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Heathcliff era negro? Raça e classe em O Morro dos Ventos Uivantes

Heathcliff não é branco. É importante começar este artigo dizendo isso. Como muitos ao longo da história - pessoas reais ou fictícias -, ele sofreu whitewashing, ou seja, teve sua imagem propositalmente embranquecida. Afinal, Heathcliff é uma das personagens mais icônicas da literatura, e ter um antiherói tão conhecido, referência clássica, não-branco é algo que pode parecer ultrajante para muitas pessoas. Todavia, Emily Brontë passou boa parte de 1846 e 1847 criando Heathcliff, um homem de pele escura e de ascendência polêmica. 

Mas, afinal de contas, qual é a etnia de Heathcliff? 

Negro, indiano, chinês, romani: os muitos Heathcliffs e o lugar do Outro

Em "'To Feel like a Man': Black Seamen in the Northern States, 1800-1860", W. Jeffrey Bolster afirma que um homem negro chegando "do mar" era comum em 1838. Claro, ele está referindo-se especialmente a Frederick Douglass e aos Estados Unidos, mas os costumes não eram tão diferentes assim da Inglaterra daquele período. O preconceito existia e um homem negro era visto com naturalidade em poucos lugares. O artigo chama a atenção por utilizar o mesmo termo que Emily Brontë dispôs em O Morro dos Ventos Uivantes: "regular black". No contexto do artigo, o termo refere-se a marinheiros negros que foram substituídos por brancos em Rhode Island. Ainda implica que foram os homens negros de pele mais retinta que acabaram substituídos, já que especifica que nem todos os negros perderam seus lugares para brancos, apenas o "regular black", que na tradução literal é algo como "negro comum", mas no contexto nos diz outra coisa. Já no romance de Emily Brontë, o termo é utilizado quando Nelly diz a Heathcliff que ainda que ele fosse um "regular black", não seria feio - uma frase que já marca o racismo da época.

James Howson, o primeiro ator negro a interpretar Heathcliff no cinema

Ao analisarmos de perto os passos do senhor Earnshaw, pai de Cathy e Hindley, podemos perceber que é suspeita a movimentação dele no início do livro. Sim, ele diz ter encontrado um menino e o trazido para casa, batizando-o como Heathcliff, o mesmo nome de um filho que havia morrido. Mas ele, um fazendeiro tradicional do interior da Inglaterra, vai a Liverpool para "um tipo de negócio" (em tradução livre). Contudo, Liverpool era uma cidade portuária. Como Michael Stewart, autor de "I'll Will", aponta em "Heathcliff, race and Adam Low's documentary, A Regular Black", ele mesmo percorreu aquele caminho da mesma maneira que Emily Brontë nos diz que o senhor Earnshaw o fez: a pé. Mas enquanto o pai de Cathy levou apenas três dias para ir e voltar de Wuthering Heights a Liverpool, Stewart levou três dias apenas para chegar lá - caminhando rápido. Isso implica algumas coisas: o senhor Earnshaw estava com pressa; ele não queria se comprometer ao pegar um cavalo, preferindo ir a pé; há algo de suspeito nessa viagem. O senhor Earnshaw mal chega a Liverpool e já precisa voltar, isso considerando a jornada de três dias que ele percorreu a pé. Então, ele chegou decidido a fazer seu "negócio" - mas aparentemente teve tempo para encontrar um menino, criar um laço com ele, levá-lo para sua casa, dando-lhe o nome de seu filho que havia morrido e o favorecendo perante as outras duas crianças sem motivo algum? É suspeito. 

Também é importante ressaltar que as Brontë haviam escrito pelo menos uma personagem negra antes de Heathcliff: Quashia, que aparece em sua juvenília. Ele é "o único africano indígena em Glass Town" ("the only indigenou African in Glass Town" no original). 

Escravização em Liverpool 

Às vezes, a tradução perde alguns aspectos do original - o que é normal dado o fato de que línguas são diferentes e há certas construções que não existem em uma ou em outra. No caso de O Morro dos Ventos Uivantes, lendo o texto original podemos ver que Emily Brontë utiliza muito a palavra "it" para descrever Heathcliff ou pessoas falando dele. "It" é um advérbio neutro, que naquela época geralmente não era utilizado para humanos - exceto, talvez, quando se falava de pessoas escravizadas em séculos passados. A despersonalização de escravizados já começava pelo pronome de tratamento - "it", aquilo, aquela coisa. Também é possível apontar que Heathcliff é seu único nome - embora seja batizado em homenagem ao filho perdido do senhor Earnshaw, o rapaz nunca ganha o sobrenome da família. E esse tipo de coisa basicamente só acontecia com pessoas escravizadas na época. 

Porém, Emily Brontë foi conscientemente ambígua. Em Heathcliff, ela quis representar um homem levado à violência pela agressão e preconceito sofridos desde criança por causa de sua origem. Em determinadas partes do livro, ela refere-se a ele como um "lascar", o que costumava significar algo como um homem indiano que trabalhava em um navio. Contudo, o "lascar" é mais amplo que isso: também poderia referir-se a homens da África do Norte, árabes, ou mesmo da China, como Nelly aponta para o próprio Heathcliff em uma conversa. Também é dito que ele poderia até mesmo ter vindo das Américas (de qual é uma questão em aberto) ou da Espanha. O fato é que Heathcliff não era branco - e provavelmente teria sido escravizado na infância por isso. 

Durante 1763 a 1776, Liverpool era o principal porto para tráfico de escravizados na Inglaterra. No final do século XVIII, a cidade era a responsável por 84% dos transatlânticos escravagistas britânicos. Mas foi só na década de 1990 que esses arquivos foram abertos e foi admitido que o porto de Liverpool tem esse passado horroroso. 

O porto de Liverpool

É sabido que fazendeiros de Yorkshire possuíam pessoas escravizadas na época. E é provável que Emily Brontë soubesse disso também, já que vivia lá. 

Também há registros que apontam que o pai das Brontë, o reverendo Patrick Brontë, era um abolicionista - e costumava posicionar-se fervorosamente a respeito disso. É importante lembrar que as irmãs foram educadas por ele, e a família possuía o costume de discutir temas sociais em casa. 

Então ele não era um "negro comum", mas também poderia ser confundido com uma pessoa negra naquela época por ter ascendência indiana ou asiática. Porém, é preciso considerar o contexto de Liverpool no final do século XVIII, momento em que a história se passa. Além da escravização de pessoas negras que chegavam ao porto, a cidade também tinha uma profusa população chinesa por causa dos marinheiros que aportavam. 

Contudo, o interessante é entendermos que Heathcliff era o Outro. Indiano, romani, chinês ou negro, ele não era lido como alguém pertencente ao povo branco da Inglaterra da época. Como estrangeiro, não-branco em um local onde a branquitude reina e a escravização ainda era lei, um Heathcliff adotado por uma família de riqueza antiga e tradicional, tratado como filho pelo patriarca, é visto como alguém ameaçador. 

"Em outras palavras, devo desejar os grandes olhos azuis e até a testa de Edgar Linton", respondeu ele. - Sim, e mesmo isso não vai ajudar."
 Em um trecho particularmente difícil do livro, uma conversa que Heathcliff tem com Nelly Dean, a questão de sua etnia é discutida com mais detalhes: 
"Um bom coração lhe ajudaria a ter um rosto bonito, meu rapaz", eu continuei, "se você fosse um negro comum; e um coração mau vai transformar o mais belo rosto em algo pior que a feiura. E agora que terminamos de lavar e de pentear e de arrumar - me diga se você não se acha bastante bonito? Vou lhe dizer, eu acho. Você é digno de um príncipe disfarçado. Quem sabe seu pai era o Imperador da China, e sua mãe, uma rainha indiana, cada um deles capaz de comprar, com a renda de uma semana, Wuthering Heights e Thrushcross Grange juntos? E você foi sequestrado por marinheiros perversos e trazido para a Inglaterra. Se eu estivesse no seu lugar, teria noções elevadas do meu nascimento; e esses pensamentos do que eu era me dariam coragem e dignidade para suportar as opressões de um fazendeirozinho!"

As adaptações com Heathcliff branco 

O que essa falta de fidelidade ao material significa? Heathcliff desempenhava um papel na narrativa que vai além dela. Ou seja, ele representa algo, talvez um tabu social, que ainda precisa ser trabalhado, e um que também é - talvez justamente por causa disso - ameaçador. Mas ele também é completamente humano. Esse é o gênio de Emily Brontë.  

A arte não precisa ser fiel à vida, e a obra de um autor não dita para sempre o que será feito a partir dela. Qualquer ator, branco, negro ou de outras etnias pode interpretar Heathcliff. Mas será que deve? Embora as questões da etnia de Heathcliff e se um ator branco pode interpretá-lo sejam passíveis de serem discutidas separadamente, acredito que o melhor seja aproximar o debate. Poder se pode tudo, mas qual é o objetivo? Quando se coloca um ator branco para interpretar um homem cuja autora passa o livro inteirinho dizendo que é lido como um homem não-branco - e que, para além disso, tal ponto é central na trama de desenvolvimento da personagem, que só se torna um dos maiores (o maior, talvez) antiherói da literatura justamente pela violência que sofre por não ser branco, aí temos um problema. 

James Howson, o primeiro ator negro a interpretar Heathcliff, na adaptação de 2011

O apagamento da etnia de Heathcliff transforma O Morro dos Ventos Uivantes em uma história de amor. E se tem uma coisa que esse livro não é é isso. Mas colocar sua personagem principal como mais um homem branco é apagar todas as enormes e complexas questões de racismo e xenofobia que são gritantes no livro. Emily Brontë poderia ter escrito um Heathcliff branco - ela era cercada por gente branca, provavelmente a totalidade de suas relações sociais eram brancos, mas ela escolheu colocar seu protagonista como um homem não-branco que jamais é acolhido de fato na casa daquela família por causa de sua aparência. E isso o leva a tornar-se cada vez mais taciturno - e a apegar-se à única pessoa que lhe tratava de igual para igual, Cathy. 

Seu relacionamento com Cathy não é um amor romântico, mas o desespero de saber que ela é a única pessoa que não lhe olha com desprezo, a única pessoa com quem ele pode conversar e existir sem pedir desculpas. Eles riem juntos e zombam das aulas bíblicas que recebem. A questão é que Cathy também não se encaixava por ser uma mulher "rebelde", selvagem. Porém, exteriormente, ela é aceita, já que é branca e filha de uma família tradicional. Quando ela sofre o acidente e passa uma temporada nos Linton, voltando transformada em uma dama, e finalmente escolhe casar-se com Edgar Linton, Heathcliff não sente apenas uma traição amorosa. Não é uma questão de um término e de arranjar alguém para recuperar-se disso. Ele não tem ninguém. É uma traição muito mais profunda, pois ela diz para Nelly Dean - e ele escuta tudo - que seria indigno estar com Heathcliff. Ele não tem mais espaço ali e vai embora. 

Laurence Olivier, o primeiro Heathcliff do cinema, na adaptação de 1939

Não é à toa, portanto, que seus atos de violência fiquem sem restrição e que toda a trama passa da desgraça para a tragédia. Heathcliff, um provável imigrante, não-branco, órfão, tratado como coisa desde criança, não tem mais motivos para ser gentil com ninguém já que todos, absolutamente todos, lhe tratam com desprezo e violência. 

Em 1967, Roland Barthes escreveu o que se tornou um texto seminal, chamado "A morte do autor". Nele, ele destacou que uma vez que um texto entra em domínio público, a intenção do autor é irrelevante e apenas a interpretação do leitor importa. Isso significa que podemos ter várias interpretações e ninguém está "errado". Mas, ainda que nesse sentido ninguém esteja necessariamente errado, pois a arte é livre, o racismo se faz presente. Escolher deliberadamente fazer com que Heathcliff seja branco é uma escolha racista e que deforma a obra de Emily Brontë, transformando-a em algo que ela não é. 


Referências


Texto e arte em destaque: Mia Sodré
Mia
Jornalista e pessoa da internet há uma década. Editora e analista literária, quando não está lendo escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Pesquisa o gótico no século XIX. Vive em Porto Alegre, onde está há vinte e poucos anos ajudando na entropia do universo.

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