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O amor de Mr. Darcy e Elizabeth Bennet


Jane Austen não foi só uma escritora que falava de amores, livros, bailes e música. Além de suas protagonistas serem mulheres, Austen conseguiu usar a ironia com tanta sutileza que foi aceita universalmente no século XVIII e XIX escondendo certas críticas, “impondo” suas opiniões em diversas situações, mostrando as diferenças econômicas e principalmente o papel da mulher naquele contexto social, no século XVIII.

No mundo-realidade de Jane Austen, o dinheiro tinha que vir antes do amor. Isso era uma necessidade para as mulheres dessa camada social (no termo em inglês: a chamada rural gentry) e por isso essa temática é tão forte em seus livros. A premissa "escreva sobre o que se sabe" nunca foi tão verdadeira, afinal, todas suas protagonistas acabam se casando.

Sendo assim, é pertinente se fazer uma pergunta: o que realmente perdura nas protagonistas de Jane Austen é uma certa “validação” para com a sociedade ou elas realmente se apaixonam pelos homens  e vivem felizes para sempre? Para responder isso, iremos analisar o tão querido casal da literatura inglesa, Elizabeth Bennet e Mr. Darcy, da obra mais famosa de Jane, Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice), de 1813.

A história de amor de Jane

Antes de tudo é válido explicar que Jane Austen teve ela mesma seu próprio caso de amor, Tom Lefroy. Ele era o sobrinho da amiga de Austen, Mrs. Laphroaig. Mas a família de Lefroy não aprovou, e ele não pediu Jane em casamento. Por questão de dinheiro e de manter os seus dez irmãos financeiramente, Tom precisava se casar com alguém mais rico. Jane não se aplicava a esse caso.

Tom Lefroy – Thomas Langlois Lefroy, por W.H.Mote, 1855

Aqueles que já vivenciaram qualquer tipo de conflito, seja existencial, emocional ou histórico e conseguem escrever sobre eles acabam virando grandes escritores ou grandes escritoras e, consequentemente, seus escritos viram grandes obras. No ano em que Tom Lefroy não pediu Jane em casamento, ela escreveu o primeiro rascunho de Orgulho e Preconceito (publicado em 1813). Seria, então, a personagem Elizabeth Bennet o alterego de Jane Austen?

Elizabeth Bennet e Mr. Darcy: dois amantes?

Orgulho e Preconceito se passa no início do século XIX, na Inglaterra. É um romance (novel, em inglês), pois tem como “protagonistas (...), um casal comum, sem poderes especiais ou dons fantásticos” e “apresenta preocupação em descrever minuciosamente a sociedade e os costumes da época”

A trama gira em torno de Elizabeth Bennet, a segunda mais velha dentre suas cinco irmãs: Jane, Mary, Kitty, Elizabeth (chamada neste texto e no livro carinhosamente de Lizzy) e Lydia. É interessante observar as relações que Lizzy tem com seus parentes: com a mãe parece ser só decepção e preocupação, com o pai é a favorita e com a irmã Jane sua maior confidente. Lizzy, na verdade, é uma personalidade bastante forte dentro do livro, pois por mais que sua mãe queira que ela se case, já que estava ficando velha, com seu primo, Mr. Collins, Lizzy se recusa e passa a ser só desapontamento para sua mãe, Mrs. Bennet. 

Até aqui, sabemos que a questão do casamento é a principal preocupação, e de certa forma o é com razão, até porque essa excessiva tentativa de fazer as irmãs Bennet se casarem era uma forma de garantir o futuro das mulheres porque, sem isso, elas nada teriam. Se Elizabeth tivesse aceitado a proposta de Mr. Collins, as terras dos Bennet continuariam em família e Lizzy seria a herdeira, “de certa forma”. 

Entretanto Elizabeth não aceita. Quem aceita é Charlotte Lucas, a amiga de Lizzy. Ao aceitar a proposta de Mr. Collins, ela ainda diz: "I’m not romantic... I ask only a comfortable home." Isso reitera que o casamento é o único meio de uma mulher daquela camada social se validar na sociedade e viver confortável.

Colin Firth e Jennifer Ehle como Mr. Darcy e Elizabeth Bennet na adaptação de Orgulho e Preconceito da BBC

No começo da história, Lizzy conhece o famigerado Fitzwilliam Darcy, mais rico que a família dos Bennet, comumentemente conhecido por Mr. Darcy. Desde o começo, Lizzy o considera arrogante e orgulhoso, pois já nas primeiras cenas, quando é sugerido que Mr. Darcy dance com Elizabeth, ela o dizer: “She is tolerable, but not handsome enough to tempt me.” Assim começa uma relação desastrosa baseada em suas primeiras impressões.   

Durante todo o romance, é claro que há colisões entre os dois. A todo momento Lizzy se “esbarra” com Darcy ou com alguém de sua família, pois ele é marcante e presente, apesar de esnobe, arrogante e ter todos defeitos possíveis de caráter. Apesar de Darcy nutrir um preconceito pela reputação e família de Elizabeth, magoando profundamente a jovem, ele admite estar ardentemente apaixonado por ela em uma das confissões mais românticas da literatura mundial: “In vain I have struggled… You must allow me to tell you how ardently I admire and love you.

Já do meio para o final da história, Lizzy se convence de que julgou errado as ações de Darcy, assim que soube que ele salvou a fuga de sua irmã e fê-la se casar com outro personagem. Aparentemente, Elizabeth deu o braço a torcer e admitiu que finalmente estava apaixonada. 

Da forma que coloquei, parece que Elizabeth tentou a todo custo evitar Darcy até que ele se provou justo a ela. Seria conveniente então casar-se com ele, porque ele tinha boa fortuna e oferecia a ela estabilidade. Seria um “bom negócio” em matéria de casamento. Seria, também, uma das leituras possíveis para se fazer do romance. 

Seria curioso e também especulativo colocar desta forma: talvez Jane Austen escreveu Orgulho e Preconceito para dar um final feliz ao romance, algo que ela própria não teve. Todavia estamos falando de um romance de transição, entre o romantismo e o realismo, e sabemos que Jane estava fazendo uma crítica à sociedade. É por isso que seus livros são tão importantes e geniais: ela conseguiu unir o útil ao agradável, e escrevia histórias sobre casamentos, ao mesmo tempo que usava muita sutileza ao criticá-los. No caso de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy, pode-se fazer a leitura de que Austen dera a eles um final de união amorosa, mas também vantajosa para Lizzy.

Dorothy van Guent, que escreveu sobre Orgulho e Preconceito, já faz uma análise de fusão, levando em conta o romance que possa ter crescido e amadurecido em Darcy e Lizzy. Ela diz que essa espécie de fusão é onde os dois se encontram, divorciando-se de seus orgulhos, predileções e obsessões. Jane Austen conseguira, dessa forma, finalizar o livro dando um final feliz e agradável à época e aos protagonistas, pois eles se reconciliam, deixam as diferenças de lado e juntam-se en um ato simbólico, o casamento. Não à toa, como ela bem pontua e destaca, que a última palavra do romance é “união”. Mr. Darcy e Elizabeth se unem, unem suas diferentes opiniões, personalidades e julgamentos.

“The final note of the civilized in Pride and Prejudice is, as we have said, reconciliation. The protagonists do not "find themselves" by leaving society, divorcing themselves from its predilections and obsessions. In the union of Darcy and Elizabeth, Jane and Bingley, the obsessive social formula of marriage-to-property is found again, but now as the happy reward of initiates who have travailed and passed their "ordeal." The incongruities between savage impulsions and the civilized conventions in which they are buried, between utility and morality, are reconciled in the symbolic act of a marriage which society itself—bent on useful marriages—has paradoxically done everything to prevent. Rightly, the next to the last word in the book is the word "uniting." (GHENT, p. 303)

Referências



Texto: Giovanna Bilhalva
Arte em destaque: Sofia Lungui
Giovanna
Gaúcha, leitora, colunista, estudante de Letras, recente dona de um Instagram literário e atualmente rendida à fofura dos gatos.

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