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Charlotte Brontë e a genialidade da vida comum


A primeira vez que li Jane Eyre fiquei impactada por seu poder narrativo. Era o tipo de história capaz de se aninhar na mente e repousar ali para sempre, estragando qualquer experiência futura com livros semelhantes. Bons livros exigem nosso tempo. Excelentes livros consomem nossos corações e cérebros.

A pequena Jane Eyre, simples e feia como ela mesmo se define nas páginas, não tinha noção do poder que exerceria sobre mim e nem sobre os milhões de pessoas que leriam sua história desde o seu lançamento em 1847. A aventura de descoberta, resiliência e busca por liberdade – intelectual e física - da governanta de Thornfield Hall marcou profundamente a minha jornada de leitora a partir daquele momento. 

“Das mulheres se espera que sejam muito calmas, de modo geral. Mas as mulheres sentem como os homens. Necessitam de exercício para suas faculdades mentais e espaço para seus esforços, assim como seus irmãos; sofrem com uma restrição rígida demais, com uma estagnação absoluta demais, exatamente como sofreriam os homens. E é uma estreiteza de visão por parte de seus companheiros mais privilegiados dizer que elas deveriam se confinar a preparar pudim e tricotar meias, a tocar piano e bordar bolsas. É insensato condená-las ou rir delas se buscam fazer mais ou aprender mais do que o costume determinou necessário ao seu sexo.”

(Jane Eyre)

É um caminho natural de nossas mentes se sentirem compelidas a buscar entender a origem das nossas paixões e, por isso, não demorei a ir atrás do nascimento do texto. Era necessário compreender o cerne de onde e como aquele livro havia nascido. Quem era Charlotte Brontë? Que tipo de fantasma era ela para me tirar o sono mais de 170 anos depois de ter publicado a sua história? Tal qual a personagem famosa de sua também famosa irmã, Emily Brontë, Charlotte passou a me assombrar como uma Catherine Earnshaw que, mesmo em morte, não abandona a mente dos vivos. 

O que eu encontrei, a princípio, foi um apanhado quase romântico e vitorianamente sóbrio sobre a escritora nascida em 1816 e que viveu uma vida breve entre afazeres domésticos e a escrita de três romances que entraram para o cânone mundial. Os relatos frisavam Charlotte como uma mente em ebulição que tinha sido criada isolada entre charnecas obscurecidas e frias, tendo apenas os irmãos como companhia, enquanto inventava histórias sobre reinos fantásticos e heróis byronianos. Era uma imagem apropriada, que parecia frisar que o brilhante nascia da obscuridade e isolamento. Tal qual a sua Jane Eyre, a Charlotte Brontë dos relatos parecia uma figura pálida, pequena e simples que havia sido beijada pelo extraordinário. Era uma imagem apropriada para se acomodar no imaginário literário. Afinal, nós leitores adoramos o excêntrico, e a Charlotte Brontë das biografias de internet parecia excêntrica o suficiente para fascinar. Contudo essa visão casta, porém tocada pela genialidade violenta e selvagem, tinha muito mais de construção póstuma do que talvez de real e tinha sua origem na também escritora e amiga próxima de Charlote, Elizabeth Gaskell

Em 1857, Gaskell havia recebido do pai de Charlotte, o reverendo Patrick Brontë, a incumbência de escrever uma biografia sobre a amiga. Apesar de se sentir lisonjeada, Gaskell sabia que a missão seria duplamente caprichosa, primeiramente porque ela nunca tinha se aventurado na escrita biográfica (sendo ela própria avessa a relatos pessoais escritos por terceiros) e depois, porque Gaskell tinha em mente que, ao ser a primeira romancista mulher a escrever uma biografia sobre outra romancista mulher, algo mais estaria em jogo para ambas, mas principalmente para Charlotte: a fragilidade da reputação de uma mulher no período vitoriano. Desta forma, Gaskell teve muito cuidado ao expor através da escrita o caráter de Brontë: suprimiu e omitiu questões, foi evasiva em relação a períodos problemáticos da vida de Charlotte (sua paixão pelo professor belga Constantin Héger, por exemplo), e silenciou quanto a questões que poderiam ser mal interpretadas pelo público. “Existiram outros silêncios e evasões.”* Como bem apontou Chirlei Wandekoken na edição brasileira de A vida de Charlotte Brontë ao comentar as escolhas de Gaskell:

“Seria uma agressão ao último dos Brontës, ao viúvo enlutado, divulgar cartas íntimas de Charlotte para outro homem, fatos de um período conturbado que vivera a autora em sua juventude. Àquela época, o gesto seria como matá-la duas vezes.”

Estes recortes e omissões de Gaskell hoje nos são muito compreensíveis. Sabemos que dentro da sociedade rígida vitoriana, as reputações contavam pontos e uma mulher corria muito mais perigo de ser desmoralizada do que um homem em igual posição. Suas vidas, seus livros e suas capacidades estavam sempre sob escrutínio do pudor e bons costumes estabelecidos. Desta forma, o relato trazia muito da verdadeira Charlotte, mas também criava a imagética de uma figura moralmente correta, filha e irmã devota, esposa impecável, que equilibrava de forma perfeita a vida doméstica e os afazeres de uma mulher de sua posição social com a vida criativa de uma escritora, sem escorregar em nenhum desejo ou ideia socialmente escandalosa. Como a sua mais famosa Jane Eyre, também a imagem de Charlotte, da maneira descrita por Gaskell, entrou para o cânone e permaneceu lá nutrindo a alegoria até que novas biografias e leituras começaram a despontar décadas depois. 

Charlotte Brontë

Apesar das possíveis escolhas problemáticas (mas entendíveis), que podem ser analisadas e destrinchadas na biografia escrita por Gaskell, inclusive a sua escolha de cartas específicas que constam na edição, há ainda muita informação pertinente que nos ajuda a entender Charlotte Brontë para além do mito da genialidade absoluta. O compilado de cartas pessoais enviadas por Charlotte ao longo de sua vida, e que consta na edição, nos permite vislumbrá-la como um ser humano feito de carne e ossos e que padeceu de desejos e frustrações perante situações da vida diária. Há possibilidade, nas entrelinhas, de se vislumbrar a mulher comum, e nem por isso menos extraordinária, que ela foi.

Em uma carta escrita em 13 de outubro de 1943, enquanto está em Bruxelas, ela comenta: 

“É algo curioso estar tão solitária no meio de tantas pessoas. Às vezes, a solidão me deixa extremamente oprimida. Esses tempos, teve um dia em que eu senti como se não pudesse mais suportar isso, e fui até a Madame Héger para dar meu aviso prévio. Se dependesse dela, eu logo estaria livre disso, mas quando Monsieur Héger ficou sabendo, mandou em chamar no dia seguinte e expressou veementemente que não deixaria que eu partisse.”

Apesar de transparecer ser uma pessoa racional e metódica, preparada para qualquer coisa, no tempo em que viveu em Bruxelas, Charlotte sofria imensamente com saudade da família e as lembranças de casa a deixavam inquieta e melancólica. Longe dos irmãos, sentia o peso da solidão, apesar de estar cercada de pessoas. Sofria também com a falta de possibilidades para a vida futura, pois sabia que seu tempo como professora na escola em Bruxelas chegara ao fim e, dentro da perspectiva da sua classe, logo ela teria de encontrar meios de se manter. Ela sonha, neste período, em abrir uma escola para meninas junto com as irmãs, Anne e Emily, mas a realidade crua logo se faz enxergar quando o pai delas fica doente e Charlotte – sempre a responsável, sempre a prudente – diz, em 1844: 

“agora eu sinto que seria egoísmo de minha parte deixá-lo e ir atrás de meus próprios interesses.”

É difícil construir sonhos quando a realidade se faz mais urgente. 

Esse sentimento de inadequação e anseio por algo que ela poderia nunca alcançar, que depois surgiriam em sua famosa primeira protagonista, já tinham sido expressos por ela em agosto de 1841, quando Charlotte trabalhara como governanta e tutora, um emprego que lhe fatigava física e mentalmente e a mantinha longe do que verdadeiramente amava, a família e a possibilidade de escrita. Como qualquer jovem que ansiava por mais, mas não tinha os meios para alcançar, Charlote derramava em carta a necessidade de seu coração:

“A carta de Mary menciona as pinturas e catedrais que ela visitou – pinturas requintadas e catedrais veneráveis. Não sei dizer o que fez minha garganta inflamar enquanto eu lia a carta dela: senti uma impaciência tão intensa, por conta das minhas limitações e meu trabalho fixo, um desejo tão grande de ter asas – asas que somente a riqueza pode nos assegurar, uma sede tão urgente de saber, de aprender, algo interno pareceu expandir dentro de mim em um minuto. Fiquei atormentada pela consciência de possuir faculdades mentais que não são exercitadas – então, tudo entrou em colapso, e eu me desesperei.”

Aqui, Charlotte parece desnudar não apenas o desespero de sua condição financeira instável e insuficiente para realizar aspirações, algo tão compreensível para muitos que precisam abdicar de seus verdadeiros desejos pela necessidade pungente de sobreviver, mas também a fome que consome mentes criativas que precisam de estímulo constante. Charlotte, nessa mesma carta, confessa que sua tristeza advém também de ter receio de não ter o dom para a vocação que havia escolhido (ensinar). São medos e ansiedades reais de uma jovem que desejava conhecer mais e aprender mais do que talvez tivesse chance. 

Em 1849, após as trágicas e sequenciais mortes de seus três irmãos, Branwell, Emily e Anne, temos um vislumbre melancólico e muito humano de como a escrita salvou a sua sanidade:

“Perder o que temos de mais querido no mundo, produz um efeito em nosso caráter, e passamos a procurar algo em que possamos nos apoiar, e quando encontramos, agarramo-nos a isso fortemente. A imaginação me salvou enquanto eu me afogava, há três meses, e exercitá-la tem mantido minha cabeça acima da água desde então.”

Em meio ao luto, parece que escrever foi um ato vital. Charlotte estivera no meio do processo de criação de seu segundo romance, Shirley, quando precisou lidar com essas perdas e suas consequências emocionais para ela e para o pai. A sucessão de infortúnios, que fragilizou a sua saúde e seu estado mental, não a impediu, porém, de assumir as tarefas rotineiras e gerenciar a casa enquanto lidava com a eminente publicação de mais uma novela e a curiosidade e pressão que o sucesso – Jane Eyre – exercia sobre ela para revelar a identidade de seu pseudônimo Currer Bell. Apesar da dor, ela continua. Ela sempre continua. Charlotte se levanta pela manhã, cumpre suas tarefas, guarda a saudade no peito e de forma resiliente, escreve. As palavras são uma âncora, mantendo-a fixa em terra firme e impedindo que o desânimo a preencha. 

“Mas a vida é uma batalha. E espero que todos nós possamos batalhar bem!”

O luto, um sentimento tão humano, a seguiu de perto para sempre. Depois da perda dos irmãos, o medo de perder também o pai virou uma fonte constante de apreensão para ela. Apesar de já ser autora de dois romances de sucesso e ter de lidar com uma quantidade substancial de afazeres que a autoria lhe requeria, Charlotte era uma filha devotada, e a saúde frágil do pai se tornou uma preocupação rotineira. A morte no período vitoriano era uma visitante frequente e a doença se fazia presente em cada canto. 

“Não é certo pensar no pior e estar sempre pensando no futuro de maneira apreensiva, mas eu creio que o luto é uma faca de dois gumes e machuca por dois lados, a memória de um se perde no medo pelo próximo.”

Estes trechos, dentre tantas cartas disponíveis em A vida de Charlotte Brontë, serviram sim ao propósito de Gaskell de construir para a posterioridade uma imagem impecável de Charlotte enquanto escritora, irmã, filha e esposa, dotada de uma inspiração ímpar e um ímpeto criativo inegável. Para o período vitoriano isso importava, e Gaskell foi cuidadosa o suficiente para não deixar possíveis rachaduras na reputação da autora de Jane Eyre. Mas suas escolhas de cartas, aparentemente tão corretas, ainda possibilitam a um leitor atento vislumbrar, nas entrelinhas, a humanidade latente de Charlotte como uma garota e depois uma mulher adulta que padeceu e foi moldada por desejos e dores reais da vida cotidiana. Sua vida foi pontuada por momentos de luz e fé, mas também por dificuldades, ansiedades e medos. Ela desejou e amou, e perdeu. E em meio a isso, escreveu de forma espetacular. 

Há genialidade nas intempéries da vida comum. E Charlotte Brontë definitivamente soube explorá-las. 

Referências 

Comentários

  1. Que texto maravilhoso! Li recentemente Jane Eyre e comecei a me interessar pelas obras de Charlotte e a literatura vitoriana, gostei muito de saber mais da vida da autora

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  2. Adorei o texto, Charlotte é minha escritora favorita!

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