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Os demônios de Loudun: da repressão sexual à morte na fogueira

 

"Ofendeu aquela mulher de alguma forma?"

"Nunca a vi."

"Então por que te acusa?"

"Quem sabe? As mulheres enclausuradas dão-se por inteiro a Deus, mas excepcionalmente algumas preferem se entregar a um homem. Quero dizer, imagine despertar de noite, com algum sonho, um sonho de infância ou de seu amante. Ou inclusive a visão de uma boa comida, tudo isso se torna pecado. Terá que pegar o chicote e castigar o seu corpo. Isto é disciplina, mas a dor é sensualidade. E nessa inundação de imagens mesclam-se o horror e a luxúria. Minha querida irmã em Jesus parece ter se fixado em mim. Não há nenhuma razão. São falatórios adornados e aumentados. Mas no deserto de uma vida frustrada, isso nos dá esperanças e com a esperança nasce o amor. E com o amor vem o ódio. Assim é como se eu tivesse possuído aquela mulher."

O filme The Devils, conhecido no Brasil como Os Demônios, foi dirigido por Ken Russell e lançado em 1971, sendo uma adaptação direta do livro Os demônios de Loudun, de Aldous Huxley, que conta a história real do padre Urbain Grandier (interpretado por Oliver Reed) condenado à morte na fogueira na França do século XVII, na cidade de Loudun, após a freira Jeanne des Anges, — correspondente a Joana dos Anjos —, (Vanessa Redgrave) acusá-lo de ser o responsável não apenas por sua possessão demoníaca, mas também pela possessão de mais dezesseis freiras do convento ursulino da cidade.

Grandier foi acusado de bruxaria, torturado e condenado à morte. Jeanne foi figura central de diversos espetáculos de exorcismos públicos, que prosseguiram por décadas após a morte de Grandier. Os Demônios é um filme que retrata de forma brilhante e crua os paralelos entre a repressão sexual, a violência e a religião, representando o retrato de uma época. Apesar de parecer uma história surreal demais para ser real, como dito acima, foi inteiramente baseada em fatos históricos.

O padre devasso


Urbain Grandier nunca escondeu sua opinião a respeito do voto de castidade imposto aos padres; de fato, seus casos com diversas mulheres da cidade eram motivo de falatório entre os cidadãos de Loudun e uma das razões para Grandier não ser bem visto pelos homens. Para além disso, Grandier não era uma pessoa fácil de lidar, sua personalidade forte e a forma enérgica e muitas vezes pública com que revidava seus diversos inimigos poderosos, unidas com sua erudição, oratória excelente, aparência sedutora, posicionamento político e o fato de ser o homem mais poderoso da cidade, mesmo sendo um estrangeiro, enfurecia ainda mais os pais, irmãos e maridos que assistiam suas mulheres fascinadas pelo jovem e sedutor pároco.


"Para as mulheres excessivamente pudicas de sua congregação, as inclinações amorosas do novo pároco pareciam o pior dos escândalos; mas essas eram a minoria. Para as outras, mesmo aquelas que tinham a intenção de permanecer virtuosas, havia algo de agradavelmente excitante na gestão de um homem com a aparência, os hábitos e a reputação de Grandier. Combina-se facilmente sexo com religião, e sua mistura produz um daqueles sabores levemente repulsivos e contudo delicados e picantes, que despertam subitamente o paladar como uma revelação — de quê? Esta é precisamente a questão."
A acusação da freira Jeanne des Anges contra Grandier foi o acontecimento que seus inimigos precisavam para de fato conseguirem se livrar dele; mas, antes, o pároco já era alvo de conspirações, com encontros que aconteciam na loja do farmacêutico da cidade, um de seus conhecidos inimigos. O grupo contava com nomes importantes, como o cônego Jean Mignon e seu tio, o promotor público Lieutenant, pai da jovem Philippe, uma das muitas moças que Grandier teve um caso, mas dessa vez com consequências, pois o pároco abandonou a jovem quando esta estava grávida. Pouco depois do fato, algo que parecia impossível aconteceu: Urbain Grandier se apaixonou por uma moça chamada Madeleine de Brou, e ele mesmo realizou o casamento entre eles. Foi quando os ânimos entre seus inimigos começaram a ficar ainda mais exaltados, e, assim, a lista de desafetos do pároco aumenta ainda mais, com nomes como o do barão Jean de Laubardemont, o Cardeal Richelieu e até o próprio Luís XIII, que surgem em contraposição. Grandier sabia que era desejado por todas as mulheres da cidade com a mesma intensidade que era odiado pelos homens, mas o que ele não sabia era que a obsessão de uma mulher específica por ele faria com que em pouco tempo sua vida chegasse ao fim.

"Tire-me este hábito! Tire-me este hábito! Oh Cristo, indica-me o caminho para Ti! Toma-me nos teus sagrados braços! Deixe que o sangue corra entre nós, unindo-nos! Grandier! Grandier!"

A possessão, o exorcismo e o estupro

"Sabe por que a maioria de nós está aqui? Muitas das que se refugiaram aqui são mulheres nobres que abraçaram esta vida monástica porque a família não tinha dinheiro suficiente para lhes pagar um dote ou porque eram muito feias para casar-se e acabariam sendo um fardo para a família. As comunidades, que deviam ser como piras, ardendo no fogo do amor ao Senhor, vão morrendo nas cinzas da conveniência..."

Jeanne nasceu em 1602, em uma família rica e influente, e se tornou prioresa do convento da Ordem das Ursulinas da cidade de Loudun aos 25 anos. Fisicamente, Jeanne era de estatura baixa e também possuía uma corcunda, provavelmente afetada por alguma infecção tuberculosa nos ossos. Falando sobre sua personalidade, a mulher era altamente inteligente e tinha um temperamento explosivo, maldoso, arrogante, pretensioso e dissimulado. Citando Aldous Huxley:

"[...] uma personalidade que tinha feito dela um tormento para os outros, e, para si própria, sua pior inimiga. Por causa da sua deformidade, a criança era fisicamente sem atrativos; e a consciência de ser disforme, o doloroso conhecimento de saber-se objeto de repugnância e piedade, despertaram nela um ressentimento crônico, que tornou-lhe impossível sentir afeição ou permitir a si própria ser amada. Desprezando e consequentemente sendo desprezada, ela vivia numa concha protetora, seguindo em frente apenas para atacar seus inimigos — e todos, a priori, eram seus inimigos — com sarcasmos súbitos ou estranhos acessos de gargalhadas de pura zombaria."

Jeanne, assim como todas as mulheres de Loudun, observava Grandier de longe, pois, de fato, ambos nunca haviam se encontrado pessoalmente, mas o pároco fazia parte dos sonhos da irmã Jeanne havia muito tempo. Sua figura se tornou quase irreal e assumiu proporções inimagináveis para muitos, mas para entender Jeanne é preciso ter em mente que, durante toda sua vida, ela fora reprimida de todas as formas possíveis, por ela mesma e também pela sociedade em geral. Seus sonhos e alucinações eróticas com a figura de Grandier se tornaram obsessões, pois para ela não eram apenas impossíveis de realizar, mas também proibido sentir tais vontades de acordo com seus votos, o que tornou seu desejo por Grandier de certa forma perverso e monstruoso. 


Ao descobrir sobre o casamento de Grandier com Madeleine de Brou, e após ele mesmo recusar educadamente o convite de Jeanne para ser o guia espiritual do convento, ela não apenas ficou desapontada, mas se sentiu rejeitada, pessoalmente ofendida e ferida, e rapidamente sua paixão por Grandier se tornou ódio. A chegada do cônego Mignon para assumir o lugar que Grandier não quis e não pôde ocupar daria início ao que seria o fim do pároco.
"Na mente da prioresa, entretanto, o novo ódio por Grandier não havia anulado, não havia nem mesmo abrandado os velhos desejos obsessivos. O herói idealizado dos seus sonhos acordados noturnos permanecia o mesmo; mas agora ele não era mais o príncipe encantado, para quem se deixa o trinco da janela aberto à noite, mas sim um pesadelo persistente, que deleitava-se em infligir à sua vítima o ultraje de um prazer importuno, mas irreprimível. [...] Sã ou histérica, mas também na condição de consumada atriz, a irmã Jeanne teve o infortúnio de ser tomada a sério em todas as ocasiões, exceto, como veremos, quando fez o possível para contar a pura e simples verdade."

As razões pelas quais Jeanne des Anges e as outras dezesseis ursulinas acusaram Grandier de possessão demoníaca vão muito além de desejo de destruir o pároco por puro despeito. A situação também envolvia questões complexas como histeria coletiva e saúde mental, que não eram discutidas na época. Os planos dos inimigos de Grandier viram a possessão das freiras como o acontecimento perfeito para se livrar do controle e abuso do pároco. Independentemente de Jeanne ter sido uma mulher manipuladora e vingativa, é inegável que tanto ela quanto as demais ursulinas sofreram inúmeros abusos durante as diversas sessões de exorcismo, muitas vezes públicos. A chegada dos exorcistas, citando em particular a do padre Pierre Barré, transformou as sessões e a questão da possessão em um circo: as freiras eram espécies de bacantes e os exorcismos podem ser definidos como um tipo de orgia.

Os paralelos entre a possessão, o exorcismo e o estupro sempre existiram, como na famosa cena do filme O Exorcista, quando a jovem Regan possuída começa a se masturbar com um crucifixo e aos gritos repete "Let Jesus fuck you!". Como dito por Barbara Creed em seu livro The Monstrous-Feminine:

"A posse torna-se a desculpa para legitimar uma exibição de comportamento feminino aberrante que é descrito como depravado, monstruoso, abjeto - e perversamente atraente. [...] O ser possuído ou invadido é uma figura de abjeção que transgrediu a fronteira entre o eu e o outro. Quando o sujeito é invadido por uma personalidade de outro sexo, a transgressão é ainda mais abjeta porque as fronteiras de gênero são violadas. Nos filmes que retratam a invasão do Diabo, a vítima é quase sempre uma jovem, o invasor, o Diabo masculino. Uma das principais fronteiras atravessadas é aquela entre a inocência e a corrupção, pureza e impureza. O Exorcista é geralmente visto como envolvendo um caso de possessão pelo Diabo masculino."

No caso das Ursulinas de Loudun, esses paralelos ficam ainda mais evidentes, como citado pelo próprio Huxley a respeito da primeira de muitas sessões de exorcismo pelas quais Jeanne passou para remover os diversos demônios que se encontravam em seu corpo:

"E agora, após meses dessa luta interna, ela estava nas mãos do ilustre sr. Barré. A fantasia de uma autotranscendência descendente transformou-se no rude fato de estar sendo tratada por ele, como algo abaixo de ser humano — como alguma estranha espécie de animal para ser exibido à ralé, como um mico de circo, como se fosse um ser inferior, útil apenas para ser repreendida, manipulada, atirada por reiteradas sugestões em convulsões e finalmente subjugada, contra o que ficou de sua vontade e apesar dos resíduos de sua modéstia, ao ultraje de uma violenta irrigação do cólon. Barré tinha lhe oferecido uma experiência que era o equivalente, mais ou menos, a de um estupro num banheiro público."


Urbain Grandier morreu queimado vivo na fogueira em 1634, na cidade de Loudun, após um julgamento em que foi considerado culpado de bruxaria. Antes de sua execução, Grandier foi torturado por dias e teve seu corpo arrastado por burros pela cidade, mas em momento algum admitiu ter cometido os crimes de que fora acusado. O pároco negou até o fim ter sequer conhecido Jeanne des Anges pessoalmente antes de toda a trama ser armada:

“Padre”, disse, “você acredita em sã consciência que um homem deve, apenas para se livrar da dor, confessar um crime que não cometeu?”
Madeleine de Brou também foi acusada de bruxaria por Jeanne, mas graças à sua influência e dinheiro da família, foi libertada e, após o ocorrido, internou-se em um convento e nunca mais foi vista. Mesmo após a morte de Grandier, o espetáculo dos exorcismos públicos continuou e, como foi dito acima, durante anos a prioresa Jeanne des Anges foi exorcizada. Muitas das freiras admitiram que acusaram um inocente, além de padres e médicos, de estupro durante as sessões de exorcismo. Quanto a Jeanne, apesar de uma tentativa de suicídio documentada ainda quando Grandier estava vivo, a prioresa, que faleceu apenas em 1665, não admitiu ter mentido a respeito dele em sua autobiografia:

"A autobiografia da irmã Jeanne é rica de confissões convencionais sobre a vaidade, o orgulho e a insensibilidade. Mas acerca de seu maior pecado — a mentira sistemática, que levara um homem inocente à inquisição e à fogueira — ela não faz menção. Nem mesmo relata o único episódio louvável em toda a horrível história — seu arrependimento e a confissão pública de sua culpa. Pensando melhor, preferiu aceitar as afirmações cínicas de Laubardemont e dos capuchinhos: seu arrependimento era um truque dos demônios, suas mentiras eram a palavra de Deus. Qualquer relato desse episódio, mesmo o mais favorável, teria destruído o retrato de sua autora como uma vítima do demônio, miraculosamente salva por Deus. Suprimindo os fatos estranhos e trágicos, escolheu identificar-se como uma figura da ficção literária. Esse tipo de coisa é a própria essência da comédia."

 

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Arte em destaque: Caroline Cecin 

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