As adaptações cinematográficas de Mulherzinhas


Em 1868, Louisa May Alcott publicava Mulherzinhas (Little Women no original).  O livro conta a história de quatro irmãs, Meg, Jo, Beth e Amy March, em seu processo de crescimento entre a infância/adolescência e a vida adulta durante um período muito difícil, a Guerra Civil Americana. 

Louisa publicou outras sequências como Boas Esposas (Good Wives) em 1869. Em edições mais atuais, os dois primeiros livros são publicados em um único volume. Isso acontece também nos filmes: para deixar a narrativa mais completa, optam por contar acontecimentos dos dois livros de maneira mais enxuta. Mulherzinhas é considerado um clássico da literatura estadunidense. Em seu período de publicação, alcançou um sucesso comercial imediato, fazendo assim com que a autora publicasse diversos outros livros em seguida. Foi adaptado inúmeras vezes para o cinema, TV e teatro. E já foi citado em séries populares como Friends e Gilmore Girls

Aqui vai uma lista das principais adaptações que você precisa assistir se tiver gostado do livro. 

As Quatro Irmãs (1933) 

direção: George Cukor  

Mulherzinhas foi adaptado para o cinema pela primeira vez em 1917, pelo diretor britânico Alexander Butler e, um ano depois, foi produzido mais um filme sobre a história das irmãs March, dessa vez pelo diretor Harley Knoles. Ambos filmes feitos no período do cinema mudo hoje infelizmente são considerados como perdidos. 

Mas em 1933, foi produzida a primeira adaptação de que se tem registro completo hoje. O elenco principal contava com atrizes muito requisitadas da época: Frances Dee (Meg) e Jean Parker (Beth) entregam atuações boas, porém não muito grandiosas;  Joan Bennett (Amy) proporciona ótimos momentos com sua Amy, mas o destaque vai para Katherine Hepburn (Jo), que por muitos é considerada a melhor versão da personagem. Ela traz uma interpretação mais "masculinizada", encrenqueira e exagerada em certos momentos, principalmente quando ela exclama "Cristóvão Colombo". É uma Jo diferente, mas incrivelmente encantadora. A própria atriz se identificava com Jo e, segundo o diretor, ela colocou um pouco de si na personagem. "De todas as personagens que ela interpretou, essa é a mais próxima de Kate. Kate e Jo são a mesma pessoa."  

As Quatro Irmãs foi o quarto filme que Hepburn estrelou e o segundo em que trabalhou com o diretor estadunidense George Cukor. Sou um pouco suspeita para falar, pois Katherine é uma das minhas atrizes favoritas, mas As Quatro Irmãs não seria tão primoroso se não houvesse uma atriz tão talentosa quanto ela. Em todas as cenas em que ela aparece, rouba as atenções pra si. 

O filme segue fiel à obra original até certo ponto, mas mantém o espírito do livro mesmo deixando de fora partes que considero importantes. Ele tem um estilo mais caseiro, familiar, mais contido e divertido. Não é a minha favorita, mas reconheço que é uma ótima adaptação e possivelmente a melhor já feita. Vale muito a pena conferir, principalmente pela atuação Hepburn. 

O filme foi indicado a 3 Oscars e ganhou o de Melhor Roteiro Adaptado.


Quatro Destinos (1949) 

direção: Mervyn LeRoy   


Esse longa-metragem é praticamente uma cópia da película de 1933 (inclusive um vestido que Jo usa aqui é muito parecido com um dos figurinos de seu antecessor). É o filme que mais se distância do livro, a começar pela mudança de idade entre as duas irmãs mais novas. Nele, Beth é mais nova que Amy. Mas o ponto alto dele é seu elenco incrível, tendo Elizabeth Taylor (Amy), Janet Leigh (Meg), Margaret O’Brien (Beth),  June Allyson (Jo) e Peter Lawford (Laurie). 

Dentre todos os filmes feitos em cima da obra original, este é possivelmente o mais esquecido, mas, apesar das diferenças. ele tem meu coração. O filme funciona muito bem, e é uma delicia ver Elizabeth Taylor e Janet Leigh no começo de suas carreiras, atrizes que mais tarde ficaram famosas por papeis marcantes; Taylor por Cleópatra e Leigh por Psicose. Gosto muito da Jo de June Allyson, ela capta tudo o que imagino que a personagem seria (June tinha 31 anos na época sendo assim a mais velha do elenco principal) e adoro o Laurie de Peter Lawford, que não tem o mesmo ar moleque do personagem no livro, mas é adorável vê-lo em cena. 

Nessa adaptação, temos o que eu considero a melhor versão da Beth; Margaret O’Brien transmite com delicadeza e sensibilidade tudo o que a personagem é. Em todas as suas cenas ela consegue brilhar (a cena em que ela ganha um piano do Sr. Laurence é linda). Elizabeth Taylor proporciona momentos extremamente divertidos com sua Amy, que beira de engraçada a mimada demais; é uma das minhas versões favoritas da personagem. Em todas as cenas, ela está engraçada, o que pode ser um ótimo ponto, pois a personagem não é muito bem recebida pelos fãs do livro. É perceptível como o elenco trabalha muito bem em cena, demonstrando uma cumplicidade e amizade (durante as gravações, eles se tornaram muito amigos). 

O longa da década de 1930 foi filmado em preto e branco, a versão de 1949 é em cores, usando a técnica do Technicolor (processo que consiste em dar cores aos filmes) e é visualmente lindo. O filme ganhou o Oscar de Melhor Direção de Arte (hoje nomeado como Design de Produção) na premiação de 1950. Vale muito a pena conferir essa obra. 


Adoráveis Mulheres (1994) 

direção: Gillian Armstrong 

Quase 50 anos após o lançamento de Quatro Destinos em 1949, a diretora Gillian Armstrong foi convidada a dirigir uma nova versão da obra. O projeto ficou 12 anos no papel até que encontrassem um estúdio disposto a produzi-lo. A primeira atriz do elenco a ser contratada foi Winona Ryder que havia feito grandes sucessos como Edward Mãos de Tesoura e Drácula de Bram Stoker. Winona ficou com o papel de Jo, Susan Sarandon como Marmee, Christian Bale como Laurie, Trini Alvarado como Meg, Claire Danes como Beth, Kirsten Dunst como a versão mais nova de Amy e Samantha Mathis com a adulta. Essa adaptação foi a única que usou duas atrizes para interpretar a mais nova das irmãs March, e acredito que deu muito certo. Embora nem sempre pareça em outras adaptações, o livro acompanha a vida das meninas por mais de dez anos; marcar essa passagem de tempo é importante.

A diretora preferiu não assistir aos outros filmes para assim seguir uma obra mais autêntica, fiel ao livro, e foi o que Gillian conseguiu. É um filme lindo, com maturidade, sensibilidade e uma pegada feminista. Diferente das versões de 1933 e 1949, nesta temos grandes momentos de reflexão e diálogo interessantes sobre o papel da mulher na época. 

Vale ressaltar que Christian Bale nos dá uma versão divertida, adorável e jovial de Laurie, sendo uma das melhores interpretações da personagem. A química entre Bale e Winona é incontestável, e até hoje quebra o coração dos fãs que torceram pelo casal. A técnica que o ator usa para compor sua personagem é bem divergente do que vemos nos longas anteriores; por exemplo, o Laurie de Bale fica totalmente vulnerável à rejeição de Jo, ele se emociona enquanto ela tenta consolá-lo, um contraponto ao filme de 1949 cuja personagem não chora em momento algum, demonstra apenas raiva, orgulho ferido. Naquela adaptação, é Jo quem chora. 


Little Women (2017) 

direção: Vanessa Caswill  

Em 2017, a BBC resolveu filmar mais uma adaptação para a obra, dessa vez para a TV. Famosa por produzir séries de obras literárias como a também minissérie Orgulho e Preconceito (1995), com Jennifer Ehle como Lizzie Bennet e Colin Firth como Mr. Darcy, o canal possui propriedade em termos de levar um clássico para as telas. 

A minissérie tem três episódios de pouco mais de uma hora e é extremamente fiel ao livro, mas peca em alguns aspectos que acredito que seriam mais bem desenvolvidos se houvesse mais tempo de gravação.   
Não há grandes atuações, mas isso não tira o mérito do elenco que tem muita dinâmica em cena. A atriz Maya Hawke dá vida a Jo, Willa Fitzgerald a Meg, Annes Elwy a Beth, Emily Watson a Marmee, Kathryn Newton a Amy e Jonah Hauer-King a Laurie. O roteiro fez de tudo para a caçula, Amy, ser a mais odiada nessa adaptação, conferindo à personagem uma personalidade mimada e irritante. Apesar de tudo, ela ainda consegue ser cativante, mérito de Newton. Gosto também da relação entre Amy e Laurie, que torna-se torna mais genuína e fácil de se acreditar, o que não ocorre no livro. 


Adoráveis Mulheres (2019) 

direção: Greta Gerwig

A mais recente adaptação do clássico de Louisa May Alcott é sensível e muito humana. Diferente de todas as outras, esta flerta mais com o drama, sendo menos divertida. Todo o conjunto da obra contribui para deixa o espectador imerso com a história da família March. 

Greta Gerwig é muito fã do livro e sempre sentiu vontade de adaptá-lo para o cinema. Assim que soube disso, a atriz irlandesa Saoirse Ronan enviou um e-mail para a diretora pedindo para fazer Jo March. Timothée Chalamet deu vida ao menino Laurie. O elenco já é bem conhecido, composto por Emma Watson (Meg), Florence Pugh (Amy), Eliza Scanlen (Beth), Laura Dern (Marmee), Meryl Streep (Tia March), James Norton (John Brooke), Chris Cooper (Sr. Laurence) e Louis Garrel (Professor Bhaer). 

O filme  recebeu 6 indicações ao Oscar, mas ganhou apenas a de Melhor Figurino.  Todos os atores fazem um trabalho majestoso, porém vale destaque para Saoirse, que entrega uma Jo cheia de ambições, força e coragem. Florence Pugh através de sua Amy ganhou sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Sua personagem é a mais bem-desenvolvida na trama depois de Jo. A Amy de Gerwig é mais humanizada, deixando assim a personagem mais interessante. 



Texto: Maria Fontenele 
Arte em destaque: Mia Sodré 

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