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Sexo nas estrelas: os problemas sexuais de Star Wars


Star Wars sempre foi uma grande farofa. Embora possua um contexto político afiado e, infelizmente, atual, e personagens cativantes — com mulheres poderosas chutando bundas Galáxia afora —, a saga Skywalker nos pega pelos sentimentos. Não que ela seja cinematograficamente ruim, longe disso: assistir aos filmes, em diversas ordens, está entre os meus passatempos favoritos e faço questão de revisitar a história de Luke (Mark Hamill), Leia (Carrie Fisher), Han (Harrison Ford) e de tantos outros rebeldes algumas vezes por ano. Mas isso não me faz menos crítica aos defeitos. A trilogia original, por exemplo, possui alguns problemas que, fossem os atores ou o diretor mais experientes, não teriam acontecido. Mas Star Wars sempre cumpriu seu dever, nos entregando uma história que nos transporta para outros lugares no espaço e nos faz emocionar, sofrer, chorar e celebrar as pequenas, mas significativas, vitórias da democracia. No entanto, a saga possui um ponto fraco em específico: o amor romântico e erótico. Star Wars e sexo não combinam. 

O amor em Star Wars é sempre algo idealizado. Ele é puro, fantástico, quase divino. A saga não sabe lidar com o sexo e parece enxergar nele algo de errado, passivo de punição. Relações sexuais geram filhos e filhos geram problemas — esse parece ser o recado no campo dos relacionamentos amorosos dos filmes. No entanto, quando olhamos mais a fundo por que essa mensagem está tão clara na saga, percebemos que ela vai além: com uma forte influência religiosa, o amor é visto como algo pecaminoso pois leva ao ciúme, à inveja e ao desespero. Muitos são os textos de diferentes religiões que tratam assim o amor, especialmente o romântico e sexual. Star Wars não sabe lidar com sexo. É estranho que em uma saga baseada em famílias disfuncionais não vejamos nenhuma insinuação sexual para além de castos beijos e um intenso tocar de dedos. O mundo de Jane Austen parece ter invadido a imaginação de George Lucas enquanto ele concebia sua história de luta entre bem e mal. Mas por quê? 

É bem verdade que Star Wars possui algo de messiânico. Tudo começa com uma profecia que diz que um Jedi será tão poderoso que trará o equilíbrio para a Força. Por vezes, olhamos tanto para a trilogia original e para as histórias complexas da sequel que esquecemos dos três filmes da prequel e de todo o contexto religioso dos Jedi. Apesar de serem guerreiros treinados e extremamente habilidosos, a Ordem Jedi é um culto — ou, ao menos, era. Um culto que acreditava num Escolhido. Quando ele apareceu, foi esmagado pelo peso de todas as expectativas que nele colocaram e pelos sentimentos naturais de um jovem descobrindo o mundo e o amor. Enquanto Anakin (Hayden Christensen) tornava-se um Padawan forte, seus sentimentos por Padmé (Natalie Portman) cresciam. É muito fácil para um jovem que nada viu do mundo, além da eterna areia de seu planeta natal e da ordem sagrada do culto que lhe adotou, começar a ter dúvidas e ser levado a extremos, especialmente quando não lhe é dada liberdade. O grande erro dos Jedi é fazer de seus membros monges. Seria realmente necessário abdicar de quaisquer sentimentos para ter equilíbrio na Força? Pelo contrário: na Força, tudo existe. Reprimir sentimentos é o primeiro passo para o Dark Side — embora Yoda tenha nos dito o contrário, a saga mostra que essa não é uma boa ideia. Repressões nunca dão certo, seja na política, seja no âmbito familiar. 

Hayden Christensen e Natalie Portman como Anakin e Padmé em Ataque dos Clones

No Episódio III, A Vingança dos Sith, vemos Anakin desesperado com a certeza de que apenas através de seus novos poderes como Sith é que será possível salvar Padmé da morte que, ele imagina, é certa. Como sabemos, ele não conseguiu, mas seu neto, Ben Solo (Adam Driver), foi capaz de salvar a pessoa a quem ele amava, Rey (Daisy Ridley). O medo da perda do amor levou Anakin para o Dark Side, mas o amor foi capaz de salvar Ben e levá-lo a perder o medo para salvar Rey. Tudo o que Ben queria era ser como seu avô e, no final das contas, ele conseguiu — mas não da maneira como pensou que seria. 

O medo pode levar ao Dark Side, mas é o amor que salva — mas apenas se ele for puro, casto e abnegado. Ben Solo abraçou o amor e deixou o medo de lado, sacrificando-se por quem ama, um sacrifício que Anakin jamais foi capaz de fazer por Padmé, mas fez por seu filho, Luke. O amor que nunca poderá ser sexualmente concretizado é premiado com a redenção em Star Wars, ao passo que personagens que seguiram seus desejos e ousaram relacionar-se eroticamente com alguém foram, cada um à sua maneira, punidos por isso. Anakin perdeu Padmé durante o parto, Padmé perdeu a vida pelo fruto do “erro” de ter se casado às escondidas e transado com um Padawan. Anos mais tarde, Luke, ao conhecer Leia, apaixona-se e sofre pelo beijo que ela nunca deveria ter lhe dado ao descobrir que se apaixonou pela própria irmã. Han e Leia, o casal que deu certo, acabou não dando: foi separado pelo fruto de seu amor, pelas escolhas de seu filho, que enveredou para o caminho errado e destruiu a família. Finn quase morre gritando pelo nome de Rey em A Ascensão Skywalker. Ben Solo morre após beijá-la. O amor romântico possui consequências desastrosas na Galáxia de George Lucas. 

A cena mais sexual dos nove filmes principais é quando Rey e Kylo Ren, conectados através da Força, tocam os dedos um do outro brevemente. A tensão sexual pode ser sentida durante aquela que parece a descoberta dos desejos físicos por dois adolescentes — exceto que estamos falando de dois adultos que, naquele momento, eram inimigos e estão a sabe-se lá quantos quilômetros de distância um do outro. Interrompidos por um Luke eremita, a conexão se dispersa, mas os sentimentos permanecem — sentimentos que levam a um fim trágico para eles, embora bom para o destino da Galáxia. O amor romântico não poderia salvá-la, mas o sacrifício deles, sim — e esse parece ser o propósito da ligação entre ambos. Sobre a cena do toque dos dedos entre Kylo Ren e Rey, Rian Johnson disse“É o mais perto de uma cena de sexo que teremos em um filme de Star Wars”. Isso nos remete a Orgulho e Preconceito, com sua famosa cena do leve toque de mãos entre Mr. Darcy (Matthew Macfadyen) e Elizabeth (Keira Knightley), também a cena mais sexual do filme. Mas é compreensível que a adaptação cinematográfica da obra-prima de Jane Austen não tenha conteúdo sexual. No entanto, por que não existe sexo em Star Wars

Adam Driver e Daisy Ridley como Kylo Ren e Rey em O Despertar da Força

Se a cena mais sexual é entre Kylo e Rey, a insinuação sexual mais pesada em Star Wars ainda é aquela na qual Leia é forçada a usar um biquíni dourado enquanto um repugnante Jabba lhe lança olhares lascivos. Por quê? Nas décadas desde o lançamento do filme, o motivo para tal escolha foi severamente debatido e, felizmente, não tivemos mais disso na saga. Mas é incomodativo como o corpo seminu de uma mulher foi usado, por vezes, sem propósito narrativo algum para além do olhar masculino (vide a cena de luta no Episódio III, em que Padmé exibe uma barriga de fora enquanto todos os outros estão completamente vestidos), mas o amor é uma proibição tremenda. Jabba é logo castigado por sua transgressão; afinal, mais do que a proibição do sexo ali quebrada, ele representa o abjeto, o lascivo, o errado. Além de ser o captor de Han, ele também é um abusador sexual que, subtende-se, violenta Leia. É absurdo que a única cena com menos roupa e mais toque seja de uma violência sexual, não uma entre os diversos casais da saga que fazem filhos por pensamento, aparentemente. E por que casais que, após um casamento certificado, diga-se de passagem, transam, parecem ser punidos com separações, mortes ou filhos que passam para o Dark Side, destruindo a família? Por que o amor é tão punido em Star Wars

Existem algumas explicações para isso. Durante as mais de quatro décadas de existência, a saga acumulou uma multidão de fãs que não se cansam de tentar entender o universo Jedi e as motivações dos personagens. Nada parece ao acaso nessa história — e realmente não é. Ainda que as explicações encontradas por estudiosos do assunto sejam controversas, é interessante perceber que elas possuem algo em comum: uma análise mais aprofundada do próprio criador de Star Wars, George Lucas. 

Acredito que toda obra, por mais pensada e planejada que seja, possua algo de seu autor. Somos seres dotados de personalidades complexas e possuímos muitas camadas psicológicas para que nossas criações não possuam traços de quem somos. Embora tais traços possam estar escondidos em nós mesmos, já que existem mecanismos de defesa que utilizamos para não pensar em certas coisas que nos marcaram e que nos fazem ter filtros para olhar o mundo de formas específicas, analisando de fora tanto obra quanto criador, é surpreendente perceber padrões bem estabelecidos de narrativa e vida psíquica. Em Sex, Politics and Religion in Star Wars, livro que compila artigos diversos sobre a saga, cada um com um olhar profundo sobre um aspecto diferente, encontramos duas explicações interessantes que, embora pareçam divergentes, complementam-se. Uma delas traz à luz a teoria freudiana da fase anal e a outra baseia-se nos ricos contextos religiosos utilizados dentro da narrativa dos filmes que refletem o interesse vívido de George Lucas em diferentes culturas e contextos — mas também a forma como foi criado e como certas convicções e temores enraizaram-se nele. 

Star Wars possui muitas questões sexuais mal resolvidas e personagens que parecem não desenvolver seus estágios de excitação. É possível dizer que a culpa é do contexto da guerra, que não deixa espaço para o amor romântico. Mas isso não é verdade: eles flertam, eles casam, eles têm filhos. Mas não fazem sexo. 

Carrie Fisher e Harrison Ford como Leia e Han Solo

Em Beyond Judeo-Christianity: Star Wars and the Great Eastern Religions, artigo de Julien Fielding, somos levados por um passeio pela etimologia dos nomes de personagens do universo Jedi e seus significados religiosos. Embora seja possível traçar um paralelo claro e óbvio entre os Jedi e o cristianismo, não seria justo dizer que Star Wars possui somente inspiração nessa vertente religiosa. Nomes de personagens, como Obi-Wan Kenobi, Yoda e Padmé, vêm de tradições japonesas e hindus e possuem significados que combinam com as personalidades de seus donos. Até mesmo as roupas que usam são, em grande parte, derivadas de trajes sacerdotais de religiões não-cristãs do Oriente. Também é verdade que o mito do Escolhido nascido de uma virgem existe em diversas culturas, inclusive na greco-romana e na babilônica. Entretanto, o puritanismo de Star Wars é predominantemente cristão — o que talvez possa ser explicado pelo fato de George Lucas ter sido criado como um metodista, ainda que tenha se aberto a outras religiões conforme crescia. Star Wars é tão cristão que Anakin, o Escolhido, de acordo com a profecia Jedi, foi concebido pela Força em uma mulher virgem, Shmi. É absurdo pensar no quanto eles odeiam falar sobre sexo a ponto de criarem uma narrativa monástica-cristã para a salvação da Galáxia. Compreendo que existe toda uma mística em torno de um menino que possui uma ligação com a Força cuja concepção é inexplicável. Mas isso era realmente necessário? Difícil dizer. No entanto, aqui não critico as condições do nascimento de Anakin, mas sim as motivações por trás de seu criador em determinar que essa seria a narrativa: por que George Lucas foi tão conservador em sua decisão? Por que o Escolhido não poderia ter nascido de um relacionamento sexual entre um homem e uma mulher? Star Wars é pudico em sua mitologia, muitas vezes forçando uma história miraculosa sobre concepção numa virgem para manter a origem de um personagem “pura”. Essa noção distorcida de pureza está presente em toda a saga. 

Isso pode ser visto claramente em seus personagens que, embora tenham ânsia de conhecer outros lugares, outras culturas, outras crenças e viajem por planetas distantes, ainda são reservados no espaço de suas convicções íntimas, não se misturando verdadeiramente com o diferente, o “impuro”. Alguns parecem até missionários cristãos, Jedi que vão até outros sistemas estelares para recrutar jovens que possam adentrar a Ordem. Mesmo pisando em território diverso, com cultura e religiões próprias, eles levam o que acreditam ser A Verdade: sóbria, poderosa e casta. É um convite sedutor, especialmente porque os Jedi são elite na República. Mas sempre me impressiono quando algum personagem, como o próprio Han Solo, desdenha da veracidade da Força e da existência dos Jedi. É claro que a saga nos apresenta àquele universo como completamente verdadeiro e incontestavelmente correto, mas muitos são os habitantes da Galáxia que não acreditam naquilo e acham que os Jedi são apenas um mito religioso, mais um dentre tantos. E, apesar de existir uma forte influência budista e taoísta nos ensinamentos Jedi, a moral deles ainda é essencialmente cristã. 

Se olharmos para isso mediante a visão de um jovem George Lucas, em plenos anos 1970, tentando se afastar de suas origens cristãs através do conhecimento de outras religiões, mas sendo restrito por seu superego por tudo aquilo que aprendeu desde a infância, poderemos enxergar de outra maneira os conflitos sexuais dos personagens. Pode ser uma questão religiosa, mas é muito mais um conflito do próprio autor do que uma escolha deliberadamente narrativa. Somos todos vítimas da nossa infância, afinal de contas, e muitas coisas permanecem conosco, ainda que tentemos escapar delas. 

Por outro lado, existe a hipótese levantada por Lucy Place no livro citado anteriormente. No capítulo “George Lucas and Freud’s Anal Stage: Manifestations of Excretory and Vaginal Fear in THX 1138 and Star Wars”, a autora disserta sobre os elementos freudianos presentes nos filmes e em como podemos compreender a falta de sexo entre os personagens através de tais lentes. Ao analisar THX 1138, filme da juventude de George Lucas, e Star Wars, ela percebe uma narrativa semelhante que indica um trauma na fase anal do diretor. De acordo com Freud, a fase anal é o segundo estágio da teoria do desenvolvimento psicossexual e refere-se ao período entre os 18 meses e 3 anos da criança, quando ela começa a perceber sua evacuação a nível físico e psicológico, já que o ânus é uma zona erógena primária e seu impulso, durante a evacuação, pode levar ao prazer — seja ele físico, na retenção ou evacuação de excrementos, seja psicológico, por passar a ter domínio de si e de seu corpo. Isso pode levar a muitas questões para uma criança, inclusive ao prazer de segurar as fezes e, assim, reter o poder de evacuar ou não — e de levar seu cuidador a expor-se às fezes ou não — ou o de simplesmente não restringir seus impulsos físicos e lidar de forma tranquila com isso. Obviamente, a teoria estende-se para além dessa explicação simples mas, para fins de compreensão, é possível resumi-la dessa maneira. A fase anal refere-se, portanto, à sensação de poder sobre si mesmo e sobre os outros, organização do meio, medo de contaminar-se e medo da perda. Pessoas com problemas na fase anal, que nunca conseguiram sair desse estágio de sentimentos psicológicos, podem acabar tornando-se metódicas, hipocondríacas e com gatilhos relacionados a sujeira, excremento, perda de controle e sexo. Para elas, o ato sexual pode tomar proporções de algo sujo e errado, ainda que elas não tenham consciência disso de forma clara. 

O Sarlacc do deserto no Episódio IV — O Retorno de Jedi

Existem elementos suficientes nos filmes para corroborar tal hipótese, por mais estranha que ela pareça. Um deles é o próprio Jabba — um vilão tão execrável que seu formato se assemelha a fezes gigantescas. Ele é abjeto e representa algo para além da salvação. Enquanto a quase todos os vilões são dadas oportunidades de seguir outro caminho, a Jabba são entregues ameaças. Ele, que além de personificar o problema na fase anal com seu corpo de fezes, solta uma espécie de líquido verde e viscoso pela boca (o que pode possuir diversas interpretações nessa linha de pensamento), é o único personagem dentre todos os filmes que claramente exibe interesse por sexo. Mas tal interesse é sujo, errado e pecaminoso, como ele próprio. Jabba é o id de George Lucas em corpo e tamanho. Para se libertarem, os heróis precisam vencê-lo na sequência de ação mais freudiana da saga — incluindo a boca do Sarlacc, um animal cuja estética é a mesma da vagina dentata, uma visão grotesca e assustadora para homens que nunca conseguiram superar seus complexos da mulher-monstruosa e da aversão àquilo que escapa de seu controle. Ainda um momento curioso: embora tanto Luke quanto Han estejam sendo empurrados em direção ao excremento e à vagina dentata simbólica, é somente Luke que enxerga o que está acontecendo e fica verdadeiramente horrorizado, já que Han, após retornar de seu congelamento carbônico, ainda não recuperou completamente a visão. Mesmo que não tenha sido intencional, nisso podemos claramente enxergar como trabalhou a psique de George Lucas: Luke é o herói com problemas sexuais que precisa enfrentar seus medos mais profundos para vencer a si mesmo e tornar-se um Jedi. Han não possui problemas na fase anal ou problemas religiosos; ele lida bem com mulheres, não acredita na Força e sua única regra na vida é sobreviver. Han é bem-resolvido, mas essa é a jornada de Luke — e é uma jornada que não inclui sexo. 

Para Star Wars, o sexo é uma transgressão e, por consequência, o amor pode ser perigoso —  sendo Luke, Anakin e Kylo os suprassumos disso. Embora as duas hipóteses acima citadas sejam coerentes, acredito que a resposta para o porquê disso, dentro da saga, encontra-se num equilíbrio entre ambas: é tanto uma questão religiosa quanto psicanalítica. Afinal de contas, ambas as coisas não estão tão distantes assim. É a religião que, de certa forma, nos diz o que devemos ou não fazer. E são nossas crenças que nos assombram, muito mais do que aquilo que vem de fora. 

Mark Hamill como Luke Skywalker em Os Últimos Jedi

Não é à toa que Luke, em Os Últimos Jedi, parece um monge: ele veste uma túnica marrom, está isolado numa ilha, onde passa um bom tempo meditando, e nunca casou ou teve filhos, seguindo o manual da Ordem Jedi de que até mesmo amar romanticamente alguém pode levar o Jedi para o Dark Side e fazê-lo destruir a Galáxia — como o que aconteceu com seu pai, Darth Vader. Luke é tão monge que as filmagens da ilha, onde ele foi se refugiar após o desastre que criou Kylo Ren, foram feitas em Skellig Michael, lugar que, do século VI até o século XIII, era habitado por monges que viviam como eremitas. Isso não é à toa. Yoda, em A Vingança dos Sith, avisa Anakin a respeito desses sentimentos e de como eles podem destruir um Jedi, dizendo que “o medo da perda é um caminho para o Dark Side”. Tal conselho poderia vigorar tanto num texto budista quanto num checklist de pensamentos que indicam problemas na fase anal. 

Mas já não é hora de possuirmos uma narrativa em Star Wars onde o amor erótico não seja uma transgressão, porém o que ele é: parte natural da vida? Pensei que isso poderia acontecer na trilogia mais recente, mas, infelizmente, ela repete os mesmos padrões e enxerga questões sexuais da mesma forma que as obras anteriores.

Quando Rey surgiu, em 2015, nós não sabíamos quem ela era. A força motriz de sua personagem era centrada na espera por seus pais e na ânsia de saber onde pertencer. Na época, várias teorias foram especuladas a respeito da família de Rey, mas duas delas se destacaram entre os fãs. Uma falava que ela era filha de Luke — o que o filme também dá a entender, a princípio —; a outra dizia que ela seria a neta de Obi-Wan, que provavelmente havia tido algum filho no deserto, enquanto esperava Luke crescer e não era mais um Jedi. Mas ambas opções não pareciam certas porque todos sabemos que Jedi não podem ter filhos, já que filhos implicam num relacionamento sexual, coisa proibida pela Ordem. 

Nunca consegui acreditar muito bem nessa teoria porque, por mais que eu quisesse que Luke tivesse tido uma filha ou que Obi-Wan tivesse tido uma vida para além daquela de monge ex-Jedi, ambos não são personagens que vão contra as regras da Ordem, especialmente porque eles viram os resultados desastrosos que um Jedi apaixonado causou à Galáxia. Amor e relações sexuais são um tabu muito forte para os Jedi, quase um pecado. É transgressor pensar em Luke transando com alguém porque, com seu poder, é perigoso demais se envolver pessoalmente com uma pessoa. Mas isso soa bem errado, especialmente porque o amor deveria ser uma força do bem. E ele é, mesmo no universo de Star Wars. No entanto, ele somente manifesta sua face bondosa e acolhedora quando não é sexual. O amor sexual é fortemente repudiado e punido na Saga Skywalker. Aqueles que se atrevem a tê-lo são castigados de alguma forma, seja em suas vidas pessoais, seja por ver seus planos e estruturas governamentais arruinados em consequência de suas ações. 

Espero que, nos próximos filmes, essa visão monástica e perturbadora a respeito do amor e do sexo seja transformada. Não é necessário haver cenas sexuais numa obra para que ela seja boa e, de certa forma, é até um alívio que exista uma história tão incrível quanto Star Wars cuja classificação indicativa seja livre para todos. Mas é tempo de mostrar o amor e o sexo como o que são: expressões humanas de carinho e prazer, não tentações, distrações ou erros que levam a um caminho sombrio.



Texto e arte em destaque: Mia Sodré 
Mia
Jornalista e pessoa da internet há uma década. Editora e analista literária, quando não está lendo escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Pesquisa o gótico no século XIX. Vive em Porto Alegre, onde está há vinte e poucos anos ajudando na entropia do universo.

Comentários

  1. Que texto maravilhoso! Eu sempre critiquei essa castidade dos Jedi, sempre me pareceu uma coisa sem noção proibirem um homem de amar ou de abraçar todas as suas emoções. O Jedi deveriam ser uma organização que ajuda o cavaleiro a lidar com suas emoções, não simplesmente condená-las.

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  2. Que texto maravilhoso! Eu sempre critiquei essa castidade dos Jedi, sempre me pareceu uma coisa sem noção proibirem um homem de amar ou de abraçar todas as suas emoções. O Jedi deveriam ser uma organização que ajuda o cavaleiro a lidar com suas emoções, não simplesmente condená-las.

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