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Woolf e Plath descansavam sob a sombra da mesma figueira

Heráclito, pré-socrático que viveu em Éfeso (atual Turquia) por volta do século VI a.C, pensava que “seres e as coisas do mundo estão em permanente transformação, onde tudo flui, nada persiste nem permanece o mesmo". Na linha do tempo da humanidade, a definição e tratamento de transtornos mentais passou por diversos momentos movida por cenário histórico, religioso (no caso da Idade Média) ou social. 

Sete anos após o término da II Guerra Mundial, em 1952, a Associação Americana de Psiquiatria publicou o primeiro Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM), no qual foi concretizada a primeira tentativa de definir de maneira sistemática os assuntos relacionados a doenças psicológicas. Neste mesmo século, duas grandes autoras da literatura mundial e modernista viveram suas jornadas; as duas, de forma muitas vezes autobiográfica, abordaram a depressão e a melancolia em suas obras.

Mesmo que nascidas em cenários distintos, continentes diferentes e nunca tendo se conhecido, existe um fio que as liga por meio da escrita e por terem sido mulheres no século XX, em busca de uma liberdade que não estava ao alcance; as duas se encontravam na redoma de vidro.

O grito que não pode ser calado 

“Dentro de mim mora um grito.
 De noite, ele sai com suas garras, às caças
De algo para amar.”

(Sylvia Plath)

Os personagens dos livros de Virginia Woolf e Esther Greenwood no único romance de Sylvia Plath, A redoma de vidro, de 1963, trazem profundos traços do declínio que a depressão pode causar na vida de um ser humano. De forma nenhuma queremos resumir essas duas imensas mulheres como autoras que tratam somente disso, a intenção é somente direcionar os holofotes para a realidade de existir no século XX, sendo amassada pelas imposições da sociedade e ainda assim vivendo com ardor suficiente para marcar gerações, até a atualidade, com a sua voz. Somos a continuidade delas, podemos ler o que escreveram e interiorizar a força que reside em cada palavra para saber que devemos ter coragem de sermos nós mesmas. Quando uma mulher coloca no papel o que sente, essa ação é capaz de inspirar e fazer com que a identificação entre obra e leitora seja contínua; por isso, as dores e grandes questões existenciais retratadas por elas fazem com que tantas mulheres não se sintam sozinhas.

Em 2001, James Kaufman realizou um estudo nomeado de “Efeito Sylvia Plath”, isso pois, em um primeiro momento, analisou 1.629 escritores, os quais - em particular poetas - eram mais propensos a terem mais sinais de doenças mentais. Os estudos de Kaufman especulam ainda que altos níveis de criatividade exigem que as pessoas “desafiem a multidão” e ignorem o que as outras pessoas pensam. Isso significa que a escrita eminente poderia produzir mais estresse – levando a uma maior incidência de doenças mentais. Os resultados podem ser conferidos no Journal of Creative Behavior (Vol. 35, n° 1). Tal pesquisa nos leva a questionar acerca de uma raiz mais explícita em relação à literatura feminina - o que reside nela traduz muita força, e  tanto as vozes externas quanto as internas acabam por diminuir isso. Entender que não é na escrita ou na poesia de uma mulher que residem algum tipo de declínio, é o oculto do que grita, tudo que um prisma de gêneros exige, não em um lugar de vítima, mas em uma tentativa de abranger e criar espaços para conseguir se enxergar sem o fardo de uma idealização. Precisamos desmistificar e tratar de forma mais empática pessoas com transtornos psicológicos, perceber que o melhor caminho de cuidar disso é oferecendo apoio e afeto. Todos nós, em algum momento da jornada, sentimos o peso de situações que podem parecer insustentáveis, em vácuos onde a sociedade exige sempre a postura que não se desmancha, que não erra; uma imagem que nem parece humana. O legado que Woolf e Plath deixaram parece pedir sustentação para que a emoção através da escrita nunca se apague. 

A existência como delírio consciente

Apesar de A redoma de vidro ser narrado em primeira pessoa e Mrs. Dalloway em terceira, os dois trazem aspectos de narrativa bem semelhantes. Acompanhamos o fluxo de consciência dos personagens, e, como leitores, a sensação é de estar dentro da cabeça de tais. O mais interessante de se perceber é que mesmo com propostas tão diferentes nas histórias, é possível fazer conexões palpáveis entre elas e trazer muito da essência de quem as escreveu à tona. 

Esther Greenwood e Clarissa são mulheres que, na visão externa de todos, têm sua vida estabelecida para felicidade; naquele parâmetro de se ter uma carreira, um marido, filhos ou supostamente ter uma boa vida na qual não existem lacunas para serem reclamadas. 

“Eu não estava conduzindo nada, nem a mim mesma.”

(A redoma de vidro)

É recorrente ouvirmos coisas sobre a importância da nossa juventude e como este é o momento ideal para fazer uma graduação, começar a ter um bom relacionamento, talvez fazer tudo que se tem vontade, nunca deixando de pensar em como o futuro será estabelecido. A redoma de vidro, obra escrita no dilema insustentável como um romance autobiográfico e inspirado no verão de 1952, traz uma personagem que consegue estágio em uma revista de moda e se muda para Nova York. No meio de uma atenção exaustiva às coisas novas, ela se perde na desatenção de si mesma. O ideal pré-estabelecido que nos é imposto se torna um fardo acumulativo, sem a possibilidade de mudar de rotas porque isso só pode ser visto como um regresso, adicionado ao contexto histórico no qual o livro foi escrito, uma mulher dar-se de conta de que não se interessa por aquilo que se interessava antes, que perdeu o encanto pelo cara de quem gostava e que talvez não seja perfeita em tudo que faz, só poderia resultar na erupção desse vulcão interno.

Algo que me chamou muita atenção ao ler foi a forma confusa, meio derretida com que ela começa a encarar a realidade, como se esta escorresse sem que ela a pudesse segurar. O declínio e o colapso que acompanhamos ao desenrolar das páginas é nítido, e, apesar de todo peso que possa parecer carregar, é muito comum que se tenha uma experiência fluída com sua leitura.

Se hoje em dia pessoas com depressão ainda são vistas como “frescas” ou “dramáticas” em relação à vida, em sua jornada, Esther pôde sentir isso com uma força esmagadora; conseguimos perceber seu descontentamento consigo mesma, os pensamentos cada vez mais sem esperanças em relação às coisas mais cotidianas, e quando volta para a casa da mãe, chega ao ponto de sufoco máximo; quando a redoma de vidro em torno dela não deixa mais nenhum espaço para o ar, ela tenta o suicídio.

“Eu achava estúpido lavar algo num dia para no outro dia seguinte ter que lavar de novo.
Ficava cansada só de pensar naquilo.
Queria fazer as coisas de uma vez e me ver livre de tudo.”

(A redoma de vidro)

Dado o fracasso da tentativa, ela é internada em uma clínica psiquiátrica e lá é exposta a tratamentos de choque. Esse ponto do livro traz muitas camadas à tona, fica transpassada na narrativa uma tentativa desesperada das pessoas em sua volta tentando entender o que havia de errado com Esther, onde haveriam falhado com ela para estar naquele estado. Podemos perceber o quão doloroso é o fato de a autora ter escrito isso de uma forma profundamente fundida a seus fantasmas, as palavras que passam a sensação de alguém querendo ser ouvida. 

“Minha mãe era a pior. Ela nunca me censurava, mas ficava implorando, com uma expressão de sofrimento, que eu dissesse o que ela tinha feito de errado. Dizia que sabia que os médicos achavam que tinha feito alguma besteira, porque ficavam enchendo-a de perguntas sobre quando parei de usar fraldas, sendo que eu havia sido perfeitamente educada desde pequena e nunca lhe dera trabalho algum.”

(A redoma de vidro)

Flores e festas de um hoje sem fim

Woolf narra em Mrs. Dalloway a passagem temporal de um dia. Acompanhamos de perto os pensamentos de diversos personagens ligados entre si. Publicado em 1925, o livro levanta questões e pontos sobre os indivíduos pertencentes àquele cenário de uma forma que seria impossível não ter se transformado em um exemplar notável na literatura. Mesmo no breve espaço-tempo em que a trama ocorre, é quase tangível o reconhecimento profundo de cada personagem, isso porque a intimidade que existe em acompanhar pensamentos a fio parece nos aproximar rapidamente de suas particularidades.

“Havia procurado sempre ser a mesma, nunca revelando nada de tantos outros aspectos de si mesma- falhas, ciúmes, vaidades, desconfianças [...]”

(Mrs. Dalloway)

Clarissa nos apresenta diversas facetas de seus pensamentos, tanto interessada nos acontecimentos do presente, como a festa que irá dar naquela noite, ou na visita inesperada do homem com o qual quase se casou. Assim, igualmente com pensamentos sobre seu passado, antigas versões de si mesma e seus amores perpassam sua memória. Com muitas metáforas e passagens poéticas, vamos chegando cada vez mais perto de uma certa passagem transitória de sua vida, como seu encanto por Sally Seton, claramente transpassado nas páginas. há descrições de uma paixão que por motivos óbvios de paradigmas sociais da época não poderia se fazer real na vida de Clarissa. A obra quando analisada com atenção traz à tona diversas camadas de personagens que, se realizados em seu âmago e vontades, não estariam inseridos na realidade padronizada e esperada. 

“Sally estava com um vestido de musseline rosa- seria isso possível? Ela parecia, de qualquer modo, toda luminosa, reluzente , como um pássaro ou balão de ar trazido pelo vento, e que se tivesse prendido por um instante nos espinhos de um arbusto. Todavia, quando se está apaixonado (e o que era aquilo senão amor?), nada é mais estranho do que a completa indiferença dos outros.”

(Mrs. Dalloway)

Conseguimos reparar no quanto a vida dentro da sociedade exerceu sua influência sobre Clarissa, como em certos momentos, envolta em tudo que acontece, ela que questiona acerca de suas escolhas e como se sente com o que vive. Woolf traz novamente a pauta de encaixotamento do ser dentro das padronizações, tamanha coragem era exigida para que com tanta luz ela colocasse em sua obra pensamentos que não eram reflexo da realidade em que viveu. 

“Caminhando em direção a Bond Street, fazia diferença se ela inevitavelmente iria deixar de existir por completo; mesmo com sua ausência, tudo isto vai continuar, era algo para se lamentar, ou havia consolo em ver na morte o fim de tudo?”

(Mrs. Dalloway)

Casada com um homem de importância política e diplomática, com sua casa e uma filha, com uma vida que se poderia dizer confortável pelo seu externo, no entanto, o que se passa não é exatamente o que os outros enxergam. Tende-se a reparar que a reflexão sobre nós mesmos pode causar desconforto, os questionamentos sobre aquilo que, muitas vezes, fomos obrigados a de alguma forma seguir.

O desencantamento pela vida

Mesmo com a complexidade que uma só figura do livro apresenta, não é neste ponto que ele se encerra. Representando um homem que viveu uma guerra e que se vê perdido em si mesmo, nos é apresentado Septimus Smith, no enroscamento de linhas de pensamentos de vários sujeitos ali presentes, como o de sua esposa, Lucrezia, que sofre imensamente pelo estado de depressão (em palavra de um contexto moderno) de seu marido.

Nas passagens de Septimus, percebemos o quão embaçada está a sua vista em relação à vida. Um dia ele pensa em se matar e relata isso em voz alta, o que leva sua esposa procurar ajuda médica. Percebemos seu desespero em relação ao que acontece, a luta contra a desatenção do marido às coisas do cotidiano, o como não enxerga mais o brilho nas coisas que interage; em certo momento da narrativa ele relata do pânico de não conseguir mais sentir; repete que não conseguia mais sentir nada, nem mais o prazer em comer ou em olhar as belezas da vida; se assusta, mas não sabe como lidar com isso, condenado a  viver na constante escuridão de si.

“Não, não aguento mais, dizia, tendo se afastado de Septimus, que deixara de ser Septimus, ali no banco, dizendo coisas duras, cruéis e más, falando sozinho, conversando com um morto; foi então que a criança avançou direto para ela, estatelou-se e começou a chorar.”

(Mrs. Dalloway)

O morto comentado na citação acima era um companheiro de guerra. Em muitos momentos do livro Septimus começa a delirar, vendo-o se aproximar. Ele chama por Evans em uma quantidade considerável de vezes. No parque com Lucrezia ele começa a enxergar mortos e fica extremamente irritado quando é interrompido; ele mesmo se questiona se estaria enlouquecendo. 

É interessante perceber como a dor de sua esposa é abordada, é fácil notar que se sente sozinha e que seu casamento se mantém de alguma forma através do seu esforço para tentar ajudar Septimus. Ela reclama de sua solidão e sofrimento, atestando como fez tudo o que considera correto, amando ele e vivendo em uma bela casa; porém, em algum momento começa a se questionar se deixar a família na Itália realmente foi positivo no propósito que vem se desmanchando.

São colocados os dois pontos de vista em sofrimentos diferentes, já que um não consegue mais encontrar apoio no outro. É fácil perceber que Septimus sofre de doença psicológica. Quando Lucrezia aciona um doutor para entender o que vem acontecendo com seu esposo, ele fica incomodado; não gosta da presença deste, logo depois outra interação com um diferente médico é narrada e até mesmo Lucrezia, que buscou este profissional, fica extremamente histérica quando é proposta a ideia de levá-lo para um tratamento distante e fechado, como uma casa de repouso; ela nega a possibilidade de estar longe dele; já Septimus reage com ironia às interações que teve com os dois profissionais. 

Woolf tece e enlaça a atenção de quem lê. É séria e profunda a forma que trata de um homem que sente os impactos de ter vivido uma guerra e sofre por conta de sua própria mente, é palpável sentir como ele reage à realidade, não mais de uma forma agradável, mas sim se como viver fosse um sofrimento para seu ser.

“Seu marido está gravemente doente, disse Sir William. Chegou a fazer alguma ameaça , no sentido de se matar? Oh, sim, fez, sim, exclamou ela. Mas não pretendia fazer isso, disse ela. Claro que não. Era apenas uma questão de repouso, disse Sir William; repouso, repouso; repouso; um longo período de repouso absoluto.”

(Mrs. Dalloway)

Entender que a autora passa para sua obra muito de seu interior faz com que compreendamos um pouco como ela se sentia. Ela proporcionou trazer personalidades que revolucionaram a forma de ver assuntos pouco discutidos num passado não muito distante, nos possibilitando observar e absorver a importância que cuidar de pautas como doenças psicológicas, depressão e outros possui, para que seja possível realizar uma rede de cuidado e apoio que muitos clamaram por ter, mas que não tiveram. 

Os frutos maduros que caíram da figueira

Sylvia Plath e Virginia Woolf, duas mulheres imensas que usaram as palavras como força. O conto da figueira, citado em A redoma de vidro, basicamente diz que nossa vida é como uma figueira cheia de frutos e cada um deles, lindo e de cor púrpura, representa uma escolha, e que às vezes mesmo morrendo de fome não sabemos qual deles será o mais delicioso, assim, deixamos passar e todos começam a murchar e encolher, caindo no chão. 

Os frutos que Plath e Woolf arriscaram sorver fizeram com que até hoje possamos sentir o gosto deles. A ramificação dessa figueira chegou até nós e podemos talvez até mesmo ter oportunidade de escolher mais de um figo. 

Que possamos olhar para a figueira sob a qual todos nós estamos sentados neste momento, e que ela nos conceda o processo muitas vezes doloroso, mas cheio de evolução, que é a vida. Que não tenhamos medo de escolher o figo que a nossa alma clama por saborear, sabendo que os frutos que um dia acabarão por cair servirão de adubo para fortalecer o chão que estamos deixando para quem vier depois de nós.

Referências

Comentários

  1. E de repente me surgiu uma vontade genuína de ler A redoma de Vidro. Lindo Carolina, vc é linda, orgulho enorme de ti.

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