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O que as mulheres temem: o horror pelo olhar de Júlia Lopes de Almeida


Fazendo justiça ao episódio absurdo da substituição da escritora Júlia Lopes de Almeida pelo marido, durante a primeira formação da Academia Brasileira de Letras, a coletânea de contos de horror brasileiro Medo Imortal, publicada pela editora DarkSide, decidiu incluir Júlia homenageando a sua obra e o seu legado. A autora, apesar de ter sido uma das idealizadoras da ABL, foi barrada por ser do sexo feminino - a Academia pretendia imitar os moldes franceses na época. Júlia foi “substituída” por seu marido, Filinto de Almeida, também escritor, porém de qualidade muito inferior. O próprio poeta português afirmava saber que a cadeira deveria ser, por merecimento, de Júlia Lopes de Almeida.

Nascida em 1862, no Rio de Janeiro, Júlia foi educada em casa pela irmã mais velha a fim de preservar sua saúde frágil. Ainda durante a infância, a escritora foi morar em Campinas, filha de pais portugueses, sua família prezava muito pela educação, garantindo às filhas a oportunidade de se instruírem. Adelina Lopes Vieira, irmã de Júlia, foi inclusive coautora de um livro de contos infantis que concedeu às irmãs o título de duas das pioneiras da literatura infantil brasileira.

Júlia mudou-se para Lisboa em 1886, onde conheceu seu marido. Lá ela contribuiu para revistas e publicou seu primeiro livro. Em 1888, Júlia volta para o Brasil - entretanto décadas depois volta para Portugal e, em seguida, fixa residência em Paris, mas acaba morrendo no Rio de Janeiro durante uma viagem. 

A escritora carioca defendia a abolição da escravatura, a república, os direitos das mulheres à educação formal, ao divórcio e à independência financeira. Seus livros são protagonizados por mulheres e tecem críticas à sociedade, além de transitar através dos gêneros literários, sendo ela considerada contista, romancista, dramaturga e cronista. 

A candidatura - e o barramento - da escritora só foi descoberta em meados dos anos 2000, pela pesquisadora Michele Asmar Fanini. Seu legado, qualidade estética e relevância social não pôde ser ignorado e em 2017, durante as comemorações do aniversário de 120 anos da ABL Júlia foi homenageada pelos imortais que celebraram, simbolicamente, a cadeira de número 41. 

Dessa forma, a antologia de contos de horror, ao selecionar os escritores imortais fundadores, incluíram Júlia, apresentando aos leitores 6 contos de terror da autora que arrepiam a espinha de qualquer um - principalmente das mulheres - porque narram o aspecto mais catastrófico dos pesadelos humanos: a realidade.

Outros contos do livro também causam nojo e horror nas leitoras: Álvares de Azevedo, em Noite na Taverna, traz à tona temas mórbidos como o incesto, a necrofilia, o assassinato, o abuso de vulnerável e o canibalismo; João do Rio, com o conto A Peste, cria uma sensação de insegurança que faz o leitor temer por sua saúde e se contorcer com as cenas descritivas do narrador dentro do hospital. 

Mas nenhum dos autores homens desperta o horror como os contos de Júlia.

Júlia Lopes de Almeida

No conto As rosas, em três páginas Júlia ambienta um suspense enquanto a narradora conta sobre um jardineiro que começa a trabalhar em sua casa. Ela confidencia que várias pessoas a alertavam sobre o perigo de ter um homem estranho como ele tão perto de casa, mas que ela decidiu dar uma chance ao jardineiro. Em certa noite a mulher é surpreendida pela folhagem sem rosas e o jardineiro, atordoado, leva a mulher para ver um corpo feminino quase nu coberto por flores; conta à patroa que trata-se de sua própria filha. O pai, irado pela filha ter fugido com um amante violento e voltado para procurar alento familiar, assassinou a jovem. A justificativa é um retrato da violência patriarcal: 

“[...] matei-a e não me arrependo… Antes morta por um pai honrado do que batida por um cão qualquer…”

O conto finda, sem que o leitor descubra qual destino é reservado à patroa que torna-se testemunha de um filicídio.

No conto seguinte, Os porcos, a trama é ainda mais macabra: Umbelina, uma jovem racializada, engravida do filho de seu patrão e é rejeitada por ele. Até aqui cria-se uma história igual a mil outras: gravidez não planejada, abandono parental, violência psicológica causada pela família durante a gravidez… nada que os leitores já não estivessem familiarizados. O horror nesse conto se acentua quando o pai promete dar a criança nascitura aos porcos famintos da família. Umbelina é aterrorizada durante os meses de gravidez ao ponto de decidir fugir. Seu destino é traído quando o parto se inicia ainda na estrada. Ela pare o filho sozinha, arrancando o cordão umbilical com os próprios dentes. Umbelina se depara com outro medo: o receio de amar o próprio filho e acabar o perdendo. Com o corpo fragilizado pelo parto, a jovem não consegue impedir que os porcos se aproximem e levem o bebê. 

A própria autora passou pelo luto de perder uma criança: dois de seus seis filhos acabaram falecendo na infância. Nesse conto a violência patriarcal é visceral, já que todo o terror vivido pela protagonista é resultado das decisões de seu amante, de seu pai e de um meio social incapaz de respeitar as mães. Explorado nesse texto também está um medo feminino que ultrapassa gerações: o medo do parto. Ainda agora, em 2022, mulheres adultas passam por disfunções sexuais devido ao medo da gravidez, muitas recorrem a dois ou três métodos anticoncepcionais e ainda assim tem crises de ansiedade ao menor sinal. E mais uma vez esse medo é justificado. A violência obstétrica é uma realidade absurda: procedimentos invasivos, abuso psicológico, descaso médico e o próprio terror criado na mulher durante a gravidez transformam a imagem do parto em uma cena tarantinesca. Além de todos os fatores sociais que levam as mulheres a experienciar sentimentos de horror, existe o que Simone de Beauvoir chama de “medo dos seus próprios interiores”. As meninas não são - e na época retratada pelo conto, menos ainda - orientadas sobre seu próprio corpo. O sangramento é assustador, as dores são assustadoras, qualquer aspecto biológico não compreendido é assustador. Da mesma forma que em um período anterior à agricultura as mulheres foram temidas pela capacidade de criar novos seres humanos, elas aprenderam a temer a si mesmas baseando-se em estudos corrompidos da psicologia e da anatomia feminina. 

O caso de Ruth conta como a jovem, prestes a noivar, confidencia ao pretendente que o padrasto a havia “desonrado” aos 15 anos. O abusador, morto há 8 anos, deixou a herança traumática para Ruth que ao perceber que o futuro marido sempre sentiria ciúme e raiva pela violência que ela sofrera, acaba suicidando-se antes do casamento. Para finalizar o horror do conto, a família decide sepultar Ruth no mesmo jazigo de seu padrasto, causando revolta no noivo. Uma revolta que se deu não pela jovem acabar junto a seu abusador, mas pela crença de que Ruth teria se matado para reencontrar alguém que ele acreditava ter sido seu amante. O conto não tem fantasma nem monstro fictício, mas toca em pontos assombrosos como o abuso de vulnerável no ambiente familiar, a misoginia e os traumas sexuais. Ao saber sobre as violência sofridas ao longo de quatro meses  o noivo pensa: 

“Não devo adorá-la assim! É uma mulher desonrada.”

A preocupação nunca foi a integridade física e emocional de Ruth, mas o medo de se tornar chacota na sociedade e o ciúme de alguém que a noiva nunca amou - pelo contrário. Ruth, prevendo a vida miserável que levaria ao lado daquele homem que achou de bom tom “perdoá-la” por ter sido uma vítima de abuso, escolhe a morte.

O quarto conto selecionado, A neurose da cor, fala sobre Issira, uma nobre egípcia intensamente atraída pela cor vermelha. Issira começa desejando tecidos vermelhos, logo deseja flores vermelhas, sua obsessão chega ao ponto de decapitar ovelhas e beber seu sangue. Por ser nobre e atraente, é prometida em casamento para o príncipe Ramsés II. Durante a estadia em Tebas - cidade do rei - extrapola seu fascínio pelo vermelho e começa a beber sangue de seus servos que morrem um a um. O rei nada faz por temer a mulher - os antigos egípcios acreditavam que os nobres se encontrariam na vida imortal. Quando o pretendente de Issira morre, o rei consegue pôr fim à matança da jovem, ordenando que ela voltasse para sua cidade. Proibida de beber sangue humano e desejando o noivo morto, Issira acaba bebendo o próprio sangue e morrendo.

Nesse conto Júlia faz o oposto dos três primeiros: o vilanismo fica centrado em Issira, que mostra-se uma assassina fria - quase como uma releitura de Drácula. A jovem é sinônimo de força, perigo e amedronta até mesmo o rei. Apesar disso, seu fim é trágico. Issira termina o conto totalmente destronada de seu poder: seu pai e seu noivo morrem e o rei a descarta. Mesmo sendo nobre, seu gênero a coloca em uma situação desfavorável, tornando-a dispensável na primeira oportunidade.

O conto seguinte de Júlia em Medo Imortal difere dos demais, pois trata-se de um protagonismo masculino, e o elemento assustador é a fome. Hippolyto, entusiasta da música, toca o piano extasiado pela fome, sem parar, somente lembrando de sua irmã falecida - que não chega a ser nomeada na trama. O fator social é a fonte do horror - a fome e a miséria de Hippolyto -, mas o feminino não chega a ser levantado.

O último conto, A alma das flores, cria uma metáfora irônica com mulheres e plantas. Na época em que Júlia viveu, pautas como o ecofeminismo ainda não eram tão difundidas quanto atualmente, entretanto, a relação entre os seres é tema desse conto. Adolfo visita seu amigo Salles que, por sua vez, possui um magnífico jardim; Adolfo descobre que o aroma das plantas chega a ele em formato visual: ele vê belas mulheres andando pelo jardim. A comparação simplória, e até mesmo poética, não parece ter grande relação com a violência de gênero, até o ponto em que Salles fere o tronco de uma jaqueira com canivete e o amigo segreda ao leitor “quando vi, positivamente vi, uma encantadora mulher, já na segunda mocidade, mas, apesar disso, linda, arrastando-se de joelhos, com os cabelos em desalinho”. A alegoria do aroma das plantas metaforiza a relação de posse entre homem e natureza, evocando - nos leitores pós-2017 - o suspense e o simbolismo do filme Mother! (2017).

O horror destacado nesses contos - principalmente nos três primeiros - não faz uso de criaturas fantásticas, lendas, doenças, magia, nem nada do gênero. Júlia cria o enredo em torno de violências patriarcais que partem do princípio que nenhum lugar é seguro para as mulheres e o que elas mais temem são, na verdade, relações inevitáveis. A patroa do primeiro conto foi surpreendida por um jardineiro que revelou-se um pai assassino; a filha do jardineiro, por sua vez, procurou no pai um porto seguro após sofrer violência por parte de seu parceiro e acabou morta; Umbelina foi duplamente abandonada: por seu namorado que a descartou ao saber da gravidez e pelo pai que jurou dar seu filho para os porcos; Ruth foi violentada pelo padrasto e silenciada a vida inteira para preservar sua honra, quando decidiu confiar em seu noivo acabou sendo culpabilizada pela situação e, sem saída, suicidou-se, sendo humilhada pelo noivo até mesmo após a morte; Assira, a vilã do conto - com tamanha sede de sangue que quase se iguala aos chefes de Estado que envia seu povo para as guerras -, tem seu fim decretado por um homem que só a respeitou enquanto a temeu. Mesmo a metafórica relação entre Salles e as flores culmina em seu canivete castigando uma árvore que não frutifica de acordo com seus desejos. Às mulheres que não se calaram, que não obedeceram e que não corresponderam à expectativa masculina é reservado um destino trágico. As narrativas de Eva e Pandora representam claramente o medo que a mulher deve ter de desobedecer. 

Os contos de horror criados por Júlia Lopes de Almeida causam repulsa justamente porque quando acaba, a leitora sabe que não se trata de pura fantasia: o medo feminino é real e palpável, as perseguem da infância à velhice, assombrando-as em cada período de suas vidas. Beauvoir, em O segundo sexo, fala da infeliz existência de um gênero que não pode confiar em si mesmo, que teme seus interiores, seus “buracos”, seus vazios, seu sangue, seu útero, seus ciclos, sua psique; que teme seu pai, seu marido, seus filhos; que acaba por temer a morte - com promessa de danação eterna ao menor sinal de desobediência à igreja -, que teme a solidão, mas que também precisa temer a companhia. 

E Júlia escreve sobre essa violência, esse assombro e todo esse horror com mãos de contistas, mas com olhos de cientista social, como uma mulher que também teve perdas, que também foi silenciada, excluída e desvalorizada. Júlia Lopes de Almeida foi, antes de ser escritora, uma mulher desobediente.

Referências

  • O segundo sexo: fatos e mitos (Simone de Beauvoir)
  • O segundo sexo: vol. 2: a experiência vivida (Simone de Beauvoir)
  • Medo Imortal: mestres brasileiros da literatura (Org.: Romeu Martins)
  • Júlia Lopes de Almeida (Brasil Escola)

Comentários

  1. Excelente leitura crítica dos contos! Muito obrigado.

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  2. Excelente leitura crítica dos contos! Muito obrigado.

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  3. Flávia, ainda não li nada da Julia, mas pelo teu texto, percebe-se que era uma mulher e escritora que conhecia como ninguém todos os temores que guardamos dentro da gente. Incrivel, mesmo. Uma pena que demorou tanto tempo para receber seu lugar de direito!

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    1. Obrigada pelo comentário! Realmente, Júlia foi uma mulher extraordinária e muito sensível às dores humanas. Torço muito para que ela seja reconhecida como a grande escritora que foi!

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