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A história da fanfic: seu autor clássico favorito provavelmente já escreveu uma

Imagine uma fanfic de amor adolescente cujas forças exteriores, contrárias à união do casal, fazem com que o romance culmine em um final trágico. Essa premissa age como alicerce para o primeiro livro da série After, de Anna Todd, com personagens baseadas nos integrantes da banda One Direction - e em Romeu e Julieta, peça de William Shakespeare baseada em um poema de Matteo Bandello. Ambos os livros poderiam frequentar a mesma seção em uma livraria, já que são, em essência, fanfiction. Em 1500, séculos antes da internet e do termo ser popularizado, adaptações idealizadas por fãs eram “inspiradas” ou paródias. Hoje, quem ousaria reduzir Shakespeare à imagem do autor de fanfic, um adolescente pedante, à flor da puberdade e em plena descoberta sexual? A fanfiction (ficção de fã, em tradução livre), uma febre da geração Z que não passa de asneira literária, é concebida como conteúdo criado por e destinado para adolescentes; a paródia e o pastiche são estilos narrativos de obras clássicas inquestionáveis. E se eu contasse que Paraíso Perdido, de John Milton, e Inferno, de Dante Alighieri, são, substancialmente, fanfics da Bíblia?

Assim como Crepúsculo foi a fonte de inspiração para que E. L. James escrevesse 50 Tons de Cinza, Shakespeare se inspirou em A Trágica História de Romeu e Julieta do poeta italiano Bandello para criar uma das histórias de amor mais recontadas da literatura universal. Que Romeu e Julieta tenha sido em si uma história recontada, e que Shakespeare não a tenha modificado tanto a não ser pela criação de algumas personagens, como Mercúrio e Páris, adicionado à sua maneira brilhante de escrever, não é algo lembrado quando falamos no autor elisabetano. Ao contrário das narrativas criadas por escritores de fanfiction contemporâneos: suas obras, antes mesmo de ouvirmos o que elas têm a dizer, jogamos no limbo da literatura de má qualidade, superficial e efêmera, onde pertencem os adolescentes melodramáticos e suas mães sexualmente reprimidas com os livros de E. L. James na mesa de cabeceira.

Romeu e Julieta, de Benjamin West (1778)

Embora seja difícil de acreditar, a fanfic não foi inventada por fãs de K-Pop em 2017, nem por quem sonhava estudar em Hogwarts dez anos antes, mas foi definitivamente mais difundida e explorada na última década devido ao avanço da internet e das redes sociais. Histórias que nunca sairiam do papel se não fosse por sites como Tumblr, Archive of Our Own (AO3) e Wattpad vieram à luz, sendo lidas por milhares de pessoas ao redor do mundo, várias delas alcançando a publicação e as listas de best-sellers (Instrumentos Mortais, de Cassandra Clare, começou como uma fanfic de Harry Potter e virou filme em 2013; After rendeu 15 milhões de cópias e três filmes, o quarto já confirmado). A diferença entre a fanfic e a produção literária feita por fãs ao longo da história concentra-se em um pequeno aspecto na definição: a fanfiction é considerada amadora; em outras palavras, não é literatura feita por escritores de verdade. Porém, se você for Alexandre Dumas e alegar que escreveu Os Três Mosqueteiros porque queria imaginar outras aventuras para as personagens de Memórias do senhor D'Artagnan, você não estará escrevendo uma fanfic, e sim, quem sabe, uma homenagem. 

Os múltiplos caminhos de Spock

Por definição, fanfiction é um estilo de narrativa ficcional produzida por fãs, comumente sem licenciamento dos direitos autorais. É uma maneira de imaginar e reimaginar realidades, personalidades e universos alternativos, partindo de um objeto existente, como um romance, uma série, uma personagem ou uma pessoa da vida real. Qualquer um pode escrever uma fanfic, contanto que esteja insatisfeito - seja por querer novas aventuras de uma história, como fez Dumas ao escrever Os Três Mosqueteiros, ou porque seria divertido inserir uma personalidade num contexto diferente, como em You’re my love, my destruction, que imagina com humor uma relação entre Selena Gomez e Faustão, ou porque faltou a Charlotte Brontë dar uma apimentada entre Jane e o sr. Rochester, o que fez Eve Sinclair em Jane Eyre Laid Bare, ou, ainda, porque você é aficionado por mitologia grega e deseja criar outras narrativas para os deuses, como fizeram Madeline Miller e Rick Riordan.

O termo fanfiction é relativamente novo, tendo sido cunhado por fãs de ficção científica em 1939 para distinguir autores amadores de profissionais. Já a primeira definição surge em 1944, na enciclopédia de expressões de fandoms Fancyclopedia, de John Bristol Speer, na qual o autor afirma que embora o termo seja usado “às vezes indevidamente para significar a ficção científica feita por fãs”, é fantasia comum publicada em revistas de fãs. É fato que se nos propusermos a pensar a fanfiction como literatura de fã, e com isso tentarmos escavar o passado a fim de encontrar suas origens, levaremos séculos de escavação. Desde que o homem começou a contar histórias, em que momento alguém se sentiu impactado por uma a ponto de recontá-la ao seu modo? E em que momento alguém sonhou com o que poderia acontecer entre uma personagem emprestada e outra e, numa noite com os amigos, fantasiou romances, batalhas e aventuras épicas? É impossível determinar a origem da fanfiction, mas podemos traçar um panorama sobre como a conhecemos hoje - e agradecer, especialmente, aos fãs do Dr. Spock.

Spockanalia (1968)

As fanzines, publicações independentes de entusiastas, tiveram início no século XIX e foram popularizadas pelos fãs de ficção científica no século seguinte. Numa era em que os fandoms não podiam expressar sua devoção nem discutir no Twitter, nos anos 1960, os fanáticos por Star Trek desenhavam, escreviam e compunham poemas, editavam e publicavam em fanzines, a mais famosa dentre elas sendo Spockanalia. Gene Roddenberry, criador de Star Trek, não somente participava da Spockanalia como foi pioneiro em compreender a importância da relação entre a mídia e os fãs, determinando a fanzine como “leitura obrigatória a todos os novos roteiristas e qualquer pessoa que tome decisões políticas sobre o programa”. Durante os três anos de circulação e cinco edições, a Spockanalia contou com cartas dos próprios atores no papel das personagens e contribuiu com o desenvolvimento do slash, subgênero da fanfiction em que duas personagens homens, originalmente heterossexuais, formam um casal. O romance entre Kirk e Spock dividiu trekkies e gerou debates tão exaltados quanto vemos ocorrer hoje na reação do público por conta da bissexualidade do filho do Super-Homem.

A discórdia não cessou nos anos 1970 e não deve cessar em breve. O site Kirk/Spock Fanfiction Archive, criado em 2004, contém milhares de fanfics, poemas e artes sobre a relação entre Kirk e Spock vista a partir de perspectivas tanto hétero quanto homossexual. “Eu estava ficando exausta porque me interessava saber tudo sobre Kirk e Spock”, contou a criadora do site, Killa, em entrevista recente para o Polygon, “queria conhecer as histórias gen [subgênero de relação não-romântica e não sexual] e ler slash, participar junto a todos os fãs, mas estava se tornando muito, muito difícil”. O eFiction, plataforma onde o site de Killa está hospedado, encerrou as atividades em 2005, o que impediu que o site fosse atualizado e pudesse ser reformulado para receber os novos fãs de Star Trek. O cenário mudou em 2020 com a decisão de importação dos arquivos de Kirk/Spock pelo Open Doors, uma iniciativa de resgate e preservação dos trabalhos de fãs desenvolvida pela organização ativista Organization for Transformative Works. 

Gene Roddenberry e Leonard Nimoy (1983)

A iniciativa acende uma discussão inevitável quando se trata de centenas de milhares de histórias, artes e poemas produzidos por fãs: onde e como preservar esse material? Em 2021, o projeto de salvação do Kirk/Spock Fanfiction Archive aguarda a autorização de quase 200 autores para que suas obras sejam importadas, ao passo que a restauração dos arquivos em si é um processo complexo e demorado. O Fiction Alley, o maior site de fanfiction de Harry Potter desde 2001, anunciou a importação para o Archive of Our Own em 2018 e permanece em processo de restauração. No Brasil, sites como o Nyah! Fanfiction, Fanfic Obsession e Spirit Fanfiction colaboram com a hospedagem, divulgação e acesso à literatura produzida por fãs, mas por aqui ainda não contamos com uma iniciativa semelhante ao Open Doors. Isso significa que, caso sua fanfic favorita esteja hospedada somente em uma dessas plataformas e a mesma decida fechar, se o autor não recorrer, o dano pode fazer com que a história se perca. 

É difícil imaginar quantas histórias já foram perdidas. E outras continuarão sendo perdidas porque, bem, quem se importa com o que um adolescente escreve sobre o que ele gosta? Quem liga se um monte de fanáticos por ficção científica inventaram essa ou aquela aventura entre Spock e Kirk, se o material não é produzido por escritores profissionais e se, quase sempre, não é autorizado? Pode ser que a fanfiction tenha seu valor dentro das comunidades de fãs, mas fora dessas comunidades é necessário um termo que distancie o trabalho de autores sérios do que é produzido por adolescentes excitados e nerds aficionados. Nada melhor do que uma palavra francesa para diferir e elevar o significado de uma mesma coisa: o termo pastiche, cunhado em 1878, define uma produção artística que imita outro trabalho, artista ou período histórico, e até hoje é usado para manter os autores de fanfiction à margem da literatura erudita.


Pastiche, a fanfic da literatura erudita

Como as narrativas clássicas, folclóricas e mitológicas não gozam de direitos autorais, Mark Twain e T. H. White não precisaram de licenciamento para escrever livros a partir de Le Morte d'Arthur, de Thomas Malory, escrito em 1485. Da mesma forma, Shakespeare não pediu permissão para transformar o conto italiano Un Capitano Moro em Otello, como seria impossível a James Joyce contatar Homero para contar a ideia sobre um viajante chamado Bloom inspirado em Ulisses. Portanto, pode-se dizer que a fanfiction, ao menos no ocidente, iniciou no século XVIII com a invenção dos direitos autorais. É a partir do século XIX que os fãs começam a se dedicar em escrever suas versões de obras populares, como As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e os romances de Jane Austen e Arthur Conan Doyle em fanfics tão picantes quanto conhecemos hoje. E se olharmos a sinopse de The Adventure of the Two Collaborators, conto de J. M. Barrie (criador de Peter Pan) baseado em Sherlock Holmes, encontraremos o subgênero definido ora como “pastiche”, ora como “paródia”, apesar de ser pura fanfic.

Ter o próprio trabalho inteira ou parcialmente mimetizado divide opiniões entre os escritores desde os tempos georgianos. Daniel Dafoe protestava contra o “sequestro” de seu trabalho por amadores que “reduziam” o valor da obra, enquanto Jane Austen, ela mesma tendo baseado personagens de Orgulho e Preconceito em folclore, não se importava. Alguns abominam a fanfiction por amor à própria criação, como George R. R. Martin, que defende a ideia de que “todo escritor precisa aprender a criar suas próprias personagens, mundos e cenários”, pois “usar o mundo de outra pessoa é a saída preguiçosa”. “Meus personagens são meus filhos”, ele garante, “não quero que as pessoas se apropriem deles.” Outros são contra por questões de direitos autorais e propriedade intelectual - um assunto mais complicado. Orson Scott Card, autor estadunidense de fantasia e ficção científica, afirma: “eu vou processar, porque se eu não agir vigorosamente para proteger meus direitos autorais, vou perdê-los”.

Shakespeare, escritor e fanfiqueiro

A legislação brasileira de Direitos Autorais compreende a fanfic como uma criação intelectual, podendo ser classificada como obra derivada que, por lei, constitui “criação intelectual nova, resulta da transformação de obra originária" (artigo 5º, VIII, g). O risco de um autor de fanfic ser processado se dá na escolha do objeto no qual ele se baseou e em como o retratou, se foi uma obra fictícia ou personalidade. Quanto à obra fictícia, tecnicamente, faz-se necessária a autorização do criador para que o autor da fanfic esteja em conformidade com a lei, o que não costuma ocorrer pois, na maioria dos casos, os escritores não se incomodam (e convenhamos, se J.K. Rowling fosse se dar ao trabalho de processar cada escritor de fanfic, ela moraria em um tribunal). O mesmo acontece com as pessoas reais, protegidas pelos direitos da personalidade, que podem se ofender com o conteúdo e indenizar o autor por danos morais e de imagem, fazendo com que a história seja retirada de circulação.

De todo modo, raras são as situações em que um escritor de fanfic é processado. O mais comum é a manifestação de repúdio de autores e personalidades, no caso do segundo em razão do estigma que a fanfiction carrega de ser esquisita, leviana e pornográfica. Um exemplo disso é a vez em que cantor Louis Tomlinson expressou sua indignação por uma cena de Euphoria, série da HBO, em que ele e o ex-colega de banda, Harry Styles, têm relações sexuais em uma fanfic. Na série, a atriz Barbie Ferreira interpreta Kat, uma colegial famosa no Tumblr pela fanfic The First Night, responsável na trama por fundar uma das conspirações mais caóticas na bolha da internet: a teoria Larry Stylinson, que teve início no universo da fanfiction e tomou proporções colossais, apesar de a relação ter sido negada inúmeras vezes. Em seu Twitter, na época em que o episódio foi lançado, Tomlinson afirmou que não foi contatado nem aprovou a cena.

Sejamos honestos, parte da razão pela qual a fanfiction possui uma fama tão ruim, a ponto de escritores e leitores se envergonharem de seu passado com ela, é porque a maioria das histórias são escritas por adolescentes, e o mundo se contenta em desprezar tudo o que adolescentes produzem e apreciam. Mas todo escritor precisa começar de alguma maneira, e grandes autores podem surgir a partir dessas narrativas, que no fim são exercícios de escrita. As primeiras histórias de Neil Gaiman, criador de Deuses Americanos e Coraline, foram fanfiction: “é divertido visitar o parque de diversões de alguém”, contou ele em 2002, “eu escrevi várias histórias ao longo dos anos que se passam nos mundos de outras pessoas [...] Devo escrever um Sherlock-Holmes-conhece-o-mito-de-Cthulhu em breve”. Isso não significa que, uma vez profissional, um autor que se iniciou pela fanfic deva deixar de escrevê-la - a fanfiction pode ser uma porta de entrada para a escrita de ficção, mas engana-se quem a compreende somente como uma fase.

Neil Gaiman

Além da prática: um exercício de empatia

Escrever é um ofício solitário. Na própria companhia, somos levados a encarar as emoções veladas e os fantasmas da memória, nos tornando íntimos do pensamento. Evitar que uma gota de si derrame no papel é uma tarefa difícil, e permitir que outras pessoas nos leiam pode nos fazer sentir vulneráveis, especialmente no primeiro contato com a escrita. Por isso, dispor de uma rede de apoio para a troca de experiências, conselhos e opiniões é chave para que escritores jovens se desenvolvam, já que uma rede de apoio auxilia na construção da autoestima intelectual. É essa rede que a comunidade da fanfiction proporciona. Além da publicação e divulgação online gratuitas, sites brasileiros como o Nyah! Fanfiction, Spirit Fanfiction e Fanfic Obsession amparam autores com aulas de português, tendo em vista que a maioria são jovens em idade escolar que, diferentemente de escritores profissionais, não possuem uma editora com um time de revisão por trás. 

Este é um detalhe que o mundo (aquele que detesta adolescentes) se esquece ao criticar, ferrenhamente, a “qualidade” das fanfics com que se depara. Quando as pessoas acessam ou, o mais comum, esbarram num excerto, se aborrecem e debocham de um texto que não soa como a jovem Mary Wollstonecraft, e se a escrita surpreende, torna-se exceção.  Mas desejar que autores jovens, ainda mais num país como o Brasil, possuam a mesma expertise de profissionais - caso contrário é melhor que não publiquem, e guardem para si mesmos - é não apenas surreal como discriminatório. Em um país onde 11 milhões de pessoas são analfabetas e o índice de leitura anual é de 4,96 por habitante, desestimular os jovens no exercício da escrita, seja ele como for, é uma ignorância maior do que muitos afirmam conter nas histórias de fanfiction. Não estou dizendo que, em razão disso, não deveríamos achar graça de um romance entre Ana Maria Braga e Shawn Mendes no Wattpad, por exemplo. Eu estou dizendo: não estamos em 2013. É hora de entendermos que pastiche é fanfiction, e não há nada de errado ou vergonhoso em escrevê-la.

Afinal de contas, ler e escrever ficção é um ato de empatia. Por si mesmo, por pessoas reais, por personagens que morrem, embora nunca tenham existido, por mundos que terminam, embora nunca tenham começado. Se estamos praticando esse exercício em nosso próprio mundo ou nos mundos de outras pessoas, será a mesma empatia que nos faz chorar pela dor do outro e sentir o coração aquecer por sua felicidade. Nós podemos torcer o nariz para uma fanfic de Harry Potter e julgar o autor por não ter criado seu próprio universo, como podemos embarcar com ele numa história contada a partir de um ponto de vista único e celebrar uma realidade alternativa em que ambos sonhamos viver. Fazer igual àqueles que, ao escrever, encontram seus ídolos por uma noite, assistem a um show numa década em que não eram nascidos, falam uma língua que não aprenderam, visitam um país que talvez nunca tenham condições financeiras para conhecer, vivem um amor que para eles ainda não aconteceu. Todas as formas de ficção são válidas e necessárias, e o que realmente deveríamos temer, para recordar Sylvia Plath, é a morte da imaginação.

Referências



Arte em destaque: Mia Sodré 

Diana Joucovski
Escritora e entusiasta da arte em suas múltiplas linguagens. Sonha tanto acordada quanto dormindo e, quando não devaneia uma realidade própria, transita pelo universo do cinema e da literatura. Queria ter algo de culta, mas não pode evitar ter nascido à beira do século em que Stephanie Meyer escreveu Twilight.

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