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Ricardo III: a propaganda Tudor de Shakespeare?


Em 1593, William Shakespeare, considerado o maior dramaturgo de língua inglesa, escreveu e encenou pela primeira vez Ricardo III (Richard III, no original), uma de suas peças que retratam o período da Guerra das Rosas, cuja duração abrange aproximadamente 15 anos. 

Na peça, Ricardo III é o Duque de Gloucester, irmão do rei. Enquanto seu irmão está de cama, padecendo de alguma enfermidade, Ricardo usa de gentileza disfarçada com todos ao seu redor para ludibriá-los e abrir caminho aos seus intentos. Sua ideia é usurpar o trono, mas, para tal, ele precisará passar por cima de algumas pessoas — seus sobrinhos, dois meninos herdeiros, e basicamente todos aqueles fiéis a seu irmão. 

A Guerra das Rosas

A Guerra das Rosas foi uma longa disputa pelo trono entre as casas de Lancaster e York. O antigo rei Lancaster, Henry VI, acometido por algum distúrbio mental, teve sua coroa passada à sua esposa, a rainha Margaret de Anjou, que governou em seu lugar para preservar tanto o poder quanto sua segurança e futura posição de seu filho, o herdeiro do trono. Todavia, os York lançaram-se numa batalha, vendo nas ações de Margaret algo reprovável e perigoso (teria sido Margaret uma rainha cruel ou fora desprezada apenas por ser mulher e francesa? é algo que a história deixa a interpretações), decidiram usar seu direito ao trono, como parentes distantes do rei, para tomar a coroa. 

De maneira geral, a Guerra das Rosas (também conhecida como Guerra dos Primos) foi o grande marco de guerra civil na Inglaterra. Contudo, embora três décadas se passaram do início do conflito até seu final, não é como se aquele período, na Baixa Idade Média, tivesse sido uma eterna e sangrenta batalha. Na verdade, houve apenas oito batalhas durante todos aqueles anos. Na maior parte do tempo, o povo vivia em relativa paz. A grande questão da Guerra das Rosas, ao meu ver, é a tensão da busca pelo poder. Quem ficará com o trono? Qual será a próxima traição? São pontos abordados em diversas obras inspiradas naquele período histórico, sendo Game of Thrones (livros e série) o exemplo mais famoso atualmente. Todavia, antes de George R. R. Martin, houve Shakespeare, que se apropriou de alguns fatos históricos para escrever uma de suas peças mais aclamadas, Ricardo III

Plucking the Red and White Roses in the Old Temple Guardens, de Henry Albert Payne (1910)

Com muitos anos entre os fatos e algumas trocas de reis, a peça de Shakespeare se passa ao final da Guerra das Rosas, quando o trono havia sido usurpado por Ricardo, Conde de Gloucester, irmão de Edward IV, o rei York. A trama nos mostra como um vilanesco Ricardo abriu seu caminho até o trono através de muitas maquinações, traições e assassinatos. O detalhe de Ricardo possuir uma corcunda e um braço mirrado apenas fazia par com seu caráter, de acordo com a moral Shakesperiana. 

Mas era Ricardo esse grande vilão caricato? 

História vs ficção: os difíceis limites na peça de Shakespeare

Quando lemos Ricardo III, precisamos imaginar a Inglaterra de 1593. Lá, mais de um século após os acontecimentos da Batalha de Bosworth, que culminaram na morte de Ricardo e na ascensão de Henrique VII, o primeiro rei Tudor, haviam certos fatores que devem ser considerados. Em primeiro lugar, Shakespeare estava escrevendo durante o reinado da rainha Elizabeth I, filha de Henrique VIII e neta de Henrique VII, o rei que destronara Ricardo. Elizabeth gostava muito de arte e admirava Shakespeare. É compreensível, portanto, que sua peça histórica retrate o rei derrotado por seu avô como alguém detestável, em corpo e alma. 

Também precisamos voltar aqui a um ponto importante: a peça foi escrita e encenada mais de cem anos após a morte de Ricardo. Quando olhamos para a história e tentamos encontrar evidências de seu reinado, vemos que Henrique VII, seu sucessor, fez questão de ou apagá-las ou modificá-las. Seus retratos, por exemplo, foram pintados por cima para dar a Ricardo a aparência de um homem corcunda, com feições vis. Já as crônicas que haviam sido escritas durante os anos em que foi rei foram substituídas por outras que contavam como Ricardo III caminhou por cima de corpos de diversos inocentes para chegar até o trono — incluindo os de seus sobrinhos, os famosos Príncipes da Torre, que desapareceram durante o início de seu reinado e cujos ossos só foram encontrados duzentos anos depois. 

Mas é difícil afirmar o que é verdade e o que é propaganda Tudor quando o relato mais famoso e utilizado como base durante tantos séculos a respeito de Ricardo III é uma obra de ficção histórica feita por um súdito da neta do homem que fez de tudo para manchar a reputação do antigo rei. Quando as fontes históricas foram substituídas por aquilo que o primeiro rei Tudor gostaria que as pessoas pensassem, como podemos realmente saber se Ricardo era esse vilão caricato ou apenas alguém que não conseguiu manter a sua coroa? 

“Mas, digamos, milorde, que não estivesse registrado. A mim me parece que a verdade sobreviveria, de uma geração para outra, como se estivesse contada para toda a posteridade, e ainda conseguiria chegar ao dia do juízo final.”

Os registros históricos são ambíguos a esse respeito. Na verdade, é sabido que Ricardo, durante o reinado de seu irmão, era amplamente conhecido por sua lealdade e amabilidade. Como, então, ele entrou para a história sendo um dos (ou talvez o mais) reis mais odiados dos livros? 

É possível afirmar que Shakespeare teve boa parte dessa culpa. 

Retrato alterado de Ricardo III, de artista desconhecido (por volta de 1504  1520). Pintado por cima, a expressão ficou mais severa e o antigo rei ganhou uma curvatura no ombro, exibindo uma corcunda.

A Inglaterra do final do século XVI estava um pouco tensa. Alguns historiadores especulam que, conforme a rainha envelhecia sem ter casado e, portanto, sem filhos, a corte e a população ficavam nervosos, com medo de que o país entrasse novamente em guerra civil. Alguns conheciam os fatos da Guerra das Rosas contados diretamente de que os viveu — seus avós, talvez. Outros, por diversas canções e ditados que se espalharam durante aquele século de poder Tudor. Olhando para esse cenário, faz sentido que Shakespeare utilizasse de seu poder com a pena e a atuação para ridicularizar os Plantagenetas, vilanizando Ricardo e enaltecendo Henrique Tudor — posteriormente, o rei Henrique VII — como alguém que não apenas era honrado e justo, como salvou a Inglaterra de mais anos de guerra com a bênção de Deus e de fantasmas, vítimas de Ricardo III. 

Mas quais foram as fontes históricas a que Shakespeare teve acesso para escrever sua peça? É impossível dizer. Sabemos que os textos do historiador do século XV, John Rous, foram lidos, assim como o livro de Thomas More, The History of King Richard III . Mas eles não eram fontes confiáveis — ao menos, não nesse aspecto. Rous escrevia louvores a Ricardo quando este era rei. Assim que Henrique assumiu, todavia, Ricardo passou a ser considerado um ser bestial, dotado de garras desde o ventre. Rous chegou a dizer que ele "havia nascido sob o signo de Escorpião e passou a vida comportando-se como um". Seu tom mudou completamente de um ano para outro. É perfeitamente possível entender o porquê. Além de ser considerado traição falar bem de Ricardo ou mostrar apoio a qualquer Plantageneta, Rous não se colocaria contra quem pagava seu salário. E Henrique aproveitou-se desse poder para estabelecer uma sólida fama — ele, o salvador, que uniu as rosas branca e vermelha, formando a rosa Tudor; Ricardo, um vilão maldito por Deus e pelos homens. Já os escritos de More nem haviam sido publicados — foram encontrados após a morte deste. Diz-se que a fonte para tais escritos foi um homem que havia, de fato, convivido com Ricardo, e por isso podia atestar seu caráter desgraçado. Mas esse homem era inimigo público do antigo rei, falando dele após anos de sua morte, já no reinado Tudor consolidado. Não é como se More tivesse feito uma investigação para além disso — e talvez seja esse o motivo para que ele nem tenha publicado o livro em vida, tendo o mesmo sido publicado postumamente. 

Elizabeth I e William Shakespeare

Tudo é ficção, então? Ricardo era esse grande vilão? Ou a obra de Shakespeare — inserida num contexto maior da tetralogia histórica que contém as peças Henry VI parte 1Henry VI parte 2 Henry VI parte 3 e a própria Ricardo III — foi criada para agradar a rainha Tudor no trono e a seus simpatizantes, incluindo seu patrono Fernando Stanley, descendente de Thomas Stanley, o homem conhecido por ter se virado contra Ricardo na Batalha de Bosworth, que decidiu o resultado da guerra? 

São questões que permanecem em aberto até hoje. 

Todavia, a peça de Shakespeare não é menos interessante por isso. Nela, há tudo: comédia, tragédia, ação, até mesmo um pouco de romance — ainda que vilanesco. Quatrocentos anos depois, ela continua tão atual quanto antes, mesmo que não seja um retrato fiel da Guerra das Rosas. 

Toda história me condena como vilão”

A partir da peça de Shakespeare, a propaganda anti-Ricardo, iniciada por Henrique VII, ganhou força. Das diversas adaptações da peça até obras de ficção histórica, literárias e audiovisuais, a representação de Ricardo III costuma ser a mesma: um homem de estatura mediana, moreno, meio encurvado e com uma grande corcunda nas costas. Por vezes, ele possui também um nariz proeminente, um braço mirrado ou outras características físicas que foram largamente associadas ao mal durante os séculos. 

Laurence Olivier como Ricardo III no filme Richard III (1955)

“Mas eu, que não fui moldado para as proezas dessas brincadeiras, nem fui feito para cortejar espelho de olhar amoroso; eu, que sou de rude estampa e sou aquele a quem falta a grandeza do amor para me pavonear diante de uma ninfa de andadura lúbrica; eu, que fui deserdado de belas proporções, roubado de uma forma exterior por natureza dissimuladora, foi com deformidades, inacabado e antes do tempo que me puseram neste mundo que respira, feito mal e mal pela metade, e esta metade tão imperfeita, informe e tosca que os cachorros começam a latir para mim se me paro ao lado deles. Ora, eu, na calmaria destes fracos tempos de paz, não encontro prazer em ver o tempo passar, a menos que seja para espionar a minha sombra ao sol e discorrer sobre meu próprio corpo deformado. Portanto, uma vez que não posso e não sei agir como um amante, a fim de me ocupar nestes dias de elegância e de eloquência, estou decidido a agir como um canalha e detestar os prazeres fáceis dos dias de hoje.”

A mentalidade medieval enxergava deformidades físicas como um sinal divino da maldade. Ainda que não tenhamos mais tal visão, o preconceito com tudo aquilo que não é padrão se sustém até os dias de hoje. Não é à toa que Ricardo siga sendo representado dessa maneira — especialmente porque, agora sabemos, não há verdade histórica nisso. 

Em 2012, uma equipe de arqueólogos encontrou os restos mortais de Ricardo III enterrados sob um estacionamento em Leicester, Inglaterra. Quando descobriram os ossos, puderam constatar que Ricardo não possuía uma corcunda, tampouco problemas no braço. Mas aquele esqueleto não era comum. A curvatura de sua coluna indicava escoliose. 

Após exames e reconstruções digitais da coluna, foi constatado que, de fato, Ricardo III sofria de uma escoliose num grau terrível. Mas não era corcunda. E escoliose não é algo tão visível, especialmente não no século XV, com suas diversas camadas de roupas. 

Na época da descoberta, houve várias notícias e reportagens falando sobre o achado e também sobre a curvatura da coluna de Ricardo. Especialistas diziam que, embora o rei não tivesse tido uma corcunda, seria quase impossível saber se ele realmente poderia lutar em batalhas de forma normal com aquele grau de escoliose ou não, já que atualmente, quando alguém chega a certo grau de desvio da coluna, são feitas cirurgias para correção. Todavia, Dominic Smee, um rapaz que estava assistindo a uma das reportagens entrou em contato com a equipe alegando ter ele o mesmo grau de escoliose de Ricardo III e nunca ter passado por uma cirurgia por motivos pessoais. A partir daí, tudo mudou. 

A equipe da série documental Secrets of the Dead encontrou o rapaz e, durante um ano, ele foi treinado por especialistas em batalhas medievais. Ganhou armadura própria (a armadura servia como um exoesqueleto e era feita sob medida; como Ricardo era duque e, posteriormente, rei, pode-se inferir que ele possuía a melhor armadura de sua época, bem ajustada a seu corpo) e passou por diversos treinamentos para vestir-se e lutar como um rei que iria para uma batalha no século XV. 

A coluna de Dominic Smee ao lado da reprodução da de Ricardo III em Secrets of the Dead

As descobertas foram incríveis: a curvatura da coluna do rapaz não o impedia de lutar. No máximo, fazia com que seu fôlego não fosse tão extenso quanto o normal — isso no chão, mas não a cavalo. Ricardo era conhecido por ser um exímio cavaleiro, e ele certamente tinha os meios para sê-lo, tanto fisicamente quanto em posição social. 

Muita poesia contra Ricardo III foi feita assim que Henrique Tudor tomou o trono. É interessante observar que, a princípio, a poesia daquele período descrevia Ricardo não como um corcunda (o que ele não era), mas sim como um ser bestial. Comumente chamado de javali, logo foi apelidado com outros nomes de animais selvagens, despersonificando Ricardo de sua imagem como homem para criar a imagem do Ricardo bestial e, posteriormente, do Ricardo corcunda, de mão mirrada, com deformações físicas que vão muito além da escoliose que ele de fato tinha. Agora, quinhentos anos depois, podemos ver isso com maior clareza. 

Um homem de seu tempo 

Ricardo pode não ter sido o vilão que Shakespeare criou, mas há registros históricos de atitudes que podem ser interpretadas como ambiciosas. Assim que assumiu o trono, ele fez com que o rumor de que os filhos de seu irmão e antigo rei, Edward IV, eram ilegítimos, fosse confirmado, destituindo-os de seu direito real. Mas teria ele matado os príncipes? Não há como saber; contudo, o que sabemos é que a simples ideia de que ele o fez o prejudicou tanto a ponto de ter sido um dos grandes pilares incentivadores para os homens que o traíram, lutando ao lado de Henrique Tudor na Batalha de Bosworth, onde Ricardo perdeu a vida. Quem realmente ganhou com a morte dos príncipes, então: Ricardo ou Henrique? 

O que acho interessante, entretanto, é que a vilanização de Ricardo, para além do mito da bestialidade e deformidade, baseia-se imensamente nos poucos atos escandalosos que teve enquanto rei. Sim, ele aproveitou-se de sua posição como Lorde Protetor de seu sobrinho, o futuro e nunca coroado Edward V, para apoderar-se do trono. Mas, se não o tivesse feito, é provável que não houvesse sobrevivido tanto. 

Ilustração presente em um livro de John Rous, o historiador da corte na época do reinado de Ricardo III e posteriormente de Henrique VII, mostrando um Ricardo pré-Tudor, sem corcunda ou feições severas (1483)

Ricardo era um homem de seu tempo, um nobre da Baixa Idade Média que, embora fosse muito leal a seu irmão, sabia o que tinha de fazer para se defender. George R. R. Martin, que baseou As Crônicas de Gelo e Fogo na Guerra dos Tronos, inverte a situação de forma curiosa ao colocar Ned Stark, a personagem principal do primeiro livro, como um anti-Ricardo, um homem que estava em posição análoga a do rei medieval, mas que decidiu pela honra ao invés da sobrevivência. Sabemos como essa história terminou para Ned. 

De muitas maneiras, Ricardo III é uma peça que nos mostra como o presente se transforma em passado rapidamente. E o passado pode ser distorcido. Entender o texto de Shakespeare como a expressão da verdade é ser, no mínimo, ingênuo. Mas o encanto do bardo permanece em nossa memória coletiva e adoramos odiar o vilão caricato Ricardo, Duque de Gloucester — ainda que os vestígios do verdadeiro Ricardo tornem-se apenas uma sombra da poderosa ficção shakespeariana. 



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Referências 



Arte em destaque: Mia Sodré

Mia
Jornalista e pessoa da internet há uma década. Editora e analista literária, quando não está lendo escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Pesquisa o gótico no século XIX. Vive em Porto Alegre, onde está há vinte e poucos anos ajudando na entropia do universo.

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