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Vida e morte das seis esposas de Henrique VIII


Henrique VIII foi o segundo monarca da dinastia Tudor a governar a Inglaterra. Seu nascimento ocorreu após a Guerra das Duas Rosas, que resultou em uma união entre a família York (rosa branca) e a família Lancaster (rosa vermelha). A ascensão de seu pai, Henrique VII, ao trono marcaria o fim do confronto sanguinário e uma nova era com os Tudors no poder.

Mas o reinado de Henrique VIII não ficaria marcado pelo frescor e paz de uma nova dinastia, pelo contrário. Séculos mais tarde, Henrique seria lembrado como o pior monarca da história da Inglaterra, um tirano que decapitou duas das seis esposas, foi excomungado pelo papa Clemente VI quando rompeu com a Igreja Católica na busca insaciável por um herdeiro homem, e perseguiu e executou a todos aqueles que tinham opiniões contrárias às suas. 

Para compreender o reinado de Henrique também é preciso conhecer suas esposas. Apesar de serem vítimas de um rei sanguinário, elas não foram esquecidas pela história, e seus nomes se tornaram maiores do que o do marido, que as temia tanto que usou de artimanhas cruéis para erradicá-las. 

Catarina de Aragão 


Catarina nasceu em 1485, era filha de Fernando de Aragão e Isabel de Castela, conhecidos como Reis Católicos. O casamento entre Isabel e Fernando resultou na unificação dos dois reinos ibéricos, na expulsão dos muçulmanos da península e também na descoberta da América anos mais tarde, uma vez que foram eles quem financiaram a expedição de Cristóvão Colombo em 1492.

Catarina era filha de grandes reis, e como tal era esperado que proporcionasse ao reino de seus pais alianças valiosas a partir de um casamento arranjado. Aos cinco anos, foi prometida ao príncipe de Gales, Arthur Tudor, o herdeiro do trono inglês. Catarina foi enviada à Inglaterra e se casou aos dezesseis anos, e embora não conseguisse se comunicar muito bem com o marido (a única língua que tinham em comum era o latim), eles se deram bem e o casamento mostrava sinais de ser próspero e feliz. Entretanto, poucos meses depois, um surto de peste tomou conta da região. O príncipe e a princesa adoeceram, assim como vários funcionários do castelo de Ludlow. Enquanto Catarina ainda lutava para se recuperar, recebeu a notícia de que o jovem marido não havia resistido à doença.

A partir daí, Catarina se encontrava em uma posição delicada: viúva e isolada na Inglaterra, ela acabou ficando nas mãos do sogro, o rei Henrique VII. O monarca não se importava em mantê-la confortável, ainda mais depois da morte de Isabel, mãe de Catarina, fato que fez com que ela “perdesse” o valor para um possível casamento, já que a união entre Castela e Aragão era simplesmente simbólica e o reino poderia enfraquecer com a morte da monarca. Depois de muitas negociações, foi vista a possibilidade de casar Catarina com o irmão mais novo de Arthur, Henrique, cinco anos mais jovem que ela e agora herdeiro do trono. Havia apenas um empecilho: pela lei, não era permitido que um homem se casasse com a esposa de seu irmão. Diante disso, Catarina afirmou que o casamento com Arthur jamais havia sido consumado devido a pouca idade de ambos na época. O papa concedeu a licença para o casamento e, em junho de 1509, mesmo ano da morte do rei Henrique VII, Catarina de Aragão se tornou esposa do agora Henrique VIII - e rainha da Inglaterra.

Catarina de Aragão

Quatro meses após o casamento, Catarina engravidou. Para uma dinastia recém-formada, era imprescindível a presença de herdeiros homens saudáveis para dar continuidade à linhagem. Todos estavam esperançosos que o jovem casal produziria um herdeiro, mas Catarina entrou em trabalho de parto e deu à luz a uma menina natimorta. Em 1511, um bebê homem nasceu. Chamado de Henrique, o nascimento foi amplamente comemorado com tiros e festas, mas 52 dias depois o príncipe faleceu. É dito que para Catarina, a mãe, a morte do bebê foi uma tragédia. Para Catarina, a rainha, um desastre.

Enquanto Henrique estava em batalha contra a França em 1513, Catarina foi deixada como regente. Filha de monarcas poderosos, ela sabia como governar. Foi durante sua regência que James IV da Escócia tentou invadir a Inglaterra, mas Catarina interviu e o derrotou. Em sinal da sua vitória, ela mandou o casaco ensanguentado de James para o marido na França. Nesse mesmo ano, durante a ausência de Henrique, Catarina entrou em trabalho de parto e deu à luz a um menino que morreu em poucas horas. Aparentemente, conceber não era difícil para o rei e a rainha, mas sim entregar bebês saudáveis que sobrevivessem à infância.

Outro bebê homem nasceu e morreu pouco tempo depois em 1514. Foi apenas em 1516 que Catarina deu à luz a uma menina forte e saudável, que recebeu o nome de Mary. O nascimento da filha, entretanto, não agradou ao rei. Ele esperava por um herdeiro homem há anos, e o nascimento da princesa deixava evidente que aquilo poderia não ser possível com a atual esposa.

Depois de outra menina natimorta em 1518, Catarina não engravidou mais. O rei estava desapontado e não conseguia parar de pensar nos motivos pelos quais ele não conseguia o tão sonhado herdeiro. Ele se lembrava de uma passagem da Bíblia, em Levíticos 20:21, “Se um homem tomar por mulher a mulher do seu irmão, comete impureza; desonrou seu irmão. Ficarão sem filhos”, e por isso acreditava que estava sendo castigado por Deus. Dessa forma, o rei estava convicto que apenas uma nova esposa poderia entregá-lo um filho varão.

Em 1523, Henrique começou a se movimentar, exigindo a anulação do matrimônio ao afirmar que o casamento da esposa com seu irmão, Arthur, havia sim sido consumado. Foi ordenado que Catarina deixasse a corte, mas ela, que acreditava ser seu direito divino ser rainha da Inglaterra, lutou por sua posição. Catarina não só não foi embora, como escreveu para o seu sobrinho, Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Assim, o papa Clemente VI se recusou a aceitar o pedido de divórcio de Henrique por pressão do imperador.

Não vencido, em 1529, um tribunal foi aberto para discutir a anulação proposta por Henrique. Catarina foi ouvida e, inteligente e articulada, ela sabia muito bem como se colocar no lugar de esposa ferida a fim de defender seu lugar na corte. Durante a audição, ela caiu aos pés de Henrique e disse diante dele e de todas as testemunhas presentes:

“Senhor, peço-vos por todo o amor que tem havido entre nós, e pelo amor de Deus, deixe-me ter direito e justiça, tenha um pouco de piedade e compaixão por mim, pois sou uma pobre mulher e estrangeira, nascida fora de seus domínios, não possuo aqui nenhum amigo assegurado e um conselho deveras indiferente: eu apelo a ti, como a cabeça da justiça neste reino. Ai de mim! Senhor, em que lhe ofendi ou, em que ocasião proporcionei-lhe desagrado? Eu agi contra sua vontade e prazer, de modo que você pretenda – como eu percebo – afastar-me de ti?

Nestes vinte anos eu tenho sido sua verdadeira esposa e mais, e por mim tivestes diversas crianças, embora fosse da vontade de Deus, chamá-las para fora deste mundo, fato no qual eu nenhuma culpa possuo.

Quando tomou-me pela primeira vez, clamo a Deus para ser meu juiz, eu era uma verdadeira donzela, sem o toque de um homem; e se é verdade ou não, coloco isto em sua consciência.”

Catarina sabia como uma mulher era vista na época, então se pôs como honesta e submissa diante de seu marido. Entre lágrimas e com palavras cuidadosamente escolhidas, ela se colocava como vítima, e a Henrique como esposo desleal. Se ela dizia a verdade sobre a consumação do seu casamento com Arthur, é impossível saber, mas, para defender seu lugar como rainha e esposa legítima, sim, Catarina era capaz de mentir.

Apesar das palavras da Escritura Sagrada com toda certeza preocuparem o rei a respeito da possibilidade de ter ou não filhos homens, é possível afirmar que, 20 anos após o matrimônio, a Bíblia servia apenas como desculpa para terminar um casamento que não mais agradava Henrique. Aliás, àquela altura, ele já estava louco de desejo por uma outra mulher.

Uma mulher que, como ficou marcado na história, ele não mediria esforços para tornar sua. 

Ana Bolena 


Ana Bolena era dama de companhia de Catarina de Aragão e pertencia a uma nobre família inglesa. Ela passou boa parte da infância na França, onde recebeu uma educação refinada. Ana era linda e sedutora e sabia disso. Ela possuía vários admiradores na corte, mas nenhum como o próprio rei Henrique VIII.

Ana, no entanto, não cedia às investidas do rei. Ela não queria ser uma amante, mas sim uma esposa. Por mais que Henrique tentasse, Ana não permitiu que ele tomasse liberdades com ela, o que, em contrapartida, só deixava o rei ainda mais apaixonado e louco de desejo.

Durante todo o processo de divórcio com Catarina de Aragão, a imagem de Ana já se deteriorava diante do povo. Ela era chamada de bruxa e vadia, as pessoas não a amavam e a maioria era contra sua união com o rei. Enquanto Catarina era a esposa injustiçada, Ana era vista como a responsável pela crise religiosa gigantesca que acometeu a Inglaterra. Apenas o amor de Henrique a amparava, amor esse que, mais tarde, se mostraria volátil e o motivo da sua própria desgraça.

A negativa papal de anulação do casamento com Catarina não foi bem aceita pelo rei, então, apesar disso, ele rompeu com a Igreja Católica e criou a Igreja Anglicana. O papa excomungou Henrique VIII, mas agora ele era o chefe supremo de uma recém-formada igreja e visto como o próprio representante de Deus na Terra. O Ato de Supremacia foi uma espécie de lei criada por Henrique. A partir dali, ele substituía o Papa católico em território britânico e se tornava chefe da Igreja Anglicana. A perseguição aos católicos teve início, resultando em torturas e execuções. No centro de tudo isso, parecia haver a imagem de Ana Bolena, a mulher que fez um rei romper com a instituição mais poderosa do período para que pudesse se casar com ela. Não é preciso dizer que Ana foi ainda mais odiada pelo povo depois disso.

Ana Bolena

Catarina finalmente foi expulsa da corte, depois de um processo de divórcio que durou sete anos. Apesar da firmeza de Ana em não se deitar com Henrique, ela ficou grávida em 1533. Diante disso, a dupla se casou apressadamente em segredo, e meses depois Ana foi coroada com pompa na Abadia de Westminster.

Como rainha, Ana tentou separar Mary do pai e retirou seu título de princesa em favor da filha, Elizabeth, uma bebê saudável que nasceu em setembro de 1533. Ana parece ter engravidado outra vez no ano seguinte, mas não há muitos relatos a respeito do que aconteceu depois. Historiadores dizem que a segunda gravidez de Ana Bolena pode ter sido psicossomática, causada pelo estresse e pressão em produzir um herdeiro homem. Ana engravidou de novo em 1536, mas sofreu um abordo espontâneo. Uma carta do embaixador Eustace Chapuys para Carlos V fala sobre o aborto de Ana no mesmo dia do enterro de Catarina de Aragão, que morreu em decorrência de um possível câncer.

“No dia do enterro [de Catarina de Aragão] a concubina [Ana] fez um aborto que parecia ser um filho do sexo masculino de 3 meses e meio, em que o Rei mostrou grande angústia.”

(Carta do embaixador Eustace Chapuys para Carlos V)

Esse foi o acontecimento derradeiro para Ana. O rei, que já perdia o interesse nela, queria se livrar da esposa a todo custo. A personalidade forte de Ana, que antes encantava Henrique, agora era motivo de desentendimento entre eles. Ela tinha voz própria e não omitia seus pensamentos. Brigas entre o casal eram frequentes e Ana se colocava no mesmo patamar do marido. É dito que, depois de uma discussão, ela espalhou por aí que o marido não a satisfazia na cama, o que feriu o ego do rei e o fez detestá-la ainda mais. A rainha não tinha o apoio dos membros da corte, não era amada pelo povo e havia despertado os desafetos do marido. Tudo estava contra ela, e mesmo com sua inteligência e desenvoltura, Ana não foi capaz de escapar da armadilha que se armava ao seu redor.

Outro divórcio era impossível, então Henrique e seus aliados decidiram usar a sensualidade de Ana contra ela. Ela foi acusada de adultério e o músico Mark Smeaton foi preso, confessando sob tortura ter dormido três vezes com a rainha. O irmão de Ana, George Bolena, também foi preso depois de surgirem acusações de que ele teria cometido incesto com a irmã. A rainha também foi presa na Torre de Londres, e, quando soube da sua sentença de morte, ela disse:

“Ouvi dizer que o carrasco é muito bom, e eu tenho um pescoço pequeno.”

Em seguida, teve um ataque de risos.

Em 19 de maio de 1536, Ana assistiu sua última missa e foi levada até o cadafalso da Torre de Londres. Em suas últimas palavras, ela entregou sua alma a Deus.

"Não vim aqui para acusar ninguém, mas peço a Deus que salve o meu rei soberano e o de vocês, e lhe dê muito tempo para reinar, pois é um dos melhores príncipes do mundo, que sempre me tratou tão bem que não poderia ser melhor. Por isso, me submeto à morte de boa vontade, pedindo humildemente o perdão de todos.

[...]

E assim me afasto do mundo e de todos vocês e peço-lhes cordialmente que rezem por mim. Ó, Senhor, tenha piedade de mim, confio a minha alma a Deus."

Ana tinha firmeza e não vacilou. É dito que suas últimas palavras foram escolhidas com cuidado para assegurar o lugar de sua filha, Elizabeth, na corte. Ela então foi vendada e decepada por um golpe da espada.

Dez dias depois, havia uma nova rainha no trono da Inglaterra. 

Jane Seymour 


Jane era dama de companhia de Catarina de Aragão e, após a queda desta, passou a servir Ana Bolena na corte e chamou a atenção do rei. Sua família era influente e houve rumores de que a morte de Ana foi orquestrada pelos Seymour em uma tentativa de colocar Jane no trono.

Ela era uma mulher loira, pálida e afável. Henrique tentava presenteá-la, mas Jane recusava, assumindo a posição de mulher virtuosa. Mesmo assim, poucos dias depois da execução de Ana Bolena, Jane Seymour se casava com o rei.

Jane Seymour

Jane era o retrato da esposa boa e silenciosa, mas também era uma católica devota. Quando se aventurou a falar com Henrique sobre o fechamento e saques às igrejas e mosteiros do país, assim como o perdão para os participantes da rebelião da “Peregrinação da Graça” (revolta que aconteceu em York contra a reforma protestante de Henrique), o rei se enfureceu e disse a ela para se lembrar da sua predecessora e do que aconteceu quando Ana ousou “meter-se nos seus assuntos”.

Jane foi uma boa madrasta para as filhas de Henrique. Era amorosa e tratava Mary e Elizabeth com respeito, intervindo até para que Mary voltasse a ter uma boa relação com o pai. Ela inclusive trabalhou para que a filha de Catarina de Aragão herdasse a coroa antes de qualquer filho que ela e Henrique pudessem vir a ter.

Em 1537, Jane deu à luz a um filho homem, Edward. Ele era, finalmente, o herdeiro que Henrique tanto esperava. Jane foi a única das seis esposas do rei a dá-lo um herdeiro homem saudável, e é dito que, no fim, ele se lembraria dela como a mais amada das suas esposas. Infelizmente (ou felizmente para ela, pois não é possível saber os horrores a que Henrique submeteria a esposa caso algum dia ela visse a contrariá-lo), Jane teve complicações no parto e morreu de febre puerperal, depois de ter sido rainha por apenas 18 meses. 

Ana de Cleves 


Aos 46 anos, Henrique não era mais belo e desejável como quando jovem. Velho, doente e muito acima do peso recomendado para sua estatura e idade, as mulheres não mais se interessavam por ele e declinavam suas investidas.

Por esse e outros fatores (como, por exemplo, o destino trágico de todas as suas três esposas), não era fácil encontrar uma pretendente para o monarca. Ele sabia que era importante se casar outra vez, aliás, ele próprio era um segundo filho que havia herdado o trono e não mediria esforços para garantir que os Tudor permanecessem no poder.

Para os seus conselheiros, ele impôs apenas uma condição a respeito da sua nova noiva: ela precisava ser bonita.

Chegou ao seu conhecimento a existência da nobre Ana de Cleves. Ela era de uma família aristocrática alemã e possuía boas conexões. Seu irmão, o duque de Cleves, era um líder protestante na Alemanha Ocidental, o que fez o ministro do rei, Thomas Cromwell, olhar para aquele possível casamento com bons olhos, uma vez que a Inglaterra vinha sofrendo duros ataques dos grupos católicos romanos. Foi então encomendado um retrato de Ana para que o rei pudesse decidir se ela o aprazia. O retrato, porém, não dizia muito. Era uma obra vazia que mostrava uma moça bela e deixava margens para que Henrique projetasse seus ideais de beleza feminina na possível noiva.

Ana de Cleves

Ana então foi levada à Inglaterra para se tornar rainha. Quando Henrique a viu, ficou furioso. Ela não o atraía em nenhum aspecto. Não ajudou o fato de que Ana, ao se ver diante do futuro marido em uma sala com outros homens, nem ao menos o reconheceu como rei, causando um enorme constrangimento em todos os presentes. Thomas Cromwell precisou lidar com a raiva de Henrique, que afirmava que o seu ministro o havia enganado.

No dia do casamento, disse:

“Meu senhor, se não fosse para satisfazer o mundo e o meu reino, não faria o que tenho que fazer nesse dia por nada no mundo.”

Por não se sentir atraído por ela, Henrique foi incapaz de consumar o casamento. Aos 25 anos, Ana era inocente como uma criança. Quando chegou até ela os rumores de que Henrique pretendia anular seu casamento usando como desculpa a não-consumação dos votos, ela não acreditou. Pensava que beijos e carinhos eram o suficiente para engravidar uma mulher e não entendia o que poderia ter feito em tão pouco tempo para ser descartada daquele modo pelo rei.

Ana foi expulsa da corte. Por ser uma princesa estrangeira e temendo se envolver em escândalos, Henrique a tratou com cortesia e lhe deu o título de Princesa da Inglaterra e Irmã do Rei, título este acompanhado de rendas e terras. Ana foi aconselhada a obedecer a decisão com prudência e o casamento acabou depois de apenas seis meses.

Ana de Cleves, no entanto, perdeu sua família. Ela viveu como uma exilada naquela terra estranha, uma vez que todas as suas cartas para parentes passavam pelas mãos do rei, que temia que eles se revoltassem caso soubessem em detalhes o que havia acontecido naquele fracassado casamento. Ela morreu aos 41 anos em sua casa, sendo a última esposa sobrevivente de Henrique VIII. Sua antiga enteada, Mary, garantiu que ela tivesse um funeral adequado. 

Catarina Howard 


Catarina Howard era sobrinha de Thomas Howard, terceiro duque de Norfolk, e prima de Ana Bolena. Durante a infância, Catarina foi criada pela avó, a duquesa de Norfolk, que não dava muita atenção à neta. Diante da liberdade causada pela falta de supervisão, Catarina tinha casos amorosos mesmo com pouca idade.

Em 1539, Catarina se tornou aia de Ana de Cleves. Jovem e bonita, ela chamou a atenção do rei (aparentemente, o monarca tinha uma pré-disposição a se envolver com as damas de companhia das suas esposas), que a cortejou. Eles se casaram no ano seguinte, quando Catarina tinha 17 anos e Henrique VIII, quase 50.

A jovem rainha sempre recebia presentes do seu marido. Ela amava ganhar joias, adorava dançar e se divertir. Henrique, que já sofria de uma grave úlcera na perna que jamais curava, via a esposa dançar com os homens jovens e belos da corte, mas acreditava fielmente que Catarina o amava tanto quanto ele a amava.

A rainha, no entanto, gostava da sua posição social, mas não se satisfazia com o casamento. Jovem e imatura, Catarina não se atentava aos perigos da corte como suas predecessoras. Ana Bolena e Catarina de Aragão, mesmo mais velhas e versadas nos jogos perigosos da realeza britânica, ainda assim sofreram conspirações e foram vítimas de destinos cruéis. Catarina Howard não sabia que os inimigos de seu tio, o duque de Norfolk, estavam de olhos bem abertos para cada deslize que ela cometesse, e também não era prudente e cautelosa quando o assunto era seus casos amorosos com outros homens da corte.

Catarina Howard

Thomas Cranmer, arcebispo de Canterbury e amigo próximo de Henrique, começou a fazer alegações sobre o passado da rainha. Foi descoberto que o secretário de Catarina, Francis Dereham, era seu ex-amante. Naquele mesmo ano, o cortesão Thomas Culpepper também começou a ter casos com ela.

Cranmer escreveu ao rei, mas este, apaixonado, se recusava a acreditar nas alegações de adultério. Ainda assim, as investigações continuaram. Se as provas apontassem apenas para o caso anterior ao casamento de Catarina com Dereham, talvez a jovem teria vivido mais um pouco. Mas sua relação com Culpepper a condenou. Cartas de amor foram encontradas nos aposentos de Thomas e foi descoberto que Joana Bolena, aia de Catarina, arranjava encontros escondidos entre os dois.

O arcebispo foi encarregado de interrogar a rainha. Ela estava histérica e já sabia que seu destino seria o mesmo da prima. Cranmer garantiu que a confissão seria sua única saída. Dessa forma, o rei poderia ser misericordioso e mandá-la para longe, onde viveria em relativa paz pelo resto da vida. Aquilo foi tudo que bastou. A rainha confessou ter se deitado com outros homens antes e depois do casamento, acreditando que a verdade poderia poupá-la de um destino ainda pior. Mas não existia misericórdia para ela.

Ao saber das traições da esposa, o rei ficou tão furioso que quis matar Catarina ele mesmo com uma espada.

Cranmer estava satisfeito. Apesar das falhas de Catarina, toda a família Howard representava a fé católica e a facção protestante não podia ficar mais feliz com sua queda. Em dezembro 1541, Thomas Culpepper e Francis Dereham foram executados. Por sua posição privilegiada na corte, Culpepper foi sentenciado a morrer com uma decapitação rápida e sem dor. Dereham, por sua vez, não teve a mesma sorte. Ele foi estripado e castrado ainda consciente, depois enforcado, arrastado e esquartejado. As cabeças dos amantes da rainha foram expostas em London Bridge.

Muitos membros do clã Howard foram presos e é dito que não havia celas o suficiente na Torre de Londres para todos eles. O duque de Norfolk, que anteriormente havia se beneficiado do casamento da sobrinha com o rei, a abandonou por completo na decadência de sua glória. Catarina viveu em estado de histeria por vários dias. No fim, ao saber da sentença de morte, pediu que fosse levado até ela o bloco do carrasco. Sozinha, ela ensaiou a própria morte, pousando o pescoço no bloco diversas vezes.

Em 13 de fevereiro de 1542, Catarina Howard precisou de ajuda para subir os degraus do cadafalso, tão fraca e assustava que estava. Antes da morte, ela admitiu a culpa e pediu que orassem por sua alma no purgatório. Segundo testemunhas, suas últimas palavras foram: “Morrerei como rainha, mas preferia morrer como esposa de Culpepper”. Mas isso é altamente improvável.

Precisou apenas de um golpe de machado para que Catarina Howard morresse no mesmo lugar onde, seis anos antes, sua prima Ana Bolena também havia parecido por motivos muito semelhantes. 

Catarina Parr 


A sexta e última esposa do rei Henrique VIII recebeu esse nome em homenagem à primeira esposa do monarca, Catarina de Aragão, pois sua mãe era uma dama de companhia próxima à rainha. Apesar de compartilharem o mesmo nome, Catarina de Aragão e Catarina Parr eram muito diferentes.

Ela era uma viúva que já havia sido casada duas outras vezes e não possuía filhos. Ainda jovem, bem-nascida e dona de uma fortuna considerável, Catarina era uma mulher livre para se casar até mesmo por amor. Ela, inclusive, já estava apaixonada por Thomas Seymour, irmão de Jane, terceira esposa de Henrique. Ele tinha 30 anos na época e era muito cobiçado na corte.

Para a infelicidade inicial de Jane, o rei parecia disposto a conquistá-la. Ela não tinha interesse nele, pois queria se casar com Thomas. Ao saber do interesse mútuo que havia entre eles, Henrique mandou Thomas Seymour para longe, acreditando que aquilo tornaria o caminho livre até Catarina Parr.

Com Thomas longe e acreditando que Deus a incumbia de um dever divino para com a Inglaterra, Catarina se casou com o rei e se tornou rainha. Para ela, sua missão era finalizar a reforma religiosa, uma vez que era protestante fervorosa.

Catarina logo se deu bem com os três filhos de Henrique: Mary, Elizabeth e Edward. Ela os ensinava e aprendia com eles, era paciente, amorosa e uma boa enfermeira para Henrique, que já possuía uma saúde bastante debilitada. Apesar disso, a facção católica via a simpatia da rainha com os reformados e aquilo não os agradava nem um pouco.

Catarina foi a primeira mulher inglesa a publicar uma obra usando seu nome verdadeiro, intitulado “Prayers or Meditations”. Ela pretendia publicar outro livro, esse com teor abertamente protestante, após a morte do rei, já que durante aqueles anos o monarca que havia rompido com a Igreja Católica tinha voltado pouco a pouco às raízes conservadoras da religião.

Catarina Parr

O bispo Stephen Gardiner, ameaçado com a posição religiosa da rainha, incitou uma briga entre o casal. Henrique há muito já tinha a mente frágil e sua desconfiança para com as esposas e todos ao seu redor resultava em torturas e mortes. Quando Gardiner insinuou que Catarina vinha pregando para o rei (ela, de fato, tinha muitas conversas de teor teológico com o marido, que a escutava) e estava no centro de uma conspiração herege, o rei se enfureceu e assinou um mandato de prisão para Catarina.

De alguma forma, esse documento chegou às mãos da rainha antes que ela fosse presa. Desesperada e sabendo no que aquilo poderia resultar, ela foi ver o rei. Já é claro que muitas vezes as mulheres da época precisavam se colocar como inferiores em uma sociedade que parecia pronta para assassiná-las se ao menos ousassem ter ideias e conversar sobre tópicos que antes eram vistos como exclusivos aos homens. Catarina de Aragão sabia disso quando se ajoelhou aos pés de Henrique durante a audição de divórcio. Ana Bolena também, quando fez um discurso pacifista na hora da morte para proteger a filha Elizabeth; assim como Jane, quando decidiu se calar diante de Henrique quando ele ousou intervir em seus movimentos políticos. As mulheres sabiam da sua força, mas também precisavam sobreviver. E foi isso que Catarina Parr fez.

Diante da cama do marido, ela disse que seu maior desejo era aprender com o rei, e não pregar para ele ou convertê-lo. Ela o convenceu de que suas opiniões eram opiniões de “mulher”, por isso não tinham a menor importância. O rei, apaziguado, se reconciliou com ela. No dia seguinte, enquanto os dois andavam pelos jardins, os guardas vieram prender Catarina sem saber da reconciliação da noite anterior. O rei os mandou embora com raiva e Gardiner foi preso.

Em 28 de janeiro de 1547, o rei morreu, aos 55 anos. Ele, que havia se casado seis vezes, matado duas esposas, se divorciado de outras duas, rompido com a Igreja Católica, se envolvido em inúmeras batalhas e executado milhares de pessoas durante seu longo e cruel reinado, finalmente, estava morto. Sua sexta e última esposa recebeu o título de Rainha Viúva e se tornou a mulher mais rica da Inglaterra.

Catarina Parr sobreviveu a Henrique, mas é questionável se continuaria viva por muito tempo caso o rei não tivesse sucumbido. Ela se casou com Thomas Seymour, seu quarto marido, e, surpreendentemente, engravidou.

Entretanto, o resto da vida de Catarina não foi o final feliz que ela merecia. Thomas mostrava sinais de interesse em Elizabeth, filha de Ana Bolena, alguém de grande estima para Catarina. Aquilo a entristecia profundamente e ela se distanciou do homem que amava. Após dar à luz a uma menininha, a Rainha Viúva, assim como Jane Seymour, sofreu de febre puerperal e faleceu, tendo o primeiro funeral real protestante da Inglaterra.

A vida de Henrique VIII foi marcada pelas tragédias que ele infligia às pessoas ao seu redor. É dito que, devido a uma queda quando era jovem, seu cérebro pode ter sido afetado, e por isso ele tinha impulsos tão repentinos e violentos. Mas, como Mia Sodré disse em seu texto Xeque-Mate da Rainha: o legado de Katherine Parr:

“É fato que homens nunca precisaram de desculpas médicas para praticar crueldade contra mulheres, e certamente um rei não necessitaria de tais desculpas.”

Bem, de certa forma, a história fez sua parte: Henrique VIII é conhecido pelo péssimo rei que foi, mas, ao contrário do que na maior parte das vezes é retratado, suas esposas não devem ser vistas apenas como vítimas das vontades e desejos voláteis de um rei cruel. Cada uma delas tem sua importância. Elas deixaram marcas, falaram em uma época em que a voz de uma mulher (mesmo a de uma rainha) não era ouvida. Essas mulheres eram inteligentes e sabiam disso, lutavam da maneira que podiam por seus ideais e, aquelas que não foram expulsas do convívio do rei, morreram por isso.

É preciso se lembrar delas. Falar delas. Seus destinos em vida podem ter sido injustos e cruéis, mas não seus legados.

Referências 

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