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Robin & Marian: a humanização de uma lenda


Se há algo de conhecimento geral é a paixão que Hollywood tem por filmes de heróis. A eterna luta entre o mocinho versus forças malignas sempre foi motivo de adoração na sétima arte. É um fato que a típica fórmula da jornada do herói funciona e cativa o público totalmente.

Porém, antes de Os Vingadores ou Liga da Justiça sequer serem cogitados a ganhar vida na telona, um outro tipo de herói povoou o cinema. Alguns eram vindos diretamente do mundo literário, com nenhum superpoder além de uma coragem imensurável, uma lealdade que muitas vezes era posta à prova e uma força em seu coração cuja vontade de lutar impulsiona cada batida. Um exemplo são os nobres cavaleiros do rei Arthur: Lancelot, Galahad, Percival e todos os outros da Távola Redonda, juntamente com o arqueiro de vestes verdes, que roubava dos ricos para dar aos pobres; razão pela qual passou de nobre a fora-da-lei procurado. 

Robin Hood, acompanhado de João Pequeno, Will Scarlett, Frei Tuck e seus Merry Men ganharam fama por defender o povo da Inglaterra do terrível Príncipe John, que vivia aumentando o imposto sobre o povo para satisfazer a seus caprichos. Sempre leal ao Rei Ricardo Coração de Leão, Robin de Locksley, como era chamado, ainda um nobre aos olhos da coroa e da corte inglesa, criou uma rivalidade épica com o xerife de Nothingham, que sempre foi o capanga mais fiel do irmão de Ricardo. Existem diversas histórias na ficção sobre o Arqueiro de Sherwood, e há ainda quem diga que ele realmente existiu, porém não há nenhuma prova concreta que ateste sua existência.

No cinema, ele foi vivido por diversos atores grandiosos que fizeram jus à sua honrosa fama. Dentre eles, temos Errol Flynn em As Aventuras de Robin Hood (1938), filme no qual ele contracena com a divina Olivia de Havilland no papel de Lady Marian; Richard Todd em Robin Hood - O Justiceiro (1952); Kevin Costner em Robin Hood - O Príncipe dos Ladrões (1991), que contou com uma atuação impecável do querido Alan Rickman no papel do nêmesis de Robin, o xerife de Nothingaham; Russell Crowe no filme de Ridley Scott de 2010; Taron Egerton em Robin Hood - A Origem, a versão mais recente de 2018; e ainda tivemos Sir Sean Connery em Robin & Marian (1976), a versão mais diferente de todas, na qual o ator contracena com Audrey Hepburn, no papel da amada de Robin.

Errol Flynn como Robin Wood

Todas as versões trazem, de certa forma, algo novo e único à personagem que já conhecemos bem. Entretanto, a versão de Sean Connery é a mais peculiar de todas justamente por nos mostrar uma faceta inédita do arqueiro. Em Robin & Marian, Sean vive um Robin mais velho, maduro e cansado da luta, mas que mesmo assim desconhece completamente o significado da palavra "desistir".

O filme já causa estranheza desde o início por parecer uma continuação da história que estamos acostumados a ver. Todavia, diferentemente da já conhecida trama, aqui Robin e Marian não chegaram a se casar. Logo no começo do filme, sabemos que Robin partiu para as Cruzadas com o Rei Ricardo I, deixando Marian em Sherwood.

Robin & Marian acerta muito ao mostrar a vulnerabilidade do protagonista e daqueles que o cercam. O Rei Ricardo Coração de Leão, interpretado por Richard Harris, também destrói qualquer afeição e empatia que poderíamos ter pela antiga imagem nobre e valente que carregava. Nessa versão, vemos um rei amargo, mesquinho, esgotado e completamente sanguinário. Os anos lutando na Terra Santa transformaram Ricardo no tipo de homem que está disposto a queimar um castelo de pequeno porte, onde só vivem mulheres e crianças, para conseguir se apossar de uma estátua de ouro que supostamente existe lá.

Apesar de mais velho, Robin continua o mesmo nobre defensor de sempre. Se existia qualquer dúvida de que os anos lutando ao lado do rei haviam prejudicado seu caráter, ela é sanada quando vemos o herói se recusar a acatar as ordens de Ricardo, que desejava atacar um castelo cheio de inocentes desarmados em busca de ouro. O rei, obviamente, não fica nada contente com a desobediência e manda Robin e João Pequeno para a cadeia.

Na “luta” pela estátua de ouro, Ricardo acaba sendo atingido por uma flecha no pescoço. Ferido e reconhecendo que a morte está próxima, ele manda chamar Robin e João Pequeno. É na cena em que o rei está à beira da morte que vemos uma das melhores atuações de Richard Harris. Ricardo ameaça Robin repetidamente e lhe diz para pedir alguma coisa. Mas, mesmo vendo o estado do soberano, ele permanece impassível, como se dissesse: “Se acha que vou implorar por minha vida em seu leito de morte, está muito enganado”. Isso irrita ainda mais o rei. No fim da cena, Ricardo acaba concedendo a liberdade a Robin.


Robin retorna para casa e descobre que todos os seus homens morreram ou foram embora, com exceção de Frei Tuck e Will Scarlett. Ao encontrá-los, ele logo pergunta sobre Marian, confessando que há muito não pensava nela. Frei Tuck lhe diz que ela se tornou Madre Janet, Abadessa da Abadia de Kirklees. Um tempo depois, a caminho da abadia, Robin e Marian finalmente se reencontram. Coincidentemente, ele chega bem a tempo de salvá-la, já que o Xerife de Nothingham está vindo para prendê-la por fazer o “trabalho de Deus”, pois o irmão de Ricardo, agora o novo rei, está expulsando o alto clero da Inglaterra. Marian, assim como Robin, não mudou nada. Ela continua a mesma mulher destemida de sempre, e por isso se recusa a deixar que Robin a salve. Porém, ele não dá ouvidos e a sequestra.

Um dos grandes trunfos de Robin & Marian é a dinâmica entre o casal principal. Mesmo após de anos separação, eles ainda parecem dois jovens apaixonados, só estão mais maduros e exauridos. A química entre Audrey e Sean é tão linda e divertida que transborda da tela, tornando tudo muito verossímil. Em determinada cena, depois de salvar as freiras de Marian e fugir de volta para a floresta de Sherwood, o casal tem um momento lindíssimo à beira do lago, no qual ela confessa que pensou que não conseguiria viver sem ele e por isso tentou cometer suicidio.

Ao longo do filme, vamos percebendo que mesmo mais exausto, menos ágil e um pouco debilitado, o espírito guerreiro de Robin permaneceu inalterado. Ele jamais abandonou uma luta e jamais abandonará, talvez em parte por orgulho e vaidade, mas também por ter a certeza de que não seria o mesmo caso o fizesse. A palavra "desistência" nunca existiu na vida de Robin, justamente por ele não ter se permitido acreditar em seu significado.

Audrey Hepburn como Marian
Em algumas cenas, durante poucos momentos, nos permitimos acreditar, assim como a própria Marian, que Robin finalmente aposentará o arco e levará uma vida simples e calma ao lado de sua amada. Porém, conforme vamos nos aproximando do fim do filme, nos damos conta de que seria impossível essa versão da história ter um final feliz. Robin jamais se permitiria ter o descanso merecido enquanto ainda lhe restasse uma batalha para lutar, principalmente enquanto o Rei João e o Xerife de Nothingham continuassem maltratando o povo.

Robin é orgulhoso demais para admitir que não é mais o mesmo e acreditar que a idade lhe deixou vulnerável.  Marian, vendo que o amado irá se lançar novamente em uma luta contra o Xerife, ameaça deixá-lo. Ela chega a implorar a João Pequeno para que o convença a desistir de tal loucura, visto que é suicídio, mas de nada adianta. Robin já está decidido.

Quando o embate final entre os dois começa, a exaustão de Robin fica mais evidente. Apesar de desferir vários golpes no Xerife, nós o vemos lutar de maneira mais lenta e imprecisa, resultando em vários ferimentos. A sequência da luta é dolorosa e agoniante. Durante aproximadamente dez minutos, o público assiste a um embate entre dois homens velhos totalmente exaustos e feridos que não estão dispostos a se render.

Nos momentos finais da luta, Nothingham acerta um golpe quase fatal na costela de Robin, que cai no chão, gritando. Nessa hora, naturalmente, pensamos que estamos presenciando o fim do arqueiro. Entretanto, como se reiterasse o que disse no início do filme, cumprindo a promessa de que não morreria, ele se levanta com a espada erguida e contra-ataca, caindo em cima do Xerife.

Enquanto a luta entre os soldados de Nothingham e os poucos homens de Robin começa, Marian, com a ajuda de João Pequeno, leva o ferido Robin até sua abadia para cuidar de seus ferimentos. Ao chegar lá, Marian dispõe um “remédio” em um cálice, toma um gole e oferece a Robin, para que ele faça o mesmo. Ela pede para que João Pequeno fique lá fora vigiando, com receio de que eles tenham sido seguidos.


Quando finalmente ficam sozinhos, Robin diz a ela que ele deveria cuidar de seus homens e começa a planejar seu futuro juntos, sonhando com mais batalhas. No transcorrer da cena, observamos a Marian de Hepburn dar um olhar de forma suplicante, nostálgica e tristonha para o amado. Robin se queixa de que suas pernas estavam frias e que não as sentia; Marian apenas lhe responde que sabia e que havia lhe dito que não sentiria dor. Nesse momento, quase que por um milésimo de segundo, demoramos um pouco para perceber o que está acontecendo. Quando nos damos conta, entendemos que o fim do casal será tal qual o de Romeu e Julieta.

Marian havia constatado que somente uma coisa no mundo impediria Robin de seguir lutando: a morte. Assim, fica claro que ela o envenenou. Quando Robin se dá conta do motivo da pergunta de Marian, a resposta que a personagem de Hepburn dá soa como um pedido de perdão. Ao enxergar todo o amor e compaixão nos olhos da personagem, o espectador a perdoa na hora, assim como o próprio Robin.
"Eu te amo mais do que podes saber. Te amo mais que às crianças, mais que aos campos que semeei com as minhas próprias mãos. Te amo mais que as orações matinais, ou a paz, ou a comida. Te amo mais que a luz do sol, que a carne e o prazer ou que a mais um dia. Te amo mais que a Deus.”
Enquanto assistimos o fim de um dos casais mais lindos e famosos do cinema e da literatura, compreendemos que, a partir do momento em que Robin e Marian retornaram para a vida um do outro, eles não seriam capazes de viver separados. Dessa forma, assimilamos que o único modo de os dois ficarem juntos em paz seria na morte, ou porque não dizer no descanso eterno que somente a vida após a morte poderia oferecer, e isso é tão trágico quanto poético.

Foi assistindo aos minutos finais de Robin & Marian que entendi por que a produção achou uma boa ideia mudar o nome do filme, anteriormente batizado de A Morte de Robin Wood. Afinal, provavelmente, ninguém iria ao cinema para ver um de seus maiores heróis ser morto. Aos que massacraram o filme, digo que talvez o Grande Robin Hood não poderia pedir ou desejar uma morte mais bonita e honrosa do que morrer ao lado daquela que seria eternamente o grande amor de sua vida. 



Arte em destaque: Mia Sodré 

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