Orgulho e Preconceito BBC: o que Jane Austen ainda tem a nos dizer sobre o amor


A escritora inglesa Jane Austen não escreveu muitos livros, mas seu legado expandiu-se de tal forma que suas histórias não mais são apenas literárias: tornaram-se produtos da cultura pop. O clássico é clássico porque é conhecido e incorporado à sociedade. Mas Orgulho e Preconceito elevou isso ao máximo. É possível encontrar referências ao modelo de homem orgulhoso, mas que respeita as mulheres, de Mr. Darcy, personagem principal da trama, na maior parte dos romances atuais. Elizabeth Bennet, com sua astúcia, respostas afiadas e amor pelos livros também foi modelada em muitas mocinhas de séries, filmes e da literatura. No entanto, talvez nenhuma das adaptações feitas, dentre as fiéis e as levemente baseadas nos personagens, entrou tanto para o imaginário coletivo moderno do que a minissérie Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito) da BBC, lançada em 1995. 

Durante a pandemia, assisti a minissérie Orgulho e Preconceito três vezes, do início ao fim. Não é nada longo, embora cada um de seus seis episódios conte com cerca de uma hora de duração. Mas é algo que me traz conforto. E talvez seja esse um dos motivos por que a obra de Jane Austen, com todas as suas adaptações, faça tanto sucesso até hoje. Nós verdadeiramente amamos ver Elizabeth descobrindo Derbyshire, desvendar as camadas de personalidade de Mr. Darcy, odiar Wickham e dar boas risadas com as tiradas atrevidas dos diálogos das personagens femininas da trama. Austen escrevia sobre o seu mundo, um mundo que certamente não contemplava as mazelas da sociedade mais pobre - e, talvez, mais real - da Inglaterra do final do século XVIII e início do século XIX. Todavia, não é porque suas tramas são confortáveis, no sentido de não esfregar a pobreza e feiura daquele mundo na cara dos leitores, que são menos intrigantes ou inferiores. 

Considero o rom-com (ou comédia romântica, como preferir) um gênero visto com desprezo, mas que leva essa fama sem merecê-la. O romance como o conhecemos foi fabricado através de rom-coms. A primeira delas foi um livro publicado no século XVIII chamado Pamela, de Samuel Richardson. Ele consistia apenas numa troca de cartas entre um pai e uma filha. Ela relatava como certo rapaz a envolvia, a cercava, enquanto a jovem seguia resistindo a seus avanços. O pai a aconselhava a fugir dele - mas o sentimento falou mais forte. Bem, quase isso. Após um rapto e um casamento forçado, o casal ficou junto, Pamela perdeu todos os direitos que tinha a qualquer liberdade ou propriedade, e viveram felizes para sempre. 

Jane Austen, retrato pintado por sua irmã, Cassandra

É sabido que Jane Austen era leitora do autor desse primeiro romance romântico da história ocidental. E, já naquela época, a noção de amor foi sendo fabricada nas cabeças dos jovens. O movimento romântico acabou derivando disso. Mas Austen não era uma romântica no sentido Byroniano da palavra. Ela tinha os pés firmes no chão, a mente crítica e a pena sempre pronta para escrever com acidez histórias que têm tanto de amor quanto de costumes sociais. Os casamentos arranjados ainda estavam em voga, a reputação de uma moça - e de sua família inteira - poderia ser arruinada por nada, e a classe social na qual a pessoa nascia ainda ditava o que seria do resto de sua vida. Subverter essas expectativas com homens fictícios e ricos que, ao invés de acumular mais riquezas através de dotes e fazer boas conexões para suas famílias, decidiam casar-se por amor com mocinhas que, por vezes, dependiam da bondade alheia para ter onde dormir é algo que certamente chamou a atenção na época. E não é de se espantar que chame até hoje. Dizemos que histórias como as de Austen, com um final feliz onde o amor vence, são dignas de contos de fadas, mas estes eram, na verdade, contos de advertência, sombrios e assustadores, enquanto as histórias da escritora realmente moldaram a sociedade a acreditar numa noção de amor romântico e final feliz - algo que quase nunca estava disponível às pessoas, mas a que elas passaram a buscar mais e mais após a invenção do romance romântico. 

Talvez nunca tenhamos precisado tanto de histórias assim quanto agora. 

O distanciamento social adequado entre uma moça e um cavalheiro da época de Austen é bem similar ao que temos hoje como regra para o convívio pandêmico. Também é algo análogo os longos períodos longe das pessoas, as trocas de mensagens (lá, por cartas; aqui, por aplicativos), a ideia de que tudo é muito e que as coisas parecem possuir seu próprio ritmo - numa marcha lenta que não acompanha a insatisfação dos jovens. 


Assistir a Colin Firth passar de um homem de seu tempo, arrogante e orgulhoso, a alguém apaixonado, que mergulha em um lago, eternizando-se na memória coletiva com sua camisa transparente pela água, os cabelos revoltos, e encontra uma jovem Jennifer Ehle passeando por sua propriedade enquanto seus sentimentos estão fervilhando e ele não possui a mínima ideia de como fazer caber naquela situação a norma social é algo que nos faz sorrir imediatamente. É a emoção do encontro - do reencontro, do não saber, do não estar acostumado a dirigir-se a pessoas pessoalmente, ainda mais tratando-se de quem se ama. A diferença de classes sociais e os escândalos envolvendo a irmã de Elizabeth e Wickham apenas oferecem melhores contornos para que possamos conhecer de fato as personalidades desse casal, um dos mais amados da literatura. 

Ao contrário do filme de 2005, que talvez tenha marcado mais a minha geração do que a minissérie, esta possui um tom mais contido. Colin Firth é um Mr. Darcy travado, muitas vezes aparentando estar com raiva do mundo - mas tudo no bom estilo de um nobre inglês do início do século XIX, engolindo as suas emoções e fazendo o que lhe é devido. Um dos pontos altos dessa adaptação certamente é ele. Contudo, algo que sempre me faz feliz é constatar que, embora todos estejam bem em seus papéis, ninguém ali é particularmente bonito, ao menos não num padrão ideal - nem o de hoje, nem o da época em que a minissérie foi gravada. Todos possuem algo de comum. Consigo acreditar numa Jennifer Ehle como segunda filha, considerada nem tão bonita assim, vinda de uma família do campo. Ela não é alta e esguia, características elogiadas em outras moças, e não possui nenhuma característica que a destaque. Mas sua personalidade ganha cada vez mais espaço - assim como no livro. Se vestissem roupas do século XXI, todos ali são pessoas que poderíamos encontrar na rua. Gente como a gente, sem grande beleza padrão. Isso acrescenta realidade à sensação de conforto, como se estivéssemos olhando as vidas de algumas pessoas reais da Inglaterra de 1800 e pouco. 


Para Austen, o amor era um contrato onde poderia caber um verdadeiro sentimento e carinho, por mais improvável que parecesse. Suas heroínas são únicas por serem resilientes de forma quase rebelde em uma época em que o comportamento feminino era podado de todos os lados. Elizabeth bate o pé e diz que não casará. Lydia foge com Wickham. Jane, que parece tão submissa e boa filha, era a mais velha, já havia recebido atenções de rapazes, mas permanecia solteira, ainda que fosse enormemente conhecida por sua beleza e personalidade adorável. As irmãs Bennet são diferentes entre si, mas cada uma busca sua felicidade na estabilidade de suas vontades, o que é bem revolucionário para a época Austeniana. 

Além disso, Orgulho e Preconceito nos diz que tudo ficará bem. Os contratempos acontecem, laços românticos são feitos e desfeitos, o futuro parece incerto - mas o amor prevalece e as coisas se acertam. Não é o que todos esperamos ouvir? Elizabeth Bennet sendo reconhecida e amada como é. Mr. Darcy, embora tenha uma das personalidades mais difíceis da literatura inglesa, conseguindo deixar de lado seu orgulho para estar com quem ama, enfrentando sua introversão. 


Nesse sentido, a minissérie da BBC se prova a mais fiel e mais encantadora adaptação do clássico. Ali, o livro é interpretado quase ao pé da letra e podemos mergulhar na sociedade daquela época e encontrar não apenas uma bela história de amor, mas um conforto para os dias de hoje. A vida, afinal de contas, não mudou tanto assim. Dizem que os livros de Jane Austen são basicamente um bando de pessoas indo nas casas umas das outras. Embora o meme tenha algum fundo de verdade, o que mais vemos em Orgulho e Preconceito são tramas desenvolvidas dentro da própria casa, pessoas inventando desculpas para sair, a excitação pelo dia em que se poderá experienciar a vida lá fora. São coisas que dialogam conosco - e nos ajudam a espiar pela janela da vida de uma mulher do século XIX. 

E essa espiada pela janela, esse olhar do eu trancado em casa no início do século XXI para um outro também em casa no início do século XIX é emocionante. Mesmo antes da pandemia já o era, mas tudo agora possui a dramaticidade tão necessária à apreciação de outros séculos - e dos clássicos. O pouco é muito. A história de Jane Austen, que é complexa em sua aparente simplicidade, casa perfeitamente com um eu romântico, dramático e que também espia o amor de longe, pela janela, a metros de distância. Se teremos um final feliz tal qual a nossa heroína, aí é outra história. 




Texto e arte em destaque: Mia Sodré 

Comentários

  1. Que texto lindo, Mia! Eu amo essa adaptação, ela é de uma delicadeza e sensibilidade incrível. E na minha cabeça Mr. Darcy é somente o Colin Firth hahaha

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