Os Segredos do Castelo: a adaptação do clássico de Shirley Jackson

Sempre Vivemos no Castelo é, em um resumo muito abreviado, um livro com personagens em isolamento social. No clássico de Shirley Jackson, as personagens principais vivem reclusas com seu tio, Julian, após uma tragédia familiar, e é dever apenas da irmã mais nova, Merricat, sair para fazer as compras essenciais para seus dias vividos com base no passado. Lê-lo em um período em que o distanciamento social, mesmo que ainda sendo uma escolha, é o mais recomendado para que se possa sobreviver, pode potencializar a experiência. Assistir à sua mais recente adaptação, de 2018, dirigida por Stacie Passon, tem o mesmo efeito.

"Nós nunca fizemos nada para machucar ninguém. Nós colocamos as coisas de volta aos lugares a que pertencem."
Assim como na atual pandemia, o que vem de fora é a grande preocupação dos Blackwoods. Há seis anos (desde a atualidade na narração do filme), um boato se espalhou pelo pequeno local em que vivem, dando a Constance, interpretada por Alexandra Daddario, a fama de assassina de seus pais. É a partir deste desastroso evento que os personagens sobreviventes do longa passam a se esconder do discurso de ódio que recebem dos vizinhos, em sua antiga mansão, uma herança da família, que como tal, está cada dia mais desestruturada, apesar de todas as tentativas de esquecer o que já se passou. 

As expressões faciais de Merricat (Taissa Farmiga) ao longo do filme, e a narração em primeira pessoa a partir de seus pensamentos, são o que mantém aos que o assistem em alerta. É nítido nela o desconforto em estar na própria pele, além da ação mecânica que cada dia possui para a personagem, absorta em sua própria mente para não participar do mundo lá fora, que a pune e aprisiona dentro da casa que já a engole. O seu estado mental diante de tanto isolamento e tanto ódio são explorados o tempo todo: seus costumes de trancar todas as janelas, de encostar cadeiras nas fechaduras das portas, e até mesmo de rituais por ela criados que, em sua visão, a protegem de todo o mal que há anos é enviado para os moradores da casa ao final da rua Blackwood. 

Mesmo que tão constantemente agoniada, Merricat não aceita de bom grado aquele que pode ser o fim do ciclo de reviver o passado dia após dia: Charles (Sebastian Stan), um primo distante que de repente, adentra as altas torres do castelo que a garota tão afincadamente construiu em volta de si e de sua irmã mais velha. É ele quem personifica todo o rompimento com os acontecimentos que levaram os pais das irmãs Blackwood à morte, seja por tentar impedir que Julian (Crispin Glover), o tio que sobreviveu ao evento, apesar de sua perda de memória, pare de reviver cada momento em voz alta toda vez que se reúne com suas sobrinhas para uma refeição, seja por alterar a rotina da casa com as tentativas de Constance de inclui-lo mais nos momentos em família e mantê-lo hospedado o mais confortavelmente possível. Merricat chega a, até mesmo, em suas próprias palavras, "pedir amavelmente", para que ele vá embora. Seu fracasso em obter uma resposta satisfatória passa, então, a ser o motor de todos os próximos acontecimentos, tornando-a, inclusive, uma narradora não confiável de sua própria história.

Segundo a visão da Blackwood caçula, o que Charles quer é tomar o lugar de seu falecido pai, enquanto se aproveita de Constance. No entanto, mesmo enquanto ela tenta afirmar que é isto o que está se passando, somos inseridos em cenas entre a irmã mais velha e o primo que mostram uma relação amigável, com Constance sempre sorrindo e exalando paixão pelo primeiro homem que, após tanto tempo, a vê mais como mulher e menos como culpada. Um ponto interessante surge quando a personagem passa a traçar um paralelo entre o pai, de quem nada sabemos, com o parente recém chegado, dizendo que Charles é ruim e aproveitador como o falecido, e deixando no ar que seu dever é alertar a irmã, da forma que puder. Constance é como o brinquedo preferido de Merricat, e agir fora das regras de sua "brincadeira de casinha" não é uma opção.

Por outro lado, se a narração parece tornar-se não confiável, a incapacidade de Charles lidar com as diferenças instaladas dentro da casa para que o presente fosse minimamente possível de se viver, o tornam, pouco a pouco, um vilão. O personagem vindo de fora entende que cada costume ali mantido precisa ser exterminado, e o modo como se irrita com as manias dos parentes, além da forma com que passa a se impor dentro de uma casa que não é sua, o fazem soar de maneira extremamente manipuladora. Entre o controle de Merricat e Charles, Constance é um pião. 

O fim trágico do livro se estende para a versão filmada por Passon, e os detalhes de cada personalidade cuidadosamente postos em cena fazem o telespectador sentir o mesmo que Merricat, desde o início do filme: nunca fizemos mal para ninguém, só colocamos as coisas de volta ao lugar a que pertencem. 



Texto e imagem de destaque: Tati Ferrari

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