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Margaret Cavendish: filosofia e literatura em O Mundo Resplandencente

 
“[…] pois não sou gananciosa, mas somente tão ambiciosa como qualquer outra do meu sexo foi, é, ou possa ser - o que faz com que, embora eu não possa ser Henrique V ou Carlos II, ainda assim me empenho em ser Margaret, a Primeira. E, embora eu não tenha poder, tempo ou oportunidade para ser um grande conquistador como Alexandre ou César, ainda assim, em vez de não ser senhora de um deles, uma vez que não fui agraciada nem pela Fortuna, quanto menos pelas Parcas, decidi conceber o meu próprio mundo.”

(Margaret Cavendish)

Dos registros que temos do século XVII inglês não parecem serem numerosas as mulheres que estavam aptas para discutir filosofia, e menos ainda filosofia natural, que lida com complexas questões sobre o conhecimento e os princípios materiais do mundo. Essa ausência é possivelmente justificada pelo fato de que as mulheres não eram educadas para tais debates, não podendo receber uma educação universitária. Existe, no entanto, uma curiosa exceção: a notável Duquesa de Newcastle, Margaret Cavendish (1623-1673).

Como relata a própria Cavendish em sua autobiografia, ela não recebera educação formal. Assim como muitas mulheres de sua época, havia sido ensinada de forma livre a estar apta a leitura, canto, dança, música e outras línguas. Porém ao contrário do que era comum, desde jovem ela foi estimulada em suas habilidades literárias, recebendo apoio tanto de sua família quanto mais tarde de seu marido William Cavendish, Duque de Newscastle.

Margaret Cavendish (Peter Lely, 1665)

Aliás, devido as circunstâncias de seu casamento, Cavendish participou do que foi chamado mais tarde de “Círculo de Newcastle”, reuniões onde aconteciam importantes debates filosóficos e científicos da época. Dentre os participantes mais famosos estavam Thomas Hobbes, Mersenne e Gassendi, além do próprio Renée Descartes, para citar alguns nomes célebres. O contato com as ideias desses pensadores ajudou Margaret a produzir suas próprias ideias mais tarde, ainda que ela tivesse um acesso limitado ao debate direto.

Sem dúvidas, suas obras de filosofia natural já seriam o suficiente para assegurar a Cavendish um lugar nos livros de história da filosofia, já que suas teorias sobre a vitalidade da matéria, a dignidade dos animais, a inteligência da matéria além de suas visões proto-feministas é de interesse até hoje. Mas além dessa produção acadêmica, ela também foi uma prolífica escritora que passeou por diversos gêneros produzindo peças teatrais, poesias, cartas, autobiografia e novelas. É a uma dessas produções que aqui se chama atenção.

A única obra dessa filósofa traduzida ao português é o célebre O Mundo Resplandecente (1666), considerado por muitos teóricos como o primeiro livro de ficção científica e a primeira utopia de autoria feminina. O livro em questão apresenta uma curiosa mescla entre literatura e filosofia, tendo sido pensado segundo a própria autora como um apêndice para sua obra filosófica intitulada Observations Upon Experimental Philosophy (1666). Por meio da literatura, ela acreditava poder apresentar ao leitor uma experiência mais palatável de seus argumentos.

Na história dividida em três seções, acompanhamos uma jovem dama que acaba, devido as circunstâncias, sendo levada à região do Polo Norte, onde atravessa um portal que conecta nosso mundo com esse outro mundo, o tal “mundo resplandecente”. Ao chegar lá, a protagonista se depara com seres fantásticos, híbridos de homem e animais que a levam para conhecer as criaturas e o novo mundo. Ao chegar depois na capital, ela é introduzida ao Imperador, que a admira por suas capacidades, a torna imperatriz e lhe cede poderes sobre o lugar.

Durante boa parte da história acompanhamos o percurso intelectual da jovem que deve conhecer e organizar as sociedades científicas desse mundo, entendendo as aptidões de cada um, e refletindo sobre quais procedimentos de investigação são mais adequados a cada qual. Depois disso, ainda acompanhamos uma longa explicação dos seres híbridos que contam à imperatriz suas descobertas e o funcionamento de seus conhecimentos. Por fim, vemos o terceiro movimento, no qual a jovem volta ao seu mundo levando consigo o modelo desse outro mundo, para transformar a sociedade impondo uma unificação política.

Interior do livro O Mundo Resplandecente (1666)

Embora bastante distante do tom e dos modos de construção literário contemporâneo, a obra de Cavendish apresenta uma curiosa mescla entre filosofia e literatura. Nela a literatura é apenas um dos artifícios empregados para se apresentar ideias científicas e debater a respeito de seus méritos. Neste sentido, seus principais méritos parecem ser em fomentar reflexões entre seus contemporâneos que muito possivelmente notariam os paralelos com ideais de pensadores da época, como Hobbes ou Bacon.

Uma ideia central que deixa isso claro é a ênfase da filósofa na terceira seção: a ideia de estabilidade que deve ser transportada ao seu mundo e origem. A estabilidade diz respeito à possibilidade do mundo depois da construção social, quando já se saiu do estado de natureza marcado pelo medo e pelo caos, tema que estava em voga nas discussões filosóficas de seus contemporâneos.

Em certo sentido, a obra parece assumir um papel que hoje é desempenhado pela literatura de divulgação científica, já que Cavendish estava interessada em fazer conhecer argumentos racionais a respeito de diversos temas por meio de sua história literária. Sua utopia, assim, lembra o leitor das possibilidades de pensar por meio da literatura, de modo semelhante ao realizado anteriormente por Thomas Morus.

No transcorrer da obra, a pensadora apresenta argumentos que aparecem entre os diálogos da Imperatriz e dos seres híbridos indo desde uma análise da ciência e dos seus métodos, até mesmo a problemas políticos, religiosos e de filosofia natural. Nada parece escapar ao escrutínio analítico de Cavendish, como mostra o excerto abaixo retirado de uma das reflexões sobre o uso da persuasão nos membros da sociedade: 

“Então, dessa forma, a imperatriz, por sua própria arte e engenho, não apenas converteu o Mundo Resplandecente à sua própria religião como os manteve constantemente crentes, sem enforcamentos ou derramamento de sangue; porque ela bem sabia que crer era algo que não deveria ser forçado ou imposto sobre as pessoas, mas incutido em suas mentes por meio de uma afável persuasão. Dessa forma, os encorajou também a se submeterem a todos os outros deveres e ocupações: pois o medo, embora faça com que as pessoas obedeçam, ainda assim não dura muito tempo - nem é uma forma tão certa de mantê-los em suas funções, como o amor.”

Em certo sentido, essa obra de Cavendish pode ser lida como uma reabilitação da fantasia filosófica, que aliás é título de outro de seus livros. Com isso, vemos na pensadora não só um desejo de entender racionalmente as coisas, como era comum de seu século, mas de abrir espaço para a fantasia residir dentro da reflexão filosófica, tratando-a como um método igualmente válido e como uma força de reflexão sobre o nosso mundo. Assim, Cavendish não faz da literatura uma mera serva da filosofia, mas estabelece entre as duas uma curiosa relação de reciprocidade. Uma arte que pensa, uma ciência que dá conta de ser expressa artisticamente.

Sem dúvidas, pode-se dizer que ao menos quanto ao seu desejo de se tornar famosa e notável Cavendish foi bem-sucedida. E embora seu mundo resplandecente possa parecer pouco agradável ao gosto literário contemporâneo do leitor desavisado, ele continua sendo uma fonte valiosa para reflexões sobre sua época e sobre a possibilidade de conceber a literatura como filosofia. Uma leitura válida e recomendada para todos que queiram se aventurar nesse outro século, nesse outro mundo.

Referências

  • O mundo resplandecente (Margaret Cavendish)
  • A History of Women Philosophers. Volume II Medieval, Renaissance and Enlightenment Women Philosophers A.D. 500-1600 (Mary Ellen Whaite)

Comentários

  1. Oi, Laura! Conhecia a Cavendish por alto, mas nunca havia parado para ler algo mais elaborado sobre ela. Achei muito interessante, uma mulher notável.

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