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4 adaptações de O Morro dos Ventos Uivantes

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights no original) é um dos livros clássicos mais adaptados para as telas. Escrito por Emily Brontë em 1847, foi apenas na década de 1920 que começou a ser valorizado. Na época de sua publicação, o romance chocou a críticos e leitores comuns, que não acreditaram, posteriormente, ter sido escrito por uma mulher. A bem da verdade, a história de O Morro choca até hoje. É difícil não se sentir ultrajado com determinadas situações e atitudes das personagens do romance. Talvez seja por isso mesmo que ele continua sendo um sucesso - não apenas o mais genial clássico da literatura de língua inglesa (sim), como também um best-seller. Surpresa alguma, portanto, que ele tenha ganhado tantas adaptações. 

Confira algumas: 

Wuthering Heights (1939)


Laurence Olivier e Merle Oberon como Heathcliff e Cathy na adaptação de 1939
Talvez a adaptação mais clássica da obra-prima de Emily Brontë, a versão de 1939 hoje nos pode parecer estranha. As atuações são exageradas, como era costume do cinema da época. E a trama vai até a metade do livro, mostrando apenas a primeira geração dos Earnshaws e Lintons. Toda a vingança de Heathcliff é deixada de fora, o que facilmente transforma o filme em uma história de amor - e talvez esse tenha sido o motivo da escolha estranha de roteiro. 

Ao contrário do livro, Wuthering Heights é focado no amor entre Cathy e Heathcliff. As falas, muitas das quais são bem diferentes da obra literária, servem para expressar o sentimento avassalador do casal de irmãos de criação - e a tragédia em cuja direção estão indo. 

Essa foi uma das primeiras adaptações, logo que o livro começou a ser redescoberto pela Academia e por leitores comuns. Dirigido por William Wyler, o processo da feitura foi repleto de contratempos. A princípio, o diretor queria que Bette Davis interpretasse Cathy. Todavia, Samuel Goldwyn, produtor do filme, insistiu para que o papel fosse de Merle Oberon. A disputa não parou por aí: a própria Vivien Leigh desejava interpretar Cathy. Wyler lhe ofereceu o papel de Isabella, mas ela não o aceitou - ou seria a protagonista, ou não participaria. Acabou ficando de fora. 

Já o enigmático Heathcliff foi interpretado por Laurence Olivier. Foram feitos muitos testes de elenco para esse papel, e Laurence estava relutante em aceitá-lo, já que não gostava de Hollywood e não necessitava fazer parte do filme, visto que sua carreira já era consolidada na Inglaterra. Mas ser Heathcliff era considerado uma honra e Olivier acabou por aceitar. 

Há registros de brigas no set de gravações. Olivier e David Niven, que interpretou Edgar Linton, tiveram desavenças com Wyler várias vezes, já que o diretor repetia muitos takes, tornando toda a filmagem cansativa e estressante. 

Naquele ano, o New York Times Critics selecionou o longa como o melhor filme de 1939. Um pouco depois, Wuthering Heights foi indicado a oito Oscars, mas levou apenas um: Melhor Cinematografia. 

O Morro dos Ventos Uivantes (1992) 


Juliette Binoche e Ralph Fiennes como Cathy e Heathcliff na adaptação de 1992
Essa é a minha adaptação favorita e uma das mais conhecidas. O Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë's Wuthering Heights no original) foi lançado em 1992. Dirigido por Peter Kosminsky, o filme une as duas partes da história de Emily Brontë, não focando apenas na primeira geração, como o de 1939 fez. Isso nos dá algumas cenas interessantes, assim como as escalações, que refletem os ciclos de abuso do passado. 

Estrelando Ralph Fiennes como Heathcliff e Juliette Binoche como Catherine Earnshaw, nessa adaptação podemos ver dois atores principais que se entregam aos seus papéis com todas as emoções necessárias. Não é um filme contido, não há nada de suave ou tranquilo. A angústia nos olhos de Fiennes é vista a cada momento, assim como a vivacidade de Cathy, que logo transforma-se em desespero ao perceber que é preciso tomar decisões e assumir uma identidade conformada aos padrões sociais. Há quem diga que as atuações são exageradas, mas desconfio que tais críticos nunca leram o livro, ou não se lembram dele, já que ele é uma montanha-russa de emoções transbordando. 

Foi a estreia de Ralph Fiennes no cinema, e ele começou bem. Embora a questão da etnia de Heathcliff seja um problema (ele é descrito como um homem de pele escura com aparência cigana, possivelmente com ascendência indiana, de acordo com o livro), Fiennes é o melhor Heathcliff visto em tela até então. Ele consegue passar da devoção à obsessão e finalmente ao ódio e à vingança em poucas cenas - e tudo faz sentido quando olhamos para os perturbadores olhos de Fiennes em ação. Seu Heathcliff é demoníaco, fazendo jus à escrita de Emily Brontë. 

A segunda geração é mostrada de forma interessante. É normal que o foco esteja na primeira, mas a segunda é tão importante quanto e essa adaptação divide bem as cenas para que nenhuma apareça mais do que a outra. A escolha do elenco foi interessante: Juliette Binoche como Cathy Earnshaw e posteriormente interpretando também sua filha, Catherine Linton, traz um aspecto que os fãs do gótico apreciarão: o duplo. É um detalhe, mas um que faz toda a diferença para quem gosta do gênero. 

Como curiosidade, a cantora Sinéad O'Connor interpreta a própria Emily Brontë, que aparece no início do filme narrando a história ao encontrar uma antiga casa onde ela começa a construir seu romance. 

O Morro dos Ventos Uivantes (2009) 


Charlotte Riley, Andrew Lincoln e Tom Hardy como Cathy, Linton e Heathcliff na adaptação de 2009
A adaptação de 2009 é uma minissérie para a televisão em dois episódios - mas pode muito bem ser vista como um filme longo. Dirigida por Coky Giedroyc, estrelando Tom Hardy e Charlotte Riley, é uma das favoritas dos fãs do livro. 

Peter Bowker, o roteirista da minissérie, afirmou que, em primeiro lugar, é importante entender que O Morro dos Ventos Uivantes não é uma história de amor - o que é sensacional, já que ele foi o primeiro roteirista a deixar isso bem claro. No entanto, é contraditório como justamente na adaptação que não foca na suposta história de amor, temos um amor da vida real: foi no set de gravações que Tom Hardy e Charlotte Riley se conheceram e se apaixonaram, permanecendo juntos até hoje. 

A minissérie se alonga demais em certos momentos, mudando a dinâmica do relacionamento de Cathy e Heathcliff. Por decisão do roteirista, ela é contada em tom de mistério, mas ele acabou fazendo um recorte de várias partes do livro e criando outras narrativas em cima disso. Não é necessariamente - depende se o espectador prefere adaptações cinematográficas fiéis aos livros ou não. 

O Morro dos Ventos Uivantes (2011) 


James Howson como Heathcliff na adaptação de 2011
Dirigida por Andrea Arnold, a mais recente adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, de nome homônimo ao livro (Wuthering Heights no original), já tem dez anos. Nessa adaptação, poucas são as falas durante as cenas. Tudo é dito através de olhares e da trilha sonora que sopra como o vento na charneca. 

O filme demorou anos para ter seu início. Houve muita troca de diretores e possíveis atores para os papéis principais. Mas em 2010, Andrea Arnold assumiu a direção do longa, escalando Kaya Scodelario como Cathy Earnshaw. 

Em seguida, ela começou uma busca em comunidades romani na Inglaterra por rapazes que pudessem interpretar Heathcliff, tentando ser fiel ao livro, que por vezes o descreve com uma aparência "cigana". Mas as comunidades desconfiaram de suas intenções e fecharam-se, o que é compreensível dado o preconceito que ainda cerca os romanis. Então, a diretora ampliou sua busca para jovens de ascendência não-branca ou de relações entre pessoas brancas e indianas, paquistanesas ou do Oriente Médio. É interessante observar isso pois, de fato, Emily Brontë descreve Heathcliff como sendo um homem de pele escura que poderia ser filho de uma pessoa indiana ou chinesa, então faz todo o sentido que a escalação seguisse tais critérios. O escolhido foi James Howson, um jovem negro - o primeiro negro a interpretar Heathcliff

O filme em si é muito bonito e poético, ainda que marque a "história de amor" mais do que seria o correto de acordo com o livro. Porém, já que Andrea Arnold finalmente nos deu um Heathcliff não-branco, acho que podemos relevar a romantização do relacionamento das personagens principais. 

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Texto e arte em destaque: Mia Sodré 
Mia
Jornalista e pessoa da internet há uma década. Editora e analista literária, quando não está lendo escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Pesquisa o gótico no século XIX. Vive em Porto Alegre, onde está há vinte e poucos anos ajudando na entropia do universo.

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