últimos artigos

Além do demônio: Damien Karras e o horror social em O Exorcista


Existem filmes perturbadores e existe O Exorcista. Dirigido por Peter Friedkin em 1973, o longa foi responsável por muitas crianças traumatizadas e adultos com pesadelos. Há algo naquele filme que simplesmente desperta o medo em quem o assiste. A princípio, podemos afirmar com toda a tranquilidade que o horror está no corpo possuído de Regan MacNeil (Linda Blair), a pré-adolescente cuja vida quase é tirada pelo demônio Pazuzu. Mas essa é apenas a resposta óbvia, não necessariamente a única. 

A releitura do livro homônimo no qual o filme foi baseado - escrito por William Peter Blatty, que também assina o roteiro cinematográfico - voltou meu olhar para outro ponto: o horror social em O Exorcista. Enquanto o drama de Regan é sobre sexualidade, gênero e o adolescer, o protagonista da história, o padre Damien Karras (interpretado no cinema por Jason Miller), vive algo mais tangível, e talvez mais assustador. 

Damien Karras e o papel de um imigrante 


Criado por sua mãe (Vasiliki Maliaros), uma imigrante grega que mal entendia a língua inglesa e que vivia como pedinte, tentando conseguir qualquer coisa para manter a si mesma e ao filho, Damien Karras teve uma infância difícil. Foi a igreja que o salvou, lhe oferecendo a oportunidade de estudar e de dedicar-se à vida jesuíta, tornando-se padre e psiquiatra. 

Pensando em questões sociais em O Exorcista, é impossível não nos depararmos com a figura macabra que a frágil senhora Karras representa. Sua aparição em sonho, por mais inocente que seja, denota um grau imenso de culpa e peso. Damien Karras não cuidou direito de sua mãe. Escolheu a outra mãe, a igreja, e a ela dedicou-se - também por culpa, afinal, fora ela que o proporcionara o estudo, um diploma, uma carreira e uma religião. Mas não é possível dizer que apenas a culpa ou a fé - que lhe falta - foram os propulsores do abandono da mãe terrena pela celestial: Karras também queria fugir de tudo o que era feio. 

Cena do sonho de Karras com a mãe

Essa feiura o consome. Ele cresceu com ela e sente que dela nunca poderá livrar-se. É a feiura da pobreza, do mau cheiro, da falta de tudo - comida, higiene, ajuda. É a feiura dos imigrantes em um Estados Unidos macartista. Karras foi para Harvard em busca de uma vida nova - pela igreja, sim, mas também por si mesmo. Contudo, no início da história, quando o mendigo se aproxima dele, perguntando se aquele padre não tem uma moeda para um ex-coroinha, é a si mesmo que ele enxerga, a vida que ele poderia ter tido, a vida que sua mãe teve por tantos anos. Também enxerga a fragilidade dela e o fato de que ele poderia ter feito mais, mas não o fez. Fazer mais significaria trilhar outros caminhos, abandonar a igreja e, o pior, aproximar-se, estar sempre presente daquilo de que fugira. É a fuga daqueles que experimentaram da miséria e agarram-se com força a qualquer coisa que os faça sair de uma condição abjeta. 

O conceito de abjeto foi levantado por Julia Kristeva em seu livro Powers of horror. O abjeto, o miserável, o sujo, o feio, o monstruoso - é a isso que estamos ligados, em maior ou menor grau. E é esse desejo e repulsa pelo abjeto que move Damien Karras durante todo o livro. Ele é fascinado por aquilo que abandonou - é uma obsessão, algo que o consome, e, justamente por isso, algo de que foge constantemente. 

Mas ninguém pode fugir de si mesmo. E é em Regan e sua condição (ou como possuída ou como doente, cabe a cada um decidir) que ele encontra uma barreira da qual não pode fugir. É um tormento e também um alívio. Encarando a si mesmo por obrigação da religião, da carreira como padre e como psiquiatra, que fora exclusivamente solicitado para aquele trabalho, Karras tem a desculpa perfeita para debruçar-se sobre seus demônios - o que o destrói no final. 


A grande questão é que essa destruição é algo de que ele poderia ter escapado - um destino cruel que parece estar reservado apenas aos marginalizados da história - àqueles que em si carregam a lembrança do abjeto. Damien Karras sofreu na infância com a miséria e todas as mazelas que vêm com ela. Por isso, é atormentado durante toda a vida entre um ir e vir de suas origens, o que lhe tira a fé - como Deus poderia permitir tanta maldade, tanto sofrimento, num mundo que criou? Como padre, Damien questiona-se. Como psiquiatra, procura aliviar o sofrimento de outros - sofrimentos que empalidecem perante seus próprios demônios. 

"Mais enraizado na lógica estava o silêncio de Deus. No mundo, havia maldade, e grande parte dela resultava da dúvida, de uma confusão real entre homens de boa vontade. Um Deus razoável se recusaria a eliminá-la? Não a revelaria ele mesmo, por fim? Não falaria?"

Karl, Willie e o não-lugar do estrangeiro 


Mas há outras personagens em O Exorcista que passam por dilemas semelhantes. Karl (Rudolf Schündler), o empregado de Chris MacNeil, é uma delas. Também imigrante, ele e sua esposa, Willie (Gina Petrushka), são constantemente lembrados do fato de que estão ali, mas não são dali. Burke Dennings (Jack MacGowran) - que, curiosamente, também não é estadunidense, mas desfruta da supremacia do pertencimento por ser britânico, falante da língua inglesa, de uma terra de imperialismo e exploração - o provoca o tempo todo. Karl ouve a tudo calado, cumprindo seu dever. 

E, naquela casa repleta de pessoas atarefadas, é a ele que cabe a tarefa de lidar com o abjeto. Karl limpa Regan, troca seus lençóis, lhe dá de comer. Enquanto ela vomita, mija, defeca, diz impropérios, ameaça e até mesmo bate, Karl tem de permanecer calmo e cuidar daquela menina - que está sim com algo, seja doença, seja demônio, mas segue sendo uma menina rica, filha de uma estrela do cinema, que possui toda a assistência e mais. Enquanto isso, a própria filha de Karl vive na miséria - ela também precisando de assistência, mas sem consegui-la. 

Como imigrante, Karl precisa esconder a existência da filha, que possui problemas de drogadição, para que ela possa continuar existindo, para que eles não sejam mandados embora, não percam o emprego. Ajuda a filha com o pouco que consegue juntar de um trabalho cada vez mais penoso. Enquanto limpa o vômito de Regan, sua filha vomita sozinha. 

O Exorcista III e o horror perpétuo de Karras 


Em 1990, foi lançada a continuação do clássico de 1973: O Exorcista III. Embora já tivesse havido o segundo longa da franquia, é o terceiro que retoma o drama de Damien Karras, aprofundando questões sobre marginalidade social e a perda da fé em um mundo que não faz sentido. Escrito e dirigido por William Peter Blatty, o autor do livro e roteirista do primeiro filme, o terceiro é baseado em Legião, escrito também por ele, a sequência "oficial" de O Exorcista, por assim dizer. 

No filme, o detetive William Kinderman (George C. Scott), que investiga o caso da morte de Burke Dennings em 1973, é a personagem principal, dessa vez investigando crimes relacionados ao Assassino de Gêmeos, que faz referência ao Assassino do Zodíaco. Passaram-se 15 anos da morte de Karras, e Kinderman formou laços com o padre Dyer (Ed Flanders). A amizade de ambos baseia-se muito na memória que têm de Karras, e é no aniversário de sua morte que eles se reúnem mais uma vez para ir ao cinema e conversar. 

Embora a amizade do detetive e do padre seja o fio condutor da história, logo ficamos sabendo que há mais por trás do Assassino de Gêmeos do que poderíamos imaginar. Desconfiado de que a única ligação entre as vítimas dos assassinatos seja o exorcismo de Regan, ocorrido quinze anos antes, Kinderman chega ao cerne da história: Damien Karras está vivo. 

Nos é revelado que Karras passou todos aqueles anos internado na ala psiquiátrica de um hospital, após ter sido achado quase inconsciente na rua. Praticamente em estado vegetativo, ele não havia demonstrado conhecimento sobre quem era ou quaisquer atividades motoras ou mentais - até aquele momento. Mas, como ficamos sabendo mais tarde, o demônio Pazuzu, não aceitando perder para Karras ao final de O Exorcista, fez com que o espírito do Assassino de Gêmeos (Brad Dourif) entrasse no corpo quase morto do padre. E, na primeira oportunidade, fugisse do cemitério. Todavia, o corpo de Karras estava muito machucado para que uma ação pudesse ser feita instantaneamente. E durante todos aqueles anos, enquanto aos poucos o corpo se recuperava, Pazuzu e o Assassino de Gêmeos aguardavam enquanto atormentavam o espírito de Karras, que não teve descanso. 


Portanto, Damien Karras passou quinze anos de sua vida encarcerado em seu próprio corpo, possuído não apenas pelo demônio que atormentara Regan, mas também por um serial killer cujas ordens demoníacas eram, na primeira oportunidade, matar de forma cruel a todos os amigos de Karras envolvidos com o exorcismo. 

O sofrimento de Karras é perceptível nos poucos momentos em que consegue aparecer, pedindo para que Kinderman, seu antes amigo, o mate. Karras não apenas sofreu em sua vida normal como passou quinze anos possuído sem que ninguém soubesse, sem que ninguém pudesse ajudá-lo. É um sofrimento imenso para um homem que havia buscado a morte para salvar uma menina possuída. E é um sofrimento que não vemos em outras personagens. Todas as outras, ainda que algumas tenham tido finais sangrentos, como é o caso do padre Dyer, conseguiram seguir suas vidas da melhor maneira possível, deixando para trás aquele episódio terrível de possessão. Menos Karras, que perdeu mais de uma década de vida para o demônio, não encontrando paz nem mesmo na morte. 

Todavia, o mais assustador não é que Karras tenha levantado do túmulo, possuído por tanto tempo. O mais assustador é a completa falta de auxílio que ele teve, tendo sido jogado para morrer e negligenciado por anos. Ninguém se importa com quem não tem um nome. 

O peso de ser imigrante no mundo demoníaco de Blatty 


Não acredito que William Peter Blatty tenha escrito cinco personagens imigrantes que passam por situações semelhantes à toa. E são essas personagens - Damien Karras e sua mãe, Karl, Willie e sua filha - que suportam o peso das humilhações, da miséria, das doenças, da morte e têm de continuar cuidando dos outros. São as vidas alheias, as vidas das pessoas ricas, das pessoas que pertencem àquele país, que valem. As deles são apenas vidas a serem vividas, um dia após o outro, com algum senso de propósito de uma melhora que nunca acontece. Não acontece porque o sistema social não vê vantagem em integrar plenamente imigrantes na sociedade estadunidense. Não acontece porque ninguém se importa. E isso assusta mais do que qualquer demônio. 





Arte em destaque: Mia Sodré 
Mia
Jornalista e pessoa da internet há uma década. Editora e analista literária, quando não está lendo escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Pesquisa o gótico no século XIX. Vive em Porto Alegre, onde está há vinte e poucos anos ajudando na entropia do universo.

Comentários

Formulário para página de Contato (não remover)