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A Princesa e o Goblin: a literatura infanto-juvenil do século XIX


George MacDonald escreveu sermões, ensaios, poemas, romances etc. Mas sua fama foi se apagando com o tempo. Sem dúvidas, seu maior legado ainda vive atualmente: seus livros de fantasia, especialmente a infanto-juvenil.  

O início 

A literatura para crianças sempre teve seus pés na fantasia – a partir do século XVIII, os contos de fadas foram reconhecidos como literatura infantil. A literatura cumpre um papel pedagógico na vida dos menores, quando seus arredores não são mais unicamente suficientes, e faz isso perfeitamente ao utilizar-se de alegorias e objetos mágicos. Na Europa, a literatura usada com fins educativos para pequenos teve seu início definitivo no final do século XVII e se popularizou no século XVIII. Mas havia um porém - não existiam obras específicas para o público infantil, porque nem mesmo existia a compreensão da infância como vemos nos dias de hoje. 

Estima-se que até meados da Idade Média, as crianças eram só “adultos pequenos”, e não um grupo que merecia atenção e cuidados especiais. Mesmo a representação iconográfica da infância era feita igual a dos adultos, só que em tamanho menor. Segundo o historiador francês Philippe Ariès, o conceito moderno de infância é recente. Quando finalmente vista a fragilidade da criança, os adultos começaram a mimar seus filhos e a ter mais cuidados, principalmente nas famílias burguesas, que não precisavam mandar seus filhos para trabalhar. A necessidade da literatura se tornou pulsante, pois agora as crianças precisavam se preparar para pisar no mundo adulto e fazer uma boa transição, além de manter sua inocência e ser criança, valores recém-descobertos pelos adultos (ainda que, na época, só os meninos pudessem estudar). 

O fim do século XIX e início do XX marcaram a “Idade de Ouro” da literatura infantil. Os romances para crianças começaram a surgir com os efeitos da Revolução Industrial e a necessidade de fugir da realidade e voltar para o mundo dos contos de fadas. Acompanhando o ritmo das novidades, a literatura voltada para crianças amplia seus limites e abraça a função de instigar a imaginação; os livros cumprem um pouco menos sua função moral e pedagógica, para prezar os interesses de tornar tudo uma grande brincadeira. A criança não é mais figurante - é agora heroína de suas histórias, e têm leituras feitas para ela mesma.  

Ilustração de Charles Folkard para a 1ª edição de A princesa e o goblin

Muito dessa conquista é influência do filósofo Jean Jacques-Rosseau, que acreditava que as crianças deviam ter permissão para crescer com alegria e naturalidade. A disponibilidade dos livros também aumentou junto com as taxas de alfabetização, proporcionando a mais crianças o benefício da leitura. Alguns dos primeiros livros dessa nova leva são Alice no País das Maravilhas, As Aventuras de Pinóquio, O Livro da Selva, Peter e Wendy e, finalmente, A Princesa e o Goblin

A obra 

A Princesa e o Goblin começou a ser publicado por George MacDonald em novembro de 1870, de maneira seriada. O livro finalmente veio completo em 1872. Onze anos depois, MacDonald lançou uma sequência à história, chamada The Princess and the Curdie (A princesa e o Curdie, em tradução livre). 

O livro conta a história de Irene, uma princesinha que quase não sai do seu castelo porque o mundo é cheio de goblins malvados. Os goblins, na verdade, não eram tão malvados assim – eles foram expulsos do convívio na superfície pelo “Povo do Sol”, os humanos normais, e precisaram se adaptar e continuar vivendo embaixo da terra, ficando com aparências grotescas e monstruosas. O plano do Rei e da Rainha Goblin é casar seu filho com Irene, para se vingar e conseguir dominar até a superfície. 

Ao mesmo tempo, os mineiros embaixo da montanha estão acostumados a ouvir as conversas dos goblins que perpassam as paredes da mina. Um pequeno menino mineiro, chamado Curdie, decide investigar quando escuta conversas suspeitas entre os goblins. E é assim que as histórias de Curdie e Irene começam a se entrelaçar. Irene é uma verdadeira princesa: um compasso moral humano, bonita, gentil e muito curiosa. Curdie é esperto, inventivo e corajoso, e os dois juntos formam uma dupla memorável. Ambos se tratam em pé de igualdade, sem arrogância ou preconceito. 

George MacDonald

A leitura é rápida e leve, mesmo que previsível. É importante lembrar que muitos dos clichês hoje conhecidos não existiam na época, já que a fantasia clássica ainda estava sendo moldada. Mas mesmo podendo adivinhar a história, a magia da ambientação que é apresentada cativa qualquer um. A prosa é fluída e doce, encantada principalmente nas descrições e na atmosfera. 

Além disso, a narrativa tem diversas outras qualidades. Ela instiga o leitor a acreditar e seguir sua intuição. O aconchego do livro atravessa para fora das páginas e deixa o coração de qualquer um quentinho. 

A leitura do livro satisfaz o desejo de conhecer mais como a fantasia primeiramente era no século XIX, ainda nos seus primeiros passos. Para termos a fantasia como a conhecemos hoje, ela tinha de ter começado em algum lugar. Fãs de O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, podem ler a obra de George MacDonald e perceber os pingos da inspiração que A Princesa e o Goblin deu para o pai da literatura moderna fantástica; poucos contos transmitem a magia da infância do jeito que A Princesa e o Goblin faz. 

A história é tradicionalmente divida entre o lado bom e o lado mal. MacDonald não tenta levar o público a ter pena dos goblins, e trata algumas cenas com violência. Estruturalmente, a obra lembra os antigos contos de fadas, e serve como uma ponte entre o folclore e o gênero de fantasia como o conhecemos hoje. 

“De todas as histórias que eu li, incluindo até todos os romances do mesmo autor, esta continua sendo a mais real, mais realista, no exato sentido da frase – mais parecida com a vida. Ela se chama ‘A Princesa e o Goblin’ e seu autor é George MacDonald, o homem de quem se trata este livro.”

(G. K. Chesterton)

Alegorias fantásticas: a trisavó 

As obras de MacDonald fogem das personagens moralizantes completamente explícitas, comuns nas obras de Charles Perrault e dos irmãos Grimm. Se MacDonald desejava inserir elementos espirítuais ou religiosos, ele o fazia de maneira mais sutil durante a narrativa. O simbolismo e a moralidade escondida são marcas registradas nas obras do autor. 

Ilustração de Charles Folkard para a 1ª edição de A princesa e o goblin

Irene, desbravando o castelo, descobre uma pessoa extraordinária que vive em um dos quartos, e que afirma ser sua trisavó. Sua babá não acredita quando ela conta a experiência que teve, o que deixa Irene perplexa. Mais tarde na história, nem mesmo Curdie acredita na princesinha. Ela sente como se tudo que sempre passou aos outros não importasse – sempre foi verdadeira e íntegra, então por que inventaria histórias? 

“- Se você não entende, que direito tem de dizer que é maluquice? - contestou a princesa, ligeiramente ofendida.”

Diversos estudiosos veem diferentes figuras na trisavó. Alguns dizem que ela representa o que há no subconsciente de Irene; outros afirmam que ela representa a natureza; mas talvez a alegoria mais óbvia seja de que ela é algo como Deus ou outra figura espiritual. De qualquer maneira, ela é uma mentora que permite a Irene enxergar a própria força e se sentir segura. 

A trisavó é mágica e sempre ajuda a pequena Irene, mesmo que de formas misteriosas. A capacidade de Irene de acreditar na sua trisavó é o que dá coragem a princesinha para seguir em frente e enfrentar os goblins. A habilidade de imaginar e acreditar representa um dom que desencadeia diversos outros. 

“Mas é isso que o medo faz com a gente: ele sempre fica do lado daquilo que tememos.”

O criador 

George MacDonald foi um escritor, poeta e religioso escocês. Ele inspirou diversos nomes da fantasia, como W.H. Auden, J. R. R. Tolkien, Madeleine L’Engle, dentre outros. Para C. S. Lewis, ele foi considerado um mestre. 

George nunca desistiu de seus ideais, mesmo quando sua carreira religiosa não deu certo. Ele tinha visões tolerantes demais para a época, e acreditava na educação para as mulheres. 

Lewis Carroll foi um grande amigo de George MacDonald. De certa forma, foram as crianças de George as responsáveis pela publicação de Alice no País das Maravilhas – o manuscrito foi lido para elas, que adoraram. E foi com essa grande família de onze crianças que George descobrira seu talento especial para criar contos de fadas. 

“A qualidade que me encantou em seus trabalhos imaginativos acabou sendo a qualidade do universo real, a divina, mágica, aterrorizante e extasiante realidade em que todos vivemos.”

(C. S. Lewis sobre seu mestre)

Louisa MacDonald, Lewis Carroll e crianças

A Princesa e o Goblin pode não ser o melhor livro que você vai ler na sua vida. Mas ele deu um ponta-pé que foi necessário para vários outros virem depois dele – e isso o marca na história. 

“O que a criança não percebe até crescer é que, ao reagir à fantasia, ao conto de fadas e ao mito, ela reage ao que Erich Fromm chama de linguagem universal, a primeira e única língua no mundo que cruza todas as fronteiras do tempo, espaço, raça e cultura. [...] Mas quase todos os melhores livros infantis fazem justamente isto. Não apenas Alice no País das Maravilhas, O Vento nos Salgueiros ou A Princesa e o Goblin. Até os contos mais simples contam mais do que aparentam à superfície.”

( Madeleine L’engle
O Universo em Expansão, presente no livro Uma dobra no tempo

 


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Referências



Arte em destaque: Caroline Cecin

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