarlate. É como chamam aqui. A argila vermelha do solo sobe e mancha a neve. Fica tudo vermelho, por isso 'colina escarlate'."


Apesar dos fantasmas que residem em Allerdale Hall, e o próprio fantasma da mãe de Edith, que quando criança a alertou para tomar cuidado com A Colina Escarlate, o filme não é necessariamente uma história de terror e sim um romance gótico, como foi dito pelo próprio Del Toro:

"'Crimson Peak' não é realmente terror, é um romance gótico. Os vitorianos o chamavam de terror agradável; é mais atmosférico do que chocante. O primeiro filme que vi foi 'Wuthering Heights' aos quatro anos, e sempre adorei essa mistura de melodrama com atmosfera sobrenatural. [...] Na época, o gótico era considerado muito atrevido e muito violento. Mas sim, eu queria atualizá-lo, quebrar algumas das convenções. Por exemplo, minha personagem principal é uma jovem forte, ela não precisa ser virgem e pura para sobreviver. E eu não queria que ela fosse resgatada no final por um jovem arrojado!"

A ligação entre A Colina Escarlate e O Morro dos Ventos Uivantes é evidente. Não apenas por serem romances góticos, mas também pelas similaridades da trama, seja pelas residências fantasmagóricas que se tornam personagens tão importantes como também na relação obsessiva entre os personagens principais; Heathcliff e Catherine no romance de Emily Brontë e Thomas e sua irmã Lucille no filme de Del Toro.

"Fantasmas são reais. Disso eu tenho certeza."
(A Colina Escarlate)

O Morro dos Ventos Uivantes


Publicado pela primeira vez em 1847, O Morro dos Ventos Uivantes foi o único romance da autora inglesa Emily Brontë. Desde seu lançamento a história de Emily recebeu críticas pelo conteúdo da trama ser muito "violento e grotesco", principalmente pelo seu protagonista, que também tem todas as características de um vilão, e sua relação com Catherine Earnshaw, filha de seu pai adotivo, com a qual desenvolveu uma relação de dependência desde a infância. As críticas ao romance não levavam em consideração os recortes sociais e raciais que Emily incluiu em sua história, principalmente em seu personagem central, transformando Heathcliff em um dos personagens mais complexos e emblemáticos da história da literatura.

"Havia tanta angústia na torrente de dor que acompanhava aquele delírio que a compaixão me fez esquecer sua loucura e me afastei, um pouco zangado comigo mesmo por ter escutado tudo aquilo, e envergonhado por ter relatado meu ridículo pesadelo, já que causara tanta agonia – embora o porquê estivesse além da minha compreensão."

(O Morro dos Ventos Uivantes)

Emily Brontë

Num primeiro momento, Emily Brontë publicou seu livro sob o pseudônimo masculino de Ellis Bell, mas quando sua verdadeira identidade veio à tona, outra questão começou a ser discutida a respeito de sua história: é uma história de amor? A resposta que Emily dá é: isso não importa. Edith Cushing, assim como Emily, pensa em usar um pseudônimo masculino e acha melhor datilografar seu romance ao invés de escrever a mão, pois considera sua caligrafia muito feminina. Edith pondera a respeito disso após o encontro com um editor que leu sua história de fantasmas e lhe disse que ela deveria escrever uma história de amor, apenas pelo fato de ser mulher.

"— É a nossa Jane Austen! Ela morreu solteirona, não?"
"— Na verdade eu preferiria ser Mary Shelley, ela morreu viúva."

(A Colina Escarlate)

A ideia de que autoras poderiam apenas escrever histórias de amor era muito comum. Por conta disso, muitas mulheres usavam pseudônimos masculinos. Não há problema algum em escrever histórias de amor, sendo homem ou mulher, mas dificilmente a eterna discussão a respeito de O Morro dos Ventos Uivantes ser uma história de amor ou não ainda existiria se o livro tivesse sido escrito por um homem. Por isso, os elementos góticos e as críticas à sociedade da época que Emily incluiu em seu romance único foram muitas vezes apagadas e a relação entre Heathcliff e Catherine foi romantizada de forma assustadora e problemática, muitas vezes em diversas adaptações para o cinema. O que A Colina Escarlate faz é mostrar como uma relação obsessiva e sufocante pode levar à loucura e a atos inimagináveis de violência, assim como Emily fez há quase 200 anos.

Mia Wasikowska como Edith (2015)

"Os casamentos foram pelo dinheiro. Mas o horror foi por amor. As coisas que fazemos por um amor assim são feias, loucas, repletas de esforço e pesar. Este amor queima, mutila e revira você de dentro pra fora. É um amor monstruoso que torna a todos monstros também."

(A Colina Escarlate)

Casas que respiram


Existe beleza na destruição da casa dos irmãos Sharpe. Ela é ameaçadora, mas a riqueza de detalhes a torna uma obra de arte. No meio do salão de entrada neva graças a um buraco no telhado causado por uma corrosão, e como dito pelos personagens, graças a neve e a umidade, a casa é mais fria dentro do que fora. A madeira está podre e a casa está cedendo e afundando graças a mina de argila e ao solo não apenas do lado de fora como dentro da casa, que começa a ficar vermelha escarlate. Tudo ao redor parece morto: as árvores, a vegetação e a fachada da casa sem manutenção. A casa resmunga, respira e reclama, não apenas pelos fantasmas que vagam dia e noite, mas também porque sua estrutura está tão comprometida que parece impossível ela continuar de pé. O figurino vitoriano dos personagens é fabuloso e conversa com elementos presentes em cena, cômodos da casa, e os sentimentos e a personalidade dos personagens.

"Nada suave nasce nessa terra. É preciso um pouco de amargor para não ser devorado. [...] É o vento leste. Quando ele sopra, as chaminés formam um vácuo e com as janelas fechadas, a casa respira. É horripilante, eu sei."

(A Colina Escarlate)


A mansão em ruínas dos Sharpe parece ser um lugar assombrado e maligno, mas na verdade é uma residência repleta de tristeza, com dor e perna intrinsecamente fixadas nas paredes, muito parecida com a residência dos Earnshaw, que mais tarde passou a ser de Heathcliff, a famosa Wuthering Heights.

"O papai era bruto. Ele odiava a mamãe, quebrou a perna dela. Partiu-a em dois sob a bota dele. Ela nunca se curou. Ficou de cama por muito tempo. Mas eu cuidei dela."

(A Colina Escarlate)


A violência e a tristeza também fazem parte de Wuthering Heights, mas nesse caso a casa pode ser lida tanto como um tipo de prisão como também a esperança de libertação. É o lugar frio e desolado no qual Catherine e Heathcliff passaram a infância, lugar onde ela nunca pôde ser quem realmente era e em que Heathcliff sofreu diversos momentos de violência, anos depois sendo o próprio também o algoz de muitas pessoas. Mas mesmo assim, é o lugar para onde Catherine volta após a morte, pois nunca foi feliz na Granja dos Linton, e apenas a volta como fantasma para Wuthering Heights trouxe para Catherine a liberdade de ser a moça selvagem e livre que era ao lado de Heathcliff.

"Se eu estivesse no céu, Nelly, estaria me sentindo muito infeliz. [...] Só ia dizer que o céu não parecia ser para mim, e eu sofria muito, chorando desesperadamente e querendo voltar para a terra. Os anjos ficaram tão zangados que me jogaram de volta bem no meio da charneca, aqui em Wuthering Heights, onde acordei soluçando de alegria. [...] Queria ser outra vez uma menina, meio selvagem e destemida, e livre, rindo das injúrias que sofria, e não enlouquecendo ao peso delas! Por que foi que mudei tanto? Por que meu sangue ferve com umas poucas palavras?"

(O Morro dos Ventos Uivantes)

O Morro dos Ventos Uivantes (1992)

A Colina Escarlate é um filme belo, tecnicamente perfeito, e conta com uma direção primorosa nas mãos competentes de Guillermo Del Toro, grande fã da literatura gótica, do terror, de monstros, fantasmas e de O Morro dos Ventos Uivantes. Com uma história simples, conseguiu fazer uma grande homenagem ao romance de Emily Brontë, e mesmo sendo evidentemente inspirado em um dos mais famosos romances góticos de todos os tempos, ainda possui vida e personalidade própria. Um filme tão mágico e fascinante quanto as outras obras de sua filmografia.

"E uma coisa estranha me aconteceu há cerca de um mês. Eu estava indo para Grange, certa noite – uma noite escura, ameaçando trovoada –, e, bem na encruzilhada de Heights, encontrei um menininho com um carneiro e duas ovelhas. Chorava muito, e imaginei que as ovelhas estivessem assustadas e se recusassem a lhe obedecer.
– O que houve, rapazinho? – perguntei.
– Ali, perto daquele morro, estão Heathcliff e uma mulher – soluçou ele –, e não tenho coragem de passar."

(O Morro dos Ventos Uivantes)

Referências



Arte em destaque: Mia Sodré

Comentários

  1. Oi, Babi! Eu amo o filme e adorei o paralelo que você fez entre as obras. Um dos meus aspectos favoritos do gótico ou suas releituras é a casa personagem e a influência dela sobre os habitantes! Com certeza a casa é um detalhe importantíssimo em ambas as obras. Maravilhoso teu texto!

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  2. Eu amo demais A Colina Escarlate! Já perdi a conta de quantas vezes assisti o filme e amei sua relação com O Morro dos Ventos Uivantes. Demais o texto!

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