História da Bruxaria: da demonolatria ao romantismo

Ainda atualmente, existe uma ideia geral muito romântica da bruxa, uma mulher que luta pela liberdade, opondo-se às restrições impostas pelo cristianismo, que se volta para a Antiga Religião, para seguir o chamado da deusa, servindo-a com rituais baseados no equilíbrio dos elementos e no respeito pela vida. Mas, apesar do novo estereótipo bruxo ser muito bonito e encantador, a história da bruxaria é bem mais complexa e repleta de facetas. 

Desde a feitiçaria africana, passando pela perseguição religiosa europeia e vindo até a nossa época, com bruxas ao alcance de um link, Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander apresentam um estudo completo sobre o tema em História da Bruxaria: Feiticeiras, Hereges e Pagãs. O livro é um apanhado do básico que precisamos saber para realmente entender como chegamos até a imagem da bruxa bondosa e natural que temos hoje, ainda que a cultura pop nos bombardeie com personagens malévolas e satânicas que, apesar de serem bem desenvolvidas, endossam o mito da bruxaria demoníaca. O livro é dividido em duas grandes partes: “Feitiçaria e Bruxaria Histórica” e “Bruxaria Moderna”. 

Feitiçaria e Bruxaria Histórica 

A primeira parte do livro inicia falando algo verdadeiro, porém não muito discutido: tudo começou no continente africano. Já que a história humana surgiu lá, nada é mais certo do que a religião também ter seu início naquele lugar. No entanto, o que lá era praticado não se assemelha em quase nada à bruxaria como a conhecemos hoje. As práticas consistiam em feitiçaria. Segundo os autores: 

“A feitiçaria baseia-se na pressuposição de que o cosmo é um todo e de que, portanto, existem ligações ocultas entre todos os fenômenos naturais. O feiticeiro tenta, por meio do seu conhecimento e poder, controlar ou, pelo menos, influenciar essas ligações a fim de produzir os resultados práticos que deseja.”

Ou seja, a feitiçaria, em seus primórdios, era o que nós costumamos chamar de simpatia. Amarrar uma corda três vezes durante a lua cheia, colocar pétalas de rosa vermelha num copo d’água, práticas que fazem parte da crença de que tudo está conectado e há poderes ocultos que podem ser manipulados mediante ações físicas. E, durante toda a história conhecida da humanidade, foi comum praticar feitiçaria para conseguir empregos, melhorar colheitas, arrumar um marido ou livrar-se de doenças. No entanto, cada sociedade lidou com ela de maneira diferente. No início do livro, a obra se concentra em explicar como algumas tribos africanas, estudadas por antropólogos no final do século XIX e início do século XX, estabeleceram regras para a feitiçaria: o que era aceitável, o que era considerado maléfico e a função social daquelas práticas naqueles lugares. 

É necessária certa cautela ao olharmos para os trabalhos de antropólogos que estudaram as sociedades africanas: eles eram homens, em sua maioria europeus, brancos e de classe social elevada e, portanto, seus olhares possuíam um recorte que, por vezes, auxiliou na construção da figura racista do mito do negro mágico, ou místico, que ainda vemos em diversas produções culturais. No entanto, é interessante que o autor tenha dado um grande destaque a tais estudos, inserindo, inclusive, várias fotografias antigas, de tribos africanas praticando ritos de feitiçaria. Infelizmente, isso é algo que não costumamos ver. Quando ouvimos falar em bruxaria, a regra é que o outro esteja se referindo ao trágico episódio de Salem ou aos mitos da bruxaria europeia. Entretanto, se existe bruxaria europeia é porque antes existiu a feitiçaria africana. Não podemos esquecer disso. Há pelo menos cinquenta pontos semelhantes entre a bruxaria europeia e a feitiçaria africana; dentre eles, podemos encontrar: ser geralmente praticada por mulheres, formada por assembleias noturnas, onde mudam de forma e voam, praticando orgias, canibalismo e danças de roda. 

Embora o colonialismo e a violenta difusão cultural sejam, em parte, causadoras do surgimento da feitiçaria no mundo todo, um traço permaneceu o mesmo: a misoginia. Tanto nas tribos africanas quanto na Europa, as mulheres eram mais associadas à magia do que os homens. No entanto, quando eles eram associados, quase sempre o eram como feiticeiros, xamãs ou curandeiros, enquanto às mulheres ficava relegado o papel de malévola. Isso pode ser visto na cultura pop atual. Em Reign, a rainha Catarina de Médici (Megan Follows) se aconselha com seu oráculo, Nostradamus (Rossif Sutherland), enquanto temia rumores de que uma bruxa andava pelo castelo. A série possui diversas inconsistências históricas, mas Nostradamus, de fato, era o mago real da corte francesa no século XVI, e há uma boa probabilidade de que tal situação tenha acontecido. Existem diversos exemplos disso em séries, filmes e livros que retratam períodos históricos; porém, independentemente do período, a mulher sempre foi vista com mais receio do que o homem, ainda que ambos praticassem as mesmas artes mágicas. 

“Algumas semelhanças entre a bruxaria europeia e a feitiçaria não europeia resultam da exportação de ideias europeias por meio do colonialismo.”
Saindo um pouco das questões de tradições de feitiçaria africana, também há cultos mais recentes que surgiram como consequência do colonialismo europeu. É o caso do vodu, religião levada para o Haiti por pessoas escravizadas trazidas da costa do Benin. A religião, praticada por 90% do povo haitiano, mistura elementos de cultos da feitiçaria africana tradicional com o cristianismo e algumas crenças do folclore europeu. É um verdadeiro sincretismo religioso originado da violência da escravatura. 

Hécate, Lilith e Circe, respectivamente

A bruxaria europeia também bebeu de outras fontes: as culturas greco-romana e hebraica estabeleceram padrões seguidos até hoje em diversas áreas, e na religião não foi diferente. Hoje, Hécate e Lilith são consideradas deusas da bruxaria. No entanto, na Idade Antiga, elas foram consideradas espíritos inferiores do submundo ou até mesmo demônios. Diversas características das deusas foram também atribuídas às bruxas, e aí estabeleceu-se o contraponto: se elas podem ser maléficas, é preciso haver quem as combata. E a figura de poder que poderia combatê-las geralmente era a de um feiticeiro, que criava amuletos e feitiços de proteção contra a divindade. A figura da mulher na literatura clássica greco-romana também ajudou a construir o mito da bruxa maléfica, que seria tão difundido alguns séculos depois: Circe, Medeia, Dipsias, Canídia e Sagana, todas personagens criadas a fim de demonstrar o quão perigosa poderia ser uma feiticeira. “Essa tradição literária da feiticeira perversa serviu facilmente de base para a ulterior imagem cristã de bruxa.” 

Foi através da visão greco-romana sobre a feitiçaria que se iniciou a vinculação da bruxaria com a demonologia. Em determinado momento da Idade Antiga, os gregos passaram a acreditar que, para fazer feitiços, era necessário estar em contato com espíritos, a quem eles chamavam de daimones. Os autores explicam que, naquele tempo, a palavra não tinha conotação maligna, sendo, inclusive, quase um sinônimo de "deus". Porém, após algumas décadas, o daimon foi associado a espíritos inferiores, até que Xenócrates, discípulo de Platão, fez a divisão do mundo espiritual entre deuses e demônios. Assim, os demônios ficaram sendo a metade sombria dos deuses, tornando-se malignos. Desse pensamento para a certeza de que feiticeiras faziam pactos com demônios, bastava um passo. 

O passo começou a ser dado alguns séculos depois. Mas engana-se quem pensa que isso aconteceu durante a Idade Média. Aliás, todo o conceito de Idade das Trevas foi criado pelos iluministas. A verdade sobre a Idade Média é algo muito mais complexo do que os mitos propagados na cultura pop nos fizeram acreditar. E quase não envolve o conceito de bruxaria. Até o século XV, o pensamento sobre bruxaria não era muito diferente na Europa do que em outros lugares, como no Oriente ou na África. Porém, com o cristianismo ficando cada vez mais poderoso, e a associação da Igreja ao Estado, tudo aquilo que não fosse cristão era considerado heresia. 

“Os teólogos cristãos faziam agora uma importante identificação: os demônios que as feiticeiras invocavam eram os deuses pagãos. Júpiter, Diana e outras deidades do panteão romano eram realmente demônios, servos de Satã. Quando o cristianismo avançou rumo ao norte, carregou a mesma alegação a respeito de Wotan, Freya e demais deuses celtas e teutões. Aqueles que prestavam culto a tais deuses estavam cultuando demônios, soubessem disso ou não.”
O cristianismo não conseguiu se inserir na Europa sem resistência. Crenças locais existiam, deuses, deusas e tradições ainda eram praticadas pelos povos. A melhor forma de conseguir apagar uma história, entretanto, é colocando medo nas pessoas, fazendo-as acreditar que suas crenças são malignas, que existe um Mal muito grande prestes a atacá-las e que há apenas um salvador (que pode ser Deus ou uma figura política; o marketing é o mesmo para ambos os casos). Assim, com o passar das décadas, os líderes cristãos da época conseguiram transformar as crenças locais dos povos europeus no mito demoníaco de que Satã utiliza servos humanos (bruxos) como forma de causar danos e desviar as pessoas da bondade divina, condenando a alma à danação eterna, como vingança contra Deus. 

Malleus Maleficarum, de 1519

Foi somente no final da Idade Média que a caça às bruxas começou a tomar corpo. Ao contrário do que muitos pensam, durante a maior parte desse período, era contra a lei acreditar em bruxas ou matar pessoas em nome de uma suspeita de bruxaria. Tais credos eram vistos como parte do imaginário pagão e, portanto, não incentivados no cristianismo medieval. Foi apenas no final de 1400, especialmente após 1487, com a publicação do Malleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras, o principal guia de identificação e caça às bruxas), que a desconfiança geral se intensificou, e os julgamentos em massa — resultando em mortes — começaram. Mas esse era o final da Idade Média, quando a transição para a Idade Moderna já estava em andamento. É costume olhar o passado com desprezo e pensar nas pessoas de outras épocas — ou outras culturas — com um sentimento de superioridade, mas a realidade é que o pensamento medieval não possui praticamente nada em comum com o que acreditamos ser verdade, e a feitiçaria ou era ignorada ou era vista como algo natural. Foi a Idade Moderna que trouxe os horrores que conhecemos das perseguições. 

“A ideia popular de que a caça às bruxas foi um fenômeno medieval é fruto de um falso preconceito que vincula tudo o que é ruim ao clericalismo da chamada ‘Idade das Trevas’. Muitos dos intelectuais da Renascença e dos líderes da Reforma estavam entre os mais vigorosos defensores da crença em bruxaria diabólica.”
Demorou um pouco para que feitiçaria e heresia fossem atreladas. Segundo os autores de História da Bruxaria, pode-se afirmar que isso começou a acontecer em 1022, quando o Rei Roberto da França presidiu a primeira execução por heresia da Idade Média. Mas, ainda que a execução tenha sido um marco violento na história da política comandada pela religião, a acusação não era a de feitiçaria, nem mesmo de bruxaria, mas de heresia pura e simples. Heresia era tudo aquilo que se colocava contra as doutrinas da Igreja Católica. Muitos dos heréticos eram simples cristãos que não concordavam com tudo o que a instituição pregava e queriam realizar reformas. Longe de serem diabólicas, as heresias eram mais uma contestação ao padrões morais da Igreja. No entanto, ser contra a Igreja era entendido como ser contra Deus, e ser contra Deus era coisa do Diabo. A partir do momento em que o pensamento dos líderes religiosos e políticos da época começou a se voltar para esse raciocínio, a condenação das bruxas estava encaminhada. Foram os escolásticos, grupo de pensadores cristãos da época, conciliadores de teologia cristã com filosofia grega, que associaram, de fato, as feiticeiras com o Diabo. 

A ideia de que as bruxas mantêm relações sexuais com Satã é completamente cristã e patriarcal. Segundo os escolásticos, no sabá das bruxas, elas se submetiam a orgias com as pessoas que estivessem mais próximas a elas, terminando tudo se entregando ao Diabo. Porém, isso só foi visto dessa maneira porque, por enxergarem a mulher como ser mais fraco e menos santo, também viam o Diabo como um ser masculino e poderoso. Isso porque, de acordo com o cristianismo, na tradição judaico-cristã, o Diabo é adversário de Deus. Deus, todo poderoso, só pode ser masculino. Portanto, seu contrário, o Diabo, também. Uma figura de grande poder, para eles, jamais poderia ser uma mulher.

Ilustração da execução de Bridget Bishop, a primeira "bruxa" a ser morta em Salem

Para além do medo real da bruxaria, que se espalhou pela Europa no século XV, orquestrado por questões religiosas, houve também a caça às bruxas política. Não é novidade alguma que a melhor forma de se livrar de uma pessoa é acusando-a do que há de pior na sociedade em que se vive. Na sociedade europeia dos séculos XV e XVI, a pior coisa que poderia acontecer a uma pessoa era ser acusada de bruxaria. Até Ana Bolena, a rainha consorte da Inglaterra, casada com Henrique VIII, foi acusada de praticar bruxaria contra o rei quando ele enjoou dela e quis se casar com outra.

Mulheres eram mais acusadas do que homens em geral por uma crença patriarcal e cristã de que elas são mais suscetíveis ao Diabo, mais fracas e menos santas. Dentre os motivos que levavam uma mulher a ser acusada estavam: ter alguma deformidade física (como o caso de Ana Bolena que, diziam, tinha um sexto dedo — embora isso nunca tenha sido comprovado), ter manchas estranhas pelo corpo, ou mesmo sinais. Até o conhecido como terceiro mamilo, algo que acontece com uma certa frequência entre as pessoas, era encarado como uma prova do pacto com Satanás que, supostamente, mamava nele, se alimentando da feiticeira. Porém, homens também foram acusados de bruxaria diabólica. Em geral, os acusados eram aqueles que se opunham à caça às bruxas, ressaltando o caráter absurdo e fanático da perseguição. Mas, assim como nos dias de hoje não é possível ser relativamente moderado sem ser chamado de comunista, naquela época não era aceitável dizer que talvez não fosse certo matar tantas pessoas na fogueira apenas por rumores de que aquela pessoa tinha associação com o Diabo. Os tempos mudam, mas os comportamentos são semelhantes. 

Bruxaria Moderna 

Para além da parte histórica, História da Bruxaria também tenta compreender como saímos da caça às bruxas para a visão romântica que temos hoje da bruxaria. Segundo os autores, com o acalmar da perseguição às bruxas, a crença foi se arrefecendo, especialmente quando intelectuais e pessoas da própria Igreja passaram a defender que a crença em bruxas deveria ser plano do Diabo para causar a destruição da população europeia. Conforme esse pensamento foi se tornando padrão na sociedade, acreditar em bruxas tornou-se algo associado à falta de instrução acadêmica. Quem insistia em acreditar não era bem visto. 

Contudo, com a era do cientificismo ganhando espaço, o mundo mágico pareceu perder-se na bruma. Tudo era muito sólido, característica que não é favorável ao crescimento da criatividade. Portanto, não é difícil imaginar o que levou as pessoas a voltarem-se novamente aos tempos em que bruxas voavam em suas vassouras e passavam noites fazendo feitiços na floresta: o tédio. 

Tal afirmação pode parecer estranha, até mesmo errada, mas os autores apresentam provas contundentes de que a redescoberta moderna das bruxas não passa de nostalgia e consequência da ausência de um mundo mágico onde tudo era possível. Como a mente costuma enfeitar o passado, como forma de escapar do presente, os mitos concernentes às bruxas tornaram-se narrativas de resistência sobre mulheres que enfrentaram o poder patriarcal em nome da liberdade pagã. 

A crença na bruxaria demoníaca se transformou numa religião que cultua os antigos deuses. “Ironicamente, a ideia de que a bruxaria era uma sobrevivência do paganismo foi inicialmente proposta para desacreditá-la, não para defendê-la — e para justificar a Inquisição.” O cenário imaginado de mulheres cultuando a deuses ancestrais em cultos de fertilidade e liberdade inicialmente foi uma desculpa para justificar os assassinatos que a Inquisição cometeu durante séculos. Mas a ideia, que não tinha qualquer respaldo histórico, pegou bem. 

Em 1862, Jules Michelet, um acadêmico francês conhecido por enfeitar seus trabalhos com a defesa de posicionamentos fortes, ainda que infundados, publicou La Sorcière (publicada no Brasil com o título de A Feiticeira). No livro, Michelet argumenta que a bruxa era parte de uma tradição pagã, que utilizou os cultos de fertilidade para desafiar a Igreja. O livro virou best-seller imediatamente, tornando-se referência sobre as origens da bruxaria. Entretanto, o livro, escrito em apenas dois meses, não passava de uma retórica ao argumento da Igreja Católica, e não havia veracidade alguma nele, sequer foi feita uma pesquisa. E, ainda assim, muito do que conhecemos como bruxaria hoje saiu das palavras de Michelet. 

O livro La Sorcière, de Jules Michelet, Gerald Gardner, e Aleister Crowley, respectivamente


Depois dele, surgiram outros tantos pensadores da época que adotaram as ideias reunidas em A Feiticeira, ainda que não houvesse prova alguma de nenhuma afirmação. Os entusiasmados com a “verdade” finalmente revelada sobre a bruxaria se multiplicaram, e logo havia diversas pessoas afirmando praticar os cultos ditos ancestrais e criando teorias a respeito do que acontecia na Antiga Religião. Tudo isso culminou em Gerald Gardner, o pai da bruxaria moderna. Conhecido como o criador da Wicca, Gardner foi um homem que conheceu o mundo e, do que dele viu, se apropriou de partes para criar a religião que é praticada até hoje. Entusiasta do ocultismo, ele costurou os escritos de Aleister Crowley com folclores europeus e de outras culturas. Afirmando ter encontrado um coven ativo no interior da Inglaterra, ele escreveu alguns livros, nos quais relatava os ritos praticados por aqueles que haviam mantido a tradição da Antiga Religião viva. Muitas pessoas não somente acreditaram na palavra de Gardner como seguiram-no em seu novo culto. E assim, a bruxaria moderna nascia. 

Não há evidência alguma de que Gardner realmente tenha descoberto um coven, ou mesmo de que os ritos que ele descreveu sejam reais. Pelo contrário: todas as evidências apontam para a calculada criação de uma nova religião. Se ele acreditava no que estava fazendo ou não, é outra história. Particularmente, tendo a crer que os envolvidos na criação da Wicca realmente acreditavam no que estavam fazendo e não agiam apenas em prol da fama e riqueza que receberam. Entretanto, a verdade histórica é que Gardner e, posteriormente, Doreen Valiente, escreveram muitos dos rituais “ancestrais” da Wicca e os venderam como sendo fruto de pesquisas que os levaram até os rituais praticados na Europa pré-cristianismo. 

“Valiente, a discípula, desafiou Gardner, o mestre, condenando seu uso do material de Crowley. Gardner racionalizou que as ‘tradições’ que havia descoberto eram apenas fragmentárias, e que se vira forçado a preencher as partes que lhe faltavam da melhor maneira possível, acrescentando: ‘…se você acha que pode fazer melhor, vá em frente’.”
Doreen Valiente de fato acrescentou mais coisas. Além das que Gardner já havia escrito, baseado em Crowley, ela modificou os rituais e entrelaçou a origem da bruxaria com as práticas celtas. Até então, isso não havia sido feito, mas, hoje, é essa a origem aceita e propagada popularmente. Associando a Wicca à imaginária Antiga Religião britânica, ela traçou o que é acreditado atualmente — ainda que não haja verdade alguma nisso. 

Desde o final do século XIX, a bruxaria tem sido vista de forma mais romântica, com toda uma nova onda de bruxas que, supostamente, resgatam tradições da Antiga Religião, perdida em meio a tantos séculos. Porém, essas tradições nunca existiram, tampouco a Antiga Religião. Isso não invalida, de forma alguma, o movimento religioso que se formou a partir da Wicca e de outras formas de feitiçaria praticadas atualmente. Entretanto, não se pode afirmar que a “verdadeira” religião pagã é resgatada quando há provas contundentes que demonstram o quão forjada foi a construção religiosa da bruxaria que conhecemos hoje. 

O Círculo Mágico (The Magic Circle), de John William Waterhouse (1886)

Apesar de ser tentador acreditar que movimentos como o Sagrado Feminino e a Wicca resgatam a Antiga Religião da Deusa, a verdade é que não há evidência alguma disso. O que existe, de fato, são documentos, livros e pesquisas que confirmam que a bruxaria, como a conhecemos hoje, é uma invenção. Isso, contudo, não significa que a bruxaria, como religião, seja menos válida só porque foi inventada, e não uma continuação de tradições ancestrais. Todas as religiões são criadas em algum lugar e de qualquer forma, e isso não as invalida. A bruxaria moderna pode ter sido criada por pessoas que costuraram mitos, folclore e rituais de ocultismo, mas ela ainda é uma das religiões mais pacíficas e encantadoras que existem. E, como tal, deve ser respeitada. Respeitá-la, porém, não significa que deixaremos de procurar entender qual é sua história, mesmo que isso nos leve a apontar as inconsistências do movimento. 

O livro encontra seu ponto alto nesse momento, pois traz algo de novo: evidências consistentes sobre a verdadeira história da bruxaria, reunidas em um único lugar, com várias páginas de referência que apontam ao leitor onde encontrar material de apoio para a leitura ou, até mesmo, para uma possível pesquisa. Infelizmente, nem todos os livros que se propõem a tratar do assunto possuem a seriedade que os autores deste nos apresentam. Apesar de ser um livro acadêmico, a leitura de História da Bruxaria é leve, repleta de ilustrações nas quais podemos ver como a bruxa era representada em cada época e local de que os autores falam. As representações variavam: desde mulheres voando em cima de bodes até pessoas abrindo um círculo mágico, todo o mito imagético da feitiçaria é mostrado. Nós, como sociedade, somos profundamente influenciados pelo que vemos. Nenhuma arte é apolítica, tampouco as representações das bruxas. Enquanto elas eram pintadas como servas de Satã, era fácil para as pessoas enxergarem-nas dessa forma. Com o pensamento ocidental fazendo a transição da crença diabólica para o ceticismo e, então, para o romantismo religioso, a forma como a feitiçaria foi mostrada mudou. 

A cultura pop contribuiu muito para isso. Por muito tempo, o cinema se valeu do mito em torno das bruxas — e da crescente descrença na existência de tais práticas — para resgatar diversas narrativas da bruxaria diabólica (como podemos ver em alguns filmes mais antigos, como As Bodas de Satã, de 1968, e O Bebê de Rosemary, do mesmo ano). Contudo, com a romantização da bruxaria, a narrativa mudou um pouco, e filmes como Jovens Bruxas auxiliaram muito na construção da visão que temos hoje do que é ser uma bruxa moderna. Por muitos anos, as bruxas ainda foram retratadas como parte de um culto associado a demônios e entidades não-cristãs, mas nem sempre necessariamente más, apenas não compreendidas. E, a partir disso, vieram outras produções, como Da Magia à Sedução, Charmed, Buffy, A Caça-Vampiros e a primeira versão de Sabrina. Tirado o manto demoníaco da figura bruxesca, era hora de nos voltarmos para algo mais histórico. E a última década nos levou para narrativas baseadas na bruxaria não-mágica, ou seja, no mito da bruxa sob um olhar cético e/ou psicanalítico. Parece que há um novo interesse em compreender a verdade por trás dos mitos, o que tem resultado em filmes excelentes como A Bruxa

Da demonolatria ao romantismo, a bruxaria permaneceu ativa no mundo. O pensamento social muda, mas a busca por algo além do material, não. Hoje sabemos que não existe uma feitiçaria maléfica, tampouco rituais ancestrais que foram trazidos para cá. Entretanto, o que fica é a mensagem de resistência e respeito que a nova religião neopagã prega. Que ela continue assim.

Se interessou pelo livro? Você pode encontrá-lo clicando aqui.




Texto e imagem de destaque: Mia Sodré

Comentários