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Jane Eyre e a criança do século XIX

O primeiro grande teórico a tratar a criança como um ser cuja razão ainda está sendo formada foi Jean-Jacques Rousseau através de sua obra publicada em 1762, Emílio, ou da Educação, 85 anos antes da data da primeira publicação de Jane Eyre. Mas esse intervalo de tempo não foi o suficiente para toda uma sociedade conseguir mudar seu comportamento e olhar a respeito da criança. Jane Eyre, escrito por Charlotte Brontë, sendo um fiel relato da sociedade inglesa no século XIX, mostra de forma precisa essa questão.

Há muito o que ser comentado sobre a obra. Contudo, aqui nos atemos ao início da história, quando a personagem principal ainda possui a idade de dez anos. Jane Eyre é órfã e mora com sua tia que, na verdade, é esposa de seu falecido tio, irmão de sua mãe, e com seus primos, John, Eliza e Georgiana.

Seu comportamento é considerado inadequado pelos adultos, porém, totalmente provocado pela hostilidade do ambiente. As crianças de Gateshead Hall, mansão onde os Reed mantinham residência, eram mimadas, antipáticas, de temperamento hostil e territorialistas, especialmente John Reed, um dos principais agressores de Jane. 

Toda a agressão física e psicológica que Jane recebia de seus primos era completamente ignorada pela figura de autoridade presente no início da narrativa: a Sra. Reed. Dessa forma, os empregados também a ignoravam. Diante de toda pressão sofrida, Jane chega a ter uma crise de nervos, o que vem a ser um divisor de águas em sua vida, mesmo tendo tão pouca idade, mencionando ainda em sua fase adulta que nunca foi capaz de esquecer desse episódio.

Após esse momento, seu aspecto se transforma de uma "criança rebelde" para uma criança traumatizada com claros aspectos de insegurança em seu comportamento. O que contribui para toda a construção dessa problemática é o fato de que Jane recebia o tratamento de uma pessoa adulta, como se a mesma fosse capaz de discernir e dissimular suas ações. Sua real personalidade estava sendo oprimida por suporem que ela tinha, por natureza, má índole.

Durante parte importante de sua infância, momento de formação e consolidação do caráter, Jane cresceu ouvindo que era uma garota má, falsa e astuta, mesmo tendo total consciência das injustiças que vivia diariamente proporcionadas por seus primos e sua tia. Em algumas conversas com a Sra. Reed, a própria Jane percebe que sua tia se refere a ela como se ambas fossem adultas e estivessem discutindo de igual para igual, não havendo a diferença de tratamento. 

A rigidez exacerbada, o desprezo e a repulsa na figura da Sra. Reed são negligências nítidas e comuns de uma sociedade que via a criança como um pequeno adulto. Isso se estende da vassalagem à senhora da casa, e também ao Sr. Brocklehurst, responsável por Lowood, instituição voltada para a educação de jovens mulheres pobres, para onde Jane é mandada como aluna e interna até a idade adulta. Nesse momento da narrativa, a autora nos mostra a ausência de tratamento digno e a precariedade, tudo notoriamente atrelado à condição das moças ali presentes serem mulheres, crianças e pobres. 

A ausência de afeto e a falta de um ambiente seguro para o crescimento da criança potencializam comportamentos como carência e introversão, demonstrados pela personagem principal durante algumas passagens do livro. E mesmo quando encontra o primeiro gesto de afeto explícito em uma figura feminina - uma de suas professoras -, ainda assim Jane é posta novamente a pé de igualdade dos adultos, pois, após ser exposta diante de sua classe como uma criatura má, egoísta e mentirosa pelo responsável da instituição, Jane é chamada por sua professora, que lhe dá a oportunidade de negar as acusações impostas a ela. 

Mesmo a intenção da Srta. Temple sendo genuinamente boa e gentil, ainda é espantoso que uma criança seja colocada em comparação a um réu. Além disso, sua versão da história, obviamente verdadeira, teve de ser confirmada por terceiros, para que assim Jane pudesse ser inocentada de todas as acusações que recebeu. 

"Bem, Jane, você sabe, ou se não sabe vou lhe informar: quando um criminoso é acusado, tem sempre permissão de falar em sua defesa. Você foi acusada de ser mentirosa; defenda-se, agora, como puder. Diga o que quer que sua memória sugira como sendo verdade, mas não acrescente nada e não exagere nada."

Cabia a ela, mesmo tão pequena, cuidar de si e se proteger, o que fez até o fim, pois, quando adulta, a personagem continuou sendo fiel a si e a suas convicções. Suas decisões ponderadas a levaram a preservar seu amor próprio. 

Outro fator, antecedente a este último, que também marca extremamente a personagem principal é o fato de seus agressores saírem impunes, pelo menos de início, pois, no decorrer dos anos, a vida se encarregou do destino amargurado de cada um. Contudo, há John Reed, seu primo mais velho e mimado. Aos catorze anos de idade, atinge Jane propositalmente com um livro na cabeça, arrancando-lhe sangue, após uma avalanche de violência psicológica, e a faz levar totalmente a culpa por aquilo, o que não precisava de muito esforço, dada a vista grossa dos adultos quanto ao assunto. 

Suas atitudes para com Jane, até mesmo a insolência com a própria mãe, nunca são repreendidas, seja por falta de coragem dos empregados ou por bajulações excessivamente orgulhosas da mãe. Mais um retrato fiel da época, pois sendo John a única figura masculina presente na família, suas atitudes, mesmo mesquinhas e repulsivas, não eram contestadas, o que culmina ainda mais no terror psicológico vivido por Jane em Gateshead Hall.

Prováveis retratos de Charlotte Brontë

O resultado disso na Jane Eyre adulta é uma autocobrança exacerbada, uma necessidade implacável de agradar a todos sempre que possível, dando o melhor de si como pessoa, por não se achar fisicamente bonita. Além dos retratos de insegurança e ansiedade que a transtornam nas coisas mais simples.

Não obstante, Jane se torna preceptora, ofício aprendido na instituição na qual cresceu e, ao completar maior idade, seu trabalho é cuidar de uma garotinha também órfã, cuja idade não passa muito daquela que tinha ao ser mandada para Lowood. Aqui, vemos na Srta. Jane um cuidado diferente com a criança. Sua abordagem e forma de educar divergem totalmente do que ela recebeu em sua infância. O arco da heroína é intacto nesse quesito. 

Nesse momento, a mensagem de que nem sempre damos aquilo que recebemos é muito forte. É certo que Jane teve boas referências de educação e afeto na instituição que cresceu após seus dez anos de idade, mas o trauma que viveu durante a infância a marcou profunda e eternamente. Longe da hostilidade de seus agressores, ela cresceu e pôde dar vazão a sua personalidade, que era justa, gentil, sensível e empática, provando a ela e a todos que sua índole, de fato, nunca foi má, algo que busca provar e mostrar ao longo de toda sua história.

A ausência de um conhecimento que definisse a infância como fase que requer cuidados, como respeito e proteção, por ser primordial para a formação da pessoa como ser social, fez com que a sociedade fosse negligente quanto a educação de seus filhos. A perspicácia de Charlotte Brontë, como mulher e preceptora, tornou Jane Eyre um possível recorte histórico importante para compreender quais mudanças se faziam necessárias no que diz respeito à criança. 

Nota-se que o arquétipo da criança órfã vulnerável não é uma simples coincidência na narrativa. É uma denúncia escancarada de um sistema educacional opressor. Um sistema que fazia os adultos esquecerem que um dia foram crianças, que carregaram consigo vulnerabilidade e inocência, fazendo-os tomar o lugar de seus opressores, dando continuidade ao ciclo de repressão cruel e hostil que um dia tanto lhes machucou.

Mas esse desprezo e hostilidade, aparentemente, tinham classe social. Os primos de Jane recebiam os melhores tratamentos, mesmo seus defeitos sendo escancarados. Aos olhos da protagonista, isso não os fazia ser repreendidos, muito menos rejeitados ou maltratados. A condição de ser órfã e pobre atrelada ao fato de ser mulher dava às pessoas ao seu redor margem para pensar o pior, mas nunca ocorreu a essas pessoas ter o mínimo de empatia por Jane ser criança e ter passado pela experiência do abandono. 

My first sermon, de John Everett Millais (1863)

Contudo, a Inglaterra do século XIX era seletiva e relativizava o sistema educacional. Não havia um padrão a ser seguido e, nesse momento em específico, que marcou o fim da transição da vida rural para a vida urbanizada e industrial no país, era ainda mais confuso para crianças que tinham sua infância prematuramente interrompida para dar início aos trabalhos, fossem eles campestres ou maquinários. 

A educação era dividida de acordo com a classe social, condição, gênero e cor. Os filhos de famílias mais abastadas estudavam em internatos e as filhas tinham preceptoras, pois estas crianças ocupariam cargos importantes na sociedade, e as mulheres seriam suas respectivas esposas. Educados para cumprir papeis sociais, apenas. 

Mas não era assim para as mais pobres. As crianças pobres e camponesas muitas vezes não frequentavam uma escola por não haver nenhuma pela região e se dedicavam desde muito cedo ao trabalho no campo, ajudando suas famílias com os afazeres ou o patrão destes. As crianças pobres da cidade, por vezes, frequentavam creches, mas também eram inseridas desde muito novas no ambiente industrial por serem mão-de-obra rápida e barata. 

Em O Morro do Ventos Uivantes, romance de Emily Brontë, irmã de Charlotte, é possível aferir na figura de Heathcliff o descaso quanto à criança pobre, imigrante e não-branca. Não havia perspectiva para tal. Para Heathcliff em específico, não havia respeito de forma alguma, muito menos afeto - nunca houve, passando a infância sendo subjugado. Diferente de Jane Eyre, na narrativa de O Morro Dos Ventos Uivantes o personagem hostilizado cresce se tornando uma pessoa agressiva, que busca vingança contra aqueles que o subjugaram. 

Jane Eyre trouxe a perspectiva do que era ser uma mulher pobre na Inglaterra do século XIX, mesmo que fosse uma criança órfã. E é espantoso perceber que crianças não possuíam direitos, apenas deveres. Que quando desamparadas, ficavam sozinhas, à mercê da vida, passando despercebidas pela sociedade até terem idade o suficiente para contribuir de alguma forma, isso quando chegavam à idade adulta. Não havia dignidade da pessoa humana, nem fases infantis para serem respeitadas ou tuteladas, o que se tinha era apenas a cobrança de uma conduta que nem mesmo os adultos, tidos como seres completamente formados e racionalizados, conseguiam manter. 

Referências 

  • Infância, educação e precariedade em Jane Eyre, Agnes Grey e Wuthering (Ana Cristina Faria Menezes)
  • A subversão das relações coloniais em O Morro dos Ventos Uivantes: questões de gênero (Daise Lílian Fonseca Dias) 


Arte em destaque: Mia Sodré (baseada na pintura Girl with a basket of plums, de Émile Munier, 1875) 

Karen Borges
Nascida em 1997. Paraense, ecofeminista e vegetariana. Bacharela em Direito e apaixonada por livros, filmes, séries e música. Escritora e artesã nas horas vagas. Obcecada por Taylor Swift, vampiros, bruxas e sereias. Buscando fazer parte de mundo melhor, começando por mim.

Comentários

  1. Oi, Karen! Fazia tempo que queria ler teu texto e hoje consegui, com calma! Essa questão da criação da infância é um dos meus assuntos favoritos na história e literatura. Muito importantes teus apontamentos sobre a diferenciação de classes e o sistema de construção de identidade. O paralelo entre a Jane criança abusada emocionalmente e a adulta insegura e com ânsias de agradar é pertinente. Parabéns!

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