O Som e a Fúria: a dura vida no sul dos Estados Unidos


William Faulkner nasceu em 1897, na cidade de New Albany, Mississippi (EUA). Fez a sua estreia na ficção em 1926, com o seu romance Soldier's Pay. O escritor, a partir desse ponto, passou a ter uma produção prolífica e sua literatura partiu para o impacto que foi O Som e a Fúria, romance de 1929. Sua consagração internacional, por sua vez, veio com Palmeiras Selvagens, de 1939. Posteriormente, o autor foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1949.

Durante os anos 1940 e 1950, além de publicar contos, novelas e romances, Faulkner passou a escrever roteiros para Hollywood, também colaborando para o Departamento de Estado na difusão da cultura americana, tendo visitado muitos países como palestrante. O escritor veio a falecer em 1962, já consagrado e premiado por sua obra.

Dezessete dos livros de William Faulkner foram ambientados no mítico condado de Yoknapatawpha, no sul dos Estados Unidos, e que viria a ser o lar da família Compson no romance O Som e a Fúria. O condado nos parece um lugar bem real dos Estados Unidos sulista, e todos os costumes e ações estão lá, fielmente retratados, em um período que abrange as primeiras décadas do século XX.

O autor estadunidense usava sua imaginação criadora para reproduzir modos de vida que existiam, de fato, levando-nos a lugares reais com um retrato enriquecido de sua trama. Desse modo, ele nos conduz às histórias que seus romances apresentam, trazendo relatos de famílias sulistas em conflito ou diante de desafios. Assim, seus obras evoluem numa espiral de acontecimentos ásperos, demonstrando situações em que os limites são testados, como no romance aqui abordado. O escritor possui um estilo próprio de prosa, com um método quase que hipnótico, de orações desconjuntadas e contínuas, o que pode desorientar o leitor que não estiver bem concentrado. A prosa de Faulkner é caótica e bruta.

Uma característica que pode ser uma das virtudes dessa prosa é que ele privilegia muito todos os seus personagens. Temos sempre uma boa descrição de cada um e, muitas vezes, estes personagens aparecem contando as suas próprias histórias. Aqui não há o método do narrador onisciente. Talvez a crueza de sua prosa tenha sentido por conta da localidade de um condado áspero sulista e fictício. Além disso, as falas dos personagens pendem de uma ignorância caipira a um desamparo essencial diante de um deserto existencial, cujo embrutecimento reflete na forma de escrita bruta e caótica de Faulkner.

Sofrimento, morte, ganância e depravação são temas recorrentes na obra de Faulkner. Ao abordar a realidade sulista norte-americana, o autor nos proporciona um mergulho em uma vida comum do início do século XX e suas perspectivas, ou melhor, a falta destas. A liberdade, aqui, se vê diante de inúmeros obstáculos, e Faulkner acaba constituindo, com a sua prosa endurecida, uma comédia de costumes do sul dos Estados Unidos — e foi este retrato que fez dele um marco na literatura mundial.

Quando William Faulkner recebeu o Nobel, foi citado pela premiação como um escritor de “poderosa e artística contribuição para o romance moderno norte-americano”. Nos seus últimos livros, ele continuou explorando os conflitos do coração humano diante de cenários ásperos e duros. O intruso (1948), Requiem for a Nun (1951), A Fable (1954), que foi Prêmio Pulitzer, A cidade (1957), A mansão (1959) e Os invictos (1962), que também foi Prêmio Pulitzer, são exemplos disso. O autor faleceu em 1962, no dia 6 de julho, por conta de um ataque cardíaco.

O Som e a Fúria 

O Som e a Fúria tem este caráter de vida áspera e sem perspectiva. A família Compson é descrita em detalhes, e inúmeros conflitos emergem de uma convivência difícil entre personagens que vivem histórias caóticas. Os personagens se entrechocam na obrigação de estarem juntos diante de desafios que os colocam em um mesmo diapasão de embate, dor e demandas inumeráveis. Tudo isso em um cenário de Estados Unidos sulista, que envolve toda a literatura produzida por William Faulkner, aqui, o condado fictício de Yoknapatawpha.

Os Compson e os Sartoris perderam o controle do condado para os Snopes. Jason Compson, um dos eixos do romance, está diante da morte da mãe e da fuga de sua sobrinha, e ainda tinha um irmão já adulto, mas idiota, que acaba internado em um asilo estadual. Jason se vê, por conseguinte, diante de uma situação em que tem que consumir todo o dinheiro da venda do pasto no casamento de sua irmã e no curso do irmão em Harvard.

Seu minguado dinheiro vinha de ser empregado do comércio para aprender numa escola em Memphis a avaliar e classificar algodão, abrindo seu próprio negócio. Jason enfrenta uma vida de sacrifícios, em que tem que cuidar de sua família. Aqui temos um cenário degradado pela dureza, com ações e costumes, muitas vezes, violentos ou dominados por uma insensibilidade desamparada. Não há prazeres para o personagem, não existe uma utopia para esta família em putrefação.

Temos episódios que vão do cômico ao odiento, dependendo do ponto de vista literário, como o fato de Jason ter sido roubado pela sobrinha que fugiu, ou de seu irmão idiota, que tentou desajeitadamente agarrar uma menina sem o consentimento dela. No caso, como dito, o pasto vendido por Jason era para financiar o casamento de Candace e os estudos de Quentin em Harvard. Por sua vez, seu irmão idiota é castrado em 1913, e internado no Asilo Estadual Jackson, em 1933.

Diante dos personagens do romance, podemos ver situações que flertam com limites de vivência que colocam o caráter de alguns deles num pântano em que o viés utilitário e de tirar vantagens advém, sobretudo, de condições duras e desesperadas. Jason é traído pela sobrinha e tem que lidar com uma família disfuncional, estando ele mesmo em condições profissionais pavorosas. A ideia de um caminho claro e coerente de ações e vida se esboroa diante das demandas inumeráveis que surgem para o personagem, como ter que lidar com as contingências intermináveis, mais do que obedecendo a um plano em que tudo poderia ficar límpido para a visão de Jason que, diante dos Compson e sua confusão, não passa de uma visão turva e perturbada.

Lidar com uma realidade embrutecida coloca o caráter de todos estes personagens num limbo em que reina um naturalismo utilitário e cruel. Não há um ambiente de confiança e clareza. Os conflitos se armam, aqui, justamente pela falta de norte e perspectivas, um mundo nebuloso e que se encontra turvado o tempo todo por tempestades de traições, brigas, idas e vindas caóticas que se refletem no estilo de prosa caótico e desorientador de William Faulkner. Temos aqui uma união simbiótica de tema literário e, estilo ou forma, ambos são sobre o caos.

O Som e a Fúria, designando o título deste romance emblemático, é isso mesmo, um cenário desolador, que tem a sua primeira parte sendo narrada por Benjy, um idiota, evocando Shakespeare. O título evoca a citação clássica da peça teatral elisabetana Macbeth, de William Shakespeare, em que temos a frase proferida pelo protagonista, que nos diz: “A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco — faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado.”





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