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As irmãs Romanov: quem eram as filhas do último tsar?

Lembro bem até hoje: era véspera de Natal, eu tinha nove anos e estava passando na TV Anastasia, animação que conta a história da princesa russa perdida durante a Revolução de 1917 e que, por fim, acabou reencontrando a avó e vivendo seu próprio conto de fadas. Aquela animação me fascinou e por muitos anos realmente acreditei que fosse baseada em uma história real. Até que, um dia, o advento da internet chegou à minha vida e eu pude finalmente pesquisar sobre a menina Anastasia Romanov e o que realmente havia acontecido com ela, para só então descobrir que ela e suas irmãs não tiveram o final feliz que eu havia visto quando criança, mas um fim terrível e cruel.

A Revolução Russa completou cem anos em 2017. Por consequência, muitas matérias foram vinculadas na mídia tradicional e inúmeros textos foram publicados internet afora contando a verdadeira história dos Romanov. Porém, dentre tantas críticas ao tsar Nicolau II, à figura mística de Rasputin ou ao governo bolchevique, pouco se falou acerca de pessoas que estiveram no centro da Revolução, cujas trajetórias foram silenciadas ao longo dos anos. Posicionamento político à parte, o fato é que a Revolução foi deveras importante para o mundo e transformou a vida de milhares de pessoas. Entre essas vidas transformadas estão as de Olga, Tatiana, Maria e Anastasia, as filhas do último tsar que a Rússia teve.

Quando pensamos em princesas, imediatamente nos vêm à mente as cenas fabricadas pela Disney e impregnadas em nosso imaginário de lindos vestidos de baile, moças com cabelos maravilhosos e festas em imensos castelos. Não que as irmãs Romanov não tivessem lindos vestidos ou cabelos bonitos, mas certamente essa era uma visão que não se aplicava a elas: enquanto em praticamente toda a Europa o título de princesa estava ligado à descendência real, na Rússia esse era apenas um título da nobreza, e as filhas do tsar, o imperador russo, recebiam o título de grã-duquesas, o título máximo para uma mulher após o de tsarina. Ao ler As Irmãs Romanov, percebi que não sabia de quase nada sobre a vida das grã-duquesas russas e que minha visão ainda era muito afetada pela animação que vi quando criança, completamente romantizada com seus bailes e um sentimento de nostalgia.

As irmãs Romanov: Maria, Olga, Anastasia e Tatiana, em 1910

Por conta do pouco conhecimento a respeito das irmãs, exceto pela farsa que levou muitos a acreditarem que a mais nova delas, Anastasia, ainda estava viva, é que a historiadora Hellen Rappaport, especialista em história do século XIX, decidiu pesquisar durante anos as vidas dessas meninas que morreram tão jovens e de forma tão trágica. Assassinadas por terem nascido em uma família nobre, suas mortes completaram um século em julho de 1918, mas a figura dessas jovens continua conhecida apenas pela animação que leva o nome da irmã mais nova (e que não conta sua história real, apenas romanceia um episódio trágico), enquanto suas verdadeiras figuras ainda são vistas como personagens secundários e sem importância.

É impossível falar sobre as meninas sem falar sobre sua mãe, a tsarina Alexandra. As primeiras cem páginas do livro são basicamente sobre ela, e contam a respeito de seus anos de formação e os motivos que a levaram a ser da forma como era e a dar uma educação tão peculiar às filhas. Alexandra era uma princesa alemã chamada Alix de Hesse que ainda criança perdeu a mãe e terminou por ser parcialmente criada pela avó, a Rainha Vitória da Inglaterra. Tanto sua criação, de acordo com os rígidos padrões vitorianos de comportamento, quanto a perda da figura materna fizeram com que Alexandra se tornasse uma jovem muito reservada, introvertida, que não demonstrava suas emoções a qualquer um e sempre se resguardava de estar entre muitas pessoas.

Ser uma princesa não era muito fácil. Ser uma princesa alemã, neta da rainha Vitória e apaixonada pelo tsarevitch (herdeiro do trono, futuro tsar) era pior ainda. A cultura da Rússia imperial, tão fechada e tradicionalista, não admitia a entrada de estranhos, muito menos estrangeiros considerados antipáticos por suas ligações com a Inglaterra, que não era bem vista pelo povo russo. Alexandra, em nome do amor e do desejo de estar junto de Nicolau, abandonou seu país, seu nome de batismo, sua segurança e sua religião, convertendo-se à Igreja Ortodoxa Russa, já que uma das exigências para que o casamento acontecesse era que ela se “tornasse russa”, ou seja, recebesse um nome russo em um novo batismo, e se convertesse à religião tradicional russa. Alexandra relutou muito para aceitar isso, mas seu amor por Nicolau foi mais forte e ela acabou renunciando à sua fé e à sua identidade para estar com ele, tornando-se tsarina de um povo que a odiava por suas maneiras introvertidas, “britânicas demais”. O que tornava sua presença tolerável, entretanto, era a perspectiva de que Alexandra servisse ao propósito que lhe era designado: dar a Nicolau um herdeiro, um menino que pudesse ser criado como o tsarevich, para quem o império Romanov seria passado. 

O tsarevich Alexei no centro, com suas irmãs, em 1910
Com o passar dos anos, porém, a popularidade da tsarina só foi piorando porque o tsarevich não vinha. Ao contrário: tudo o que o povo tinha eram quatro grã-duquesas, quatro meninas que jamais poderiam governar e que foram motivo de ódio do povo contra Alexandra.

As meninas Romanov não poderiam subir ao trono como tsarinas porque, em 1797, Paulo I, ao ser coroado tsar da Rússia após a morte de sua mãe, Catarina, a Grande, promulgou uma lei que alterou o direito à ascensão ao trono: só poderiam ser coroados descendentes homens do tsar ou seu parente masculino mais próximo. Paulo, que nunca teve um bom relacionamento com a mãe, fez com que Catarina fosse a última tsarina russa e que o direito de governar estivesse, dali em diante, reservado às mãos masculinas. Ele não poderia saber, mas isso foi causa de grandes problemas na casa Romanov, mais de um século depois quando, após anos de casados, Nicolau e Alexandra não tinham quase esperança alguma de terem um filho, principalmente depois de Alexandra ter passado por quatro partos difíceis e ter dado à luz a quatro grã-duquesas.

Nascidas com pouca diferença de tempo (primeiro Olga, em 1895, depois Tatiana, em 1897, Maria, em 1899 e Anastasia, em 1901), as meninas foram uma grande decepção para o povo russo e a alta sociedade, que as via como inúteis por causa de seu gênero.

“O povo russo e a família imperial ficaram, contudo, extremamente desapontados; como observou a esposa de um diplomata norte-americano, Rebecca Insley Casper, a chegada de Anastásia ‘criou uma indignação indescritível numa nação clamando por um menino’. ‘Meu Deus! Que Decepção! […] A quarta menina!’, exclamou a grã-duquesa Xenia. ‘Perdoe-nos, Senhor, se nos sentimos todos desapontados, e não em júbilo; esperávamos tanto que fosse um menino, e é a quarta menina’, fez coro o grão-duque Konstantin.” 

A visão utilitarista dos filhos é algo que por muitos séculos esteve presente na esfera da alta sociedade europeia, e na Rússia isso não era diferente. Meninas eram vistas como moedas de troca, filhas que eram criadas para que alianças políticas pudessem ser firmadas com outros países. Mas a importância de uma aliança política se tornava pequena em comparação ao legado que o tsar tinha a obrigação de deixar para seu povo: um filho, que fosse o futuro governante e que fosse criado para preservar a dinastia Romanov, que já durava trezentos anos.

A família Romanov

Alexandra desde criança tinha uma saúde frágil. Há quem diga que ela era hipocondríaca, mas, tendo sido ou não, o fato é que vivia doente, mal saía de casa e, muitas vezes, ao sair, o fazia com o auxílio de uma cadeira de rodas por não poder ficar em pé por muito tempo. E, apesar de todos seus problemas de saúde e das quatro meninas que tinha para cuidar, o povo russo e a alta sociedade lhe viam com maus olhos como se fosse ela a culpada por não gerar um tsarevich.

Após dez anos de tentativas frustradas e literalmente não podendo aguentar mais, Alexandra deu à luz Alexei, o tão esperado tsarevich, em 1904. Todos comemoraram e houve, inclusive, maiores e mais escandalosas celebrações nas ruas do que já havia ocorrido durante os nascimentos das quatro grã-duquesas. Mas logo em seguida a família Romanov fez uma terrível descoberta: Alexei, o tão esperado tsarevich, havia herdado o traço genético da parte inglesa da família de Alexandra e era hemofílico (ou seja, seu sangue não coagulava e um simples tombo poderia matá-lo). Tal fato não foi divulgado na imprensa e nem saiu do ambiente familiar, mas é importantíssimo sabermos disso para entendermos a vida de suas irmãs.

Antes mesmo do nascimento de Alexei, a família Romanov já era isolada da sociedade. Nicolau não queria ser um tsar, apenas achava que era seu dever continuar no governo do país porque Deus o havia escolhido para isso, mas o que ele realmente gostava era de estar com sua família e ir para o campo ou para os passeios em alto mar que eles faziam. Alexandra, por sua vez, tinha uma saúde muito frágil e foi criada na educação vitoriana, então além de sua própria natureza introvertida, ela tinha o reforço de uma educação que lhe ensinou a não demonstrar seus sentimentos na frente das pessoas e de ser o mais discreta possível, e também sofria com suas terríveis dores na coluna e indisposições de toda espécie. Era esse casal, no entanto, que governava um dos maiores impérios do mundo, e tinha quatro filhas que cada vez mais precisavam crescer em sociedade e conviver com pessoas além do âmbito familiar. Porém, isso lhes foi negado.

Nicolau II e Alexandra Feodorovna

É interessante observar como a autora consegue reunir diversas cartas e diários com descrições honestas das irmãs. Quando olhamos pra essa família, vemos quatro meninas usando roupas iguais e parecendo muito sérias, mas essa não era a realidade (ou, ao menos, não era a única realidade) de suas vidas. O que Helen Rappaport faz é recuperar a voz de cada uma, mostrando que todas tinham personalidades distintas e vidas próprias, apesar da unicidade da família, e que o mito das Romanov vivendo vidas de luxos cheias de bailes e vestidos caros é uma grande mentira da História.

Olga, a mais velha, era a mais sentimental das irmãs. Em 1914, quando a Primeira Guerra Mundial estourou e as meninas, juntamente com sua mãe, serviram de enfermeiras para os feridos da guerra, Olga não aguentou por muito tempo realizar as atividades de cirurgia e cuidado dos feridos porque era sensível demais para isso. Foi Tatiana quem vestiu o uniforme de enfermeira e ficou mais tempo em sua função junto com a mãe. Aliás, Tatiana era considerada a irmã mais sensata e séria, que tomava conta das outras e auxiliava seu pai nos compromissos a que a imperatriz não podia comparecer (todas as irmãs Romanov acompanhavam seu pai quando podiam, mas Tatiana foi a que tomou isso como uma obrigação e entendia melhor a imagem que a família imperial precisava passar para o povo e para a imprensa).

Tatiana Nicolaevna Romanov, em 1914

As irmãs menores, Maria e Anastasia, não participaram como enfermeiras durante a guerra por serem pequenas demais para isso e ficavam em casa estudando durante o período. Ambas tinham personalidades bem diferentes uma da outra. Maria era uma menina meiga. Descrita como “a mais cordial e sincera e sempre foi extremamente respeitosa com seus pais”, se dava bem com todos e não fazia distinção entre nobres e serviçais. Já Anastasia era “uma força de natureza da qual era impossível ficar indiferente” e todos a conheciam por sua irreverência, rebeldia e espírito brincalhão.

Temos uma tendência a acreditar que mulheres fortes são somente aquela que pegam em espadas e acabam com quem quer que esteja no caminho. Mas não é isso o que percebi ao ler esse livro. Uma mulher forte também é aquela a quem tudo é exigido e que precisa manter um sorriso e agir com muita diplomacia para sua sobrevivência. Por mais críticas que haja acerca das decisões governamentais de Nicolau II, uma coisa não se pode negar: tanto Alexandra quanto Olga, Tatiana, Maria e Anastasia são inspirações, não por terem sido da realeza ou pelos fantasiosos e falaciosos bailes que a animação mostra (e que praticamente nem existiram), mas porque suportaram tudo – da rejeição por serem mulheres e a hostilidade do povo, até a prisão na Sibéria, e outras situações delicadas – sempre mantendo a esperança de que um dia as coisas melhorariam e sabendo que se desesperar não adiantaria de nada. Na época atual, em que nossas referências femininas cada vez mais são aquelas que se impõem para conseguirem o que querem (e ainda bem que chegamos a isso tanto na mídia quanto na vida), pode até parecer estranho se falar de força e admirar mulheres que não parecem fortes à primeira vista. No entanto, durante séculos as mulheres tiveram de usar do silêncio e de subterfúgios da inteligência diplomática para sobreviverem. Não foi diferente com as irmãs Romanov. Infelizmente, isso não as ajudou em nada, tendo sido  assassinadas de qualquer maneira – não no mês de dezembro, mas em julho de 1918, de forma cruel e desnecessária.

Em um livro extremamente detalhado e repleto de fotografias da família, Hellen Rappaport nos dá uma visão que não tínhamos até então: a queda do tsarismo através da perspectiva das quatro irmãs, mostrando um lado que quase nenhum de nós conhece – aquele muito distante de ser um conto de fadas.  


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Mia
Jornalista e pessoa da internet há uma década. Editora e analista literária, quando não está lendo escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Pesquisa o gótico no século XIX. Vive em Porto Alegre, onde está há vinte e poucos anos ajudando na entropia do universo.

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