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Histórias de Fadas: fruição e marxismo em Oscar Wilde


Quando se pensa em fábulas e contos de fadas, lembra-se logo dos Irmãos Grimm, Esopo, Jean de La Fontaine, Charles Perrault ou Beatrix Potter. Negligenciado é o fato de que o grande dândi da literatura inglesa vai muito além de O retrato de Dorian Gray, tendo escrito contos infantis mantendo seu estilo de prosa que discorre sobre o mórbido humano. Se os escritores citados já carregavam um quê sombrio em suas histórias, Oscar Wilde traz também uma crítica profunda ao meio em que vive. A musa de Wilde é o ego humano e o socialismo influencia seus escritos cirurgicamente. Problemas teológicos, políticos e socioculturais sempre estiveram presentes na literatura wildiana.

Oscar Wilde (1854-1900), escritor, poeta e dramaturgo irlandês, sempre tratou em seus escritos, à sua maneira satírica e irônica, das hipocrisias e óbices da sociedade vitoriana. Tal raciocínio crítico quanto a luta de classes, e a aplicação em sua arte, sobretudo num contexto em que o Decadentismo confronta o realismo e retrata a “decadência” de valores de seu tempo, em que a arte é inútil, parece um desvio curioso na obra de Wilde; em contrapartida, é óbvio que o Decadentismo e sua sinestesia buscavam se libertar da cultura burguesa, tendo o "belo" como solução para o vil mundo.

Wilde é um esteta amoral, mas suas histórias de fadas são consideradas até conservadoras ou produtos da culpa católica, como se o dândi pregasse ditatorial e religiosamente de forma tradicional, mas é nesse moralismo que assinala-se o subversivo de Oscar Wilde. Não há heróis e antagonistas claros e dicotômicos tanto na literatura wildiana quanto na sua vertente infantil: o vilão aqui ou é a vida adulta, tal qual Antoine de Saint-Exupéry escreveria mais adiante, ou aquele capitalismo britânico finissecular e suas efervescências e desastres.

Histórias de fadas, publicado originalmente em 1888, e traduzido pela Nova Fronteira em diversas edições, sendo a mais recente de 2020, faz uma seleção de contos infantis do Oscar Wilde, que os escreveu para seus filhos. Contos como O Príncipe Feliz, no qual a visão mordaz de Wilde quanto à aristocracia é desenrolada em alegorias taciturnas e um subtexto queer (pela suavidade agridoce de um beijo nos lábios e um coração partido) e socialista digno da bibliografia wildiana, é um deles. É sobretudo acrônico, como tantos outros clássicos que espelham o contemporâneo. E contos de fadas são surpreendentemente ainda mais capazes de manter-nos na realidade que nos rodeia, apesar do elo com a imaginação, pois é muito mais fácil usar do real para interpretar simbologias e fazer comparações entre dois tempos (principalmente quando o tempo em contos de fadas é ilusório, aqui o que realmente importa é a circunstância do artista), erguendo os olhos das páginas amareladas, do metafísico, para a informação cognitiva/social.

Oscar Wilde
Nessa obra, tudo tem vida, não de maneira fantasiosa e mística ou abstrata, mas, sim, com a delicadeza da imaginação infantil e da metaforização. Gigantes, foguetes e flores tornam-se, então, mais símbolos que personagens: um devaneio. O solilóquio de cada personagem representa como experienciamos outras pessoas, e a "feiura" da pobreza pós-industrial, acima de tudo, educa. De acordo com Jarlath Killen, Ellen Terry escreve sobre a didática ética e ideológica em Histórias de fadas numa carta para o autor: “Eu gostaria de ler um desses algum dia para pessoas boas — ou mesmo pessoas não-boas, para então fazê-las boas”.

“— Dizia eu — continuou o Foguete —, dizia eu… O que é que eu dizia?

— Estava falando de si mesmo — retrucou o Chuveiro.

— Claro! Eu sabia que estava discorrendo sobre algum assunto interessante quando fui rudemente interrompido. Detesto a grosseria e toda espécie de maus modos, pois sou extremamente sensível. Ninguém no mundo é tão sensível quanto eu, disso tenho absoluta certeza.

— O que é uma pessoa sensível? — perguntou o Buscapé ao Chuveiro.

— É uma pessoa que, só porque tem calos, sempre pisa nos dedos dos pés dos outros — respondeu o Chuveiro sussurrando baixinho, e o Buscapé quase que estourou de rir.

— Por favor, do que é que estão rindo? — indagou o Foguete. — Eu não estou rindo.

— Eu estou rindo porque estou contente — respondeu o Buscapé.

— Essa é uma razão egoísta — disse o Foguete, com raiva. — Que direito tem você de estar contente?”

O trecho acima, retirado do conto O Foguete Notável, é uma sátira explícita às falácias dos aristocratas vitorianos, sendo cada personagem dessa história a representação de algum discurso e comportamento burguês, como numa passagem posterior, “As discussões são extremamente vulgares, já que na boa sociedade todos têm exatamente as mesmas opiniões”. O fim do conto é uma declaração clara da pequenez e brevidade do indivíduo, ensinando o leitor por meio de deboche existencialista e autognose.

Além das entrelinhas, o letramento por meio de contos de fadas (e clássicos, afinal) é o letramento por meio da imaginação, universos transmorfos livres dos limites do espaço-tempo, e assim o leitor é transformado, descobrindo o novo por meio de rupturas, se reconstruindo — no caso do público infantil, construindo. Cabe acrescentar que em nenhum momento o leitor é objeto passivo do sujeito livro, e vice-versa. Leitor e livro, como parasita e hospedeiro, têm uma relação de inquilinismo. Leitor e livro, como da mesma espécie, são canibais vorazes. Aí se faz a importância da mediação, feita pela família, professores, bibliotecários, e até mesmo esta reflexão ou escalpelamento que vos fala. Independentemente do tipo de leitor e do texto que lhe é dado, cabe a ele impregnar sentido, ou adaptar-se ao sentido, ou transgredi-lo, ou inová-lo. Fábulas, assim, tratando do cerne humano universal, desnudando o leitor de sua veste de cidadão (pois essa lhe rouba a capacidade de pensar), dependem do processo que Paulo Freire explica em A importância do ato de ler ao dizer que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. O letramento dos contos de fadas wildianos não é didático e bruto, instantâneo como o mundo da geração pós-internet, pois a crueza de uma fábula é só o puxão inicial do desenovelar-se que é educar.

Em Histórias de fadas, o que sobressai é a melancolia da vida e da sociedade e como cada história quase sempre culmina em morte. Oscar Wilde pode começar sua história com um “era uma vez”, mas não ousa terminá-la com um “felizes para sempre”; a virtude ou a falta de virtude faz o leitor crispar-se e as vãs lutas desmembram a esperança infantil dos adultos leitores, gerando não somente uma quebra da expectativa advinda de uma estrutura tradicional de contos de fadas, mas também incertezas que, por conseguinte, geram conhecimento (e transformação, intervenção). O Esteticismo de morrer por amor ou bondade presente na obra — curiosamente, honrado no túmulo de Wilde, que até hoje é coberto de marcas de batom pelos beijos deixados por seus leitores — deságua no conceito de texto de fruição firmado por Roland Barthes em O prazer de ler: “[texto de fruição é] aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise em relação com a linguagem”. Como é dito no final do conto O Amigo Dedicado, histórias com moral são perigosas. É da moral que nasce um combate entre dor e raiva, frustração, a fruição, e é esse combate edipiano que educa. É a inutilidade do texto, afirmada por Wilde e reafirmada por Barthes, que é, afinal, arte-imitando-vida-imitando-arte, mimese cíclica, e, por fim, útil. Segundo Barthes: 

“A sociedade vive sobre o modo de clivagem: aqui, um texto sublime, desinteressado, ali um objeto mercantil cujo valor é… a gratuidade desse objeto. Mas a sociedade não tem a menor ideia do que seja essa clivagem: ela ignora sua própria perversão.”

Ademais, cabe a leitura da coletânea na perspectiva socialista de Oscar Wilde, pela qual o leitor é educado. No conto O Amigo Dedicado, que fala sobre relações abusivas e tóxicas, é evidente a parábola de exploração do trabalhador em Karl Marx. “Não há trabalho que se faça com mais prazer do que aquele que se faz para os outros”, diz o Moleiro. No decorrer da obra, revela-se como a relação entre o Moleiro e Hans é a de um explorador e de um explorado, respectivamente. Cinge-os a expectativa iludida que o explorado engendra sobre o seu explorador sob a ideia de uma recompensa afetiva, financeira, civil etc., enquanto é posto em situações de degradação pessoal e precarização trabalhista; na teoria, uma troca mútua, na prática, vampirismo liberal. A admiração cega de Hans pelo Moleiro representa a admiração das classes baixas pelas classes altas, conforme enraíza-se cultural e sistematicamente, apesar de receber em troca indiferença e mutilação e, como o próprio Oscar Wilde declara em A alma do homem sob o socialismo, ensaio escrito em 1891, “Os piores senhores eram os que se mostravam mais bondosos para com seus escravizados, pois assim impediam que o horror do sistema fosse percebido pelos que o sofriam, e compreendido pelos que o contemplavam”. Ética e sacrifício são usadas como ferramentas para o desenrolar da história e simbolizam o trabalho alienado, a coisificação do homem pelo homem.

Karl Marx
“Não há Mistério maior do que a miséria”, exclama o Príncipe Feliz no mais famoso conto de fadas wildiano, lembrando ao leitor brasileiro de obras como Meu pé de laranja lima e Capitães da areia, fruindo sob a própria identidade de proletariado colonial. É com o uso do pessimismo, do grotesco, que Esteticismo e marxismo em Wilde se unem e se despem contra a “feiura” da propriedade privada, da fome, do altruísmo egoísta; Wilde clama — um murmúrio crepuscular — por rebelião e luta de classes (ressoa o que o autor diz em seu ensaio anteriormente citado, em que prega, acima de tudo, o Individualismo: “A desobediência é, aos olhos de qualquer estudioso de História, a virtude original do homem”), produzindo uma revolução moral antes de uma grandiosa revolução política. Parafraseando Roland Barthes, os “dominados” não possuem nenhuma ideologia senão a que é forçada a eles, logo, a luta de classes é a subversão de toda ideologia dominante.

Conforme Jarlath Killeen dicotomiza, contos de fadas pairam entre hegemonia e rebeldia, conservadorismo e transgressão, como se vê no comunismo cristão impregnado nos contos wildianos. Interessantemente, Oscar Wilde via beleza artística na Bíblia como uma antologia mas, ao pensar em todos os danos causados por tal livro, se desesperava por ter escrito algo similar, tal qual em O Gigante Egoísta com a figura de Jesus Cristo aparecendo para o Gigante de maneira bíblica: “Você me deixou, certa vez, brincar em seu jardim, e hoje você irá comigo para o meu jardim, que é o Paraíso”.

Enfim, paradoxos, aforismos, morte (a mãe da beleza, segundo Donna Tartt em A história secreta), niilismo… A literatura que é filtrada pelo tempo é uma mata infinita em que muitos se perdem tentando achar a saída em vez de parar e ouvir o canto dos rouxinóis. Grita a necessidade de libertar-se ou desembaraçar-se das entrelinhas, dos subtextos, do oculto, das grandes reflexões e revelações filosóficas, epifania que for. A arte simplesmente se é, sem razão, sem lógica aplicável a tal, em prol de ser. “Toda arte é inútil”, disse Oscar Wilde no prefácio de um livro sobre beleza e eternidade. “O Estudante olhou para o alto e ouviu, mas não compreendeu o que o Rouxinol dizia, porque só conhecia as coisas que vêm escritas nos livros”, disse Wilde em O Rouxinol e a Rosa. “Frequentemente mantenho longas conversas comigo mesmo, e sou tão inteligente que muitas vezes não compreendo uma só palavra do que estou dizendo”, disse o Foguete em O Foguete Notável.

Utilizar a literatura infantil como forma de dar sentido à vida adulta é fruidor até o ponto em que o adulto acaba por usurpar e invalidar a arte feita para crianças. Acima de tudo, urge a procura de sempre ler e estudar contos de fadas para crianças na perspectiva de uma criança, reconhecendo e respeitando o quão revolucionárias as crianças são (“Tenho tantas flores lindas [...], mas as crianças são as flores mais bonitas de todas”, pondera o Gigante em O Gigante Egoísta), e se há algo que Oscar Wilde ensina ao leitor em Histórias de fadas é a aposentar o ego. O significado de um livro jaz no escritor e seu meio (sem objetificá-los), no ser pelo ato de ser; ao leitor cabe digerir e ser digerido, o que resta é estesia. A empatia teórica é o Mito da Caverna de Platão. Para finalizar, eis o final do conto O Rouxinol e a Rosa:

“E voltou para seu quarto, onde pegou um enorme livro todo empoeirado e começou a ler.”

Histórias de fadas é uma obra bela e inútil, bela por ser inútil, inútil por ser bela. Entre descrições rebuscadas, sua fruição incomoda, seu moralismo imbuído de marxismo educa, seus paradoxos alfinetam, seu escárnio devora. E o leitor é devorado. Porque, no fim das contas, essa antropofagia é doce. Apesar ou por causa de todo o horror, Histórias de fadas é um livro sensível, airoso, melódico, açucarado de singeleza pueril; é tão humano que humaniza, nutre. Assim frui-se o Passarinho em O Príncipe Feliz: “Agora você está cego, e eu ficarei com você para sempre”.


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Referências

  • Histórias de fadas (Oscar Wilde)
  • The Fairy Tales of Oscar Wilde (Jarlath Killen)
  • A importância do ato de ler (Paulo Freire)
  • O prazer de ler (Roland Barthes)
  • A alma do homem sob o socialismo (Oscar Wilde)

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