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A história por trás de “Rhiannon” e o pseudo-ocultismo de Stevie Nicks

Stevie Nicks tinha 28 anos quando foi acusada de bruxaria. No início do verão de 1976, a canção Rhiannon, composta pela cantora quando ainda era vocalista da banda Fleetwood Mac, estourava nas rádios estadunidenses. Considerada “horripilante e viciante” pela revista Billboard, a letra era inspirada na protagonista do livro Triad (1973), de Mary Leader.

Na história, uma mulher chamada Branwen é possuída por outra chamada Rhiannon e, de fato, quando Stevie interpretava essa temível e encantadora personagem nos palcos, era, segundo o baterista Mick Fleetwood, “como presenciar um exorcismo”. Não demorou muito tempo para que os trajes escuros e fluídos da artista a transformassem em um símbolo místico da música, entonando rumores de que ela não apenas cantava sobre uma figura bruxesca, como era uma. 

O boato ganhou ainda mais força quando Nicks começou a introduzir a canção – que, posteriormente, a consagraria como uma das maiores cantoras do século –  com a célebre frase: “essa canção é sobre uma bruxa”. Apesar da notória e icônica apresentação, uma revelação, dois anos depois do lançamento de Rhiannon, fez com que ela percebesse que não conhecia a própria inspiração. Como contou para a revista Mojo, em 2013: 

“Fui descobrir somente em 1978 que Rhiannon é, na realidade, uma rainha da mitologia gaélica e não uma bruxa. Ainda assim, minha história definitivamente foi baseada em uma criatura celestial. Eu poderia não conhecer quem realmente era Rhiannon, mas sabia que ela era de outro mundo.”

Apesar de nunca confirmar os rumores sobre estar envolvida com bruxaria, os críticos de rock da época insistiam neles. Muitas vezes, a mídia dizia que a vocalista havia falado em uma língua arcaica ou que havia entrado em transe durante um dos concertos, como se, realmente, houvesse sido possuída.

Ainda que a acusação fosse considerada um escândalo na época, Nicks não parecia se incomodar com as alegações. Tanto que continuava a trajar suas vestimentas exóticas e a dançar sobre a imensa lua amarela que reluzia na cortina de fundo durante os shows. 

Os rumores de Rumours

Ao passo que o infame apelido continuava a perseguir a cantora, ele também moldava seu caráter artístico, desmembrando-se em outras canções tão mágicas e insinuantes quanto Rhiannon. Em 1977, o álbum Rumours foi lançado, trazendo à luz os clássicos Gold Dust Woman e Dreams. No segundo, um dos trechos reforçava as nuances pagãs que cercavam a vocalista: “Now here I go again, I see the crystal visions, I keep my visions to myself” (Agora, lá vou eu de novo, enxergando as visões no meu cristal e as mantendo comigo - em tradução livre). 

Foi nesse período que as coisas começaram a se complicar para Stevie Nicks. “A ideia de que, não importa o que eu fizesse, eles (os críticos) escreveriam ‘ela é uma bruxa!’ era alarmante. Eu ficava tipo ‘não, não sou! Eu só uso preto porque me faz parecer mais magra, seus idiotas’”, desabafou para o jornal LA Times, mais de 35 anos depois.

Enquanto Rumours ocupava o primeiro lugar nas paradas, o medo se tornava um fiel escudeiro na vida da cantora. Ela nutria o pensamento de que, a qualquer momento, seria sequestrada, o que fez com que ela abandonasse o estilo que tanto amava, substituindo os vestidos longos e negros por figurinos mais claros e brilhantes.

Luas negras em seus olhos

As roupas poderiam ser brancas, pratas ou até mesmo laranjas, mas as composições de Stevie Nicks continuavam assombrosas como nunca. Em 1979, o álbum Tusk, com a sublime, porém discreta, canção Sisters of the Moon, foi revelado ao mundo.

Stevie Nicks em tour de Tusk

Apesar de nunca ter entrado em detalhes sobre o significado da letra, as frases indicavam um desabafo da cantora sobre a sua persona nos palcos: "The people, they love her  / but still they're the most cruel" (As pessoas, elas a amam / mas ainda são as mais cruéis). Além disso, as referências aos trajes pretos e a elementos sobrenaturais, acompanhadas por uma melodia extremamente densa e misteriosa, apontavam que a bruxa ainda estava ali, esperando o momento certo para retornar. 

Anos 1980

Esse momento aconteceu dois anos depois, quando Nicks decidiu seguir o conselho do ex-namorado e também vocalista do Fleetwood Mac, Lindsey Buckingham, e seguir o seu próprio caminho. 

Lançado em 27 de julho de 1981, o álbum solo Bella Donna deliciou os fãs da cantora. Edge of Seventeen e Stop Draggin' My Heart Around a marcaram como um ídolo do rock e a deram a coragem para desaposentar a Rhiannon que habitava dentro dela – e que voltou com tudo em seu segundo álbum, The Wild Heart (1982). A respeito do assunto, Stevie Nicks afirmou em uma entrevista para ET, em 1983: 

“Eu não acredito na bruxaria como filosofia, mas a acho divertida. E eu amo roupas pretas, a lua, as estrelas e os chapéus de Merlin. Mas não, eu não acredito em nada disso.”

Contracapa de Bella Donna, álbum de Stevie Nicks

Com o passar dos anos, e à medida que os rumores perdiam a força, a cantora pôde se reencontrar na própria música, continuando a compor canções a respeito do sobrenatural e, até mesmo, aceitando interpretar a si mesma, sob o título de White Witch, na terceira temporada da série American Horror Story: Coven, que conta a história de um clã de bruxas.

Sendo uma ou não, temos certeza de uma coisa: Stevie Nicks é e sempre será mágica. 



Arte em destaque: Mia Sodré

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