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A história real por trás de Sombra e Ossos


Sombra e Ossos (Shadow and Bone, no original) é a nova série de fantasia da Netflix. Baseada em cinco livros do chamado Grishaverse, a série adapta a história escrita por Leigh Bardugo a qual uma jovem chamada Alina Starkov (Jessie Mei Li) descobre que possui um poder muito especial. Ela entra, então, para a seleta corte de Grishas, pessoas que nasceram com habilidades da Pequena Ciência - elas podem manipular os elementos naturais. Cada uma é parte de um grupo Grisha com habilidades específicas, mas Alina é única. Ela e o Darkling (Ben Barnes), também conhecido por General Kirigan e comandante de todos os Grishas. 

Embora fictícia, a história de Sombra e Ossos possui inspirações na vida real. Semelhante ao que George R. R. Martin fez com seus livros da série As Crônicas de Gelo e Fogo ao inspirar-se na Guerra das Rosas para compor os Sete Reinos, Bardugo olhou para a história da Rússia tsarista ao escrever a jornada de Alina. 

A Rússia do século XIX e início do XX 

Quando olhamos para a história da Rússia, além de seus escritores consagrados, como Liev Tolstói, precisamos também enxergar o quadro social da época. Dominada pela dinastia Romanov durante trezentos anos, a Rússia vivia um modelo de servidão enquanto todo o resto do mundo ajustava-se à uma modernidade que flertava com o capitalismo, impulsionado pela Revolução Industrial. 

Mas a população continuava vivendo sob um regime servil - os camponeses passavam fome e todos nasciam servos e servos permaneciam, exceto se fossem artistas, que eram largamente explorados, ainda que contassem com mais benefícios, ou nascidos em famílias nobres. 

O sistema não estava funcionando. Não é à toa que ocorreu a Revolução Bolchevique em 1917, destronando a família Romanov. Mas, durante todo o século XIX, a Rússia era servil e a modernidade, rejeitada. Após a derrota de Napoleão Bonaparte, a ordem na Rússia, que até então tinha sido "europeizar-se", foi revertida para suas próprias tradições novamente. A Igreja Ortodoxa alinhada ao Estado. As modas poderiam ser inspiradas por aquelas da corte francesa, mas as origens russas foram resgatadas com maior afinco. Houve um movimento de valorização da cultura nacional - porém, as condições de vida continuavam terríveis. 

Em As Irmãs Romanov, Helen Rappaport descreve como esse clima continuou durante o casamento e reinado do tsar Nicolau II com Alexandra Romanova. O enlace ocorreu no final do século XIX e, embora o século XX tenha começado com diversos movimentos culturais e sociais que sacudiram o mundo, a Rússia permanecia em seu estilo servil e rural, com uma população cada vez maior e mais faminta. Todavia, dentro do palácio, a ordem era que os membros da família real vivessem "como camponeses", no sentido de levarem uma vida mais simples, sem luxos, alimentando-se de comidas comuns aos servos e utilizando roupas sem grandes ornamentos. 

“'O Darkling é bastante incisivo na ideia de que comamos comida camponesa saudável. Que os santos nos livrem de esquecermos que somos verdadeiros ravkanos.'

Eu me segurei para não bufar. O Pequeno Palácio era uma versão de contos de fadas da vida servil, tão distante da Ravka real quanto o glitter e o brilho dourado da corte real. Os Grishas eram obcecados em simular o modo dos camponeses, até no tipo de roupas que vestíamos embaixo de nossos keftas. Mas havia algo um pouco estúpido em comer 'alimentos camponeses saudáveis' em pratos de porcelana, debaixo de um domo coberto de ouro real. E que camponês não escolheria brioches no lugar de peixe salgado?”

Claro que, mediante toda a situação do país, aquilo soava mais como uma zombaria por capricho que a aristocracia poderia fazer do que como algo realmente em generosidade ao povo, já que o ato generoso e justo, de fato, seria libertá-los. 

Mas o reinado dos Romanov seguiu pleno por mais de 300 anos, com uma elite que comandava um país repleto de servidão e fome. A ordem militar possuía uma posição um pouco melhor, mas era isolada do resto do mundo. 

“Sempre supus que os camponeses famintos e soldados mal supridos de Ravka eram o resultado da Dobra das Sombras.

Mas enquanto caminhávamos ao lado de uma árvore de jade embelezada com folhas de diamantes, não tive mais tanta certeza.”

Paralelos com Sombra e Ossos

Leigh Bardugo disse, em diversas entrevistas, que sua inspiração principal para Ravka, o país onde se passa a história de Alina Starkov, foi a Rússia do século XIX. Todavia, não seria preciso ler suas declarações para dar-se conta disso, uma vez que as referências são óbvias - basta conhecer um pouquinho da história russa. Foi fácil identificar, enquanto lia o livro e assistia a série, no que Bardugo pensava ao criar Ravka. 


Órfãos da guerra

A começar pela população. Alina e Mal são órfãos camponeses que caíram nas graças de um nobre e foram criados por ele em sua casa, que servia, de certa maneira, como uma espécie de orfanato. Bardugo, a princípio, não queria cair no clichê do livro de fantasia com uma protagonista órfã, mas ao pesquisar sobre a história russa e perceber que, após as guerras napoleônicas, muitos nobres perceberam que seus servos eram pessoas e decidiram ajudar a alguns, dando-lhes o básico - uma casa, comida, certa liberdade, educação -, ela percebeu que havia nisso uma história a ser contada. 

“Quando eu estava pesquisando, aprendi que antes de Napoleão atacar, a Rússia era afrancesada, os aristocratas investiam muito em ser os mais franceses possível, então Napoleão atacou e, de repente, isso saiu de moda. Muitos dos nobres se esconderam em suas casas de campo, mas outros tantos escolheram servir, e eles serviram no front lado a lado com seus servos. Esse foi uma espécie de momento revelador para muitos deles, passando todas aquelas longas noites no cerco com pessoas que eles nem sequer consideravam gente antes. Então, quando eles retornaram da guerra, muitos dos oficiais libertaram seus servos. Achei isso tão pungente que voltei e realmente repensei a história de origem de Mal e Alina.”
 

A religião no Grishaverse 

Há algo de muito religioso em Ravka também. Embora muitos tenham perdido a fé até certo ponto, assim que o rumor de uma Conjuradora do Sol surge com intensidade, as pessoas passam a lhe oferecer orações, a creditá-la como santa. 

Santos e nobres 

Existem dois pontos interessantes sobre religião em Sombra e Ossos. Um é sobre Alina, a Conjuradora do Sol, e sua santificação. Isso inclui um livro que o Apparat lhe dá em determinado momento da história: A Vida dos Santos. Nele, que é considerado um livro infantil, há histórias macabras sobre os santos de Ravka e como eles foram mártires e heróis para o povo - nessa ordem. 

Não é diferente do que existe na Rússia. A Igreja Ortodoxa, por muito tempo, inclusive, consagrou como santos pessoas da nobreza que se destacavam ou sofriam uma morte terrível. O caso mais emblemático atualmente é o da última família Romanov no trono. Quando seus restos mortais foram finalmente descobertos, Nicolau, Alexandra, Olga, Tatiana, Maria, Anastasia e Alexei Romanov tornaram-se santos para a igreja. Outro exemplo não tão lembrado é o da Santa Olga de Kiev, uma antiga rainha russa que vingou-se da morte do marido enterrando vivos os chanceleres que tentavam transmitir mensagens de oferta de casamento para ela. Após muita matança - além dos enterrados vivos, ela atraiu os homens do alto escalão de seu pretendente, trancou o local e o incendiou, matando a todos -, seu filho, chegando à idade adulta, assumiu o trono e ela concentrou-se em tornar-se uma pessoa religiosa. Alguns anos mais tarde, seu neto a canonizou. Assim nasceu a primeira santa da Rússia - coberta de sangue. 

Jessie Mei Li como Alina Starkov em Sombra e Ossos

A ideia de reis taumaturgos não é nova e perpassa toda a Europa, praticamente. E, claro, a Rússia possui seus reis taumaturgos - ou seja, aqueles que eram considerados milagrosos em vida e, por vezes, mesmo após a morte. A consagração a santo é apenas um passo a partir disso. É algo que percebemos em Alina. Ela, assim como outros Grishas de séculos passados, é vista como santa pelo povo e, em determinado momento, até mesmo por alguns Grishas. Mas, como Genya (interpretada por Daisy Head na série) ressalta: “Antes de se tornarem heróis, os santos viram mártires”

Rasputin, o imortal 

Outro ponto a destacar a respeito da religião no Grishaverse é a respeito das referências feitas a Grigori Rasputin, um místico russo que se autoproclamava santo no final do século XIX e início do XX, época em que se aproximou do tsar. Rasputin é uma figura polêmica até hoje. Se herói ou vilão, ninguém sabe, mas muitos especulam e guardam ideias fortes a respeito dele. Em seu próprio tempo, Rasputin também foi ora muito amado e adorado, ora odiado profundamente. Era basicamente impossível sentir-se indiferente a ele. 

Foto colorizada por Klimbim de Grigori Rasputin

A primeira referência direta que temos a ele no Grishaverse se encontra no primeiro livro, Sombra e Ossos. Quando Alina vai até o Pequeno Palácio, é preparada por Genya para ser levada até o rei e conhecer a corte. Lá, ela também conhece o Apparat, o conselheiro místico do rei. A semelhança aí é bem óbvia, mas torna-se mais ainda quando Leigh Bardugo o descreve como tendo uma barba enorme, vestir-se em túnicas de padre e possuir olhos penetrantes. A primeira coisa que notamos ao vermos uma foto de Rasputin é seu olhar. Profundo, o impacto nos atinge até hoje, mais de cem anos após a sua morte. Em seguida, vêm a longa barba e as vestes de padre/santo. O Apparat de Ravka é a descrição física perfeita de Rasputin. 

“Eu queria brincar com a ideia de que quando você abdica do poder, quando você dá esse poder a outra pessoa, coisas ruins acontecem. Não importa se você dá o poder para alguém bom ou para além mau. Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Mas há muitas maneiras de abdicar do poder. Você pode escondê-lo, você pode delegá-lo... Um dos fatores de atração de Rasputin é que ele tem todas as respostas. Um dos fatores de atração no Darkling é que ele tem todas as respostas. As pessoas voltam-se a Alina porque elas querem que ela tenha as respostas.”
Além do Apparat, há outras personagens que se assemelham com Rasputin, especialmente num sentido mais amplo de personalidade e mito. O próprio Darkling talvez seja a representação mais forte. Imortal, mesmo após muitas tentativas de assassinato, ele permanece de pé, próximo ao rei, aconselhando-o. Ele não aparenta ser religioso, mas possui uma fé inabalável em algumas coisas - uma delas é a própria existência de Alina, a Conjuradora do Sol. Isso lhe dá combustível para perseguir seus objetivos e, conforme ficamos sabendo mais tarde, eliminar o rei e a família real para ele mesmo assumir o poder. 

Ben Barnes como o Darkling em Sombra e Ossos

O mito envolvendo Rasputin é mais forte do que o homem real. E esse mito possui muitas facetas, dentre elas a do homem traiçoeiro que infiltrou-se na corte, valendo-se da ideia de ser alguém com acesso a “poderes” únicos, como o da cura, para usurpar o trono russo. Se isso é verdade, é algo que a história ainda está julgando. O fato é que sua presença foi um dos catalisadores da queda dos Romanov. 

Além disso, Rasputin é conhecido por ter sido um homem quase imortal. Rasputin foi esfaqueado, mas não morreu; envenenado durante um jantar, contudo, sobreviveu, expelindo o veneno. Em seguida, foi fuzilado com onze tiros - e sobreviveu. Seus inimigos, já assustados, decidiram castrá-lo. Mas Rasputin continuava vivo. A partir disso, foi só desespero: ele foi violentamente espancado, atirado inconsciente em um rio e lá esperaram que morresse. Morreu, mas só depois de ganhar a fama de imortal. 

Outras referências 

Existem, é claro, diversos pontos que ligam o Grishaverse com a história real. A Rússia é sua maior fonte de inspiração - até mesmo o símbolo do rei, a águia, é baseado nos Romanov -, mas há outros detalhes interessantes ao leitor atento, como questões sobre imigração e guerra. Leigh Bardugo é uma autora israelita e quis colocar isso em seu trabalho. Não há uma menção direta, mas ela já afirmou em entrevistas que a maneira como os Grishas são encarados e, por muitos anos, foram isolados do resto do mundo é uma analogia à situação de judeus no século XX. 

A série também enfatiza bastante a questão da Inquisição. Os Grishas, por possuírem habilidades especiais, são vistos como feiticeiros e bruxas, caçados pelo povo vizinho, os Fjerda. De acordo com a história, há pouco tempo eles ainda eram caçados dentro da própria Ravka - e é por essa libertação completa que o Darkling luta, usando, é claro, meios duvidosos para seus objetivos. 

Para além da água de fontes históricas que Leigh Bardugo bebeu, Sombra e Ossos é um entretenimento de qualidade que enche a mente e os olhos de quem entra em Ravka. 

Referências 




Arte em destaque: Mia Sodré 
Mia
Jornalista e pessoa da internet há uma década. Editora e analista literária, quando não está lendo escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Pesquisa o gótico no século XIX. Vive em Porto Alegre, onde está há vinte e poucos anos ajudando na entropia do universo.

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