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Madonna: a desconstrução do estereótipo da santa e da prostituta

As representações da Virgem Maria, mãe de Cristo, na iconografia da arte cristã têm o nome de Madonna, que em italiano significa "Nossa Senhora". Esse também é o nome da artista mais conhecida do mundo. Pioneira em diversos aspectos, com quase 40 anos de carreira, Madonna continua em atividade e se reinventando a cada nova era. E ela foi uma das primeiras, se não a primeira a adotar e desconstruir o papel de santa e de prostituta.

Madonna sempre se ergueu, se expôs e lutou contra o conservadorismo se colocando na linha de frente de grandes debates a respeito de machismo, religião, homossexualidade e liberdade sexual. Sem medo de se arriscar, desde o início de sua carreira a dualidade entre o sagrado e o profano seguiu suas diversas personas. Muito inspirada pelas Marias do Evangelho, Madonna absorveu ambas as personalidades e as expandiu para além de uma desconstrução da imagem de santa e prostituta. Ela pluralizou essas personagens, as transformando em mulheres complexas e com sua própria personalidade, atravessou as linhas que foram traçadas para as mulheres seguirem desde o início dos tempos.

Ela já foi a santa, a prostituta e ambas ao mesmo tempo. Brincou os estereótipos da virgindade, falou sobre sexualidade e aborto e lutou contra o fundamentalismo religioso. Em muitas ocasiões, Madonna desafiou a Igreja Católica e conseguiu a inimizade de muitos líderes religiosos, dentre eles o próprio Papa. É possível acreditar que tudo teve seu início quando ela começou a utilizar o crucifixo como um acessório e foi uma das principais figuras a popularizar o uso do símbolo sagrado na moda. Ou quando se apresentou vestida de noiva usando um cinto escrito "boy toy", cantando Like a virgin sensualmente em rede nacional, e até mesmo quando tocou no assunto da gravidez na adolescência e no aborto com a música Papa don't preach. Mas com toda a certeza, o ponto de partida de uma disputa entre a cantora e a Igreja Católica teve início quando Madonna lançou o videoclipe Like a prayer, em 1989.

Like a prayer 

Com o disco Like a prayer, Madonna pela primeira vez conseguiu a aclamação da crítica e do público. Mas nem tudo foram flores, ela enfrentou diversos problemas em razão das polêmicas que rondavam o videoclipe que nomeava o álbum e perdeu contratos milionários. E pela primeira vez, o Vaticano se envolveu na discussão e até mesmo no boicote da artista.

No videoclipe da icônica música de Madonna, ela aparece beijando um santo negro dentro da igreja, dançando e cantando em meio a cruzes em chamas. Também testemunha de um estupro em que um homem negro é acusado injustamente. Na época, muitos ficarão escandalizados, inclusive o próprio Papa João Paulo II, que chegou a proibir a entrada de Madonna na Itália. E o álbum Like a prayer sofreu censura no país.

Mas Madonna não se deixou abalar e continuou a divulgar o disco, e pouco depois lançou o videoclipe de Express yourself, no qual explora a liberdade de gênero e aparece amarrada em uma cama.

Like a prayer conta ainda com uma faixa chamada Act of contrition, que se parece como uma "anti-Like a prayer". Na faixa, a música-título do álbum é tocada ao contrário, e ao fundo é possível ouvir a cantora pedindo perdão pelos pecados, e mesmo assim não conseguindo entrar no céu:

"Oh my God, I am heartily sorry for having offended Thee
And I detest all my sins because of Thy just punishment
But most of all, because my God, I have offended Thee
Who art all good
Like I knew you would
And deserving of all my love
I reserve, I reserve, I reserve
I reserve, I resolve
I have a reservation
I have a reservation!
What do you mean it's not on the computer??!!" 

É possível citar essa dualidade na abertura da MDNA tour, em 2012. Durante  a introdução da música Virgin Mary, que vem acompanhada de símbolos religiosos, como homens vestidos com grandes túnicas, pregações sacras e uma cruz que tomam conta do palco. Após a apresentação do interlúdio, Madonna aparece quando uma porta se abre vestida como a Virgem Maria, ajoelhada e fazendo o sinal da cruz. Mas logo em seguida a música Girl gone wild começa a tocar e Madonna se transforma em uma versão de Maria Madalena com uma metralhadora em mãos destruindo aqueles símbolos e começando uma nova fase, expondo seus dançarinos usando saltos altos por debaixo das túnicas já descartadas enquanto o início da música toca:

"Oh, my god, I'm heartily sorry
For having offended thee
And I detest all my sins
Because I dread the loss of heaven
And the pain of hell
But most of all, because I love thee
And I want so badly too be good"

Justify my love 

Em 1990, Madonna lançou uma coletânea de sucessos chamada The immaculate collection. O título claramente se referia à concepção imaculada da Bíblia. Após o lançamento, ela dedicou o álbum ao "Papa, minha inspiração divina". O apelido de seu irmão Christopher era "O Papa", então muitos acreditam que ela dedicou o disco a ele, porém, após tantos atritos com a Igreja Católica, é difícil acreditar que a ideia de cutucar a autoridade máxima do catolicismo não lhe passou pela cabeça. A compilação conta com quinze de seus maiores sucessos, dentre eles a faixa até então inédita, Justify my love.

Se o clipe de Like a prayer chocou as pessoas, ao lançar Justify my love em 1990, Madonna recebeu muitas críticas pelo conteúdo ser explícito demais e obsceno, a ponto de ser censurado na MTV.  Sem se deixar abalar, pouco tempo depois ela lançou um remix ainda mais controverso da música. Em The beast withinJustify my love toca ao fundo enquanto Madonna recita parte do livro do Apocalipse, da Bíblia, sobre o surgimento da Besta.

A situação já complicada entre Madonna e a igreja católica piorou, e durante os shows ao vivo Madonna provocou ainda mais ao simular situações como exorcismo e masturbação durante as performances. 

Madonna incorporou o sexo à sua arte, e em 1992, lançou junto do álbum Erotica um livro chamado SEX, no qual expunha livremente suas maiores fantasias sexuais e fetiches através das lentes do fotógrafo Steven Meisel. Sem pudor de forma crua e artística, ela mostrou a realidade, o desejo, a degradação, a imaginação e a pluraridade do sexo. E mais uma vez, Madonna incorporou um alterego, inspirado na atriz alemã Dita Parlo.

Apesar de sempre parecer ser inabalável, em 2016 Madonna recebeu o prêmio de Mulher do Ano pela revista Billboard, e agradeceu com um discurso relevante até hoje. Nele, Madonna mostrou que é uma mulher forte, mas que também possui uma fragilidade, e que isso faz com que continue seguindo em frente, inspirando muitas mulheres ao redor do mundo: 

“Estou aqui em frente a vocês como um capacho. Quer dizer, como uma artista feminina. Obrigada por reconhecerem minha habilidade de dar continuidade à minha carreira por 34 anos diante do sexismo e da misoginia gritante, e do bullying e abuso constante…" 

A Madonna e as Marias 

Maria de Nazaré e Maria Madalena possuem uma legítima importância no catolicismo e na história da arte. Durante a Idade Média, as representações da mulher foram construídas tendo como base uma influência cultural e religiosa, e assim as mulheres foram reagrupadas em campos específicos, e as representações das Marias do Evangelho influenciaram negativamente o imaginário coletivo, que passou a enxergá-las como os dois estereótipos aceitáveis da representação feminina: a mãe bondosa e a pecadora arrependida; a santa e a prostituta. 

Ambas Marias foram incumbidas de carregar sobre seus nomes representações que alimentam um imaginário social por meios dominantes em estética política e religiosa que força as mulheres a se adequarem no espaço estratégico de dominação. No campo das artes, essa representação começou durante o período bizantino.

A arte bizantina representava ícones, como a virgem com o menino. Apesar da pouca aparição nos escritos sagrados, mais de 70% das representações na história da arte são de Maria de Nazaré. Seja ela sozinha, com Cristo, na crucificação ou na anunciação. Tudo isso foi possível graças à chamada Legenda Áurea.

Por outro lado, Maria Madalena é a mulher com a maior presença nas escrituras sagradas, mesmo que sua real participação na história pareça distorcida da realidade.

Maria de Nazaré 

Desde sua concepção, Maria de Nazaré vem sendo preparada para traçar no imaginário popular um ideal perfeito de mulher, que poderia ter se concretizado no Jardim do Éden com Eva, mas que foi deteriorado pelo pecado original. Com a imagem da divindade e pureza ligada à virgindade perpétua até os dias de hoje, Maria de Nazaré permanece imaculada. 

Porém, é lisonjeiro que ela possua um papel tão importante no cristianismo. Sua imagem é tão relevante quanto a de Cristo no âmbito do catolicismo popular. A Virgem Maria atingiu uma posição de hiper dulia, pois não é apenas uma santa e sim a mãe de Deus. 

Durante o período bizantino, a teologia dos ícones justificada para o uso das imagens defendia que as imagens eram acheiropóietos, imagens não produzidas por mãos humanas, porque o retrato do divino e a materialização dos santos não era algo imaginado, mas sim representado. Assim, o artista era visto apenas como um instrumento para a confecção da obra, o estilo do pintor não existia no mundo bizantino, isto é, até Giotto começar a colocar seu próprio estilo em suas obras.

Não se produziam esculturas durante o período bizantino, até mais ou menos o ano 1000 d.C., por ser algo natural demais, material demais, humano demais. Naquela época, o divino era divino e deveria ser retratado como tal. O cristianismo também queria se afastar dos pagãos, que cultuavam imagens de estátuas.

Apenas em cerca de 1345 d.C. que o processo de humanização do divino cresceu com a ideia da movimentação do corpo, ou seja, ele começou a se tornar mais delicado e adquiriu materialidade. Cristo passou a ser representado como uma criança, e a relação entre mãe e filho ficou mais evidente. Não era mais apenas o divino, e sim uma mãe amorosa com seu filho.

Maria Madalena 

Maria Madalena sempre foi uma figura cativante nos meios religiosos e na atualidade por desempenhar diversos papéis: a prostituta, a mulher arrependida, a santa e a sacerdotisa. Essa imagem híbrida teria tido seu início no ano 591 d.C., quando o Papa Gregório I, também conhecido como Magno, agregou a Maria Madalena duas outras personagens bíblicas durante o seu discurso papal: a mulher que segundo o evangelho de Lucas lavou os pés de Cristo com suas lágrimas, os enxugou com seus cabelos e os ungiu com perfume, e a segunda seria a mulher indicada no evangelho de João como uma pecadora que foi salva por Cristo de ser morta por apedrejamento. 

Isso mudou em 1969 após o concílio do Vaticano. A igreja reparou esse equívoco e no dia 22 de julho se passou a celebrar o dia de Santa Maria Madalena - a primeira a testemunhar a ressurreição de Cristo e a pessoa a quem ele conferiu a tarefa de anunciar sua volta aos discípulos.

Maria Madalena em êxtase, de Caravaggio

Apesar de não existirem provas de que ela ou as outras mulheres atribuídas a Maria Madalena eram de fato prostitutas ou adúlteras, até hoje, para boa parte do público, ela permanece como uma pecadora penitente. Não é difícil acreditar que por sua grande influência sua verdadeira participação tenha sido retirada dos textos canônicos justamente por estes possuírem uma escrita patriarcal, dessa forma considerada por muitos natural que suas reais funções tenham sido encobertas ou até mesmo subtraídas de propósito.  Muitos acreditam que Maria Madalena foi mais do que uma serva e seguidora de Cristo, que tenha sido uma de seus apóstolos, teoria que pode ser confirmada pelos textos apócrifos, textos sagrados que foram deixados de fora da Bíblia. Dentre eles, é possível encontrar até mesmo um evangelho escrito por Maria Madalena.

A imagem de Madalena não era atrelada com a de homem algum. Ela não foi representada como uma esposa, muito menos mãe ou filha de alguém. Como ela poderia, então, ser uma pecadora adúltera se era uma mulher independente que respondia apenas a ela e a Cristo? Maria Madalena tinha uma aura independente que naquela época poderia ser vista com maus olhos, pois, como afirmou Wilma Tomasso, "Possuía uma independência feminina em uma sociedade dominada por homens"

Mulheres reais na arte 

As representações artísticas das Marias durante a história da arte seguiam uma normativa masculina da religião, assim como todos os simbolismos ligados ao cristianismo. Por mais que representassem figuras femininas de grande importância, elas sempre foram as musas, seja uma poderosa deusa do panteão grego ou a mãe de Cristo. Suas características e personalidades foram moldadas - e jamais por elas mesmas.

A independência, pioneirismo e sobrevivência em uma sociedade dominada por homens também é uma das características mais marcantes de Madonna. Durante sua carreira, ela sempre deixou claro que quem escreveria sua própria história seria ela. Afinal, por que falar sobre religião sob uma perspectiva feminina é considerado um sacrilégio até os dias de hoje?

Recentemente a artista Harmonia Rosales fez uma releitura do famoso afresco de Michelangelo, A criação de Adão, que se encontra no teto da Capela Sistina e foi criado entre os anos de 1508 e 1510. A releitura de Harmonia substituiu as figuras originais de Deus e Adão por duas mulheres negras, resignificando a origem da criação. Nunca uma releitura da famosa obra de Michelangelo causou tanta repercussão, pois existem milhares de versões do afresco original, mas foi a pintura de Harmonia que foi problematizada ao extremo e a artista foi perseguida e atacada por conta disso. Não apenas por substituir as figuras masculinas por femininas, mas principalmente por serem elas mulheres negras.

Releitura de A criação de Adão, por Harmonia Rosales

Essa tomada de controle da narrativa após tantos séculos de silenciamento causou muitas perseguições e boicotes sob as que ousaram se impor com sua arte. E tais ações contrárias acontecem com a própria Madonna, que continua até hoje lutando contra as designações arcaicas impostas a ela por ser uma mulher, incorporando a imagem das duas Marias do Evangelho em sua carreira e desmistificando esses lugares pré-selecionados com sua voz, seu talento e sua personalidade.

Referências 

  • Marias do Evangelho e às Marias do século XIX: uma comparação entre a construção bíblica e os estudos femininos (Anna Karla Vieira Martins)
  • Virgem Maria: paradigma da "superioridade espiritual feminina" (Vera Irene Jurkevics)
  • Maria Madalena na arte bizantina (Wilma Steagall Tommaso)
  • O feminino na arte medieval (Glória Maria D. L. Pratas)
  • A figura da Virgem Maria sob ótica das castas dogmáticas e representações culturais (Sandra de Cássia Araújo Pelegrini)
  • Maria Madalena e o feminino na construção da igreja católica (Maria Fernanda Birrento Pereira) Maria Madalena nos textos apócrifos e nas seitas gnósticas (Wilma Steagall Tommaso)
  • Os marginais da bíblia: Lúcifer e Madalena (Salma Ferraz)


Arte em destaque: Sofia Lungui

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