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O Exorcista: a fé de mãos dadas com a ciência

Baseado em um caso de exorcismo dos anos 1940, O Exorcista, romance escrito por William Peter Blatty em 1969 e publicado em 1971, nos conta a história de uma menina de 12 anos que aparentemente foi possuída por um demônio. Regan, a menina, é filha de pais separados, sendo sua mãe uma famosa atriz hollywoodiana no ápice da carreira. O livro também conta a história de um padre jesuíta, cujo desenvolvimento nos chama a atenção para algo que pouco se espera em uma história sobre possessão demoníaca: a secularização.

O livro apresenta uma leitura fluida e frenética em que o sobrenatural vai sendo apresentado aos poucos, construindo uma tensão que contribui para o horror e a dualidade interpretativa no decorrer da história. Com poucas personagens, torna-se possível a nós, leitores, estabelecermos uma conexão com todas, principalmente se formos corajosos o suficiente para uma releitura. 

Ao longo da obra, o autor planta a semente da dúvida, deixando ambíguo se Regan realmente foi possuída por um demônio ou se era apenas uma pré-adolescente em crise, apresentando um quadro de histeria associada a psicocinese por não saber lidar com o estresse causado pela puberdade, fator esse atrelado ao trauma do divórcio dos pais e à consequente ausência de uma figura paterna. 


Sendo assim, a suposta possessão, condicionada e inconsciente, seria uma forma de ter a atenção da mãe voltada para si, uma vez que Regan sentia medo da mesma se distanciar por conta do trabalho ou, até mesmo, casar-se novamente, constituir uma família da qual a menina não se sentisse parte. O interessante aqui é que, ao final do livro, a resposta para essa dualidade se encontra na interpretação do leitor, dependendo totalmente do ponto de vista de quem está lendo.

Contudo, voltando para a história, apesar do trabalho envolvente e de estar prestes a viver a melhor fase de sua carreira, Chris McNeil se revela uma mãe incansável, abrindo mão de tudo para cuidar da filha, não medindo esforços pela saúde da mesma, seja essa mental ou espiritual. Depois de esgotados todos os recursos que a ciência podia oferecer naquele momento, Chris se vê obrigada a buscar ajuda da igreja, o que pode parecer absurdo até para ela, que se encontra em profundo estado de desespero. 

É nesse momento que o padre Karras entra em ação e diálogos interessantíssimos nos são apresentados por Blatty. E digo entra em ação e não em cena, pois, em paralelo aos acontecimentos na casa de Chris e Regan, o autor foca em Karras, um padre psiquiatra que agora se encontrava em crise quanto a sua fé em Deus e tudo sobre aquilo que o sobrenatural representava, tendo depositado sua confiança nas certezas que a ciência foi capaz de lhe dar. Esse conflito foi uma crescente, especialmente após a morte de sua mãe, um ponto altamente sensível e envolto em culpa para o padre. 

De um lado, temos Chris McNeil, uma ateia disposta a acreditar em qualquer coisa para ajudar sua filha, e do outro, temos um jesuíta enlutado e desgarrado de sua fé, completamente cético quanto a coisas espirituais e à possibilidade de uma possessão ser real. Aqui, novamente, a dualidade é apresentada pelo autor, trazendo à tona um conflito de pontos de vista. 

Mesmo com sérios sintomas de depressão intensificados após a morte de sua mãe e uma crescente culpa, Karras se vê disposto a ajudar a menina. O desespero de Chris como mãe o contagia. Mas, não apenas isso, é possível que nesse momento, devido a tudo o que aconteceu em sua vida, Karras enxergue esse pedido de ajuda como uma oportunidade para ressignificar sua fé.

A religião racionalizada de Karras

Ao longo da narrativa, é possível perceber que o autor apresenta, através do padre Karras, pensamentos não muito comuns para um eclesiástico, como a religião racionalizada e a secularização. É notável que a crítica de Blatty vai para além do horror social que o livro apresenta em trechos escancarados nas entrelinhas da história. Ela também aponta para o declínio da religião e, particularmente, do sobrenaturalismo do ponto de vista cristão que, no mundo moderno, tem dado lugar ao racionalismo científico.

Portanto, analisando o texto de O Exorcista, essa secularização não se trata apenas de pessoas estarem deixando de frequentar templos cristãos e cultivar a fé através de confraternizações com outros fiéis ou, até mesmo, deixarem de admitir a existência de uma força maligna sobrenatural, mas também de eclesiásticos estarem deixando de lado uma fé cega ou dogmas pautados na ignorância para buscar, na ciência, explicações para aquilo que está além da compreensão popular.

Trata-se também da necessidade de estabelecer um limite até onde a igreja, através de assistência espiritual, pode atuar. Pois, ao mesmo tempo que o livro denota o sobrenaturalismo e concepções estereotipadas sobre isso, o autor desenha tal crítica pautada na racionalização. Porém, essa crítica não pode ser de todo ruim. Longe disso, a religião quando caminha juntamente da ciência é algo sadio. 

Um ponto importante da história é quando Chris McNeil recebe o conselho, dado por um dos médicos da equipe que assistia sua filha, de pensar na possibilidade da realização de um exorcismo como uma possível solução para o quadro psicológico em que a garota se encontrava. Entre os diálogos de Chris com médicos, e também com o padre Karras, Blatty apresenta explanações psicológicas que explicariam o porquê um exorcismo ser uma possível solução para Regan. Portanto, tal ato religioso não acontece pela religião em si, mas como uma tentativa de mexer com o subconsciente da garota.

A humanização em Regan

O Exorcista nos apresenta uma versão diferente do tratamento dado a uma pessoa supostamente possuída. Primeiramente, Regan recebeu os melhores tratamentos dos melhores médicos que sua mãe conseguiu encontrar. Um privilégio proporcionado pela sua classe social e condição financeira, claro. Mas, dada a data de publicação do livro, isso se torna interessante, pois demonstra um olhar humanizado para uma situação que sempre foi vista e tratada de forma irresponsável, haja vista que apenas em 1999 o Vaticano emitiu novas diretrizes para o ritual de expulsar demônios, exortando padres a primeiro buscar soluções na psiquiatria para decidir devidamente se o exorcismo seria uma opção.

Ao longo da história da humanidade, já foram relatados inúmeros casos de doenças psicológicas e transtornos mentais, como esquizofrenia e epilepsia, ou comportamentos considerados inadequados e imorais pela sociedade que foram associados à possessão demoníaca. Dessa forma, a ausência de conhecimento fazia pessoas necessitadas de assistência médica serem levadas a um julgamento arbitrário, que as conduzia a sessões ritualísticas de exorcismo, muitas vezes com um resultado mortal.

Portanto, quando Blatty apresenta uma trama envolvendo o exorcismo sendo tratado de uma forma racionalizada e humanizada, isso se torna inédito para uma sociedade em que o pensamento popular acreditava em soluções extremas para ambas situações: possessão e transtornos psicológicos. 

Em O exorcismo de Emily Rose (2005), podemos enxergar essa luta travada entre religião e ciência. O longa conta a história de Anneliese Michel, uma jovem que veio a óbito após uma série de exorcismos realizados sem sucesso. Anneliese fora diagnosticada com epilepsia e, posteriormente, com esquizofrenia. Contudo, sua família era muito religiosa, e convencidos de que o caso da jovem era estritamente espiritual, interromperam por conta própria a ministração dos remédios indicados pelos médicos. 

A diferença entre Emily Rose (Anneliese Michel) e Regan se encontra em três pontos: a começar por Chris McNeil, que vivia uma vida secular, porém estava disposta a tentar de absolutamente tudo para salvar sua filha; Regan não teve tratamento psiquiátrico negado ou suspenso em prol de tratamento espiritual e o padre responsável pela investigação da suposta possessão era, também, psiquiatra. Essa seria a pontual crítica feita por Blatty quanto ao tratamento humanizado em casos de doenças psicológicas que eram tão associadas a possessões.

Ao terminar o livro, se pode entender por que ele se tornou um ponto de referência para histórias de terror ao abordar a relação entre a fé e a ciência de maneira pontual. Sua história passa pelo amor de uma mãe em busca da cura de sua filha até a redenção de um padre atordoado pela culpa, derrubando totalmente o estereótipo de ser apenas um livro terror sobrenatural. Portanto, o legado de Blatty também contribui para findar o estigma de que sintomas de doenças e transtornos psicológicos são indícios de possessões, sendo uma obra atemporal por abordar com maestria a barreira que separa religião de psiquiatria. 

Referências


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Arte em destaque: Sofia Lungui

Comentários

  1. Que texto incrível! Nunca tinha pensado por esse viés. É interessante revisitar uma obra dessa com outra perspectiva!

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