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O amor de Emily Dickinson e Sue Gilbert


Poeta estadunidense, Emily Dickinson escreveu um amontoado de poemas, e muitos deles são vistos como dedicatórias a alguém que ousamos dizer ter sido seu amor secreto, quando a mesma se encontrava reclusa inúmeras vezes por estar escrevendo, se isolando do mundo e de sua realidade. Suspeita-se que Sue Gilbert ocupe este espaço, sendo ela a musa inspiradora de Emily e também a principal leitora de seus poemas. Susan Gilbert era cunhada de Emily Dickinson, casada com Austin Dickinson, mas ambas já tinham uma proximidade maior antes mesmo disso pelo fato de estarem presentes na vida uma da outra como melhores amigas e estudarem juntas; desde então, não se separavam, e Sue era sua interlocutora admirável. 

Até certo tempo, Sue Gilbert não possuía seu papel de destaque além do fato de ser cunhada de Emily, então muito de sua visibilidade fora reduzida ou até mesmo apagada na história, mas muitos dos poemas e cartas de Emily se referiam a um amante ‘’invisível’’, um alguém com quem não poderia se casar. Há relatos de que um pouco mais de 300 poemas de amor escritos por Emily eram voltados a Sue.

Atualmente, são diversas as produções que existem e retratam quem foi Emily Dickinson, e Sue Gilbert não fica fora desta narrativa. Em 2019, o streaming Apple TV+ lançou a série Dickinson, criada e produzida por Alena Smith e protagonizada por Hailee Steinfeld como Emily Dickinson, sendo que a atriz também é produtora da série. Dickinson apresenta um tom de comédia, mas sem deixar de lado a beleza dos poemas de Emily e sua essência carregada por intensidade e vivacidade, destacando também o seu anseio por escrever. Emily é apresentada como uma jovem e rebelde poeta no século XIX, o qual possuía suas limitações e era diferente de uma mente progressista e evoluída como a de Emily, mas nem mesmo estas barreiras limitavam sua mente e os pensamentos presentes nela. 

Manuscrito de um poema

A série aborda temas que são explorados em tons modernos, desde questões raciais, políticas e feministas até questões de sexualidade, como a de Emily, quando seu romance com Sue se apresenta como o grande coração do programa. Susan Gilbert (Ella Hunt) é um outro destaque da série. O romance de ambas fora nomeado como EmiSue – Emily Dickinson e Sue Gilbert.

Não muito diferente da época, era notória as dificuldade de estarem juntas livremente por todas as limitações, diante do machismo que existia e também pelo relacionamento entre mulheres ser visto como errado. Então, na realidade, o que se sabe é das diversas vezes em que muitos dos poemas de Emily foram ‘’corrigidos’’ por parte deles serem direcionados a Sue; o nome de ‘’Susan’’ fora removido por todas as críticas e por quem achava um escândalo sua paixão por outra mulher, ainda mais quando esta era sua cunhada. 

O casamento de Sue e Austin distanciou o vinculo das duas, rompendo até certo tempo o contato que ambas tinham uma com a outra, mas não houve tempo ou distância que tenha afastado os sentimentos que existiam. E o encontro desse afeto estaria presente em olhares cruzados e encontros as escondidas como são abordados na série, onde se observa que o amor também se encontra presente nos mais simples detalhes.

‘’Eu tenho somente um pensamento, Susie, nessa tarde de junho, que é você, e apenas uma prece; querida Susie, que é para você. Que eu e você de mãos dadas, como é com o coração, perambulamos por aí feito crianças, por entre bosques e campos, e nos esqueçamos desses anos todos, e dessas preocupações tristes, e nos tornemos crianças de novo – quem dera assim fosse, Susie, e quando olho ao meu redor e me encontro sozinha, suspiro por você outra vez; um suspiro curto, suspiro em vão que não vai lhe trazer para casa.

Preciso de você mais e mais, e o mundo imenso se torna mais vasto, entes queridos se tornam mais raros. A cada dia que você continua fora – sinto falta do meu coração maior; o meu próprio vai vagueando por aí, e chama por Susie – os Amigos são queridos demais para se separarem; Oh são raros demais, e quão cedo eles se vão lá onde você não pode encontrá-los, não nos deixe esquecer dessas coisas, pois lembrá-las agora vai nos salvar de muita angústia quando for tarde demais para amá-los! Susie, me perdoe, Querida, por cada palavra que digo – meu coração está repleto de você, há apenas você em meus pensamentos, no entanto quando procuro lhe dizer algo que não vale o mundo todo, as palavras me faltam. Se você estivesse aqui – e Oh se você estivesse, minha Susie, não precisaríamos dizer nada, nossos olhos iriam sussurrar por nós, e sua mão firme na minha, não recorreríamos à linguagem – tento lhe trazer para perto, eu persigo as semanas afora até que elas tenham partido, e imagino sua chegada, e estou a caminho pela trilha verde para lhe encontrar, e meu coração a tamanho galope que terei problemas para trazê-lo de volta, e o ensino a ser paciente, até que a Querida Susie chegue.’’

Anos depois, após a morte de Emily, os poemas da escritora foram encontrados por sua irmã, Lavinia Dickinson, que decidiu que os poemas deveriam ser publicados por também reconhecer o talento da escrita de sua irmã. Junto de Sue, ela preparou os escritos em uma edição para que fossem publicados. 

Sue fora quem escreveu o obituário de Emily, preparou seu corpo e descreveu a amiga, cunhada e amante como ‘’uma mulher forte e brilhante’’. O romance de EmiSue nessa época não havia sido assumido ao público ou visto de uma forma livremente. Mas em cada carta e poema deixado, percebe-se um amor que enquanto existiu não deixou de ser eterno, um amor que jamais foi visto por outros olhares, mas nos dias de hoje nos é visível a pureza e delicadeza do afeto de ambas, com a vivacidade de um amor que nem o tempo pôde limitar. 

Referências 



Arte em destaque: Caroline Cecin
Lyriel Damasceno
Amante da arte, cinéfila na maior parte do tempo e leitora assídua nas horas vagas. Aspirante a escritora que transborda na poesia das canções de Taylor Swift e sofre incondicionalmente por Crepúsculo, Antes do Amanhecer e Sociedade dos Poetas Mortos. Suas principais inspirações se fazem presentes nas escritas de Jane Austen, na poesia de Emily Dickinson e na melancolia de Clarice Lispector.

Comentários

  1. encantada pela tamanha delicadeza ao descrever esse amor tão lindo! ♡

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  2. Texto muito bem construído. Não conheço a obra mas fiquei curiosa para saber mais. Parabéns, Lyriel.

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  3. que texto maravilhoso, lili <3 quanta sensibilidade! quanta delicadeza... está perfeito, sua escrita combinou tão bem com ambas, combinou tanto com esse amor. ficou incrível, minha vontade é de mergulhar-me nas história de emily e sue pelos detalhes dóceis de seu ver. parabéns, lili.

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  4. Excelente texto, tratando com suavidade e leveza, tanto as obras literárias de uma das maiores poetizas da história quanto de sua vida pessoal.

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  5. Belas palavras, eu a conheci através da série, na primeira temporada comprei um livro, enorme com os poemas dela, quem dera pudesse saber ler em inglês, não perderia toda a essência com a obra traduzida, mas ainda assim aproveito, são poemas fora de série, eles tocam vc, e se por uma fração um dos poemas cruzarem com a sua realidade você sentirá, seja alívio ou dor, mas não passará despercebido! Partiu meu coração saber que a série termina na terceira temporada!

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  6. Finisdimo e belo texto sobre um pouco de Emily Dickinson, essa ousada, atrevida, inventiva e criativa mulher, que viveu seu tempo além de sua época. Tenho comigo u poema seu (ou fragmentos) que se chama Loucura. Ele me tocou tanto, que volta e meia o cito.
    Gratidão minha prezada.

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