João Cabral de Melo Neto, Chico Buarque e tētēma: Funeral de um lavrador


E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte Severina:
que é a morte que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
Tenho uma ligação muito forte com Morte e Vida Severina, desde pequena, sem motivo aparente. Talvez porque Severina seja um nome muito comum pra mim, e Severino foi um tio avô — possivelmente a primeira pessoa que me lembro de ter morrido e eu estar consciente disso. Severino, que vem de severo, é uma palavra forte, assim como morte. "Vida" é forte por si só.

Li o poema pela primeira vez há alguns anos, sem saber do que se tratava e, pra falar a verdade, sem nem entender direito. Lembro apenas que li no Kindle, no transporte para o trabalho, o que já diz muito de uma vida Severina de quem mora no extremo de uma metrópole e precisa se deslocar por dia quase o mesmo tanto de tempo que o trabalho formal exige. Há um quê de retirante nisso. 

Não é cova grande
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida

Ano passado, na Paraíba, aproveitei meu tempo para ver coisas muito importantes que sempre deixei para depois, por conta de afazeres que não tenho mais. Então assisti O Homem que Virou Suco e Morte e Vida Severina (a versão musical do teleteatro, de 1981) num mesmo período. Os dois são protagonizados por José Dumont, ator paraibano que nasceu na cidade vizinha àquela em que semi-vivo com minha família. A dele, Bananeiras. A minha, Solânea. 

Stênio Garcia, Zé Dumont e Tânia Alves em cena de Morte e Vida Severina, de Zelito Viana, 1977.

Só depois de ouvir o poema da boca de Zé Dumont, e nas vozes de Elba Ramalho e Tânia Alves, é que pude compreender a força que ele tem. O nome diz tudo, mas também quase nada, porque é forte, mas não tão forte quanto o livro inteiro e tudo aquilo que ele significa. Ele cantado, a despeito do desgosto que João Cabral de Melo Neto tinha pela música, é tão mais forte, porque parece aqueles choros de velório que são ainda tão comuns em cidades pequenas nos interiores do Brasil; do Nordeste, sobretudo, que é região que conheço mais.

Por saborear tão bem esse filme, devo ter guardado a melodia de Funeral de Um Lavrador, um dos trechos do poema — na severina voz de Tânia Alves — em minha mente, porque ela veio à tona em um momento totalmente inesperado, e mesmo assim, pude reconhecê-la, como se fosse alguém chamando meu nome. E, a partir disso, mais uma vez estou aqui, falando do Nordeste; mais uma vez estou aqui, falando de Mike Patton.


Desde que publiquei meu texto aqui no Querido Clássico sobre Fantômas, tenho pesquisado todos os projetos musicais que esse compositor californiano cria. Um deles é Tētēma, parceria dele com Anthony Pateras, o baterista Will Guthrie, e o violinista Erkki Veltheim. Mesmo na quarentena, Mike Patton lançou muitos trabalhos em cada um desses projetos musicais, e no caso de Tētēma, foi lançado Necroscape, em abril de 2020. É bem diferente de outros trabalhos, em nada se compara a Faith No More, Fantômas ou Tomahawk; então estranhei (e quase desliguei) o som no início do disco, mas estava me ajudando a focar na encadernação com que trabalho, então deixei como plano de fundo. No fim das contas, não tive como não prestar atenção na última faixa: Funerale di un contadino.

Lembram da aversão de João Cabral de Melo Neto à música? Pois então. O poeta e diplomata pernambucano (1920-1999), produziu Morte e Vida Severina: Auto de Natal Pernambucano, em 1954, a pedido de Ana Maria Machado. Sua obra mais popular, é o último da trilogia do Rio Capibaribe (O Rio, O Cão Sem Plumas, Morte e Vida Severina). O texto foi escrito em período importante para a migração de nordestinos à outras regiões do país, muito por causa da seca e das precárias condições de vida devido à luta de classes.

O poema conta a história de Severino que, em sua jornada para a capital, Recife, passa por diversos biomas do interior de Pernambuco — sertão, agreste, zona da mata —, seguindo o caminho do Rio Capibaribe, em busca de emprego e para fugir da morte. A cada parada, até chegar no litoral, encontra outros retirantes ou moradores locais que narram seus cotidianos naquele ambiente. São retratos da seca e da desigualdade social — ainda presente, mas num contexto diferente — que nos forçam a emigrar em busca de uma outra vida, que também é severina.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
O auto (para ver no Youtube, clique aqui), uma composição teatral de origem ibérica e medieval, comum nas igrejas, e depois nas praças e carroças, usadas como palco em cidades nordestinas, anos depois teve seu sucesso aumentado nas mãos de Chico Buarque. Eram tempos de ditadura militar, e a peça foi musicada, sem João Cabral saber, com apresentação no Teatro da Universidade Católica (TUCA), da PUC-SP. Chico tinha 21 anos na época, e recebeu, em algum momento, um autógrafo do poeta, que dizia, “Para Chico Buarque de Hollanda, que não sei quem é...”, mas que, depois de conhecer o trabalho, mesmo se tratando de música, elogiou:
"A coisa extraordinária que eu encontrei na música de Chico, baseada nos versos de “Morte e Vida Severina”, foi um respeito integral pelo verso em si. A música segue cada verso, no ritmo total. A música segue cada ritmo, crescendo ou não, de cada parte do poema. Eu tenho a impressão que é o único caso que eu conheço de uma música que saiu diretamente do poema, e não uma coisa sobreposta ao poema... Ele pegou o texto, respeitou o texto e, com o talento extraordinário dele, fez uma música que eu considero inteiramente apropriada ao texto."

Anos depois, Chico, que estava exilado em Roma, traduziu a letra para o italiano junto a Sergio Bardotti e gravou com ninguém menos que Ennio Morricone! O disco foi lançado em 1970 e chama-se Per Un Pugno di Samba, com outros clássicos do compositor carioca, como Roda Viva (Rotativa). De alguma forma, Mike Patton, que é casado com uma artista plástica italiana, ficou sabendo disso e regravou, a seu modo, em um “rock eletrônico-acústico modernista”. As voltas que o mundo dá.

Parece tudo muito estranho, mas não são a desigualdade social, a morte, a fome, o exílio, a utopia e a busca por condições melhores de vida o mote do homem? Não deixo de pensar em Bella Ciao (a música para além daquela série espanhola), clássica canção campesina e de resistência italiana. São duas formas de evidenciar períodos e situações históricas que jamais lidamos com a devida seriedade e que, dependendo de quem está no poder, ainda omitimos. 
Il capo in piedi col suo bastone
E noi curve a lavorar
O patrão em pé com sua bengala
E nós curvados a trabalhar
Trabalhadores de usina em Pernambuco. Cena do filme de Zelito Viana, 1977.

João Cabral de Melo Neto só quis dar a ver o que enxergava da realidade, “sem nada de político”; era algo que presenciou na infância — filho de dono de engenho —, e que por isso queria mostrar ao mundo, para que o leitor tirasse suas próprias conclusões. Com Morte e Vida Severina, o filme de 1977 que mescla encenações teatrais com documentário dirigido por Zelito Viana (cineasta cearense, irmão de Chico Anysio, e pai de Marcos Palmeira), houve a referida omissão. Deixou de participar do Festival de Berlim porque os ditadores da época proibiram que fosse apresentado fora do país, querendo não resolver o problema da desigualdade social, apenas escondê-lo.
"O objetivo era fazer um filme contundente sobre a realidade brasileira, um filme que mostrasse a fome, a pobreza, e a miséria no Brasil. O grande problema do Brasil é resolver a questão da desigualdade social, e eu fiz o filme para trazer esse tema para o debate nacional."
— Zelito Viana


Referências




Imagem de destaque: Tati Ferrari

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