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Little Women: a luta de uma "mulherzinha" no mundo dos homens


Na segunda parte do século XIX, tempos antes do voto feminino ser reivindicado e do início do capitalismo industrial, uma jovem mulher escrevia contos destinados a revistas para ajudar financeiramente sua família. As narrativas, todas sob pseudônimo, eram repletas de aventuras, perigos e drama, mas nenhuma trouxe sucesso ou dinheiro suficiente. Assim, a literata somou diversos tipos de trabalho à escrita, como a costura, as tarefas domésticas e a enfermagem, e sem perceber adquiriu vivência suficiente para escrever a obra que conquistaria o coração de diversas leitoras e faria seu nome. A mulher a qual fazemos menção é Louisa May Alcott, autora marcada pelo livro Mulherzinhas (Little Women no original), que narra o início da vida adulta de quatro irmãs no tempo da Guerra Civil dos Estados Unidos.

Previamente à escrita do conhecido livro, os interesses de Alcott não rondavam o tema da obra, mas sim assuntos que considerava mais relevantes, como o tempo em que passou cuidando de soldados na guerra, experiência que inclusive publicou. Assim, autointitulada como alguém que sempre gostou de “coisas de meninos”, apenas aceitou escrever e publicar Mulherzinhas devido à grande insistência de seu editor, que queria uma história voltada a jovens meninas, e à influência de seu pai, um pedagogo que teve papel importante na vida da autora, apesar de sua ausência em razão da depressão. A inspiração para essa escrita contrariada se deu justamente nas experiências vividas na juventude, ao lado de suas três irmãs, no interior de Massachussetts. 

“Comecei a escrever Mulherzinhas. Estou dando duro, ainda que não goste desse tipo de coisa. Jamais gostei de meninas, ou conheci muitas delas, a não ser minhas irmãs, mas nossas estranhas brincadeiras e experiências podem se provar interessantes, embora eu duvide.”

(Louisa May Alcott em seu diário)

Dessa forma, a obra semi-autobiográfica de 1868 apresenta parte da infância de Beth, Meg, Amy e Jo e acompanha as meninas até o início da vida adulta. Nessa caminhada, o leitor passa a entender as nuances de cada irmã, bem como seus desejos e o contexto em que se encontram. A arte ronda a obra inteira - música, pintura e literatura – e pode ser considerada quase como uma personagem constante, bem como a pobreza e determinadas características da sociedade da época. Um traço histórico que, apesar de não ser formalmente apresentado e nomeado na obra, mantém rastros - principalmente em sua segunda parte - é o culto à domesticidade. 

Presente na classe média branca dos Estados Unidos, majoritariamente entre os de religião protestante, o conceito também conhecido como “Culto da Verdadeira Feminilidade” definia a mulher ideal da época. Sua estrutura pregava que a figura feminina deveria ser, antes de mais nada, uma mãe e uma esposa, doando seu pensamento apenas ao âmbito doméstico e religioso. Desse modo, a estrutura patriarcal – chefiada pelo homem – permanecia intacta e estimulada. Livros, manuais, revistas e rodas de conversa endossavam essa ideia e mantinham a construção da mulher nos moldes tradicionais. Segundo o discurso, a virtude daquelas de sexo feminino se constituiria a partir de quatro focos: devoção, pureza, domesticidade e submissão. A mulher perfeita seria devota a Deus, teria separado seu corpo apenas ao marido, deteria de talentos domésticos - como cozinhar e costurar – e se deixaria ser guiada plenamente pelo patriarca da família. 

Louisa May Alcott

Na época, as manifestações a favor do culto à domesticidade buscavam afirmar que as funções femininas não eram inferiores às masculinas, mas igualmente necessárias à construção da pátria ideal. Dessa forma, por mais que a carreira não fosse estimulada, a educação era proporcionada às futuras mães, pois elas deveriam obter o conhecimento de mundo necessário para educar seus filhos, futuros donos do mundo. Havia certo prestigio social na função de dona de casa, mas decisão alguma estava em jogo. Mulheres que escolhessem fugir do padrão estabelecido não eram consideradas dignas de mérito ou admiração; muito pelo contrário, eram invalidadas. Catharine Beecher, uma educadora da época, demonstra essa inadmissão em um documento que detalha os deveres femininos. Apesar de abolicionista, mantinha a ideia conservadora da verdadeira feminilidade. Segue o trecho abaixo, em tradução da redatora, para melhor ilustração do pensamento de Beecher: 

“A mulher é designada a um papel de subordinação na sociedade e ao outro sexo e isso não significa que seus deveres ou influência devem ser menos importantes [...], mas no momento em que a mulher começa a sentir os impulsos da ambição ou a sede de poder, sua égide de defesa desaparece. Toda a proteção sagrada da religião, todos os estímulos generosos do cavalheirismo, toda a poesia da galanteria romântica dependem de que a mulher mantenha seu lugar como dependente e indefesa, sem fazer reivindicações e sem manter nenhum direito, exceto os dons da honra, retidão e amor.”

Apesar de tal ideologia estar voltada às mulheres da classe média, Mulherzinhas demonstra que aquelas de poder aquisitivo menor também eram afetadas pela expectativa amplamente disseminada pela sociedade. Em diversos trechos, após acontecimentos do dia a dia, o leitor se depara com conselhos morais de Marmee, mãe das meninas. Todas as advertências, sempre delicadas e apresentadas com amor, demonstram padrões femininos idealizados pela Igreja. A mulher deve ser dócil, talentosa em seus afazeres domésticos e grata por suas bênçãos. Esses conselhos aparecem sempre que uma das mulherzinhas foge ao padrão ideal de feminilidade, como a vontade de abdicar de tarefas ou a frustração referente ao marido. Consequentemente, influenciadas pela admiração à mãe, as meninas lutam constantemente contra a rebeldia e buscam seguir à risca os conselhos que Marmee lhes dá. 

Em contraposição a esse discuso, porém, está Jo March. A segunda a nascer, a irmã reconhece em si toda a contravenção ao que é esperado de uma mulher. Sonha em viajar pelo mundo, quer entrar na universidade, corta os cabelos, é furiosa e afasta toda a ideia de casamento. A vida dentro das paredes domésticas é uma prisão para a qual não deseja ir. Promete coisas grandes e sonha em se tornar uma grande escritora. Jo é a inspiração necessária a todas as leitoras que se encontram amarradas ao que não desejam. 

“Se prender o cabelo me torna uma mocinha, vou usar maria-chiquinha até completar 20 anos [...]. Odeio pensar que tenho que crescer e ser a srta. March, e usar vestidos longos e parecer tão empertigada quanto um eucalipto. Já é bastante ruim ser uma menina quando se gosta das brincadeiras dos garotos, do trabalho e das maneiras deles. Não consigo esconder minha decepção por não ser um menino, e é pior do que nunca agora, pois morro de vontade de ir lutar com papai, e só posso ficar em casa tricotando como uma velhota.”

 


Rumo à uma vida de aventuras, a garota viaja para Nova York, buscando inspirações para a escrita enquanto trabalha ensinando costura para as filhas de uma família bem relacionada. Lá, se encanta com as atitudes brandas e o conhecimento de um tutor alemão, Friedrich Bhaer. Elogios ao homem tomam conta das cartas descritivas e saudosas que Jo envia para sua mãe e irmãs, e logo o leitor percebe que algo está fervilhando no coração da menina. 

Além dessa certa turbulência sentimental, um acontecimento com potencial transformador se desenrola a partir de um simpósio ao qual ela e o professor foram convidados. 

O evento é repleto de homens intelectuais, e pela primeira vez Jo se depara as com ideias iluministas. O conceito, historicamente difundido a partir do século XVIII, busca estourar a bolha da religião e disseminar o uso da ciência e da razão. Esses ideais deram origem à noção de igualdade entre os homens que, por mais que não abarcasse plenamente as mulheres e contasse com a prevalência de preconceitos, abria espaço para a discussão e criação da luta feminista. Duas das pensadoras originárias desse movimento foram Olympe de Gouges, que desenvolveu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, e Mary Wollstonecraft, autora de Reivindicação dos direitos da mulher

O deslumbramento de Jo March é palpável. A definição do momento é poético e brilhante. Todas as sementes plantadas com as constantes contravenções da personagem passam a fazer sentido, já que a cena indica que agora a heroína terá todas as armas para lutar contra o tradicionalismo e a favor da liberdade. Sentimos a fascinação tomando conta da futura escritora e intelectual. 

“Gradualmente ela percebeu que o mundo se desfazia em pedaços e era refeito sobre princípios novos e, de acordo com os falantes, infinitamente melhores que antes, que a religião estava ao ponto de ser racionalizada ao nada e que o intelecto seria o único Deus. Jo não sabia nada de filosofia ou metafísica, mas uma excitação curiosa, meio agradável, meio dolorosa, tomou conta dela enquanto ouvia com a sensação de pairar no espaço e no tempo, como um jovem balão em um feriado.”

Os leitores deste século podem imaginar uma grande revolução por vir, mas estão enganados. Todo o ardor e fogo iluminista é aniquilado pelas palavras do alemão ao qual Jo se inspira e por quem nutre sentimentos. 

“Quando pediram sua opinião (do Sr. Bhaer), ele ardeu com uma indignação honesta e defendeu a religião com toda a eloquência da verdade – uma eloquência que tornou musical seu inglês falho, e seu rosto, belo. [...] De algum modo, enquanto falava, o mundo se endireitou novamente para Jo.”

Para nós, mulheres feministas do século XXI, é impossível não notar a ironia do acontecimento. O encanto da emancipação iluminista foi tomado através das palavras do homem, par romântico. Claro, o ocorrido não anula o caráter revolucionário da protagonista, mas pode ser visto como uma ilustração da castração do poder feminino de confabular e chegar a conclusões sem o direcionamento da figura masculina. Jo é puxada novamente para os braços dos ideais construídos em sua infância, nos quais a religião e o amor romântico grita. Na conclusão do livro, nossa personagem anti-casamento se torna a esposa do alemão. A contradição dessa trajetória se torna ainda mais substâncial ao considerar dois aspectos: Jo é o alter ego de sua criadora e o alemão Bhaer não deveria existir

Mulherzinhas (1994)

Como mencionado anteriormente, Mulherzinhas é um texto inspirado em aventuras e personas que de fato existiram. As características subversivas de Jo são aspectos reais da personalidade de Louisa May Alcott. Assim, tanto a escritora fictícia quanto a escritora real combatiam as convenções sociais. Inclusive, Alcott foi uma defensora ferrenha do sufrágio feminino e foi a primeira mulher registrada ao voto na cidade de Concord. Logo, é de se estranhar que a protagonista de sua trama tenha escolhido contradizer tudo o que pregava e se envolver em matrimonio. Essa decisão, porém, como escreve a autora em uma carta destinada a uma amiga, foi tomada a partir da insistência das leitoras da época. 

“Jo deveria ter permanecido uma escritora solteirona, mas tantas jovens leitoras entusiásticas escreveram que Jo deveria se casar com Laurie ou alguém que eu não me atrevi a recusar e perversamente criei um par peculiar para ela.”

O professor e marido de Jo nunca existiu na vida real. Louisa permaneceu a escritora solteirona que sua heroína havia sido idealizada para ser e honrou com todas as crenças que construiu para si. Sua vida terminou ao 55 anos, dois dias após a morte de seu pai, mas seu espírito permanece vivo por meio de suas palavras. 

O livro conta com sete adaptações cinematrográficas, e a mais recente, Adoráveis Mulheres, busca fazer jus ao pensamento sufragista. Greta Gerwig, a diretora, além de acrescentar discursos feministas que constam em outras obras da autora, deixa o final em aberto, não esclarecendo se Jo casa ou não com Bhaer. A biografia de Alcott também é homenageada em uma cena final, na qual seu alter ego aparece questionando o casamento de uma de suas personagens. 

A vida e conquistas de Louisa quebraram fortes barreiras, e imaginamos que nossa autora se encantaria ao saber que sua obra é constantemente atualizada, incentivando milhares de meninas a questionar todo e qualquer padrão. 


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Referências 

Comentários

  1. Adorei seu texto! Interessante como o Culto da Verdadeira Feminilidade só muda de nome no século XIX, né? Na Inglaterra era o "anjo do lar".

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