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Os simbolismos da New Wave Tcheca: entre o caos e a esperança

Durante os anos 1960, a República Tcheca passou por um movimento cinematográfico de extrema importância para a história da cultura mundial, a New Wave Tcheca. Esse movimento foi influenciado pelas correntes da nouvelle vague francesa e pela vanguarda cinematográfica mundial da época, e buscava uma maior liberdade na criação artística, se afastando das convenções cinematográficas e sociais. O movimento teve sua origem na Escola de Cinema e Televisão da Academia de Artes Cênicas de Praga (FAMU), tendo entre seus alunos as principais figuras desse movimento, Miloš Forman e Věra Chytilová.

Os filmes eram frequentemente caracterizados por um estilo visual distinto, narrativas não lineares, críticas sociais e políticas veladas, com um grande uso do surrealismo no roteiro. Apesar das constantes mudanças entre estilos utilizados pelos cineastas, o surrealismo e críticas ao regime governamental da época se mantinham constantes. Quando analisamos alguns dos filmes com maior sucesso da época – e ainda hoje em dia – percebemos que além do irreal se tornar parte das histórias, a figura dos animais, crianças e mulheres cria uma simbologia para as ideias e críticas sociais que os diretores buscavam fazer através de sua arte.

Em seu filme As pequenas margaridas (1966), Věra conta a história de Marie 1 e Marie 2, duas personagens que em determinado momento olham para o mundo à sua volta e percebem que tudo estava caótico e estranho, então, as duas decidem que serão como aquele mundo e transformam sua vida em uma aventura constante. A história é trabalhada em cenas nas quais as personagens quebram, cortam e rasgam coisas, saem com homens mais velhos e comem de forma exagerada, além dos gastos constantes de bens materiais.

O filme aborda a liberdade de criação que inspirava as obras cinematográficas da época ao colocar suas personagens Marie 1 e Marie 2 em uma nova vida cheia de brincadeiras e negação das normas sociais. As personagens são um espelho do mundo em que vivem de forma totalmente verdadeira, pois, o que adianta viver numa falsa moralidade se o mundo à nossa volta está um caos? Se é permitido ousar e fazer o que desejamos, o jeito é abusar disso sempre que possível! No entanto, apesar da liberdade trazida pelas personagens, a verdade é que o falso moralismo ainda rondava a Europa da época e qualquer tipo de liberdade concedida aos artistas se tornaria um risco futuramente. Essa ameaça constante da liberdade também é retratada em Valerie e a Semana das Maravilhas (1970), de Jaromil Jires. O filme conta a história de Valerie, que, após ganhar um par de brincos da avó, passa por uma semana cheia de transformações e aventuras aterrorizantes, em que a jovem começa a ter um novo olhar sobre o mundo e seus perigos.

Apesar de ser uma boa alegoria sobre a transição entre a infância e adolescência, o filme também mostra um alto teor de uma liberdade escandalosa – com uma forte sexualização e incesto – combinada com o julgamento de muitos. Valerie explora a liberdade que lhe foi dada, assim como a liberdade dada à vanguarda tcheca, mas, durante boa parte do filme, suas aventuras são colocadas à prova com o julgamento da população, que era cercada de um medo imenso do envelhecimento e da morte.

As pequenas margaridas (1966)

Em Um dia, um gato (1963, dir.: Vojtech Jasny), a crítica à sociedade da época se mistura com o simbolismo de um futuro melhor, de esperança. O filme aborda a vida em um vilarejo onde o cotidiano gira em torno da escola, um diretor viciado em empalhar animais e o divertimento da população em torno de uma praça. Em um primeiro momento, parece que o filme trabalhará apenas as divergências do novo professor com o diretor da escola, figura que abusa da sua autoridade para mandar em todos. No entanto, o salto para o irreal acontece quando, em um determinado dia, uma comitiva circense aparece na cidade e sua atração principal nada mais é do que um gato de óculos.

O ponto principal do uso de óculos no gato é que, quando retirados, ele mostra quem as pessoas são de verdade através das cores, como um expositor da alma que pinta todo mundo com a cor que te simboliza: cinza para ladrões, roxo para mentirosos e corruptos, amarelo para os falsos e vermelho para os apaixonados. Claro que, com essa atração, as pessoas que foram expostas com o cinza, roxo e amarelo precisam começar a pensar em mentiras e meios de se livrar de acusações, e, consequentemente, ir atrás do gato para prendê-lo.

No decorrer da trama o felino realmente acaba sumindo e as crianças de uma turma da escola decidem ir atrás do bicho em um mutirão com seu professor, situação que acaba causando a ira do diretor e dos pais, que passam a planejar castigos e demissões. Desde o começo, mas principalmente nesse momento de revolta, o telespectador vê a influência do diretor na população e a sua busca por mais e mais poder. A sua autoridade na cidade não tem fim, e mesmo suas ações sendo escancaradas, a população parece cega a isso, o que, numa análise mais rigorosa, nos faz pensar que essa situação é uma representação clara da política europeia da época.

Um dia, um gato (1963)

O ponto chave desse filme é que não há vilão, a população que era contra o professor mostra apenas a mente facilmente manipulável de pessoas que não entendem a situação na qual estão inseridas e acabam agindo em um efeito manada. Porém ao olharem o empenho e força das crianças, os adultos que antes culpavam o professor ou os próprios filhos abrem os olhos para um novo entendimento do mundo onde estão inseridos. Se o gato já nos mostrou quem somos e o resultado não foi agradável, não há nada que se possa fazer a não ser a mudança, e no filme – assim como muitas vezes ouvimos falar –, ela começou com as crianças.

O movimento da New Wave Tcheca teve seu fim em 1969, quando as tropas soviéticas invadiram a Tchecoslováquia e reprimiram a Primavera de Praga. A censura governamental foi reintroduzida e muitos diretores foram impedidos de trabalhar dada a crítica constante ao governo da época. Diretores como Věra Chytilová tiveram seus filmes censurados no país.

Apesar de seu curto período de existência, a New Wave Tcheca teve um impacto duradouro no cinema mundial, e seus filmes inovadores e destemidos contribuíram para a evolução da linguagem cinematográfica.

Referências 


Carolina Pereira
Santista, 20 anos, estudante de psicologia e de filosofia. Amante de idiomas, café, mar e tudo o que Edgar Allan Poe tenha colocado no mundo. De vez em quando tem vontade de fugir e viver como um hobbit.

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